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Guterres: “O Homem está a travar uma guerra contra a natureza. É um ato suicida” 

O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou esta quarta-feira a novos e ousados compromissos para a ação climática, pedindo à União Europeia que demonstre a sua liderança e reduza ainda mais as emissões de gases para a atmosfera. 

Durante um importante discurso proferido na Universidade de Columbia, em Nova York, sobre o “Estado do Planeta”, o secretário-geral esboçou a sua visão sobre a ação climática: “É hora de novos compromissos ousados para aumentar a ambição e a ação, para construir uma recuperação sustentável e resiliente da pandemia e para enfrentar a emergência climática”, afirmou Guterres a uma audiência virtual, acrescentando que “precisamos construir uma coligação forte para chegar a emissões líquidas zero.” 

O líder da ONU felicitou os recentes anúncios da China, da União Europeia, do Japão e da República da Coreia, bem como de algumas das maiores empresas, cidades ou regiões do mundo em se tornarem neutros em carbono“A União Europeia assumiu o compromisso de se tornar o primeiro continente neutro para o clima até 2050 – e espero que decida reduzir as suas emissões, pelo menos, para 55% abaixo dos níveis de 1990, até 2030” 

Mais de um milhão de espécies estão em perigo de extinção.

Na sua intervenção, António Guterres demonstrou como as atividades humanas levaram à deterioração do meio ambiente, precipitando crises climáticas e perda de biodiversidade: “Vamos ser claros: as atividades humanas estão na raiz da nossa queda mas isso significa que a ação humana pode ajudar a resolver este problema. Fazer as pazes com a natureza é a tarefa definidora do século XXI. Deve ser a maior prioridade para todos, em todos os lugares. 

Para tal, o secretário-geral apelou aos governos que parem de imediato de construir novas centrais a carvão e que interrompam o financiamento da energia a carvão. Para além disso, Guterres pediu também uma mudança de mentalidades em relação ao carbono afirmando que “chegou a hora de colocar um preço no carbono, de transferir a carga fiscal sobre os rendimentos para o carbono, ou seja, dos contribuintes para os poluidores”. 

 Um planeta destruído 

 No seu discurso, Guterres pintou o “Estado do Planeta” com cores escuras, relembrando o colapso da biodiversidade, os ecossistemas que estão a desaparecer e os 10 milhões de hectares de florestas que se perdem a cada ano. O chefe da ONU considera que “O Homem está a travar uma guerra contra a natureza. Isto é um ato suicida. A natureza ataca sempre de volta – e já o está a fazer com uma força e fúria crescentes”. 

Adicionalmente, a secretário-geral mencionou dois relatórios importantes da ONU, publicados esta quarta-feira, que “explicam o quão perto estamos de uma catástrofe climática.”  

Um relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostra que 2020 está a caminho de ser um dos três anos mais quentes alguma vez registados. A última década foi a mais quente da história da Humanidade e o calor do oceano atingiu níveis recordes.

Em 2020, o Ártico viveu um calor excecional, com as temperaturas a registarem valores de mais de 3 graus Celsius acima da média, sendo que no norte da Sibéria o aumento foi de 5 graus. Por outro lado, o relatório ostra ainda que o gelo do mar Ártico em outubro foi o mais baixo já registado e o gelo da Gronelândia continuou a recuar, registando uma perda média de 278 giga toneladas por ano.  

Em 2020, o Ártico viveu um calor excecional, com as temperaturas a registarem valores de mais de 3 graus Celsius acima da média.

Um outro relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente mostra que, embora os constrangimentos provocados pela covid-19 tenham reduzido temporariamente as emissões e a poluição, os níveis de dióxido de carbono ainda estão em níveis recordes e continuam aumentar. As emissões são 62% mais altas hoje do que quando as negociações internacionais sobre o clima começaram em 1990, por isso, Guterres enfatiza que “estamos a caminhar para um aumento estrondoso de temperatura de 3 a 5 graus Celsius neste século” e lembra que a ciência não engana: “para limitar o aumento da temperatura em 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais, o mundo precisa de diminuir a produção de combustível fóssil em cerca de 6 por cento ao ano até 2030”. No entanto, o mundo está a ir na direção oposta, planeando um aumento de produção de combustíveis fósseis de 2%. 

Eventos climáticos extremos, como secas, são cada vez mais frequentes. Photo: WMO

 A mudança verde  

Segundo António Guterres, “é hora de acionar o interruptor verde e no momento atual “não  apenas uma oportunidade de simplesmente reiniciar a economia mundial, mas também de transformar numa economia sustentável impulsionada pelas energias renováveisque criará novos empregos, infraestruturas mais limpas e um futuro resiliente 

Por isso, “o objetivo central das Nações Unidas para 2021 é o de formar uma verdadeira Coligação Global pela Neutralidade do Carbono anunciou Guterres, argumentandque a recuperação da covid-19 e a recuperação do planeta podem ser os dois lados da mesma moedaPara taldevem ser alcançados três objetivos: neutralidade global de carbono nas próximas três décadas, as finanças globais devem estar alinhadas com o Acordo de Paris e, por último, é necessário promover a adaptação para proteger o mundo – e especialmente as pessoas e países mais vulneráveis – dos impactos climáticos.  

O secretário-geral concluiu o seu discurso lembrando que “temos um projeto: a Agenda 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. A porta está aberta; as soluções estão aí. Agora é a hora de transformar a relação da humanidade com a natureza”. 


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