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Entrevista a Miguel Caldeira

Miguel Caldeira com a Diretora Executiva da UNICEF, Henrietta Fore.

“Não pode ser só o número de Objetivos, temos de acreditar na Agenda.”

Nome: Miguel Caldeira

Profissão: Assessor de Comunicação da representante especial do secretário-geral sobre a Violência contra a Criança.

Formação: Licenciado em Jornalismo e Comunicação Social e Mestre em Ciência Política na vertente de Advocacia e de Comunicação Política.

Outras funções: Jornalista na TVI, na Lusa e na SIC; Formador no Centro de Formação Protocolar de Jornalistas (Cenjor); Agente de Cooperação no IPAD / Instituto Camões.

Idiomas: Espanhol, Francês, Inglês, Italiano, Português, Sueco, Tétum

Naturalidade: Lisboa

Em 2006, enquanto trabalhava no Cenjor, Miguel Caldeira recebeu um telefonema que mudou a sua vida: acabara de ser convidado para participar num projeto de “media training” apoiado pelas Nações Unidas em Timor-Leste. Aproveitando as suas férias da SIC, depois de ter feito a cobertura do Mundial de 2006, agarrou a oportunidade. Ficou em Timor-Leste 4 anos mas nunca mais deixou as Nações Unidas. Fique a conhecer o seu trabalho aqui!

De Portugal para Nova Iorque, passando por Timor-Leste, como se dá a sua entrada no sistema das Nações Unidas?

Eu fui jornalista durante os primeiros 6 anos da minha vida profissional, uma profissão para a qual senti vocação desde muito cedo. Pouco depois de começar a minha carreira na TVI, abracei outro desafio que era também uma paixão: a educação. Fiz o curso de formação de formadores e pouco depois comecei a dar aulas de jornalismo televisivo no Cenjor. Uma experiência que me marcou muito. Foi graças a essa experiência que surgiu a oportunidade de trabalhar durante 3 meses com o Governo de Timor-Leste para ajudar a criar gabinetes de imprensa nos diferentes ministérios e dar formação a ministros e embaixadores em media training. Na altura, Timor-Leste era o mais novo país do mundo! O projeto correu bem e os 3 meses transformaram-se em 4 anos. Em Timor acabei por desempenhar outras funções o que enriqueceu muito a minha experiência pessoal e profissional. Trabalhar no terreno deu-me um conhecimento profundo das dificuldades e da razão de ser do meu trabalho na ONU. Vejo muitos paralelismos entre o jornalismo e o trabalho nas Nações Unidas: o trabalho para o outro, com o objetivo de transformar sociedades e tornar o mundo um lugar melhor.

Em Timor-Leste esteve ao serviço do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), envolvendo-se em vários projetos radiofónicos e de comunicação locais. Como descreveria essa experiência de terreno?

Foi um período profissional muito feliz da minha vida. Eu tinha uma ideia muito romantizada de Timor, em que não teria qualquer dificuldade com a língua, em adaptar-me ao país, a comida seria a mesma, a cultura muito parecida e não foi isso que encontrei. No primeiro projeto, que durou três meses, os ministros e embaixadores com quem tive a sorte de trabalhar eram fluentes em português, portanto não tive imediatamente esse choque. No segundo projeto, sim. Na altura, quase 10% da população timorense vivia em campos de deslocados por causa de tumultos sociais e políticos. O projeto ao qual me juntei geria uma equipa de rádio (que depois se tornou mais do que isso) que produzia programas de informação para chegar às pessoas que viviam nestes campos. O objetivo era não só informar sobre apoios disponíveis, para que tivessem condições dignas nos campos onde viviam, mas sobretudo ajudá-las a regressar às suas comunidades de origem. Era um projeto formado por uma equipa de 5 jovens aspirantes a jornalistas, sem formação académica e dos quais apenas 1 elemento falava inglês. Os restantes membros da equipa falavam apenas Tétum e Bahasa Indonésio, mas todos gostavam muito de rádio. Conclusão, aprendi Tétum num instante! O trabalho correu muito bem e, depois de sair, foi um projeto que ficou bem enraizado e que se manteve durante muitos anos, mesmo depois da extinção dos campos. Participei também num projeto de apoio aos órgãos eleitorais timorenses e à comunicação social, altura em que se fez pela primeira vez um levantamento sobre o número de jornalistas com dados desagregados por género, idade e distribuição geográfica. Deu-me muito gosto porque julgo que ajudei a tornar as primeiras eleições organizadas por instituições timorenses um sucesso, o que acabou por ajudar o meu percurso. Três meses depois, coordenei um projeto de dois anos do PNUD de apoio a rádios de comunidade, onde fizemos um estudo de viabilidade de um centro de formação para jornalistas, apoiámos a criação de legislação de imprensa e demos cursos de formação a jornalistas das rádios de comunidade. Foi um desafio grande, mas extraordinário porque conheci um país com realidades únicas e gente com grande paixão pelo jornalismo. Por fim, servi como agente de cooperação do IPAD (agora Instituto Camões), em que o meu trabalho consistia em divulgar a nossa língua e ajudar a Rádio e Televisão Timor-Leste a produzir e a falar em português, através da criação de duas redações (uma de televisão e outra de rádio), com o apoio da RTP e do Cenjor. Ao que sei, os jornalistas que descobrimos, e ajudámos a formar, continuam a produzir notícias e a informar os timorenses, o que muito me alegra e orgulha.

De Timor ficaram-lhe bastantes memórias e feitos. É mais fácil medir o impacto do seu trabalho em Timor-Leste, nos projetos com as comunidades locais, ou agora, em Nova Iorque?

Quando se trabalha com jornalistas é muito fácil medir o impacto porque estamos a formar alguém que vai escrever uma notícia que podemos ler no dia seguinte. É fácil medir imediatamente o impacto e a contribuição. Aqui [em Nova Iorque], o impacto do nosso trabalho é mais difícil de avaliar. É um trabalho de longo prazo, em que estamos mais afastados daqueles que tentamos servir. Nós não trabalhamos e vemos o impacto direto em comunidades locais em Nova Iorque. O que fazemos é colaborar com os Estados-membros para que estes possam proteger, nos seus países, as crianças de violência. Como há muitas etapas e estamos fisicamente longe, é mais difícil de medir esse impacto. Por exemplo, acompanhei a representante especial a Moçambique em novembro de 2019. Não conseguimos ver o impacto direto da lei sobre a Prevenção e Combate às Uniões Prematuras, que entrou em vigor no dia em que aterrámos em Maputo, não conseguimos dizer que temos histórias para contar, como “fizemos a diferença neste dia com esta ação”. No entanto, sei que, através do contacto e da sensibilização de agentes da autoridade e membros do Governo com instituições locais, líderes religiosos, organizações não-Governamentais e colegas da ONU no país, estamos a contribuir para garantir a proteção das crianças que vivem na Beira a longo prazo, sobretudo das raparigas.

Fazer do mundo um lugar melhor é um dos grandes objetivos da Agenda 2030. Nas funções que desempenha, como se comunica a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?

Faz parte do nosso ADN profissional seguirmos esses valores, porque acreditamos neles. Há pouco mais de 30 anos, foi adotada a Convenção do Direito da Criança, que é o tratado internacional na área dos Direitos Humanos mais ratificado da História. Embora para muitos o que está definido na Convenção sejam direitos e garantias “muito básicos”, como o direito inerente à vida, à identidade, nacionalidade, família, educação, proteção de violência, há ainda muito por fazer. Há 30 anos, por exemplo, não existia cyberbulling, não havia internet, as crianças não estavam expostas aos perigos que estão hoje. Estes novos desafios requerem que nos mantenhamos constantemente alerta e cada vez mais determinados em fazer cumprir a Agenda. As novas formas de violência que emergem por esse mundo fora reforçam a nossa motivação para que possamos inspirar os países e as pessoas, com quem trabalhamos, a cumprirem o que foi prometido com a Convenção e com a Agenda. Não pode ser só o número de Objetivos, temos de acreditar na Agenda. Os políticos que a fizeram demonstraram que acreditavam num mundo melhor, mas cumprir os objectivos parte de cada um de nós. Eu há dias ouvia alguém em Portugal dizer: “Ah, isto de não beber por uma palhinha de plástico é só uma gota no oceano”. Sim, é verdade, é só uma gota, mas se todos contribuirmos com “gotas”, conseguimos criar um oceano mais azul, mais limpo. Isto aplica-se ao jornalismo e à violência. Todos nós somos jornalistas quando chegamos a casa ou quando nos encontramos com alguém, contamos o nosso dia, fazemos uma seleção da informação, contamos primeiro o mais importante, tentamos fazê-lo de uma forma rigorosa, etc. Da mesma forma, se mantivermos uma conduta ética-moral respeitadora dos direitos e deveres de cada um, estamos todos a ser funcionários das Nações Unidas. Eu acredito que se todos nós tentarmos ser funcionários das Nações Unidas no nosso dia-a-dia, se fizermos o nosso papel como Agentes da Agenda, estamos a contribuir para que o mundo seja melhor.

