Uma nova parceria da ONU anunciada na quarta-feira visa aumentar a sensibilização para os impactos ambientais e sanitários dos microplásticos presentes nas pontas dos cigarros, o resíduo mais descartado em todo o mundo.
A parceria é facilitada através da campanha ‘Clean Seas’ (Mares Limpos, em português) do PNUMA, uma coligação global composta por 63 países dedicados a acabar com a poluição marinha através do plástico e combina a respetiva experiência das duas agências sobre as dimensões sanitárias e políticas dos produtos relacionados com o tabaco, tal como a investigação e advocacia relacionada com a poluição causada pelo plástico.
Montanha de ‘lixo tóxico’ causada por cigarros
Globalmente, são produzidos anualmente mais de seis biliões de cigarros, cada um contendo filtros, que são compostos principalmente por microplásticos conhecidos como fibras de acetato de celulose.
No entanto, as pontas de cigarro que não são devidamente eliminadas são decompostas por fatores como a luz solar e a humidade, libertando dessa forma microplásticos, metais pesados e muitos outros químicos que têm impacto na saúde humana e no funcionamento dos ecossistemas.
As beatas de cigarro equivalem a mais de 766 milhões de quilos do lixo tóxico que é expelido em cada ano. Só em Portugal, estimava-se em 2016 que mais de sete mil beatas fossem descartadas no chão a cada minuto, segundo o jornal Público. As beatas são também os detritos à base de plástico mais encontrados nas praias ao redor do mundo, tornando os ecossistemas marinhos mais susceptíveis a fugas de microplásticos.
Foto de WMO/San Nguyen
Quando ingeridos, os químicos perigosos dos microplásticos são as causas de uma maior taxa de mortalidade na vida marinha, que inclui as aves, os peixes, os mamíferos, as plantas e os répteis que vivem em zonas marítimas.
Estes microplásticos também penetram a cadeia alimentar através da ingestão de animais ou plantas contaminados, estando associados a graves impactos na saúde humana, que podem incluir alterações na composição genética, no desenvolvimento cerebral, na taxas respiratórias e em muitas mais áreas.
Advocacia para a mudança
Esta campanha, que será desenvolvida através dos meios de comunicação social, terá como objetivo envolver influencers, bem como Embaixadores da Boa Vontade e os Jovens Campeões da Terra do PNUMA.
Incluirá também um ângulo de advocacia política, destacando uma diretiva recente da União Europeia que exige que todos os produtos do setor do tabaco que contenham filtros de plástico sejam claramente rotulados para encorajar o público a defender mudanças semelhantes a nível mundial.
“O Secretariado da FCTC da OMS tem a perícia técnica relativa ao impacto dos produtos relacionados com o tabaco não só a nível da saúde humana mas também do ambiente”, explicou o chefe da advocacia pública do PNUMA, Atif Butt.
“Ao juntarmos os conhecimentos especializados do PNUMA e do Secretariado da OMS FCTC sob a campanha ‘Clean Seas’ acerca dos microplásticos, pretendemos destacar como a nossa saúde está intrinsecamente ligada à do nosso planeta”.
António Guterres dirigiu-se ao Conselho de Segurança por videoconferência e apelou a um processo de vacinação que não deixe ninguém para trás. Foto ONU/ /Evan Schneider
MENSAGEM POR OCASIÃO DO DIA INTERNACIONAL DA FATERNIDADE
4 de fevereiro de 2022
No Dia Internacional da Fraternidade Humana, refletimos sobre a importância da compreensão cultural e religiosa e do respeito mútuo.
Estou grato aos líderes religiosos de todo o mundo que dão as mãos para promover o diálogo e a harmonia inter-religiosa.
A declaração “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum” – da coautoria de Sua Santidade o Papa Francisco e de Sua Eminência o Grande Imã de Al-Azhar Sheikh Ahmed El Tayeb – é um modelo de compaixão e de solidariedade humana.
Precisamos deste espírito mais do que nunca.
Do agravamento da pobreza e aumento das desigualdades ao conflito, divisão e desconfiança – a nossa família humana enfrenta uma série de desafios.
Para enfrentá-los, precisamos desafiar aqueles que exploram as diferenças, traficam o ódio e instigam o medo do “outro” em corações ansiosos.
Em todo o mundo, assistimos a um aumento do discurso de ódio, intolerância, discriminação e até ataques físicos contra pessoas, simplesmente por causa da sua religião ou crença, etnia, género ou orientação sexual.
Esses atos hediondos são violações dos direitos humanos e afrontas aos valores das Nações Unidas.
Hoje, vamos comprometermo-nos a permanecer firmes contra o fanatismo onde e quando o virmos.
Vamos reconhecer a nossa diversidade como uma riqueza que nos fortalece a todos.
Vamos construir pontes entre as fés, inspirados pela nossa humanidade comum.
E vamos unirmo-nos em solidariedade para criar um mundo mais inclusivo, pacífico e justo para todos.
Neste 4 de fevereiro, a ONU marca o Dia Internacional da Fraternidade Humana, criado pela Assembleia Geral no primeiro ano da crise global de saúde, gerada pela Covid-19.
Para as Nações Unidas, em tempos de necessidade, como o vivido agora, é importante mais do que nunca reconhecer a contribuição valorosa das pessoas de todos os credos e religiões para a humanidade e o diálogo, que pode ser feito, para melhorar a percepção dos valores comuns.
Pandemia
A ONU está preocupada com atos de discursos de ódio religioso que minam o espírito da tolerância e do respeito pela diversidade. Essas ações são ainda mais graves num momento em que o mundo responde à pandemia.
O próprio secretário-geral da organização, António Guterres, ressaltou, em várias ocasiões, a necessidade de união, solidariedade e de um compromisso renovado com a cooperação multilateral para vencer a crise.
ONU/Rick Bajornas.
