Artigo de autoria da ONU News em Português
Os confrontos no Médio Oriente interrompem o trabalho das Nações Unidas e colocam a rede global de assistência humanitária no nível mais crítico desde a pandemia de COVID-19. O alerta partiu de Carl Skau, vice-diretor do Programa Mundial de Alimentos (PMA).
Estima-se que cerca de 45 milhões de pessoas em todo o mundo poderão entrar em situação de fome aguda, devido às interrupções nas operações das Nações Unidas (ONU). Esta previsão aplica-se caso o conflito se prolongue até junho deste ano, segundo o responsável do PMA.
Efeitos indiretos sobre operações
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou para o fim do conflito no Médio Oriente, na sequência dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, seguido pela retaliação iraniana contra os estados vizinhos.
Perante este cenário, a ONU exigiu o respeito pela Carta das Nações Unidas e a implementação de todas as resoluções do Conselho de Segurança relativas ao fim dos conflitos no Oriente Médio, incluindo a Resolução 2817, que apela ao cessar dos ataques do Irão.
Dificuldades na entrega de alimentos
Carl Skau sublinha ainda que o conflito está também a afetar as operações humanitárias a nível global. As cadeias de abastecimento do PMA estão perto de alcançar a interrupção mais grave desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
Para além dos atrasos nos prazos de entrega de alimentos, foi também registado um aumento dos custos das rações alimentares. Juntamente com o aumento do preço dos combustíveis, as Nações Unidas dispõem de menos recursos para adquirir alimentos ou apoiar as pessoas em necessidade.
Esta crise levou a ONU a cortar as rações alimentares para pessoas em situação de fome no Sudão e só consegue atualmente apoiar uma em cada quatro crianças gravemente desnutridas no Afeganistão (país que enfrenta atualmente a pior crise de desnutrição do mundo).
Contudo, apesar de todas as dificuldades, milhares de caminhões continuam a circular diariamente para garantir a entrega de ajuda humanitária.
Fertilizantes e o Estreito de Ormuz
O vice-diretor do PMA afirma que uma outra preocupação está relacionada com a interrupção dos mercados globais de fertilizantes, principalmente para a região da África Subsaariana. Cerca de um quarto do fornecimento mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, que está paralisado.
Carl Skau acrescentou ainda que “o aumento nos custos globais de alimentos e combustíveis pode deixar milhões de famílias sem acesso a alimentos básicos, principalmente em países dependentes de importações, como a África Subsaariana e a Ásia”, concluiu.
O impacto dos ataques do Golfo
Os efeitos humanitários da interrupção do tráfego aéreo continuam a atingir de forma particularmente grave um dos países no epicentro do conflito: o Líbano.
O coordenador humanitário das Nações Unidas no Líbano, Imran Riza, afirmou que “no início do conflito, a ONU recebia ajuda do Kuwait e de outros países da região do Golfo como a Arábia Saudita, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Oman e Bahrain. Mas agora, essa ponte aérea foi desfeita.”
Também os deslocamentos forçados e as necessidades humanitárias no Líbano agravaram-se como resultado dos ataques aéreos israelitas e das ordens de evacuação que abrangem porções cada vez maiores do território.
Imran Riza afirma que cerca de 132 mil pessoas estão refugiadas em aproximadamente 622 centros de acolhimento. Ainda assim, o número total de deslocados deverá ultrapassar um milhão de pessoas, o que equivale a quase 20% da população libanesa.
Cerca de 70% dos deslocados não estão em centros de abrigo, o que apresenta sérios desafios para as equipas humanitárias das Nações Unidas que tentam levar ajuda até toda a população.