Referia que todos somos jornalistas quando chegamos a casa, mas há informações mais difíceis de comunicar do que outras. As crianças são um tema muito acarinhado, muito querido. Como é que se comunica este tema tão sensível?

Miguel Caldeira
Miguel Caldeira

É muito difícil e esse é um dos desafios que mais me intrigam. Eu nunca ouvi, no meu trabalho como funcionário da ONU, alguém dizer que não concorda com a proteção das crianças de violência, nunca ouvi alguém dizer que as crianças devem ser maltratadas. No entanto, não há um país que possa dizer que não tem violência contra a criança dentro das suas fronteiras. Relembro que a Convenção do Direito da Criança foi ratificada por todos os países com assento na ONU, menos por um. Assim, se todos concordam que as crianças devem ser protegidas de violência, e ter os seus direitos salvaguardados, então porque é que continua a existir violência contra as crianças? Muito tem a ver com a vulnerabilidade das crianças. Porque há esta lógica: “se eu fui abusado emocionalmente e funcionou para mim, então vai funcionar também para as crianças de hoje, vai torná-las mais fortes.” E como [as crianças] não têm “voto na matéria” e são, sobretudo, dentro de casa, o elo mais fraco, torna-se difícil comunicar para as crianças e com as crianças. Por isso é, aparentemente, um tema que gera interesse e atenção, torna-se difícil de articular quando sabemos que, muitas vezes, para comunicarmos, estamos a expor uma criança e a aumentar os perigos, a violência e o estigma que a vai rodear. É uma matéria imensamente relevante, mas complicada de desconstruir. Por exemplo, muitas vezes dizemos que as crianças são o futuro. As crianças não são o futuro. No futuro, as crianças são adultos. As crianças são o presente e essa é uma das tónicas da nossa mensagem. Se continuarmos a pensar nas crianças como o futuro, estamos a desresponsabilizar-nos. Hoje é que temos de tomar conta e ajudar as crianças, informá-las melhor, trabalhar e mudar a mentalidade dos que hoje são adultos, que têm de proteger as crianças de hoje. Tudo isto são desafios do ponto de vista da comunicação que nos fazem pensar e que desafiam. Gosto muito de crianças, tenho 3 filhos e também aproveito a minha experiência pessoal para o trabalho porque penso que me torna um comunicador melhor.

A violência é um tema próximo e presente no lar, que não acontece apenas em contexto de conflito. Qual é o maior desafio para lidar com o problema no mundo atual e fazer passar a mensagem?

É uma pergunta muito complicada de responder… Na primeira parte, 100% de acordo. É uma realidade que existe em muitos lares em todos os países do mundo. É fundamental que os países façam um esforço para tentarem perceber a dimensão do problema. Há menos de 2 anos, o nosso Escritório ajudou a preparar um relatório apresentado pelo secretário-geral na Assembleia das Nações Unidas sobre bullying. Foi surpreendente perceber que muitos países alegaram que era uma realidade que não existia no país deles, por esta ou aquela razão. Então fechavam os olhos àquilo que se passava dentro das suas fronteiras. Sobretudo com o uso do digital, com a falta de conhecimento que existe em que os pais veem os filhos com os telefones na mão e não fazem ideia do que os filhos estão a usar, não percebem que há ali um mundo paralelo que de facto dá imensas oportunidades, mas que também expõe as crianças a enormes perigos e essa é uma das grandes preocupações. Esta é uma área onde o multilateralismo precisa urgentemente de ser valorizado porque deixa de haver fronteiras. Infelizmente, a nossa geração, que viveu no pré-digital, não está capacitada e hoje está a criar-se uma “cultura de quarto”. Uma cultura onde as crianças se fecham nos quartos com os telefones e vivem toda uma experiência que os pais não conhecem. Quando eu cresci, se queria sair de casa e os meus pais diziam-me que não eu ficava triste, mas ficava ali ao lado sem acesso ao exterior. Neste momento, as crianças estão ali ao lado, mas estão a viver uma vida paralela; uma vida que a mãe e o pai muitas vezes não conhecem ou sequer compreendem, e na qual estão muito pouco interessados em conhecer.

Tendo em conta a sua experiência pessoal, que conselho daria a todos aqueles que nos leem e que desejam seguir uma carreira na área da cooperação internacional?

Primeiro, perceber se têm o coração no sítio certo. É uma vida que não é fácil. Eu vivo fora de Portugal desde 2006, gosto muito de Portugal e uma vida nas Nações Unidas implica que, na maioria dos casos, se trabalhe num país diferente. Conhecer outros países pode ser divertido, mas como funcionários da ONU, infelizmente, muitas vezes, lidamos com o pior de cada país, com o pior de cada pessoa, porque estamos a tentar ajudar os países e as comunidades a ultrapassarem problemas, e estamos expostos ao pior – às vezes também ao melhor- que a Humanidade tem para oferecer. Por isso, é importante perceber se têm coração para isso, não só para aguentar a saudade, mas sobretudo para aguentar realidades tristes, para arregaçar as mangas e não ficar desmotivado. De seguida, perceber se se dão bem com outras pessoas. No meu Escritório trabalho com pessoas de 8 nacionalidades diferentes com uma bagagem cultural completamente diferente da minha, com pontos de vista completamente diferentes dos meus. É preciso haver uma enorme capacidade de cedência, de compreensão e sobretudo tentarem ser bons trabalhadores em equipa, porque se não for assim nunca se sentirão realizados profissionalmente. Se acreditam que viverão bem fora, que a Humanidade também é perversa, que foram feitos e talhados para trabalhar com pessoas diferentes, que querem mudar, evoluir, perder preconceitos, então sim: invistam. No entanto, estejam preparados pois requer muita paciência. Há muito boa gente pelo mundo fora que está interessada exatamente na mesma coisa e é necessária persistência e perseverança para acreditar que, se lutarem, vão lá chegar. Há muito falta de paciência, sobretudo entre as gerações mais novas, que pensam “quero mudar o mundo e ver os resultados imediatamente.” Às vezes os resultados demoram muito tempo. Devemos continuar a acreditar. Eu nunca pensei em trabalhar nas Nações Unidas, nunca foi o meu sonho de vida, mas há quase quinze anos tornou-se o meu objetivo de vida. Desde que me juntei à ONU, em 2006, estive em Timor-Leste 4 anos e tive 5 trabalhos diferentes e hoje estou no mesmo escritório há mais de 9 anos. São duas experiências completamente diferentes que me ajudaram a conhecer-me melhor e a perceber quem sou e do que sou capaz. Sugiro que se puderem comecem da mesma forma. Em primeiro lugar, com uma experiência no terreno, num país onde as pessoas precisem mais de ajuda, onde o desafio seja maior, para valorizarem as dificuldades, para relativizarem os problemas e para ajudarem a formar cidadãos melhores. Será sem dúvida menos apelativo e as condições de vida são mais complicadas, mas é um banho de humildade fundamental para quem quer dedicar a vida a ajudar o próximo.

Oceanos, a nossa casa partilhada

Tartaruga nada no meio do oceano. Créditos: Unsplash

Foi no imenso azul que, há 4 mil milhões de anos atrás, a vida se iniciou. Do mais pequeno organismo unicelular até à formação da gigante baleia azul, os oceanos testemunharam a evolução da vida, da Terra e da Humanidade. Hoje, são o maior ecossistema do planeta, casa para milhões de espécies e sustento para mais de 3 mil milhões de pessoas.

Os oceanos cobrem 71% da superfície terrestre e é a sua vastidão que dá significado à expressão “Planeta Azul”.

