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Sistemas alimentares são a maior ameaça à biodiversidade 

A perda de biodiversidade continuará a acelerar, a menos que alteremos a forma como produzimos alimentos.

O novo relatório da Chatham House lançado hoje, em parceria com o UNEP e a Compassion in World Farming, apela a uma reforma urgente dos sistemas alimentares. De acordo com o documento, o sistema alimentar mundial é a principal causa da perda de biodiversidade. A agricultura, por si só, é uma ameaça para 24.000 das 28.000 (86%) espécies em risco de extinção no mundo.

Portugal é o 2.º país da Europa com mais espécies de mamíferos e de plantas em perigo e a 3.ª nação europeia com mais espécies de peixes e répteis em risco de extinção ou ameaçados, segundo dados de 2020 da Lista Vermelha.

Nas últimas décadas, os sistemas alimentares do mundo inteiro têm seguido o paradigma dos ‘alimentos mais baratos’, com o objetivo de produzir o maior número de alimentos, ao menor custo possível. Com efeito, a produção alimentar passou a depender fortemente de fertilizantes, pesticidas, energia, terra e água, e de práticas insustentáveis como a monocultura. Esta dependência pouco sustentável reduziu a variedade de paisagens e habitats, ameaçando ou destruindo a reprodução, alimentação e/ou nidificação de aves, mamíferos, insetos e organismos microbianos.

Este paradigma – aparentemente mais barato – conduz a um círculo vicioso, com um preço oculto: o custo mais baixo da produção alimentar cria uma maior procura de alimentos que também devem ser produzidos a um custo mais baixo através de uma maior intensificação e de uma maior limpeza da terra.

Contudo, os impactos não se limitam à perda de biodiversidade. O sistema alimentar mundial é um dos principais agentes das alterações climáticas, sendo responsável por cerca de 30% do total das emissões produzidas pelo Homem.

UN Photo/Kibae Park

Uma maior destruição dos ecossistemas e habitats ameaçará a nossa capacidade de sustentar as populações humanas.

De acordo com o relatório “Impacto dos Sistemas Alimentares na Perda de Biodiversidade”, os riscos que o atual sistema alimentar representa para o bem-estar humano e os ecossistemas naturais já estão a concretizar-se.

A expansão da produção alimentar para ecossistemas naturais, associada aos impactos perturbadores das alterações climáticas, permite que os agentes patogénicos se movam de formas novas entre animais selvagens, animais de criação e humanos – dando origem a novas e perigosas doenças zoonóticas.

O impacto da pandemia de covid-19, por exemplo, demonstra a magnitude, alcance e gravidade das potenciais consequências das novas inter-relações entre os seres humanos e o sistema alimentar.

“Reformular a forma como produzimos e consumimos alimentos é uma prioridade urgente.” – Diretora da Divisão de Ecossistemas da UNEP, Susan Gardner

A covid-19 e os impactos das alterações climáticas são ambos exemplos de perturbações que irão moldar cada vez mais as nossas vidas. Há, por isso, uma necessidade urgente de investir em reconstruirmo-nos melhor, para que as sociedades e economias sejam mais resilientes e sustentáveis a longo prazo.

UN Photo/Kibae Park

Segundo os autores do documento, a reforma prioritária dos sistemas alimentares deve concentrar-se em três ações interdependentes: alterar os padrões alimentares globais, proteger e reservar terras para a natureza e cultivar de uma forma mais amiga da natureza, que apoie a biodiversidade.

Nas palavras do Diretor Executivo Global da World Farming, Philip Lymbery, “O futuro da agricultura deve ser regenerativo e compatível com a natureza, e as nossas dietas devem tornar-se mais saudáveis, sustentáveis e à base de plantas. Senão acabarmos com a agricultura industrial, corremos o risco de não ter qualquer futuro”.

Uma reforma como esta não só beneficiaria a biodiversidade, o planeta como um todo e a saúde das populações de todo o mundo, como também ajudaria a reduzir o risco de pandemias.

O relatório incentiva ainda os decisores políticos a adotar uma abordagem sistémica para ter em conta os impactos dos sistemas alimentares, desenvolver uma orientação global para a mudança e traduzi-la em diretrizes nacionais.

 

 

 


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