ONU defende que o espírito de harmonia, compreensão e solidariedade são elementos chave na resolução de conflitos
Neste Dia Internacional da Fraternidade Humana, as Nações Unidas buscam sublinhar a importância de compreensão de diferentes culturas, religiões, credos e da promoção da tolerância que inclui a aceitação social do que é diferente.
Para a organização, a educação nas escolas deve ajudar a combater a discriminação baseada na religião.
Papa e Imã
Em sua resolução sobre o Dia Internacional, a Assembleia Geral citou o encontro do Papa Francisco com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad al-Tayyib em 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, que resultou na assinatura do documento “Fraternidade Humana para a Paz Mundial e para a Coexistência.”
A ONU lembra que após a destruição da Segunda Guerra Mundial, a organização nasceu para salvar gerações vindouras do flagelo de uma guerra e com o objetivo de fomentar o diálogo e o entendimento entre os povos.
Para a organização, o espírito de harmonia, compreensão e solidariedade são elementos chave na resolução de conflitos e desafios globais.
Às vésperas do Dia Internacional da Tolerância Zero para a Mutilação Genital Feminina, marcado em 6 de fevereiro, Unicef diz que fechamento de escolas e encerramento de serviços básicos reduziram avanços em 33%; atualmente, pelo menos 200 milhões de meninas e mulheres sofreram prática, que é uma violação.
China recebeu capacitação e instrumentos para detectar radiação no andamento do evento que se estende até 20 de fevereiro; secretário-geral e presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas presentes na abertura, em Pequim.
Um novo dossier de instruções técnicas sobre o teletrabalho saudável e seguro, publicado pelas duas agências da ONU, descreve os benefícios e riscos para a saúde do teletrabalho e as alterações necessárias para acomodar a mudança para diferentes formas de acordos de trabalho à distância provocada pela pandemia da covid-19 e a transformação digital do trabalho.
Um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal dos empregados é um dos benefícios apontados pelo relatório, que considera que o teletrabalho concede a oportunidade de se construírem horários de trabalho mais flexíveis e de se incorporar mais atividade física dentro da rotina. Adicionalmente, também a redução do tempo em tráfego, para as deslocações entre a casa e o trabalho, e a consequente diminuição da poluição atmosférica, pode melhorar a saúde física e mental e o bem-estar social dos trabalhadores. O teletrabalho pode até elevar os níveis de produtividade a custos operacionais mais baixos para muitas empresas.
Marcel Crozet / ILO
Contudo, o dossier adverte que, sem planeamento e organização adequados e sem apoio para a saúde e segurança dos trabalhadores, o impacto do teletrabalho na saúde física e mental e no bem-estar social dos indivíduos pode ser significativo. Em certas condições, trabalhar a partir de casa pode criar um maior isolamento dos trabalhadores, aumentar o número de casos de esgotamentos, de depressões e de situações de violência doméstica, causar lesões músculo-esqueléticas, tensão ocular e levar a um aumento de peso, do tabagismo e do consumo de álcool.
No entanto, a OMS e a OIT descrevem neste relatório quais os papéis que os governos, empregadores, trabalhadores e serviços de saúde nos locais de trabalho devem desempenhar na promoção e protecção da saúde e segurança no teletrabalho.
“A pandemia levou a uma onda de teletrabalho, mudando efetivamente a natureza do trabalho praticamente de um dia para o outro para muitos”, explicou a diretora do Departamento do Ambiente, Alterações Climáticas e Saúde da OMS, Maria Neira. “Nos quase dois anos desde o início da pandemia, tornou-se muito claro que o teletrabalho pode facilmente trazer benefícios para a saúde, mas que também pode ter um impacto terrível nas vidas dos trabalhadores. A forma como o pêndulo balança depende inteiramente de os governos, os empregadores e os trabalhadores juntarem as suas forças na busca de melhores condições, tal como a existência de serviços de saúde ágeis e inventivos para pôr em prática políticas e práticas que beneficiem os trabalhadores e a economia”.
As medidas que devem ser implementadas pelos empregadores incluem: assegurar que os trabalhadores recebem equipamento adequado para completar as suas tarefas; fornecer informação relevante, diretrizes e formação para reduzir o impacto psicossocial e mental do teletrabalho; formar os diretores e supervisores na gestão eficaz dos riscos, na liderança à distância e na promoção da saúde no local de trabalho; e estabelecer o “direito de desligar” em conjunto com dias de descanso suficientes. Os serviços de saúde ocupacional devem ser melhorados de forma a conseguirem fornecer apoio de saúde mental e psicossocial, tal como apoio ergonómico, aos teletrabalhadores, que utilizam tecnologias de telesaúde digital, diz o relatório.
“O teletrabalho e particularmente o trabalho híbrido estão aqui para ficar e irão provavelmente continuar a expandir-se após a pandemia, uma vez que tanto as empresas como os indivíduos experienciaram a sua viabilidade e os seus benefícios”, disse a diretora do Departamento de Governação e Tripartismo da OIT, Vera Paquete-Perdigão. À medida que nos afastamos deste ‘padrão em espera’ para nos instalarmos num novo normal, vamos tendo a oportunidade de incorporar novas políticas, práticas e normas de apoio para assegurar que milhões de teletrabalhadores tenham um trabalho saudável, feliz, produtivo e digno”.
O dossier oferece também algumas recomendações práticas para a organização do teletrabalho que vão ao encontro das necessidades tanto dos trabalhadores como das organizações. Estas incluem: discutir e desenvolver planos individuais de teletrabalho e clarificar prioridades; ser claro sobre os prazos e os resultados esperados; negociar um sistema comum para sinalizar a disponibilidade para o trabalho; e assegurar que os gestores e trabalhadores respeitam esse sistema.