No entanto, há ainda muito que não sabemos sobre os oceanos. Mesmo após séculos de exploração marítima e de recentes e importantes avanços tecnológicos ao nível da cartografia, 80% do oceano ainda se encontra por explorar. 5 oceanos e mais de mil milhão de km3 de água salgada por descobrir.

Dia claro sobre o Oceano Ártico. Crédito: OMM / Kim Kenny
Dia claro sobre o Oceano Ártico. Os geógrafos dividem o imenso azul em 5 partes distintas: os oceanos Ántártico, Atlântico, Ártico, Índico e Pacífico. Crédito: OMM / Kim Kenny

Embora exista uma grande face do oceano por desvendar, sabemos já que o oceano tem um impacto direto em todos os aspetos da regulação do clima do planeta. É na sua superfície que se desenvolve o fitoplâncton, um conjunto de microrganismos microscópicos responsável pela absorção de 25% de todo o dióxido de carbono que emitimos e pela produção de metade do oxigénio que respiramos. É na sua imensidão que 90% do calor libertado pelas emissões de gases com efeito de estufa está armazenado e é nos seus mais de mil milhões de km3 de água salgada que reside o desfecho da batalha contra as alterações climáticas.

Como transformámos os oceanos

Por ser um corpo demasiado vasto, as consequências da atividade humana no oceano não se percecionam de imediato e só agora nos estamos a aperceber do real impacto da nossa pegada carbónica.

Em 2019, foi registada a temperatura mais quente de sempre no oceano. Em segundo lugar surge 2018 e em terceiro 2017.

Nos últimos 30 anos, a temperatura da água tem sido consistentemente mais elevada do que em qualquer outra época em registo, com a temperatura à superfície dos oceanos a subir uma média de 0.13ºC por década no último século. A subida da temperatura dos oceanos significa que a água evapora mais rapidamente, o que por sua vez alimenta tempestades mais fortes e mais frequentes. Com águas mais quentes, ecossistemas frágeis e cuidadosamente construídos ao longo de milénios ficam severamente ameaçados.

Hoje, já perdemos irreversivelmente 20% de todos os recifes de corais e manguezais.

Este aumento de temperatura desencadeia um efeito dominó com efeitos ao nível costeiro. O aquecimento das águas provoca uma maior expansão das suas moléculas constituintes, o que por sua vez instiga uma subida no nível médio da água do mar. Desde 1993, o nível médio das águas tem subido a um ritmo duas vezes mais rápido que as tendências de longo prazo, ajudado também pelo derretimento das calotes polares e glaciares.

Iceberg no meio do Oceano Antártico. Créditos: OMM / Jelena Uljankina
Iceberg no meio do Oceano Antártico. O aumento da temperatura média da água é responsável pelo degelo das calotes polares. A 13 de julho de 2017, uma placa de gelo do tamanho do estado norte-americano de Delaware desprendeu-se deste continente. Créditos: OMM / Jelena Uljankina

O aumento da temperatura dos oceanos tem ainda implicações químicas. A absorção de quantidades crescentes de dióxido de carbono diminui o pH da água, aumentando a sua acidez. Hoje, a acidez dos oceanos é 26% mais elevada do que na era pré-industrial. Esta acidificação é responsável pela diminuição das concentrações de carbonato de cálcio nos oceanos, o que torna mais difícil o desenvolvimento dos esqueletos e conchas de espécies dependentes deste mineral, como as ostras, ameijoas e corais.

Mesmo que parássemos de emitir dióxido de carbono amanhã, o CO2 já presente na atmosfera iria demorar décadas a desaparecer.

O que temos de proteger

A degradação do oceano tem implicações demasiado pesadas para a Humanidade e para a biodiversidade na Terra, com os cientistas a preverem que metade das espécies marinhas poderão ficar em risco de extinção até 2100.

“A batalha contra as alterações climáticas é a batalha da minha vida” (António Guterres), da nossa espécie. É preciso agir, agora.

Hoje, 17% de todas as águas sob jurisdição nacional já estão classificadas como áreas protegidas. Uma percentagem muito pequena, sobretudo se considerarmos que ainda 37% de as reservas de peixe estão a ser explorados a níveis biologicamente insustentáveis.

Segundo estimativas das Nações Unidas, para revertermos a deterioração dos oceanos será necessário aplicar um esforço único de 32 mil milhões de dólares e um esforço anual de 21 mil milhões de dólares. Em termos de comparação, o esforço anual deste investimento corresponde a apenas 0.024% do PIB da economia mundial (que é de 86 biliões de dólares) e fica ainda muito distante das perdas económicas anuais de 50 mil milhões de dólares derivadas da sobre-exploração das reservas de peixe.

Mais do que o esforço económico, falta-nos ambição política para salvar o oceano.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável #14 já se compromete a conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. É graças a este elemento tão importante da Agenda 2030 que os Estados-membros da ONU se empenham a acabar com a sobre pesca e a pesca ilegal até ao fim deste ano ou a reforçarem a cooperação científica a todos os níveis para alcançarem oceanos mais saudáveis e produtivos.

No entanto, a Agenda 2030 serve apenas como guia moral para os Estados-membros, estando refém da atuação específica de cada país. Torna-se, assim, necessário criar fóruns e espaços de discussão onde políticas reais e concretas possam ser debatidas e adotadas. É respondendo a este apelo que nasce a Conferência dos Oceanos, que se realizará em Lisboa, entre 2 e 6 de junho.

A Conferência pretende apelar a uma maior ação na conservação e regeneração dos oceanos e definirá a estratégia global para a conservação do maior habitat do planeta. É uma oportunidade única para desenvolver parcerias e fomentar o investimento na ciência, assumindo-se como a rampa de lançamento da Década das Ciências Oceânicas para o Desenvolvimento Sustentável, que terá início em 2021.

Porém, salvar os oceanos está nas mãos de todos nós. A nível local, é-nos possível adotar escolhas no nosso dia-a-dia que têm um impacto positivo na preservação dos oceanos. Consumir alimentos derivados de fontes de exploração sustentáveis, comprar apenas produtos certificados e não-poluentes, minimizar o uso de plástico e participar em ações de limpeza de praias e zonas costeiras são algumas das medidas que cada um de nós pode tomar para salvar os oceanos.

Só com o esforço e dedicação de todos nós será possível salvar o nosso Oceano!

Fontes:

https://www.nationalgeographic.com/environment/habitats/ocean/

https://www.nationalgeographic.com/environment/oceans/

https://www.britannica.com/science/ocean/Origin-of-the-ocean-waters

https://www.greenpeace.org/international/story/28712/the-bold-new-plan-to-rescue-the-worlds-oceans-explained/

https://www.sciencedaily.com/releases/2020/02/200224100558.htm

https://www.greenbiz.com/article/what-will-it-cost-save-earths-oceans

http://www.unoceans.org/home/en/

https://www.un.org/sustainabledevelopment/oceans/

Guterres: A igualdade de gênero é fundamental para um mundo melhor

O secretário-geral da ONU afirmou que “em todos os lugares, mulheres estão em situação pior do que homens, simplesmente porque são mulheres”,

A declaração de António Guterres ocorreu na New School, uma das universidades mais respeitadas de Nova Iorque, especializada em artes, design, políticas públicas e ciências sociais.

Desigualdade

Ele falou aos estudantes sobre “Mulheres e Poder” e afirmou que a falta de inclusão da mulher em processos decisórios é uma questão de poder.

O chefe da ONU contou que “como um homem nascido na Europa Ocidental”, desfrutou “de muitos privilégios.” Mas, relatou que a “infância sob uma ditadura militar em Portugal” abriu os seus “olhos para a injustiça e a opressão.”

Por isso, ao longo de sua carreira política, e ainda como líder da agência de refugiados das Nações Unidas, ele sempre se sentiu “compelido a lutar por justiça, igualdade e direitos humanos.”

Atualmente, Guterres disse que observa “uma grande injustiça em todo o mundo, um abuso que clama por atenção”, que são a “desigualdade de gênero e discriminação contra mulheres e meninas.”

Discriminação

Ele destacou que “as mulheres migrantes e refugiadas, pessoas com deficiência e as mulheres pertencentes a minorias de todos os tipos enfrentam barreiras ainda maiores.” Para ele, todos são prejudicados por essa discriminação.

