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Podemos alimentar o mundo e garantir que ninguém passa fome?

Hoje, no mesmo planeta onde cerca de 821 milhões de pessoas sofrem de desnutrição crónica, 30% de todos os alimentos produzidos acabam por ser desperdiçados. A fome continua a aumentar em algumas regiões do mundo e, mesmo assim, 1,3 mil milhões de toneladas de comida por ano vão parar ao lixo. É tempo de refletir. Estamos a fazer o suficiente, em Portugal e no mundo, para garantir que todos têm uma alimentação completa?

Nos últimos vinte anos, o acelerado crescimento económico e o aumento da produtividade agrícola fizeram cair para metade o número de pessoas no mundo que não dispunha de alimento em quantidade suficiente. Nas regiões da Ásia Central e Oriental, da América Latina e das Caraíbas têm-se registado grandes progressos na erradicação da fome extrema.

Apesar desta tendência animadora, a fome ainda persiste, principalmente em África e na América do Sul, onde há indícios que a desnutrição e a insegurança alimentar grave estão a aumentar. Na África Subsariana, o número de pessoas subnutridas aumentou de cerca de 195 milhões, em 2014, para 237 milhões, em 2017. A má nutrição na região é responsável por quase 50% das mortes de crianças com menos de 5 anos, o que perfaz cerca de 3,1 milhões de crianças por ano.

Crianças comem a sua refeição
Um grupo de crianças com fome toma uma das duas refeições quentes que recebe todos os dias, no Centro de Nyakabande, no Uganda. ACNUR / Frederic Noy

Atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável #2 de Erradicar a Fome continua a ser um grande desafio. Sobretudo se considerarmos o futuro próximo: segundo a ONU, a população global deverá chegar aos 9,7 mil milhões em 2050.

De acordo com um estudo recente do Programa Alimentar Mundial, as causas para o aumento da fome incluem a degradação ambiental, a seca – ambas potenciadas pelas alterações climáticas – e os conflitos.

A falta de biodiversidade na agricultura também é motivo de preocupação e é responsável por dietas homogéneas que limitam o acesso aos alimentos e que, por sua vez, motivam a persistência da desnutrição e da pobreza. Ao olharmos para o total da produção agrícola, descobrimos que este gira em torno de apenas 12 culturas agrícolas e que 60% de todas as calorias consumidas no mundo provêm apenas do arroz, do milho, do trigo e da soja.

Para o Programa Alimentar Mundial, embora não haja soluções mágicas para erradicar a fome, é necessário delinear uma estratégia assente em 5 pilares.

5 Medidas para Erradicar a Fome

  1. Maior proteção para os mais vulneráveis.
  2. Melhorar as infraestruturas.
  3. Reduzir o desperdício alimentar.
  4. Cultivar uma variedade mais ampla de culturas agrícolas.
  5. Concentrar os esforços na nutrição infantil.

Voluntário alimenta uma criança
Uma voluntária do ACNUR alimenta uma criança no abrigo coletivo de New Kawayan, nas Filipinas. ACNUR / P. Behan

Para além destas medidas, a inovação e a tecnologia estão a ser usadas a nível global para melhorar uma ampla gama de desafios na produção de alimentos. Aqui mostramos alguns exemplos:

Porcos da Papua Nova-Guiné na Cloud

Na Papua Nova-Guiné, onde os porcos desempenham um papel fundamental na cultura e economia do país, não há festa sem um assado de porco. A crescente procura global pela carne significa que os agricultores têm agora a oportunidade de vender os seus produtos para mercados locais e estrangeiros.

No entanto, para tal, eles precisam de comprovar que o seu gado cumpre os padrões internacionais e é aí que a tecnologia mais recente intervém.

Foi implantando um sistema de localização digital online que, pela primeira vez, verifica informações importantes sobre os porcos. Os dados animais incluem o seu pedigree, a sua alimentação e, caso estejam doentes, quais os medicamentos que foram prescritos, comprovando perante os importadores e consumidores a qualidade da carne que compram.