As empresas com teletrabalhadores devem desenvolver programas especiais de teletrabalho, combinando medidas para a gestão do trabalho e do desempenho com tecnologias de informação e comunicação, para a disponibilização do equipamento adequado e para a melhoria dos serviços de saúde ocupacional.
Moçambique conta com novos materiais para incinerar resíduos de imunização da Covid-19.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, revelou que o equipamento para todo o país foi comprado com o apoio do Japão.
ONU News/ Ouri Pota
Luísa Panguene, Maria Luisa Fornara e o embaixador do Japão, KIMURA Hajime
Necessidade
Ainda este mês, Moçambique receberá um lote de câmaras de frio para conservar vacinas nas províncias de Maputo, Sofala e Zambézia.
A agência enfatiza que é preciso fazer a gestão dos resíduos de vacinas, dois anos após o novo coronavírus ter sido declarado uma emergência de saúde pública internacional.
Mais de 19,7 milhões de doses de vacina já foram administradas pelas autoridades de saúde moçambicanas.
O país notificou 223.413 casos e 2.164 mortes à Organização Mundial da Saúde.
Vacinas contra a Covid-19 do mecanismo Covax chegando em Moçambique. O novo equipamento pode guardar 6,8 milhões de doses
Vacinação
A representante da Unicef em Moçambique, Maria Luísa Formara, disse que o apoio será benéfico em duas vertentes.
“Primeira: Aquisição de materiais e equipamento para gestão de resíduos de vacinas e equipamento da cadeia de frio para apoiar na implementação da vacinação contra Covid-19, incluindo a logística para a instalação destes materiais e equipamentos; Segunda: Reforço da capacidade dos técnicos do Ministério da Saúde para operar e manter os equipamentos de gestão de resíduos de vacinas e da cadeia de frio.”
Para além das novas incineradoras, o novo material visa melhorar a capacidade de frio do programa de vacinação contra o coronavírus em Moçambique.
Um lote com 100 caixas isotérmicas, mil recipientes para melhor manusear e manter a qualidade das vacinas e 50 mil sacos plásticos foi atribuído às autoridades para fazerem a gestão de resíduos.
“Estas incineradoras irão reforçar a capacidade do Ministério da Saúde nas províncias, e criar condições apropriadas para que o descarte de resíduos de vacinas de Covid-19 seja feito obedecendo os padrões de qualidade recomendados. Esperamos receber no final do mês de fevereiro as três câmaras de frio para conservação de vacinas, financiadas pelo Governo do Japão, que serão colocadas nas províncias de Maputo, Sofala e Zambézia.”
A expectativa é que a capacidade de conservação de imunizantes aumente nessas áreas. O novo material pode guardar 6,8 milhões de doses.
Uma das crianças tinha apenas uma semana e a outras dois meses; porta-voz do secretário-geral da ONU informa que temperaturas estão abaixo de zero e situação já causou destruição de 10 mil tendas e abrigos; cerca de 250 mil pessoas estão sendo afetadas pelo clima gelado em Idlib e norte da cidade de Alepo.
Tribunal militar congolês declarou dezenas de réus culpados pelo sequestro e assassinato de dois peritos de direitos humanos das Nações Unidas; sueca-chilena Zaida Catalán e americano Michael Sharp investigavam abusos quando foram mortos.
Desde o começo da covid-19, têm-se vindo a acumular dezenas de milhares de toneladas de resíduos médicos como consequência da resposta dos governos à pandemia. Estes detritos adicionais ameaçam tanto a saúde humana como o ambiente, colocando uma enorme pressão sobre os sistemas de gestão do lixo sanitário e expondo a necessidade urgente de melhorar estas práticas.
Segundo o mais recente relatório da OMS sobre a gestão dos resíduos provenientes de unidades de cuidados de saúde, no contexto da covid-19, é estimado que aproximadamente 87.000 toneladas de equipamento de proteção pessoal (EPP) adquirido entre março de 2020 e novembro de 2021, que foi enviado para apoiar as necessidades urgentes de resposta dos países à covid-19 através de uma iniciativa de emergência conjunta da ONU, tenham acabado por ser descartadas.
Estes números não incluem os produtos relacionados com a pandemia que tenham sido adquiridos fora da iniciativa em questão, assim como não contabilizam os resíduos gerados pelo público, tais como máscaras médicas descartáveis, por isso, é expectável que os números do lixo sanitário sejam ainda mais elevados.
A OMS sublinha que os mais de 140 milhões de kits de testes poderão portencialmente gerar 2.600 toneladas de resíduos não infecciosos (principalmente plástico) e de cerca de 731.000 litros de resíduos químicos (equivalente a um terço de uma piscina olímpica). Também as mais de 8 mil milhões de doses de vacinas que foram administradas mundialmente acabaram por produzir 144.000 toneladas adicionais de resíduos sob a forma de seringas, agulhas, e caixas de segurança.
World Bank / Henitsoa Rafalia
À medida que a ONU e os governos dos vários países se ocupavam com a tarefa imediata de garantir e assegurar o fornecimento de EPP, menos atenção e recursos foram dedicados à gestão segura e sustentável dos resíduos de cuidados de saúde relacionados com a covid-19.
“É absolutamente vital fornecer aos trabalhadores da saúde o EPP correcto”, explica o director executivo do Programa de Emergências de Saúde da OMS, Michael Ryan. “Mas é também vital garantir que possa ser utilizado em segurança e sem impacto no ambiente circundante”.
Isto significa que é essencial dispor de sistemas de gestão eficazes, que incluam as orientações necessárias para os trabalhadores da área da saúde sobre o que fazer com os EPP e produtos relacionados depois destes terem sido utilizados.