Guterres afirmou que “assim como a escravidão e o colonialismo eram uma mancha nos séculos anteriores, a desigualdade das mulheres deveria” envergonhar o mundo no século 21. Para ele, isso não é apenas inaceitável, mas sim uma falta de inteligência.

O secretário-geral acredita que a “participação igual das mulheres é vital para a estabilidade, ajuda a evitar conflitos e promove o desenvolvimento sustentável e inclusivo.” Ele acrescentou que “a igualdade de gênero é o pré-requisito para um mundo melhor.”

Guterres mencionou jovens mulheres da atualidade, como Malala Yousafzai e Nadia Murad. Foto: ONU/Mark Garten/Manuel Elias

História

António Guterres lembrou que “as mulheres lutam por seus direitos há séculos.” Como exemplo, citou a rainha Nzinga Mbandi, do Mbundu, que há 500 anos “travou uma guerra contra o domínio colonial português” no que é hoje o território de Angola.

Outros exemplos foram Mary Wollstonecraft, autora da reivindicação dos direitos das mulheres em 1792, e Sojourner Truth, que fez um apelo apaixonado pelos direitos das mulheres enquanto lutava pela abolição dos escravos.

Guterres mencionou jovens mulheres da atualidade, como Malala Yousafzai e Nadia Murad, que “estão quebrando barreiras e criando novos modelos de liderança.”

Violência

Mas, apesar desses avanços, “o estado dos direitos das mulheres permanece terrível” e a “desigualdade e discriminação são a norma, em toda parte.”

O líder das Nações Unidas notou que “a violência contra as mulheres, incluindo o feminicídio, ocorre em níveis epidêmicos.” Dados da ONU indicam que mais de uma em cada três mulheres experimentará violência de alguma forma durante sua vida.

Segundo Guterres, as “proteções legais contra estupro e violência doméstica estão sendo diluídas ou revertidas.”  A prova é o estupro no casamento, que “continua sendo legal em 34 países.”

Os direitos sexuais e reprodutivos femininos também estão sendo “ameaçados por todos os lados.”

Um mural em uma parede da cidade egípcia de Tunis mostra o importante papel das mulheres na comunidade. Foto: ONU News/Matt Wells

Assédio

António Guterres lembrou que “líderes e figuras públicas femininas enfrentam assédio, ameaças e abuso, na internet e fora dela” e que as mulheres são excluídas de negociações de paz e também de  “governos aos conselhos corporativos e cerimônias de premiação”. E citou que “políticas que penalizam as mulheres, como austeridade e reprodução coercitiva, estão de novo na moda.”

Para ele, o mundo é “chefiado por homens, com uma cultura dominada por homens” e a “igualdade de gênero é fundamentalmente uma questão de poder.” Ele observou que “as estruturas de poder dos homens sustentam” as economias, sistemas políticos e corporações.

Hollywood

Ao falar do poder masculino fora da política, Guterres ressaltou que “a fama de Hollywood não protege as mulheres dos homens que exercem poder físico, emocional e profissional sobre elas”, e elogiou “aqueles que se manifestaram com coragem e revidaram.”

Ele acredita que “uma camada oculta de desigualdade está embutida nas instituições e estruturas que governam todas” as vidas, onde as “mulheres não são levadas em consideração e suas experiências não importam.”

Consequências

Entre as consequências, estão por exemplo, os riscos de as mulheres serem feridas em um acidente de carro, que segundo o chefe da ONU, são maiores porque “assentos e cintos de segurança são adequados ao padrão do homem.”

Outra indicação é a taxa de mortalidade de mulheres devido a ataque cardíacos, que é mais alta porque os instrumentos “de diagnóstico são projetados” com base em problemas apresentados por homens.  

Espaço

O espaço também foi usado como exemplo. Guterres lembrou que mais de 150 homens caminharam no espaço, mas que apenas um pequeno grupo de mulheres teve esta oportunidade, “em parte porque os trajes espaciais são projetados” para o padrão dos homens.

Guterres comentou ainda que “nenhuma mulher pisou na lua, embora as matemáticas tenham desempenhado um papel essencial na colocação de homens lá.” Segundo ele, “com demasiada frequência, ao lado da violência, controle, estruturas de poder dominadas por homens e discriminação oculta, mulheres e meninas enfrentam séculos de misoginia e ofuscação de suas realizações.”

Mulher deslocada pelo conflito em Diffa, no Níger, coleta água em ponto de distribuição. Foto: Ocha

Julgamento

O chefe da ONU disse que a “misoginia está em toda parte.” Desde a ridicularização das mulheres “como histéricas ou hormonais”, ao rotineiro julgamento delas “com base em sua aparência”, e também dos “mitos e tabus que cercam as funções corporais naturais das mulheres.”

Por outro lado, ele acredita que  “através dos séculos e culturas, palavras como “gênio” e “brilhante” são usadas com muito mais frequência para descrever mais homens do que mulheres.”

Homens

Para ele, os “danos causados ​​pelo patriarcado e pela desigualdade vão muito além das mulheres e meninas.” Guterres destacou que os homens “também têm um gênero”, e que quando este é definido de forma tão rígida, “pode prender homens e meninos em estereótipos que envolvem comportamento arriscado, agressão física e falta de vontade de procurar aconselhamento ou apoio.”

O chefe da ONU argumentou que a “igualdade de gênero traz enormes benefícios para as relações pessoais dos homens” e que quando eles “compartilham cuidados e passam mais tempo com suas famílias são mais felizes e têm filhos mais felizes.”

Por isso, “a transformação do equilíbrio de poder é essencial”. Segundo Guterres, é “fundamental resolver alguns dos problemas mais prejudiciais e difíceis de tratar” dessa  ​época, que vão desde “o aprofundamento da desigualdade e polarização até a crise climática.”

Áreas

O secretário-geral citou cinco áreas importantes para o alcance da igualdade de gênero. 

A primeira é relacionada ao conflito e a violência. Guterres destacou que “em algumas das partes mais violentas do mundo, os níveis de feminicídio, a morte de mulheres, são comparáveis ​​a uma zona de guerra” e que as taxas de impunidade “estão acima de 95% em alguns países”.

O chefe da ONU disse que, homens estão “travando guerra contra as mulheres, mas ninguém está pedindo um cessar-fogo ou impondo sanções.” Ele mencionou ainda o estupro e a escravidão sexual, que são “rotineiramente usados ​​como tática de guerra”.

E lembrou que “as Nações Unidas estão comprometidas em colocar as mulheres no centro” dos esforços de “prevenção, manutenção da paz, construção da paz e mediação, e em aumentar o número” de mulheres nas missões paz.

Foto: Ocha/Giles Clarke

Guterres destacou que a mudança climática têm um impacto desproporcional sobre mulheres e meninas.

Guterres destacou que a mudança climática têm um impacto desproporcional sobre mulheres e meninas. Foto: Ocha/Giles Clarke

Mudança Climática

A segunda área é relacionada à mudança climática, que segundo Guterres, é uma emergência existencial que é o “resultado de decisões tomadas principalmente por homens, mas que têm um impacto desproporcional sobre mulheres e meninas.”

Ele acrescentou que o “impacto da desigualdade de gênero na ação climática é mais profundo.” As iniciativas para reduzir e reciclar são predominantemente comercializadas para as mulheres, enquanto os homens são mais propensos a confiar em soluções tecnológicas não-testadas.

Além disso, existem “muitas evidências de que as mulheres são mais abertas que os homens para reduzir o seu impacto ambiental pessoal.”

Guterres disse que é grato aos jovens, incluindo muitos dos que estavam acompanhando o discurso dele, e “que estão lutando pela ação climática e igualdade de gênero, reconhecendo a realidade de identidades e soluções não binárias.” Para ele, “a postura machista não salvará” o planeta e a “igualdade de gênero, incluindo o aumento de homens e a responsabilidade, é essencial” para se vencer a emergência climática.

Inclusão

A terceira área é relacionada à construção de economias inclusivas. Guterres perguntou: Como posso dizer as minhas netas que as netas de suas netas ainda receberão menos que um homem pelo mesmo trabalho?

Em todo o mundo, as mulheres ainda ganham apenas 77 centavos de um dólar ganho pelos homens e a disparidade salarial entre os sexos é uma das razões pelas quais 70% dos pobres do mundo são mulheres e meninas.

