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Progresso ou caos? A urgência da cooperação digital

Artigo de opinião pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres

Progresso ou caos? A urgência da cooperação digital.

As novas tecnologias oferecem enormes oportunidades para dinamizar o trabalho das Nações Unidas em prol da paz, do desenvolvimento sustentável e dos direitos humanos. O progresso científico está a ajudar, como nunca, a curar doenças mortais, a alimentar uma população em crescimento, a impulsionar o crescimento económico e a aproximar empresas, comunidades, famílias e amigos em todo o mundo. O rápido desenvolvimento de áreas como a inteligência artificial, a tecnologia blockchain e a biotecnologia oferece um grande potencial para melhorar o bem-estar e gerar soluções inovadoras para os desafios globais.

O ritmo da mudança é notável. As novas tecnologias estão a sair dos laboratórios para serem utilizadas globalmente a um ritmo sem precedentes. Mais de 90% de todos os dados que existem hoje foram produzidos nos últimos dois anos. Como um líder tecnológico me disse recentemente, embora o setor já avance à velocidade da luz, o progresso no futuro nunca mais será tão lento como hoje.

Devemos tirar o maior partido destes avanços que salvam e melhoram vidas. À medida que o mundo se esforça para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o plano acordado internacionalmente para a construção de um mundo melhor para todos, as tecnologias digitais podem ser especialmente úteis nas áreas em que o mundo está mais atrasado. Devemos procurar abordagens inclusivas que reúnam todas as partes interessadas. Devemos ainda tomar medidas firmes para promover a participação significativa das mulheres e a capacitação das jovens na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Ainda que para muitos seja difícil lembrar como vivíamos sem Internet, continua a existir um enorme fosso digital. Para mais de metade da população mundial, o acesso é caro, lento ou simplesmente inexistente. Este desequilíbrio está a exacerbar desigualdades noutras áreas importantes, como a educação, a saúde e a riqueza. As oportunidades digitais devem chegar a todos para o benefício de todos.

No entanto, também devemos reconhecer as ameaças que resultam das novas tecnologias. Armas que podem identificar e matar de forma autónoma estão mais

próximas de se tornarem realidade, uma inovação moralmente repugnante. As redes sociais estão a ser utilizadas para espalhar o ódio e a mentira. A tecnologia está a ser aproveitada por terroristas e redes criminosas organizadas escondem-se na dark web, aproveitando-se da criptografia e de pagamentos anónimos feitos com criptomoedas para o tráfico de pessoas e drogas ilegais. Por outro lado, embora a inovação continue a gerar novas oportunidades laborais, muitos trabalhadores temem que os seus empregos sejam vítimas da automação, o que evidencia a necessidade de se apostar em formação profissional em larga escala, ampliar os sistemas de proteção social e promover educação que, desde os primeiros anos, enfatize a aprendizagem ao longo da vida.

Podemos e devemos fazer mais para garantir que as tecnologias digitais sejam uma força ao serviço do bem comum. Por isso, estabeleci um Painel de Alto Nível sobre Cooperação Digital, que acaba de publicar o seu primeiro relatório. Liderado por Melinda Gates, da Fundação Gates, e por Jack Ma, da Alibaba, o Painel reuniu diversos especialistas que recolheram opiniões em todo o mundo, debateram energicamente, analisaram um grande leque de desafios e apresentaram recomendações detalhadas para aproveitar o melhor que as novas tecnologias têm para oferecer.

O Painel recomendou formas para eliminar o fosso digital, aumentar a cooperação e melhor governar o desenvolvimento da tecnologia digital através de modelos abertos, ágeis, com a participação de múltiplas partes interessadas. Modelos clássicos de governação não se aplicam. A tecnologia avança tão rápido que, no momento em que os decisores se reúnem para preparar, discutir, aprovar, ratificar e implementar uma convenção ou um novo acordo, o cenário mudou completamente. A definição de políticas analógicas não funcionará num mundo digital.

Saúdo o facto do Painel de Alto Nível ter reconhecido as Nações Unidas como o único fórum, legítimo e dinâmico, onde os governos, a sociedade civil, o meio académico, a comunidade científica e o próprio setor tecnológico se podem unir para discutir o caminho a seguir. Para além da capacidade de mobilização da ONU, os nossos esforços na definição de padrões, capacitação e recolha de dados também poderão ser contributos valiosos. Vou elaborar um plano de ação sobre o papel da ONU e promover qualquer debate considerado útil pelas partes interessadas.

É urgente ter esta conversa. A era da interdependência digital aprofunda-se com cada transmissão em direto, transação digital e plataforma inovadora. Tal como acontece com outros fenómenos globais por excelência, como o comércio, comunicações,

alterações climáticas e mobilidade humana, a cooperação internacional pode ser a diferença entre o progresso e o caos. Devemos atuar agora para criar confiança, adiantarmo-nos aos novos problemas e promover um futuro digital pacífico, próspero e positivo para todos.


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