Atualmente, 30% das instalações de saúde (60% das quais localizadas em países em desenvolvimento) não estão equipadas para lidar com as cargas de resíduos habituais, quanto mais com a carga adicional causada pela covid-19. Este facto expõe potencialmente os trabalhadores da saúde a ferimentos com seringas, queimaduras e microrganismos patogénicos, afetando também as comunidades que vivem perto de aterros sanitários e locais de eliminação de resíduos mal geridos, através do ar contaminado proveniente da queima do lixo, da má qualidade da água ou de pragas portadoras de doenças.
“A covid-19 forçou o mundo a encarar as lacunas e os aspetos negligenciados do fluxo de resíduos e da forma como produzimos, utilizamos e descartamos os nossos recursos de cuidados de saúde, do berço à sepultura”, disse a directora de Ambiente, Alterações Climáticas e Saúde da OMS, Maria Neira.
“Uma mudança significativa a todos os níveis, desde o global até ao hospital, na forma como gerimos o fluxo de resíduos dos cuidados de saúde é um requisito básico dos sistemas de cuidados de saúde inteligentes do ponto de vista climático, com o qual muitos países se comprometeram na recente Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, e, claro, uma recuperação saudável da covid-19 e preparação para outras emergências de saúde no futuro”.
O relatório apresenta um conjunto de recomendações para integrar melhores práticas , mais seguras e ambientalmente mais sustentáveis na atual resposta à pandemia e nos futuros esforços de preparação para outras emergências de saúde semelhantes, destacando histórias de países e organizações que as puseram em prática com o espírito de “reconstruir melhor”.
Algumas das recomendações incluem a utilização de embalagens e de transporte ecológicos, de EPP seguros e reutilizáveis (por exemplo, luvas e máscaras médicas), de materiais recicláveis ou biodegradáveis; investimento em tecnologias de tratamento de resíduos que não impliquem queimá-los, tais como autoclaves; logística inversa, que vá do consumidor ao produtor, para apoiar o tratamento centralizado dos resíduos e investimento no setor da reciclagem para garantir que os materiais, como os plásticos, possam ter uma segunda vida.
O desafio que os resíduos resultantes da covid-19 impõe tal como a crescente urgência em abordar a sustentabilidade ambiental oferecem uma oportunidade para reforçar os sistemas e para reduzir e gerir de forma segura e sustentável os resíduos provenientes das unidades de cuidados de saúde. Isto pode ser conseguido através de políticas e regulamentos nacionais fortes, monitorização, relatórios regulares e maior responsabilização, apoio à mudança de comportamento e desenvolvimento da força de trabalho e ao aumento dos orçamentos e financiamento para a área.
Esta análise da OMS surge numa altura em que os setores da saúde dos vários países estão sob uma pressão crescente para reduzir a sua pegada de carbono e minimizar a quantidade de resíduos enviados para aterros, o que em parte se deve à grande preocupação com a proliferação de resíduos plásticos e os seus impactos na água potável, nos sistemas alimentares, na saúde humana e nos ecossistemas.
Organização Internacional para Migrações e Agência da ONU para Refugiados estão “consternadas” com assassinato de Moïse Kabagambe, de 24 anos, que foi espancado de forma brutal; ele saiu com a família da RD Congo e encontrou refúgio no Brasil há oito anos.
Quase 90% dos pântanos ao redor do mundo foram degradados desde 1700 e segundo a Convenção sobre as Zonas Úmidas, essas áreas são perdidas três vezes mais rapidamente do que as florestas.
Para chamar atenção universal sobre a importância das zonas úmidas, as Nações Unidas comemoram, pela primeira vez, o Dia Mundial dos Pântanos nesta quarta-feira, 2 de fevereiro. A data já era celebrada por diversas entidades, mas foi em agosto de 2021 que a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução para incluir oficialmente o dia no calendário da organização.
Apelo por mais investimentos
Foto: UNDP China/2018
A degradação dos pântanos ameaça a vida selvagem.
A ONU lembra que esses ecossistemas contribuem para a biodiversidade, para a mitigação do clima, para o fornecimento de água fresca e muito mais. Neste ano, o dia mundial tem como tema “Ação pelos Pântanos para Pessoas e Natureza”, pedindo mais esforços e investimentos na conservação, no manejo e na restauração das zonas úmidas.
Segundo o Programa Mundial do Meio Ambiente, Pnuma, os pântanos têm desaparecido com rapidez pois acabam sendo drenados para projetos de agricultura, de desenvolvimento ou outros usos “produtivos” nessas áreas.
O Pnuma explica que os pântanos armazenam mais carbono do que qualquer outro ecossistema. As turfeiras, por exemplo, guardam o dobro de carbono do que as florestas.
Pantanal é exemplo
Foto: UNDP China
Quase metade do pântano em província chinesa foi perdida devido ao desmatamento.
Os ecossistemas úmidos também absorvem excesso de água e ajudam a prevenir enchentes e secas, sendo essenciais para que as comunidades se adaptem à mudança climática. A agência cita o Pantanal brasileiro como “exemplo icônico de pântano cercado por vida selvagem”.
Essa união entre pântanos e espécies animais é “chave para acabar com as perdas de biodiversidade”. De acordo com o Pnuma, mais de 140 mil espécies, incluindo 55% de todos os peixes, dependem de ambientes com água fresca para sobreviver.
Ainda assim, as espécies que vivem em pantanais estão sendo extintas com mais rapidez do que os animais terrestres ou marinhos, devido à poluição e perdas de habitat.
Umaro Sissoco Embaló demonstrou “situação normalizada” após invasão do Palácio Presidencial por homens armados; jornalista da TV estatal, Amatijane Candé, fala à ONU News sobre incidente que foi contido por forças governamentais nesta terça-feira.
Foto de USGS | A erosão costeira revela a extensão da camada ativa subjacente rica em gelo permafrost na planície costeira do Ártico na Área Especial do Lago Teshekpuk da Reserva Nacional de Petróleo no Alasca.