Além disso, mulheres e meninas perfazem cerca de 12 bilhões de horas de trabalho como cuidadoras sem remuneração em todo o mundo, todos os dias, três vezes mais que os homens. Em algumas comunidades, elas podem passar 14 horas por dia cozinhando, limpando, buscando madeira e água e cuidando de crianças e idosos.

Guterres destacou que os “modelos econômicos classificam essas horas de “tempo de lazer”.” Ele observou acrescentou que “as mulheres que têm renda têm mais probabilidade do que os homens de investir em suas famílias e comunidades, fortalecendo as economias e tornando-as mais resilientes.”

Para ele, “os direitos e oportunidades econômicos iguais das mulheres são um imperativo global” na construção de uma “globalização justa que funcione para todos.”

Participantes do evento Investimento em Igualdade em Ciência, Tecnologia e Inovação na Era da Digitalização para o Desenvolvimento Sustentável. Foto: ONU/Manuel Elias

Tecnologia

A quarta área lida com a desigualdade no acesso à tecnologia digital, que para Guterres, pode ser “uma força enorme para o bem”. Ao mesmo tempo, ele disse estar “profundamente preocupado com a dominação masculina de profissões tecnológicas nas universidades, startups e Vales do Silício desse mundo.”

O secretário-geral observou que “esses centros de tecnologia já estão moldando as economias e as sociedades do futuro, com um enorme impacto na evolução das relações de poder.” Para ele, a menos que as “mulheres desempenhem um papel igual no desenvolvimento de tecnologias digitais, o progresso nos direitos das mulheres pode ser revertido.”

Representação política

A última área foca na representação política. Guterres lembrou que a “participação das mulheres em Parlamentos em todo o mundo dobrou nos últimos 25 anos. E agora representa cerca de 25%”

No entanto, menos de um décimo dos Estados são liderados por uma mulher.

Guterres defende que “as mulheres no governo impulsionam o progresso social e mudanças significativas na vida das pessoas” e que elas são “mais propensas a advogar por investimentos em educação e saúde e buscar consenso entre as partes e um terreno comum.” Para ele, “as mulheres na política estão redefinindo e redistribuindo o poder” e a participação delas “melhora as instituições”.

O chefe da ONU mencionou que uma de suas prioridades quando assumiu sua posição na Organização “foi trazer mais mulheres para postos de liderança” e que no primeiro dia deste ano, a paridade de gênero foi alcançada, “com 90 mulheres e 90 homens” nas posições de liderança sênior em tempo integral. Isso ocorreu dois anos antes da data prevista e o objetivo agora, é “alcançar a paridade em todos os níveis nos próximos anos.”

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: alcançar a igualdade de gênero e capacitar todas as mulheres e meninas. Foto: ONU News

Nações Unidas

Guterres destacou que “a igualdade de gênero faz parte do DNA das Nações Unidas”. Ao citar a Década de Ação para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ele lembrou que a “igualdade de gênero é um objetivo em si e essencial para alcançar os outros 16 objetivos.”

O secretário-geral disse que nos próximos dois anos, pretende aprofundar o seu “compromisso pessoal de destacar e apoiar a igualdade de gênero em todas as áreas” do trabalho da organização e que explorará “formas de maximizar a influência das Nações Unidas para garantir que as mulheres tenham igual representação nos processos de paz.”

Ele disse que está “comprometido em acabar com o pensamento de “homem padrão” nas Nações Unidas.”  

Feminismo

Guterres destacou que é preciso “transformar urgentemente e redistribuir o poder” para proteger futuro e o planeta, e que é por isso que “todos os homens devem apoiar os direitos das mulheres e a igualdade de gênero”. Ele acrescentou que é por isso que ele mesmo é “um feminista orgulhoso”.

Segundo o secretário-geral, “as mulheres igualaram e superaram os homens em quase todas as esferas e o “século 21 deve ser o século da igualdade das mulheres”.

Meninas do futebol realizam sonho de desfilar com Marta no Carnaval do Rio

O samba-enredo da escola Inocentes de Belford Roxo contou no sambódromo a história da jogadora de futebol, Marta Vieira da Silva.

A embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres e defensora dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs, foi destaque de um carro alegórico em forma de uma chuteira dourada, que promoveu o trabalho dela com as Nações Unidas.

Dança

Marta entrou na avenida, no sábado, seguindo um grupo de 80 foliões trajando azul, a cor da ONU.

Por 40 minutos, a plateia do Sambódromo ouviu e viu em meio a cores vivas e muita dança, a trajetória de Marta, marcada por desafios e superação de barreiras de gênero.

A embaixadora é considerada uma inspiração a outras mulheres e meninas. E 16 delas, que fazem parte de uma iniciativa da ONU Mulheres de apoio ao esporte e à autonomia feminina, se juntaram à Marta no desfile.

Na avenida, a Inocentes de Belford Roxo relembrou a infância de Marta, quando jogava futebol nas ruas do nordeste, onde nasceu. A escola também destacou a mudança para o Rio de Janeiro para continuar a carreira profissional e depois a ida para a Suécia, onde jogou por vários anos, até à chegada aos Estados Unidos, onde vive e trabalha agora.

ONU Mulheres

A atuação de Marta como embaixadora da Boa Vontade para a ONU Mulheres e defensora para os ODSs, foi o tema do carro alegórico que transportou a jogadora pela avenida.

O grupo foi liderado por 16 participantes da iniciativa “Uma vitória leva à Outra” da ONU Mulheres e do Comitê Olímpico Internacional, COI.

As meninas representavam as gerações mais jovens que veem em Marta um forte modelo de luta e mudanças.

UN Women/Camille Miranda

Meninas da iniciativa “Uma vitória leva à outra

Inspiração

Marta conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004 e 2008. No ano passado, ela também se tornou a artilheira das Copas do Mundo da Fifa.

Para a ONU Mulheres, essa conquista única, que a diferencia como ícone do esporte, a aproxima das meninas que se inspiram em sua história.

A futebolista Kathely Rosa, de 19 anos disse a atleta é uma inspiração para ela, pois tinha lutado “contra as mesmas barreiras” que Marta conseguiu superar e que se via na história dela.

Modelo

Já Gabriela Mesquita, de 16 anos, observou que “nem todo mundo obtém informações da mesma maneira” e que quando “a mensagem do ODS 5 sobre igualdade de gênero se torna um samba, isso cria um enorme impacto social.”

Marta enfatizou o impacto do Carnaval destacando que todos estavam na avenida juntos “para romper barreiras e mostrar que a igualdade de gênero faz a diferença no mundo.” Para ela, “todos são livres para escolher o que querem fazer.”

A jogadora brasileira diz conhecer seu poder de liderar e abrir caminho a outras atletas.

O programa “Uma vitória leva à outra” é um projeto que dá às adolescentes e aos jovens a oportunidade de praticar esportes e obter habilidades para a vida.

Até o fim deste ano, cerca de 1,7 mil meninas participarão da iniciativa, que começou em 2016 como um legado dos Jogos Olímpicos do Rio.

Médico da OMS diz que mundo precisa aumentar vigilância contra Covid-19

O chefe da missão de especialistas internacionais sobre o surto do Covid-19, Bruce Aylward, declarou que a China e o mundo devem reforçar a vigilância contra a nova cepa do coronavírus.

O país tem 77.780 casos confirmados e 2.666 mortes devido ao Covid-19.

Bruce Aylward é o chefe da da missão de especialistas internacionais sobre o surto do novo coronavírus. Foto: OMS/W. Romeril

24 horas

Em nível global, pelo menos 80.239 pacientes foram identificados com o vírus. Nas últimas 24 horas, foram detectados casos no Afeganistão, Bahrein, Iraque e Omã.

Aylward citou desafios como a mudança de mentalidade em relação ao vírus, a abertura de comunidades à quarentena e ao isolamento, além de questões materiais para evitar a transmissão do coronavírus.

Ele explicou tratar-se de um agente infecioso, contra o qual ainda não existe vacina. E que por isso, é preciso aumentar a vigilância e a prevenção para evitar mais contaminações. O novo coronavírus não é uma gripe comum.

Lição

O médico liderou o grupo de técnicos do país e da agência da ONU, que nas últimas duas semanas, esteve na China. Ele disse que mais de 50 mil pessoas estão recuperando da doença.