Eliminar os produtos químicos na Índia

Hoje, os fertilizantes e outros produtos químicos estão sobre forte escrutínio na Índia, sendo culpados pela degradação do solo e pela produtividade agrícola estagnada. As consequências socioeconómicas que daí decorrem, levam ao suicídio de milhares de agricultores todos os anos.

Contudo, em Andhra Pradesh, o Programa Ambiental da ONU está a apoiar a iniciativa “Orçamento Zero de Agricultura Natural” (ZBNF), que aproveita os recentes desenvolvimentos científicos e elimina a necessidade de produtos químicos, através, por exemplo, do revestimento das sementes com uma mistura de dejetos de vaca.

Esta dependência dos produtos cultivados em casa e prontamente disponíveis permite que os agricultores envolvidos no programa aumentem a biodiversidade e rejuvenesçam os seus solos, reduzindo os custos e aumentando os lucros. Transformando e protegendo os sistemas alimentares locais, a ZBNF assegura o bem-estar dos agricultores a longo prazo. Com a ampliação do programa, o governo regional pretende fazer de Andhra Pradesh o primeiro estado de “agricultura natural” da Índia.

Não ao desperdício no Egito

O Programa Alimentar Mundial tenta combater este desperdício através de campanhas como a #StopTheWaste, lançada no início de outubro. Esta campanha tem como objetivo a formação de um movimento global, destacando soluções simples que todos nós podemos adotar para combater o desperdício.

No Egito, onde cerca de metade dos tomates e um terço das uvas acabam por ser desperdiçados devido a práticas ineficazes antes de chegarem ao consumidor, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, fez uma parceria com o governo e com as cooperativas egípcias para encontrarem maneiras de limitar as perdas de alimento causadas por produções excedentes e práticas ineficientes. Este vídeo descreve algumas das soluções mais pragmáticas que resultaram dessa colaboração: https://bit.ly/31YBm7A.

Um trabalhador carrega dois cestos de tomates acabados de apanhar na perto de Nubaria, no Egito. FAO / Heba Khamis
Um trabalhador carrega dois cestos de tomates acabados de apanhar na perto de Nubaria, no Egito. FAO / Heba Khamis

O Cenário Português

Em Portugal, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, em 2018, 3,2% da população ainda se encontrava em situação de insegurança alimentar grave. Para além disso, o país ainda desperdiça 17% de todos os alimentos.

Essa percentagem corresponde a 1 milhão de toneladas de comida, o que quer dizer que, por ano, cada português desperdiça 97 kg de comida.

Para combater o desperdício alimentar, surgiram várias iniciativas em Portugal ao longo dos últimos anos.

A Cooperativa de Consumo Fruta Feia insiste que “a qualidade não se mede pela aparência” e pretende aproveitar os 33% de frutas e legumes que são rejeitados em Portugal por causa da sua aparência. A primeira delegação da cooperativa instalou-se no Intendente, em Lisboa, em 2013, e hoje são já 11 delegações que, no total, já evitaram o desperdício de 1.834 toneladas de alimentos.

O método seguido por esta cooperativa consiste na compra de frutas e vegetais aos produtores locais que não os conseguiram vender por razões meramente estéticas. De seguida, esses produtos são vendidos aos consumidores espalhados pelo país que estão registados no site da Fruta Feia.

A FairMeals é mais recente e envolve a tecnologia no processo. Desenvolvida em janeiro de 2018, a FairMeals é uma startup que nasceu da ideia de dois estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto: Christian Wimmler e Tiago Fernandes. Já disponível em formato App, a empresa divulga os excedentes alimentares dos seus estabelecimentos parceiros com descontos a partir de 50%. O cliente só tem de encontrar a sua oferta preferida e deslocar-se ao estabelecimento para pagar e levantar a oferta.

A empresa tem mais de 45 parceiros espalhados pelo Porto, Lisboa e Coimbra e apenas vendem excedentes alimentares que, de outro modo, acabariam no lixo. Além disso, a FairMeals doa 10% de todos os seus lucros a instituições de caridade.

ONU News

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