O permafrost da Terra está a descongelar, e as comunidades indígenas do Ártico e os cientistas de todo o mundo dizem que é mais que tempo de esta alarmante perda de gelo terrestre receber a atenção mundial e a investigação que merece. À medida que este fenómeno reconfigura paisagens, desloca aldeias inteiras e perturba habitats animais frágeis; também ameaça libertar microrganismos perigosos e potenciais emissões de carbono que têm estado encerrados no gelo durante milhares de anos.
O Ministro da Justiça de Tuvalu, Simon Kofe, fez manchetes durante a COP26, no passado mês de Novembro, ao dirigir-se à Conferência das Nações Unidas sobre o Clima, enquanto se encontrava ajoelhado na água do mar.
“Estamos a afundar-nos”, disse ele, salientando o perigo existencial que a subida do nível do mar, alimentada pelas alterações climáticas, representa para as nações insulares de baixa altitude do mundo.
O vídeo de Tuvalu tornou-se viral. A imagem foi impactante, tal como as mensagens vindas de outras ilhas do Pacífico, como Kiribati e Fiji, nos últimos anos, mostrando cidades inteiras a serem movidas mais para o interior à medida que aldeias sucumbem lentamente ao mar à sua volta.
Foto do Ministério da Justiça, Comunicação e Negócios Estrangeiros, Governo de Tuvalu | O político de Tuvalu, Simon Kofe, fala em nome de Tuvalu num vídeo pré-gravado para a COP26.
Uma tragédia igualmente preocupante, mas muito menos chamativa, está a ocorrer no lado oposto do globo: o Árctico, onde as temperaturas crescentes estão a diminuir o tamanho dos antigos glaciares, a diluir o gelo marinho e a descongelar o permafrost do planeta.
O permafrost é solo abaixo da superfície da Terra que tem estado continuamente congelado durante pelo menos dois anos consecutivos e na maioria dos casos, durante centenas ou milhares de anos. Estende-se por um quarto do Hemisfério Norte, incluindo muitas regiões que não estão cobertas de neve.
Este solo congelado está presente sob grandes partes do Alasca, Canadá e Sibéria, onde as pessoas, na sua maioria comunidades indígenas, viveram, trabalharam, e caçaram durante centenas de anos.
Forçados a abandonar as suas casas devido às alterações climáticas
Foto de Eriel Lugt | Eriel Lugt, jovem ativista inuíte de Tuktoyaktuk, cuja a costa tem vindo a sofrer erosão durante anos devido ao descongelamento do permafrost.
“No meu futuro e no da nossa juventude, imagino a nossa comunidade a ser completamente deslocalizada”, diz Eriel Lugt, uma ativista indígena inuíte de 19 anos, proveniente da região árctica do Canadá, à ONU News.
Apesar de imagens desoladoras de ursos polares desnutridos que lutam para enfrentar as mudanças da paisagem ártica poderem estar agora incorporadas no nosso cérebro, o pensamento de assentamentos humanos inteiros terem de ser relocalizados ou de comunidades indígenas terem de repensar o seu modo de vida tradicional não é algo de que ouçamos falar muito.
“Quando soube do clima pela primeira vez, estava no 9º ano e não tinha percebido que as alterações climáticas estavam a acontecer tão rapidamente na minha própria comunidade, mesmo à frente dos meus olhos”.
De facto, durante anos a sua cidade natal, Tuktoyaktuk, tem sofrido as consequências da nossa criosfera em fusão.
“Aqui em Tuktoyaktuk toda a nossa terra está em permafrost”, explica ela, “O descongelamento está a mudar completamente a nossa estrutura terrestre e, consequentemente, a vida selvagem que nos rodeia também está a ser afetada”.
O derretimento deste solo congelado abaixo da superfície que cobre cerca de 9 milhões de milhas quadradas (o equivalente a 23,3 milhões de quilómetros quadrados) do norte do nosso planeta é-nos pouco visível, mas os seus efeitos não são. Estradas, casas, condutas, instalações militares e outras infraestruturas estão a desmoronar-se ou a começar a tornar-se instáveis.
Muitas aldeias do norte, como Tuktoyaktuk, são construídas em permafrost, que quando está congelado é mais duro que o betão. No entanto, à medida que o planeta aquece rapidamente (e o Ártico pelo menos duas vezes mais rápido do que outras regiões), o solo em degelo sofre uma erosão, o que pode desencadear deslizamentos de terra.
Além disso, a redução e as alterações do gelo marinho deixam as aldeias costeiras mais vulneráveis aos surtos de tempestade.
“A nossa comunidade é conhecida por ter ventos fortes em todos os Verões existem dias em que o vento faz subir o nível do mar, pelo que esse é outro problema que enfrentamos… Todos os Invernos reparo em como a nossa zona costeira perde cerca de um centímetro de terra”, salienta Eriel.
Alguns dos seus vizinhos, que viviam mesmo na tundra acima da praia, já foram forçados a deslocar-se para o interior.
“O solo estava basicamente a ceder por baixo das suas casas”, explicou ela.
Foto de US Geological Survey/NASA | Camadas do permafrost: camada ativa (esquerda superior), permafrost (esquerda inferior) e clivagem de gelo (direita).
Consequências para a saúde humana e acesso à água
Susan M. Natali é uma cientista do Woodwell Climate Research Center* e tem vindo a estudar o degelo do permafrost no Ártico há mais de 13 anos.
“Consigo ver as mudanças e é devastador. Nem sei se consigo comunicar a magnitude do impacto que isto está a ter nas pessoas. Elas estão literalmente a ter de levantar as suas casas e levá-las para fora do terreno em colapso. Isto é algo que poderiam ter feito talvez uma vez por ano, no passado, mas agora estão a fazê-lo cinco vezes por ano, porque as suas casas estão sempre a inclinar-se”, descreve a cientista.