O especialista elogiou o esforço das autoridades chinesas e disse que os casos diminuem ao mesmo tempo em que o país realiza as quarentenas entre duas a seis semanas.

As ações em curso para tentar parar o novo agente infeccioso respiratório na China incluem a “descoberta de casos, monitoramento de pessoas com quem estes tiveram contato, isolamento e restrição de movimentos”.

OMS China

Funcionários da Organização Mundial da Saúde e do governo chinês dão novas informações sobre o surto de coronavírus em um hotel em Pequim, China.

Preparação

O chefe da missão conjunta da OMS e da China disse que os países devem estar preparados para um surto do novo coronavírus e para responder rapidamente aos casos que possam surgir.

No exemplo da atuação chinesa, ele disse que a “mobilização extraordinária” sobre como lidar com o surto mostrou como  medidas políticas ousadas podem conter a propagação da doença.

Unsplash

O surto de coronavírus se espalhou para a Europa.

Comunidades

Em relação aos meios, o médico destacou que autoridades nacionais devem preparar leitos hospitalares, zonas de isolamento e respiradores para casos graves. Ele acrescentou que nesse sentido “a China soube como manter as pessoas vivas”.

O especialista revelou que tem baixado o número de infecções pelo vírus nos profissionais de saúde chineses, que têm agora mais suprimentos disponíveis depois de uma grande parte deles ter sido infectada em serviço nas comunidades.

Chefe da ONU alerta que “direitos humanos estão sob ataque”

O secretário-geral da ONU lançou nesta segunda-feira um chamado global por uma ação em prol dos direitos humanos.

Ao abrir a 43ª sessão do Conselho de Direitos Humanos em Genebra, António Guterres, disse que havia decidido fazer o lançamento neste específico momento, no ano do 75º aniversário das Nações Unidas, “porque os direitos humanos estão sob ataque.”

Dignidade

Guterres explicou que “os direitos humanos têm a ver com a dignidade e o valor da pessoa humana” e que eles “expandem os horizontes da esperança, ampliam os limites do possível e liberam o melhor” de cada um e do mundo.

Nações Unidas iniciam esta segunda-feira a 43ª sessão do Conselho de Direitos Humanos em Genebra., by Foto ONU/Jean-Marc Ferre

Para ele, os direitos humanos são a “ferramenta definitiva para ajudar as sociedades a crescer em liberdade” e “garantir a igualdade para mulheres e meninas”. O chefe da ONU destacou que os direitos fundamentais também são instrumentos para “promover o desenvolvimento sustentável”, para “evitar conflitos, reduzir o sofrimento humano e construir um mundo justo e equitativo.”

O secretário-geral lembrou que como afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos, estas normas são ‘a maior aspiração da humanidade’”.

Portugal

Guterres contou que viu e viveu em seu próprio país, Portugal, como “o progresso em um canto do globo nutre o progresso em outro.” Ele relembrou que cresceu durante a ditadura de António de Oliveira Salazar e que não vivenciou “a democracia até os 24 anos de idade.”

Chefe da ONU disse que novas tecnologias são frequentemente usadas para violar direitos e privacidade., by Banco Mundial/Arne Hoel

O secretário-geral disse que viu “a ditadura oprimir não apenas seus próprios cidadãos, mas também pessoas sob o domínio colonial na África.” Para ele, foram as lutas pelos direitos humanos e o sucesso de outras pessoas ao redor do mundo” que inspiraram as pessoas em seu país.

O chefe da ONU mencionou como “e democracia de espalhou”. Como exemplo, ele citou o fim do domínio colonial, do sistema da segregação racial do Apartheid, os avanços no acesso à água potável, as grandes quedas na mortalidade infantil e como “1 bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza em uma geração.”

Para ele, todas as “sociedades se beneficiaram dos movimentos de direitos humanos liderados por mulheres, jovens, minorias, povos indígenas e outros.” No entanto, segundo Guterres, atualmente os direitos humanos “enfrentam desafios crescentes” e “nenhum país está imune” a essa situação.

Desafios

Como exemplos, Guterres citou a clara violação do direito internacional em conflitos, o tráfico de seres humanos, a exploração e abuso de mulheres e meninas escravizadas, a prisão de ativistas da sociedade, a perseguição de grupos religiosos e minorias e o assassinato ou assédio de jornalistas.

Guterres defende que rápida urbanização é um desafio de direitos humanos., by Banco Mundial/Antony Tran

O chefe da ONU destacou ainda o aumento da fome e do desemprego entre os jovens e que “minorias, povos indígenas, migrantes, refugiados, a comunidade Lgbti” estão sendo difamadas “como a “outra” e atormentadas por atos de ódio”.

Além disso, o chefe da ONU lembrou que um novo conjunto de desafios está surgindo, “como a crise climática, as mudanças demográficas, a rápida urbanização e o avanço da tecnologia.” Ele afirmou que “as pessoas estão sendo esquecidas”, “medos estão crescendo” e “as divisões estão aumentando.”

Divisão

Para o secretário-geral, uma “aritmética política perversa tomou conta” do mundo, onde a lógica é “dividir as pessoas para multiplicar votos” e o “Estado de direito está sendo corroído”. Com isso, em muitos locais, pessoas estão promovendo manifestações “contra sistemas políticos que não os levam em consideração e sistemas econômicos que não conseguem trazer prosperidade para todos.”

Guterres disse acreditar que “diante dessas tensões e testes” os direitos humanos são a resposta. Para ele, são os direitos humanos que garantem a estabilidade, constroem a solidariedade e promovem a inclusão e o crescimento.

Ao mesmo tempo, o chefe da ONU enfatiza que estas normas “nunca devem ser um veículo para padrões duplos ou um meio de buscar agendas ocultas.” Ele observou que “a soberania continua sendo um princípio fundamental das relações internacionais”, mas que ela não pode ser usada como “um pretexto para violar os direitos humanos.”

Ação

O secretário-geral explicou que o Chamado à Ação destaca sete áreas. A primeira, coloca os direitos no centro do desenvolvimento sustentável.

Guterres pediu prioridade nos direitos humanos na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável., by Foto ONU/Manuel Elias

Ele afirmou que “os direitos humanos permeiam a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” e que a “grande maioria dos objetivos e metas corresponde a compromissos juridicamente vinculativos em matéria de direitos humanos assumidos por todos os Estados-membros.”

Guterres fez um apelo para que todos os países coloquem “os princípios e mecanismos de direitos humanos em primeiro plano na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, inclusive criando caminhos abrangentes para a participação da sociedade civil.”

Crises

A segunda área é relacionada aos testes enfrentados pelos direitos humanos em tempos de crise, como em conflitos, ataques terroristas ou desastres naturais. Para o chefe da ONU, “os direitos humanos internacionais, dos refugiados e o direito humanitário podem restaurar uma medida da humanidade mesmo nos momentos mais sombrios.”

O secretário-geral informou que “para garantir a eficácia e a coerência das ações da ONU”, será feito um extenso trabalho no campo e desenvolvida uma agenda comum de proteção que será aplicada as Nações Unidas. Essa agenda de proteção levará em consideração as diferenças de idade, gênero e diversidade entre as pessoas servidas pela organização.

A terceira área lidará com a igualdade de gênero e igualdade de direitos para as mulheres, a quarta com a participação pública e o espaço cívico, e a quinta com os direitos das gerações futuras.

Mudança Climática

Guterres disse que “a crise climática é a maior ameaça” à sobrevivência de todos “como espécie e já está ameaçando os direitos humanos em todo o mundo.” Para ele, “essa emergência global destaca como os direitos das gerações seguintes devem figurar com destaque nas tomadas de decisão hoje.”

O Chamado à Ação se baseará na cúpula climática de setembro, incluindo a cúpula climática da juventude, com a meta de promover a ação climática e o direito a um ambiente seguro, limpo, saudável e sustentável.

A sexta área faz um apelo por uma ação coletiva e coloca os direitos humanos no centro da ação coletiva necessária para enfrentar as crises de hoje. Para Guterres, o “multilateralismo deve ser mais inclusivo, mais conectado” e deve “colocar os direitos humanos em sua essência.”

Fronteiras

A sétima e última área reflete as novas fronteiras dos direitos humanos.

