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Oceanos, a nossa casa partilhada

Foi no imenso azul que, há 4 mil milhões de anos atrás, a vida se iniciou. Do mais pequeno organismo unicelular até à formação da gigante baleia azul, os oceanos testemunharam a evolução da vida, da Terra e da Humanidade. Hoje, são o maior ecossistema do planeta, casa para milhões de espécies e sustento para mais de 3 mil milhões de pessoas.

Os oceanos cobrem 71% da superfície terrestre e é a sua vastidão que dá significado à expressão “Planeta Azul”.

No entanto, há ainda muito que não sabemos sobre os oceanos. Mesmo após séculos de exploração marítima e de recentes e importantes avanços tecnológicos ao nível da cartografia, 80% do oceano ainda se encontra por explorar. 5 oceanos e mais de mil milhão de km3 de água salgada por descobrir.

Dia claro sobre o Oceano Ártico. Crédito: OMM / Kim Kenny
Dia claro sobre o Oceano Ártico. Os geógrafos dividem o imenso azul em 5 partes distintas: os oceanos Ántártico, Atlântico, Ártico, Índico e Pacífico. Crédito: OMM / Kim Kenny

Embora exista uma grande face do oceano por desvendar, sabemos já que o oceano tem um impacto direto em todos os aspetos da regulação do clima do planeta. É na sua superfície que se desenvolve o fitoplâncton, um conjunto de microrganismos microscópicos responsável pela absorção de 25% de todo o dióxido de carbono que emitimos e pela produção de metade do oxigénio que respiramos. É na sua imensidão que 90% do calor libertado pelas emissões de gases com efeito de estufa está armazenado e é nos seus mais de mil milhões de km3 de água salgada que reside o desfecho da batalha contra as alterações climáticas.

Como transformámos os oceanos

Por ser um corpo demasiado vasto, as consequências da atividade humana no oceano não se percecionam de imediato e só agora nos estamos a aperceber do real impacto da nossa pegada carbónica.

Em 2019, foi registada a temperatura mais quente de sempre no oceano. Em segundo lugar surge 2018 e em terceiro 2017.

Nos últimos 30 anos, a temperatura da água tem sido consistentemente mais elevada do que em qualquer outra época em registo, com a temperatura à superfície dos oceanos a subir uma média de 0.13ºC por década no último século. A subida da temperatura dos oceanos significa que a água evapora mais rapidamente, o que por sua vez alimenta tempestades mais fortes e mais frequentes. Com águas mais quentes, ecossistemas frágeis e cuidadosamente construídos ao longo de milénios ficam severamente ameaçados.

Hoje, já perdemos irreversivelmente 20% de todos os recifes de corais e manguezais.

Este aumento de temperatura desencadeia um efeito dominó com efeitos ao nível costeiro. O aquecimento das águas provoca uma maior expansão das suas moléculas constituintes, o que por sua vez instiga uma subida no nível médio da água do mar. Desde 1993, o nível médio das águas tem subido a um ritmo duas vezes mais rápido que as tendências de longo prazo, ajudado também pelo derretimento das calotes polares e glaciares.

Iceberg no meio do Oceano Antártico. Créditos: OMM / Jelena Uljankina
Iceberg no meio do Oceano Antártico. O aumento da temperatura média da água é responsável pelo degelo das calotes polares. A 13 de julho de 2017, uma placa de gelo do tamanho do estado norte-americano de Delaware desprendeu-se deste continente. Créditos: OMM / Jelena Uljankina

O aumento da temperatura dos oceanos tem ainda implicações químicas. A absorção de quantidades crescentes de dióxido de carbono diminui o pH da água, aumentando a sua acidez. Hoje, a acidez dos oceanos é 26% mais elevada do que na era pré-industrial. Esta acidificação é responsável pela diminuição das concentrações de carbonato de cálcio nos oceanos, o que torna mais difícil o desenvolvimento dos esqueletos e conchas de espécies dependentes deste mineral, como as ostras, ameijoas e corais.

Mesmo que parássemos de emitir dióxido de carbono amanhã, o CO2 já presente na atmosfera iria demorar décadas a desaparecer.

O que temos de proteger

A degradação do oceano tem implicações demasiado pesadas para a Humanidade e para a biodiversidade na Terra, com os cientistas a preverem que metade das espécies marinhas poderão ficar em risco de extinção até 2100.

“A batalha contra as alterações climáticas é a batalha da minha vida” (António Guterres), da nossa espécie. É preciso agir, agora.

Hoje, 17% de todas as águas sob jurisdição nacional já estão classificadas como áreas protegidas. Uma percentagem muito pequena, sobretudo se considerarmos que ainda 37% de as reservas de peixe estão a ser explorados a níveis biologicamente insustentáveis.

Segundo estimativas das Nações Unidas, para revertermos a deterioração dos oceanos será necessário aplicar um esforço único de 32 mil milhões de dólares e um esforço anual de 21 mil milhões de dólares. Em termos de comparação, o esforço anual deste investimento corresponde a apenas 0.024% do PIB da economia mundial (que é de 86 biliões de dólares) e fica ainda muito distante das perdas económicas anuais de 50 mil milhões de dólares derivadas da sobre-exploração das reservas de peixe.

Mais do que o esforço económico, falta-nos ambição política para salvar o oceano.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável #14 já se compromete a conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. É graças a este elemento tão importante da Agenda 2030 que os Estados-membros da ONU se empenham a acabar com a sobre pesca e a pesca ilegal até ao fim deste ano ou a reforçarem a cooperação científica a todos os níveis para alcançarem oceanos mais saudáveis e produtivos.

No entanto, a Agenda 2030 serve apenas como guia moral para os Estados-membros, estando refém da atuação específica de cada país. Torna-se, assim, necessário criar fóruns e espaços de discussão onde políticas reais e concretas possam ser debatidas e adotadas. É respondendo a este apelo que nasce a Conferência dos Oceanos, que se realizará em Lisboa, entre 2 e 6 de junho.

A Conferência pretende apelar a uma maior ação na conservação e regeneração dos oceanos e definirá a estratégia global para a conservação do maior habitat do planeta. É uma oportunidade única para desenvolver parcerias e fomentar o investimento na ciência, assumindo-se como a rampa de lançamento da Década das Ciências Oceânicas para o Desenvolvimento Sustentável, que terá início em 2021.

Porém, salvar os oceanos está nas mãos de todos nós. A nível local, é-nos possível adotar escolhas no nosso dia-a-dia que têm um impacto positivo na preservação dos oceanos. Consumir alimentos derivados de fontes de exploração sustentáveis, comprar apenas produtos certificados e não-poluentes, minimizar o uso de plástico e participar em ações de limpeza de praias e zonas costeiras são algumas das medidas que cada um de nós pode tomar para salvar os oceanos.

Só com o esforço e dedicação de todos nós será possível salvar o nosso Oceano!

Fontes:

https://www.nationalgeographic.com/environment/habitats/ocean/

https://www.nationalgeographic.com/environment/oceans/

https://www.britannica.com/science/ocean/Origin-of-the-ocean-waters

https://www.greenpeace.org/international/story/28712/the-bold-new-plan-to-rescue-the-worlds-oceans-explained/

https://www.sciencedaily.com/releases/2020/02/200224100558.htm

https://www.greenbiz.com/article/what-will-it-cost-save-earths-oceans

http://www.unoceans.org/home/en/

https://www.un.org/sustainabledevelopment/oceans/

ONU News

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