Natali explica que o descongelamento do permafrost também está a causar o colapso de unidades de armazenamento de combustível e observa que certos aterros sanitários, que antes se encontravam em áreas secas, estão agora a derramar resíduos e materiais tóxicos como o mercúrio em lagoas e rios.
“Os rios são onde as pessoas obtêm a sua água e onde pescam, pelo que há impactos na saúde humana… O descongelamento está também a provocar o aprofundamento da água de alguns rios, tornando mais difícil o acesso a água limpa”, acrescenta.
Outro problema é que muitas comunidades se deslocam através da terra no Inverno e dos rios e lagos congelados, que já não estão “a congelar” o suficiente para permitir qualquer travessia.
“Isto não é apenas um risco para a saúde, mas também está a afetar o acesso das pessoas aos alimentos. Há tantas coisas a acontecer, porque este é um problema multifacetado com impacto tanto nos sistemas naturais como nos sistemas sociais… Isto é algo que é agora uma realidade para as pessoas que vivem no Ártico e tem sido uma realidade durante muito tempo”.
Foto de Chris Linder | A Dra. Susan Natali, cientista do Woodwell Climate Research Centre, estuda permafrost na região do delta do Yukon-Kuskokwim no Alasca.
Os seres humanos e a vida selvagem
Eriel Lugt não estranha as afirmações da cientista, já que o seu povo está nas suas terras há centenas de anos, sabendo onde caçar e como viajar, mas agora estão a ser forçados a adaptar-se.
“Os antepassados ensinaram gerações e gerações para onde precisamos de ir enquanto viajamos, como quais as rotas do gelo e da terra que são seguras para passar. Com as alterações climáticas, a terra tornou-se perigosa porque os nossos caçadores já não têm tanta certeza de qual é a rota mais segura a seguir”.
As comunidades indígenas inuítes não são as únicas que tiveram de aprender a adaptar-se.
De acordo com o coordenador principal do Capítulo das Regiões Polares do Relatório Especial do IPCC sobre Oceanos e Criosfera e Chefe do Programa de Conservação para o Ártico na WWF, Martin Sommerkorn, os habitats dos animais da região e as suas condições de vida também estão a sofrer uma transformação.
“O Ártico vai aquecer duas a três vezes mais do que a média global ao longo deste século. Portanto, quando estamos a falar de um aumento de 1,5ºC graus globalmente, isso traduz-se num aumento de 3 graus no Ártico”, explica ele.
Isto significa ondas de calor mais frequentes tanto no Inverno como no Verão, sendo que alguns dos que ele chama “efeitos indiretos” já estão a acontecer.
“As ondas de calor conduzem a incêndios e surtos de insetos na terra e, em conjunto, enfraquecem os ecossistemas, que simplesmente ardem. [Estes] ficam muito vulneráveis a surtos de insectos, que têm efeitos em cascata em todo o ecossistema, tornando muito difícil a existência das espécies ártica nestes locais”, acrescenta o Dr. Sommerkorn.
O especialista diz que, no entanto, só não há uma extinção imediata das espécies do Ártico em muitos locais porque, tal como em alguns assentamentos humanos, os animais se estão a deslocar mais para norte para escapar ao aquecimento.
“Estamos a receber relatos desesperados da vida selvagem. Por exemplo, os caraíba têm vindo a escapar ao calor do Verão e a estes incêndios florestais e também, no mar, estamos a assistir a uma tomada completa dos ecossistemas marinhos, anteriormente árticos, por comunidades de peixes boreais. Há impactos que se podem ver sempre que se está lá em cima”.
Sommerkorn acrescenta que, contudo, a migração de espécies para norte, ou em termos biológicos “mudanças de alcance”, tem alguns limites difíceis em locais como a Sibéria, onde são muito poucas as ilhas a norte da linha costeira.
Unsplash | Um caribu da montanha.
Porquê preocupar-se? Os impactos globais
Mas porque deveria o mundo inteiro preocupar-se com o que está a acontecer no Ártio? A Dra. Natali explica que o que está a acontecer ali tem impacto no futuro de todo o planeta:
“Há muito carbono armazenado nas regiões de permafrost, que agora permanece congelado. Está bloqueado e, por isso, quando estas regiões degelarem, o planeta torna-se mais vulnerável por [o carbono congelado] ser libertado na atmosfera, exacerbando assim as alterações climáticas”, esclarece à ONU News.
O material vegetal e animal congelado em permafrost, o chamado carbono orgânico, não se decompõe nem apodrece. Mas à medida que o permafrost degela, os micróbios começam a decompor o material e libertam gases com efeito de estufa, tais como dióxido de carbono e o metano, para a atmosfera.
“[O permafrost] Transforma-se apenas nesta espécie de solo orgânico, que se tem vindo a acumular há milhares e milhares de anos, pelo que é um reservatório de carbono que não foi produzido agora. Não faz parte do nosso ciclo de carbono ativo… É um reservatório de carbono fóssil que não faz parte do nosso sistema terrestre há muitos milhares de anos”, enfatiza Natali.
Sommerkorn acrescenta que mesmo sob baixos níveis de aquecimento global, o descongelamento do permafrost poderia representar as emissões de um país de tamanho médio.
“E poderiam crescer muito mais… isso é o que sabemos. O que não sabemos é quanto disso será compensado no local. No sentido de: quanto mais plantas novas irão crescer em solos que se encontram em permafrost? Conseguirão neutralizar o carbono libertado? Mas [o que é certo é que] estas emissões virão”, explica.
CIFOR/Nanang Sujana | Florestas de turfeiras como esta no centro de Kalimantan, Indonésia, podem armazenar gases de dióxido de carbono nocivos.
Ele dá o exemplo de turfeiras na Escócia, o anfitrião da última COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima, e um país que trabalha para conseguir reduzir as suas emissões em mais de 50% antes de 2030.