Segundo o secretário-geral, a “era digital abriu novas fronteiras de bem-estar humano, conhecimento e exploração.” No entanto, as “novas tecnologias são frequentemente usadas para violar direitos e privacidade por meio de vigilância, repressão, assédio e ódio on-line” e também “são usados ​​por terroristas e traficantes de seres humanos.”

Guterres explicou que o Chamado à Ação defende “a aplicação dos direitos humanos on-line e a proteção efetiva de dados, particularmente dados pessoais e de saúde”, e que para isso, o “trabalho com o setor privado será crucial”.

O chefe da ONU terminou o discurso na 43ª sessão do Conselho de Direitos Humanos fazendo um apelo para que todos que se juntem as Nações Unidas “para atender ao chamado, por pessoas e pelo planeta.” Ele enfatizou que “os direitos humanos, civis, culturais, econômicos, políticos e sociais, são o objetivo e o caminho a seguir.”

ONU Moçambique

Guterres apontou a crise climática como a maior ameaça à sobrevivência de todos.

OMS conclui campanha de vacinação contra pólio na Nigéria visando 55 milhões de crianças

Uma campanha, apoiada pela Organização Mundial da Saúde, OMS, na Nigéria realizou Dias Nacionais de Mais Imunização para vacinar 55 milhões de crianças contra a poliomielite.

Muitas foram imunizadas em suas próprias casas, ou em mercados, escolas, igrejas e mesquitas por equipes de saúde.

Campanha

De acordo com a OMS, a iniciativa quis garantir a imunidade de crianças menores de cinco anos contra a poliomielite.

Como as crianças são mais vulneráveis ​​a infecções, a campanha também administrou outros antígenos contra doenças evitáveis ​​por vacina.

Vacinação

De acordo com a OMS, no Território da Capital Federal, TCF, por exemplo, das 854.720 crianças que a campanha buscava alcançar, as equipes conseguiram imunizar 810.859.

A ministra de Estado da TCF, Ramatu Tijani Aliyu, reiterou o compromisso do governo nigeriano na erradicação da pólio. Ela fez um apelo aos membros da comunidade para que vacinassem crianças usando o cronograma nacional.

Durante a campanha, Hauwa Mohammed, que é mãe de três filhos e vive no acampamento de deslocados internos de Wassa, contou que foi a primeira vez que o seu bebê de dois meses foi vacinado. Ela disse que ficou feliz com a visita da equipe em sua casa, por assim, pode “economizar tempo de espera no posto de vacinação”.

Guterres saúda criação de governo de transição no Sudão do Sul

Em nota emitida pelo seu porta-voz, o secretário-geral saudou a criação do Governo de Transição de Unidade Nacional no Sudão do Sul, TGoNU, na sigla em inglês. 

António Guterres elogiou as partes envolvidas pelas “conquistas significativas na implementação do Acordo Revitalizado sobre a Resolução de Conflitos” no país.

Cerimônia

De acordo com agências de notícias, o ex-líder rebelde, Riek Machar, foi empossado como primeiro vice-presidente, selando um acordo de paz que visa acabar com seis anos de guerra civil. O presidente Salva Kiir testemunhou o momento em uma cerimônia que aconteceu neste sábado, 22 de fevereiro, na capital, Juba.

A cerimônia ocorreu pouco antes do prazo final do acordo de paz.

Esforços

O chefe da ONU enalteceu os esforços regionais e internacionais que contribuíram para esse resultado. Ele convidou os membros do TGoNU a aderirem plenamente ao acordo, para que o povo do Sudão do Sul possa finalmente alcançar “os benefícios da paz e estabilidade duráveis que eles merecem.”

Guterres enfatizou que as Nações Unidas estão prontas, em estreita coordenação com a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento e a União Africana, para ajudar as partes envolvidas na implementação do acordo.

Coragem

O enviado especial do secretário-geral no país, David Shearer, disse que este é “um novo capítulo na história do Sudão do Sul”. Ele destacou que “muitas vezes a coragem na paz é maior que a coragem na guerra”. 

Shearer, que também é chefe da Missão da ONU no Sudão do Sul, Unmiss, acredita que com a assinatura e a formação do governo de transição, pessoas que fugiram por causa do conflito no país retornarão “para suas casas, recuperando suas vidas”. 

Línguas locais na Guiné-Bissau e Timor-Leste, apelo para cessar-fogo na Síria e policial brasileira na República Centro-Africana

Neste #DestaqueONUNews,  vamos conhecer duas línguas locais na Guiné-Bissau e no Timor-Leste, no Dia Internacional da Língua Materna. Você vai saber mais sobre o apelo para um cessar-fogo na Síria; e no final: a primeira policial brasileira na Missão de paz da ONU na República Centro-Africana.

Conferência dos Oceanos 2020

Pôr-do-sol refletido numa onda. Créditos: Unsplash

O Oceano é o maior ecossistema do planeta, refúgio para milhões de espécies.

Seja através da nossa profissão, dos alimentos que ingerimos, da energia que utilizamos ou do ar que respiramos, todos nós estamos dependentes dos oceanos. Porém, a saúde dos oceanos está a deteriorar-se. O mais recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas é claro nas suas conclusões: as alterações climáticas tornaram os oceanos mais quentes, mais ácidos e menos produtivos.

É necessário reverter esta situação e agir agora.

Com o objetivo de apelar a uma maior ação na conservação e regeneração dos oceanos, a ONU lançou a Conferência dos Oceanos. Esta conferência é organizada em parceria com Portugal e o Quénia e terá lugar na Altice Arena, em Lisboa, de 2 a 6 de junho de 2020.

A Conferência dos Oceanos é fundamental para fomentar parcerias e investimento na ciência que nos permitirá travar o declínio da saúde dos oceanos.

A Conferência dos Oceanos é um marco importante para traçar uma estratégia global para a conservação dos oceanos e para criar ímpeto para a Década das Ciências Oceânicas para o Desenvolvimento Sustentável. Esta Década das Nações Unidas será lançada em 2021 e terminará em 2030. Ao longo dos próximos 10 anos, os povos do mundo devem unir-se para protegerem a nossa casa partilhada, alcançando a Agenda 2030 e entregando um oceano limpo, saudável, resiliente, produtivo e sustentável.

Só juntos podemos assegurar o Oceano que precisamos para o futuro que queremos!

Os primeiros passos dão-se em Lisboa. Sabe mais sobre a Conferência dos Oceanos!

Afeganistão e ONU consultaram jovens para formular primeira política ambiental do país

O governo do Afeganistão e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, lançaram uma iniciativa para mobilizar a juventude na formulação da primeira política ambiental do país.

Em mais de 40 anos de conflito e insegurança pública, o Afeganistão sofreu as consequências do desmatamento, da perda de biodiversidade e também desastres naturais, deslizamentos de terra e outros prejuízos ao meio ambiente.

Painéis solares são vendidos nas ruas de Mazar-e Sharif, no Afeganistão. Foto: Unama/Sayed Barez

Desertificação

A vida selvagem foi um outro alvo dos combates e de caças ilegais.

A participação dos jovens ocorreu como parte de uma iniciativa do Pnuma com a Agência de Proteção Ambiental do Afeganistão.

Segundo o Pnuma, a mudança climática também impede o país de lidar com desafios sociais e de segurança. Os impactos de um planeta mais quente agravam problemas ambientais que estão sendo negligenciados há bastante tempo. A situação tem piorado o fornecimento de água, agravado a degradação e a desertificação.

Gênero

Um dos participantes, Mustafa Sarwar, estudante da Universidade de Cabul contou que o sonho dele era viver numa cidade sem lixo, ruídos, poluição do ar e da água.

Segundo a ONU, o envolvimento da juventude, realizado em workshops, com estudantes de províncias como Kandahar e Herat, contou com 120 participantes e priorizou a representação de gênero.

A coordenadora regional para desastres e conflitos do Pnuma, Lisa Guppy, afirmou que os desafios ambientais estão cada vez mais importantes no desenvolvimento do Afeganistão.

Vários participantes expressaram preocupação com as consequências da mudança climática e a realidade que terão que enfrentar durante a vida.

Estudantes da Universidade Balkh, por exemplo, lembraram que os períodos de seca têm sido mais longos e com impactos mais sérios.

Banco Mundial/Ishaq Anis

Participação dos jovens ocorreu como parte de uma iniciativa do Pnuma com a Agência de Proteção Ambiental do Afeganistão.

