Em 2024 e 2025, 189 jornalistas perderam a vida em ataques violentos, face a 162 nos dois anos anteriores. E em quase nove em cada dez casos, os responsáveis não responderam perante a justiça. Estes são os dados principais do Relatório do Diretor-Geral da UNESCO sobre a Segurança dos Jornalistas e o Perigo da Impunidade de 2026, apresentados por ocasião do Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, assinalado a 2 de novembro.
“Em todo o mundo, os jornalistas continuam a pagar um preço exorbitante por dizerem a verdade”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, na sua mensagem para este Dia. “Os profissionais da comunicação social desempenham um papel essencial para manter o público informado e responsabilizar quem detém o poder. No entanto, são muitas vezes assediados, vigiados, processados, agredidos fisicamente ou presos, e até torturados ou mortos, simplesmente por fazerem o seu trabalho.”
“Este escândalo tem de acabar”, insistiu.
O lema deste ano resume a situação: “As ameaças evoluem. A impunidade persiste”. As novas tecnologias e armas estão a mudar a forma como os jornalistas são atacados, mas há algo que não muda: quem os mata raramente é responsabilizado.
A guerra, o lugar mais perigoso para informar
Em 2024 e 2025, 67% dos assassinatos de jornalistas ocorreram em zonas de conflito. Cinquenta jornalistas morreram em ataques de drones em apenas seis guerras, cerca de 40% das mortes em conflitos, o que revela o surgimento de novas ameaças associadas à tecnologia. A região dos Estados Árabes registou o maior número de assassinatos, segundo o relatório.
“Em contextos de conflito, a taxa de impunidade aproxima-se dos 100%”, alertou Guterres.
A impunidade volta a subir
A taxa mundial de impunidade dos assassinatos de jornalistas subiu um ponto percentual, para 86%. Tinha descido de forma lenta mas constante, de 95% em 2012 para 85% em 2024. Agora, pela primeira vez desde que a UNESCO começou a medi-la, volta a aumentar.
Desde 1993, o Observatório de Jornalistas Assassinados da UNESCO contabiliza 1876 jornalistas assassinados, 30 dos quais já em 2026. Dos casos registados desde 2006, menos de 14% foram resolvidos judicialmente. Segundo o relatório de 2024, os casos resolvidos entre 2006 e 2023 demoraram, em média, quatro anos a chegar a esse ponto.
A impunidade conduz a mais assassinatos, e os seus efeitos vão além das vítimas e das suas famílias. Quando os ataques ficam impunes, o jornalismo de interesse público pode ser silenciado, incluindo as investigações sobre corrupção, violações dos direitos humanos e criminalidade.
Muito mais do que assassinatos
O assassinato é a forma mais extrema de censura, mas não é a única. Os jornalistas enfrentam raptos, tortura, detenções arbitrárias, intimidação e assédio judicial através de ações judiciais estratégicas contra a participação pública, conhecidas como SLAPP.
As mulheres jornalistas são particularmente afetadas por estas ameaças, às quais se somam a violência de género e o assédio online. Em 2024 e 2025, foram assassinadas 14 mulheres jornalistas, 13 destas em zonas de conflito. Segundo um estudo de 2021 da UNESCO e do Centro Internacional para Jornalistas, 73% das mulheres jornalistas inquiridas tinham sofrido violência online, e uma em cada quatro tinha recebido ameaças de violência física, incluindo ameaças de morte.
Sinais de progresso
Segundo a UNESCO, a responsabilização também evoluiu. Nos países sem conflito armado, registaram-se 62 assassinatos, o número mais baixo dos últimos 18 anos. Desde o lançamento do Plano de Ação das Nações Unidas sobre a Segurança dos Jornalistas e a Questão da Impunidade, em 2012, a impunidade nesses países desceu de 94% para 77%. “Mas temos de fazer mais”, reconheceu Guterres.
O Plano, o primeiro esforço concertado da ONU nesta área, reúne organismos da ONU, autoridades nacionais, órgãos de comunicação social e sociedade civil, e contribuiu para a criação de mecanismos nacionais de proteção em pelo menos 50 países.
A UNESCO pede que os mecanismos de responsabilização acompanhem o ritmo das novas ameaças, sobretudo em zonas de conflito. O secretário-geral apelou a que todos os casos sejam investigados, todos os responsáveis julgados e os ataques online terminem.
“Neste Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, exigimos justiça”, concluiu Guterres. “Quando os jornalistas são visados e o seu trabalho é apagado, todos nos tornamos vítimas.”
Contexto
A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o dia 2 de novembro como Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas através da resolução A/RES/68/163, adotada em 2013. A data assinala o assassinato de dois jornalistas franceses no Mali, a 2 de novembro de 2013. A resolução condena todos os ataques contra jornalistas e profissionais da comunicação social, e insta os Estados a prevenir a violência, levar os responsáveis à justiça, garantir que as vítimas têm acesso a reparação e promover um ambiente seguro para que os jornalistas possam trabalhar com independência.