As turfeiras são ecossistemas de zonas húmidas terrestres em que as condições de alagamento das águas impedem que o material vegetal se decomponha totalmente (e liberte carbono).
“Estamos a lutar em grande escala e ainda não temos uma solução para as emissões herdadas das turfeiras drenadas, que foram disponibilizadas para a agricultura e silvicultura. Uma vez drenadas, [estas turgeiras] terão o mesmo resultado que o descongelamento do permafrost em muitos lugares: estaremos a comprometer-nos com séculos de emissões sem que haja algo que se possa fazer”.
Neste momento, as emissões provenientes de turfeiras drenadas há décadas são quase um quinto (18%) das emissões da Escócia. O país está agora numa corrida para tentar recuperar estes elementos que ajudam a retirar e a reter carbono.
“É uma contribuição forte e constante numa altura em que estamos a tentar desesperadamente manter-nos dentro do nosso orçamento atmosférico para a Escócia… o carbono do permafrost virá (também) num momento muito, muito inconveniente para nós”.
Mas ao contrário das turfeiras drenadas, o descongelamento do permafrost não pode ser invertido durante a vida de um ser humano, enquanto a temperatura global continua a aumentar.
Além disso, quando o permafrost descongela, o mesmo acontece com bactérias e vírus antigos, que residem no gelo e no solo, o que pode ameaçar a saúde humana e da vida selvagem.
Segundo as estimativas da NASA, existirão micróbios com mais de 400.000 anos de idade nas parcelas de permafrost descongelado.
A necessidade de ciência e adaptação
Foto de Carl Churchill/ Woodwell Research Center | Mudança no mapa da extensão permafrost.
Em 2019, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) chamou ao degelo do permafrost uma das 10 questões emergentes de maior preocupação ambiental. Nessa altura, os limites do permafrost a sul do Ártico tinham recuado 30 a 80 km para norte, uma perda significativa em termos de cobertura.
Em 2020, o PNUMA apoiou um estudo sobre a Resposta Rápida ao Permafrost a Nível Costeiro (Coastal and Offshore Permafrost Rapid Response), no qual participaram residentes de Inuvik e Tuktoyaktuk, no oeste do Ártico canadiano.
Centenas de pessoas assistiram a um apelo para um dia comunitário da ciência em “Tuk”. O estudo concluiu que as pessoas que vivem ao longo da costa do Ártico geralmente apreciam os esforços da comunidade científica para compreender melhor os processos do permafrost e a sua mudança.
No entanto, as populações raramente estiveram diretamente envolvidas na ciência, no fornecimento de apoio logístico, ou, mais importante ainda, na orientação da investigação científica para questões de importância para os povos do Ártico.
Por isso, o PNUMA apelou à incorporação dos conhecimentos ecológicos tradicionais dos ambientes e processos costeiros em programas de investigação sempre que possível.
“É espantoso para mim como as pessoas estão a lidar com isto, porque não existe um sistema de apoio. Só posso falar pelos Estados Unidos, mas não existe um sistema de apoio para lidar com a adaptação às alterações climáticas. É quase como se as alterações climáticas estivessem a acontecer mais depressa do que a ciência. Há pessoas a lidar com isto quase sozinhas e a procurar apoios para lidar com isto, mas não há um quadro de governação”, salienta Natali, que recentemente foi testemunha sobre o assunto perante o Congresso dos EUA.
Newtok, uma aldeia no Alasca, tornou-se numa das primeiras comunidades na América do Norte a ser deslocada devido às alterações climáticas.
Os seus habitantes, a tribo Yup’ik, viram a sua cidade desmoronar-se pouco a pouco devido ao degelo do permafrost, com a água a tomar o seu lugar ao ponto de já terem decidido mudar-se.
Desde 2019, têm sido progressivamente deslocados para a nova aldeia de Mertarvik, que fica a nove milhas (aproximadamente 14,5 quilómetros) de distância.
Foto de USGS/Christopher Arp | A erosão do permafrost na Costa Ártica do Alasca.
Falta de visibilidade
Entretanto, no Canadá, em Setembro de 2021, foi dito aos residentes de Tuktoyaktuk que a proteção da sua cidade contra as alterações climáticas custaria pelo menos 42 milhões de dólares e que quaisquer medidas para esse efeito só teriam uma duração “garantida” até 2052.
Num esforço de adaptação, os engenheiros empreenderam diferentes opções para proteger a linha costeira: uma delas consistiu em colocar camadas de isolamento de esferovite e geo-têxtil para proteger o permafrost do aumento da temperatura.
Tuktoyaktuk está a sofrer uma erosão dos solos a uma média de dois metros por ano. Ao ritmo actual, toda a ilha desaparecerá até 2050, a menos que se ponha em prática a medidas de mitigação. No entanto, este não é um caso isolado, já que outras comunidades norte-americanas e siberianas poderão vir a sofrer um destino semelhante.
Eriel Lugt e o seu povo sabem disso. Há dois anos que ela trabalha num programa de monitorização climática, onde, em conjunto com outros habitantes locais, recolhe amostras do solo e regista quaisquer alterações.
“Pessoalmente, penso que se um número suficiente de pessoas em todo o mundo conhecesse realmente a situação das alterações climáticas e se os líderes a reconhecessem mais, então seria tratada”.
Lugt e três outros jovens activistas inuítes tiveram a oportunidade de contar a história de como a sua cidade está a lidar com um clima em mudança durante a COP25 em Madrid, em Dezembro de 2020.
Nessa ocasião, partilharam um trailer de Happening to Us, um filme que realizaram em colaboração com a sua Corporação Comunitária, assim como cineastas e académicos canadianos.
Existe uma solução?
A cientista Susan M. Natali explica que embora agora não possamos inverter o degelo do permafrost – porque já começou – a ambição é a chave para evitar o pior de tudo.
“Acredito que mesmo nos nossos cenários mais ambiciosos (para reduzir as emissões globais de carbono e subsequente aquecimento), vamos perder provavelmente 25% do permafrost à superfície e, consequentemente, parte do carbono que lá se encontra irá para a atmosfera. Mas isto é muito melhor do que cenários menos ambiciosos, que nos poderiam conduzir a 75% de descongelamento [do permafrost]. O permafrost é um multiplicador das alterações climáticas e por isso precisa de ser um multiplicador de ambições”, salienta ela.
Sommerkorn explica que ainda não há uma suficiente compreensão geral dos efeitos a longo prazo das mudanças na criosfera (elementos congelados do mundo), ao nível da tomada de decisões políticas.
“Estas mudanças têm uma ligação directa com as ambições para 2030. O IPCC disse-o claramente: temos de reduzir as emissões em 50% até 2030, em comparação com os níveis de 2010, se quisermos ficar abaixo de um aumento de 1,5ºC e a criosfera não nos dá o luxo de ultrapassar este limite… Vamos desencadear limiares de fusão, que não podem ser desfeitos. É muito, muito difícil fazer com que os glaciares voltem ao seu estado original. É basicamente impossível fazer voltar a crescer o permafrost sob temperaturas elevadas”.
O perito explica que ao reduzir as emissões e as taxas de aquecimento, estamos também a reduzir as taxas de derretimento e a adiar a subida do nível do mar, dando às pessoas tempo e métodos para se adaptarem.
“Temos de tomar decisões urgentes agora quando planeamos infra-estruturas, cidades, etc., e podemos fazê-lo em partes do mundo que têm o conhecimento técnico e fundos para o financiamento [dos projetos]. Outras precisam de ajuda no financiamento da adaptação”, acrescenta Sommerkorn.
Foto da WWF/Laura Margison | Dr. Martin Sommerkorn, Chefe de Conservação do Programa Ártico do WWF.
Um apelo urgente aos líderes mundiais para agirem
O Chefe de Conservação da WWF fez parte de um grupo de cientistas e comunidades polares e montanhosas que apelaram aos líderes da COP26 para dedicar mais atenção aos terríveis impactos globais da perda de geleiras e de camadas de gelo.
“Durante demasiado tempo, os elementos congelados do nosso planeta têm estado ausentes do debate sobre o clima na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC), embora o seu papel seja crucial para o futuro de mais de mil milhões de pessoas e o nosso clima esteja a tornar esse facto ainda mais claro”, disse, na altura, pedindo aos organizadores da COP que criassem um espaço dedicado à discussão de ações a serem tomadas em resposta à crise da criosfera.
De acordo com a expert em permafrost, a Dra. Natali, não incorporando todos os dados importantes do sistema do nosso planeta, como os gases com efeito de estufa resultantes do degelo do permafrost, tornará quase impossível alcançar a meta de aquecimento a não mais de 1,5º C, estabelecida pelo Acordo de Paris.
“É um desafio suficientemente grande convencer as nações a assumirem os compromissos e a agirem. No entanto, imagine que nem sequer estamos a apontar para o alvo certo, que é essencialmente o que está a acontecer neste momento, visto que nem sequer estamos a fazer as contas certas, já que o permafrost não é totalmente contabilizado nas estimativas, porque as pessoas não estão a pensar nisso”, adverte ela.
A cientista acrescenta que embora o controlo físico das emissões de permafrost no solo não seja viável, distribuir os dados e conhecimentos científicos, depositando-os nas mãos do público e dos decisores políticos é.
“As ações que tomamos noutros locais têm um efeito multiplicador, certo? Quanto mais reduzimos as emissões de combustíveis fósseis, mais protegemos as florestas… desta forma estamos também, por sua vez, a reduzir as emissões que sairão do permafrost e o impacto nas comunidades do norte”, explica.
Sem mais nenhum aviso precoce
Foto de Chris Linder | Derretimento do Permafrost na Sibéria perto de Cherskii, Rússia.
Os cientistas pedem que seja reservado um dia temático durante a próxima ronda de conversações climáticas da ONU, a COP27, para um diálogo dedicado à criosfera, a fim de discutir com os líderes os impactos e as consequências da paisagem em mudança.
“Não basta olhar para relatórios anteriores do IPCC e levar por diante o nosso entendimento de que o derretimento da criosfera e os seus efeitos nas regiões polares são um sinal de alerta precoce. Não, neste momento, já não há realmente um sinal de alerta precoce, pois [estes derretimentos] estão a impulsionar as alterações climáticas e os seus impactos a nível global”, salienta Sommerkorn.
O perito observa que o preâmbulo do texto final da COP26 diz o seguinte: “Precisamos de garantir a integridade dos ecossistemas, incluindo a criosfera.”
“Basta dizer isto para demonstrar que o assunto não foi totalmente tido em conta e totalmente compreendido, pelo que pediremos que essa comunicação avance”, acrescenta ele.
Para o Dr. Sommerkorn, Glasgow deixou ao mundo uma possibilidade acrescida de aumentar as contribuições através do Acordo de Paris, e este impulso em frente deve ser utilizado para alcançar a redução de 50% das emissões até 2030.
“Penso que a boa mensagem aqui é que está de facto nas nossas mãos. Fizemos alguns progressos em matéria de boa governação global na COP26. Nem tudo é desastroso, mas temos de encontrar formas de traduzir realmente isso em ações urgentes. E essa é a chave para a crise da criosfera”.
*Os cientistas da Woodwell ajudaram a lançar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em 1992 e partilharam o Prémio Nobel com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas em 2007.
Prioridade é garantir maior segurança e resiliência no processo em tempos de pandemia; parceria entre Nações Unidas e autoridades timorenses adapta materiais e amplia instalações durante pleito; ações incluem capacitação e inclusão de jovens, mulheres e pessoas com deficiência. *