Voz ativa

Já alunos da Universidade de Cabul ressaltaram as consequências da poluição do ar causada pelos altos preços da energia elétrica.  Muitos moradores da capital afegã, que não podem pagar a conta de eletricidade, queimam plásticos, roupas e outros objetos para gerar energia.

Na última semana do ano, 17 pessoas morreram por causa das precárias condições do ar devido à poluição.

As sugestões e preocupações dos estudantes foram apresentadas ao primeiro evento de planejamento interministerial para a Política Nacional Ambiental. A iniciativa foi liderada pela Agência do Meio Ambiente afegã.

Para a coordenadora regional do Pnuma, o envolvimento dos estudantes era indispensável porque eles precisam ter uma voz ativa sobre o próprio futuro.

Covid-19 pode ameaçar tratamento de pessoas com HIV na China

O Programa Conjunto sobre HIV/Aids, Unaids, informou que o surto de coronavírus, conhecido como Covid-19, está causando um grande impacto na vida dos soropositivos na China.  

Pessoas usam máscaras em um supermercado na cidade de Nanjing, leste da China. Foto: ONU News/Li Zhang

Quase um terço das pessoas ouvidas durante uma pesquisa, 32,6% delas, relataram que, devido aos bloqueios e restrições ao movimento em alguns lugares da China, elas correm risco de ficar sem tratamento nos próximos dias. Quase a metade dos entrevistados, 48,6%, disseram não saber onde coletar sua próxima recarga de terapia antirretroviral.

Parceria

Para lidar com a questão, o Unaids está cooperando com o governo e comunidades do país para oferecer o apoio necessário às pessoas que vivem com HIV e que correm o risco de ficar sem seus medicamentos nos próximos 10 a 14 dias.

A agência também doará equipamentos de proteção individual a organizações da sociedade civil, que atendem pessoas vivendo com HIV, a hospitais e outras entidades. O objetivo é ajudar a melhorar a qualidade dos cuidados nas unidades de saúde e evitar a co-infecção dos soropositivos com o Covid-19.

A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, destacou que “as pessoas que vivem com HIV devem continuar recebendo os medicamentos de HIV necessários para mantê-las vivas”. Ela elogiou “os esforços do Centro Nacional Chinês para Controle e Prevenção de Aids / DST para apoiar as pessoas que vivem com HIV afetadas pelos bloqueios a obter seus medicamentos.”

Surto

De acordo com o Unaids, o surto de Covid-19 na China resultou em uma resposta sem precedentes, e sobrecarregou hospitais e profissionais de saúde dedicados ao coronavírus.

A agência alerta que os bloqueios resultaram em pessoas vivendo com HIV que viajaram para longe de suas cidades natais e não conseguiram voltar para onde vivem e assim, acessar os serviços de tratamento de HIV.

Pesquisa

Na pesquisa, a grande maioria dos entrevistados, 82% deles, disseram que tinham as informações necessárias para avaliar riscos pessoais e tomar medidas preventivas contra o Covid-19. No entanto, quase 90% queriam mais informações sobre medidas de proteção específicas.

O Unaids observa que muitos dos entrevistados, mais de 60% deles, responderam que não tinham equipamento de proteção pessoal e doméstico suficiente, como máscaras faciais, sabão ou desinfetante, álcool ou luvas medicinais. Quase um terço das pessoas relataram estar ansiosas e precisando de apoio psicossocial durante o surto de Covid-19.

A pesquisa foi elaborada e lançada em conjunto pelo Unaids  e pela aliança BaiHuaLin de pessoas que vivem com HIV, com o apoio do Centro Nacional Chinês para Controle e Prevenção de Aids / DST.

As respostas foram coletadas de 5 a 10 de fevereiro de 2020.

Viver sem Pátria: a Perseguição aos Rohingya

Mulher idosa e bebé rohignya no campo de regufiados de Tekfan, em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: ACNUR / G.M.B.Akash

A 23 de janeiro de 2020, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), sediado em Haia, nos Países Baixos, ordenou o Myanmar a tomar medidas de emergência para prevenir o genocídio da minoria rohingya. Numa decisão unânime, o TIJ afirmava que o Myanmar “causou danos irreparáveis aos direitos dos rohingya”. Fique a conhecer, com a ONU Portugal, esta minoria étnica e a perseguição implacável que sofrem por parte do exército do Myanmar.

O êxodo de 2017

Até 2017, o Myanmar era o país com a maior comunidade de rohingya no mundo, com 1.3 milhões de indivíduos. Apesar da forte presença desta minoria étnica muçulmana, o Myanmar não lhe reconhecia o direito pleno de cidadania.

Tidos como “imigrantes ilegais” num país maioritariamente budista, os rohingya eram alvo constante de perseguições.

Em agosto de 2017, o grupo de militantes denominado “Exército de Salvação Arakan Rohingya” ripostou, levando a cabo uma série de ataques a bases policiais e militares no estado de Rakhine, no Myanmar. 70 pessoas perderam a vida, incluindo 12 oficiais das forças de segurança birmanesas. A resposta dos militares sobre a população Rohingya não se fez esperar.

Nas primeiras semanas depois do ataque, deu-se o maior êxodo de rohingya de sempre, com a Organização Internacional das Migrações (OIM) a registar a entrada de 712 mil pessoas desta minoria no Bangladesh. Aqueles que ficaram para trás foram alvo de violência indiscriminada por parte dos militares, que mataram mais de 6.700 pessoas no primeiro mês a seguir aos ataques, 730 das quais eram crianças com menos de 5 anos.

Barco de migrantes rohingya desembarca em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: UNICEF / Brown
Barco de migrantes rohingya desembarca em Cox Bazar, no Bangladesh, depois de atravessar a Baía de Bengala, vindos do Myanmar. Créditos: UNICEF / Brown

A violência indiscriminada, os relatos de abusos sexuais e a destruição parcial ou total de 354 aldeias Rohingya mereceram a condenação das várias instâncias internacionais, incluindo do alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, que descreveu a situação no estado de Rakhine como “um caso evidente de limpeza étnica”.

Apesar da reprovação internacional, o governo do Myanmar e a Conselheira de Estado Aung San Suu Kyi, que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1991 pelo seu ativismo em prol dos direitos humanos, têm menosprezado o conflito, afirmando que os relatos de violência contra os rohingya foram exagerados.

Emergência Humanitária

A violência em Rakhine, no Myanmar, criou uma crise humanitária no país vizinho, Bangladesh, predominantemente muçulmano. A agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estima que cerca de 915 mil pessoas vivam hoje em campos de refugiados no Bangladesh, 695 mil das quais sofrem de insegurança alimentar extrema.

Um mercado no campo de Balukhali, em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: ONU Mulheres / Allison Joyce
Um mercado no campo de Balukhali, em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: ONU Mulheres / Allison Joyce

A região de Cox Bazar é a mais afetada, que abriga hoje mais de 745 mil rohingya, incluindo 400 mil crianças. Nesta região existem 34 campos de refugiados densamente povoados, incluindo o maior campo de refugiados do mundo, o Kutupalong-Balukhali Expansion Site.

Em Cox Bazar, são necessários 16 milhões de litros de água potável por dia, 12.200 toneladas de alimentos por mês e 5 mil salas de aula para garantir educação a todas as crianças.

“É impossível visitar estes campos sem ficarmos com o coração partido com o sofrimento do povo rohingya. Ouvir as histórias terríveis de violência extrema – dos assassinatos, de violações, de tortura, de casas e aldeias incendiadas – é, possivelmente, uma das mais trágicas histórias sobre violação sistemática dos direitos humanos” (secretário-geral da ONU, António Guterres).

Resposta da ONU

A ONU, através das suas agências, tem acompanhado de perto a situação. Nas primeiras semanas após a vaga de refugiados, em agosto de 2017, o ACNUR entregou 1.500 toneladas de kits de emergência ao Bangladesh, que incluíam cobertores, sacos-cama, conjuntos de cozinha e outros utensílios. Juntamente com o governo bengali e outras organizações não-governamentais (ONGs), o ACNUR está a criar novos locais que possam acolher de forma segura os refugiados, tendo já construído 32 km de estradas e caminhos de tijolo e 91 km de linhas de drenagem, essenciais para proteger a população na época das monções.

Para além da melhoria das condições de habitabilidade, as agências da ONU focam-se também noutras áreas de intervenção. O Programa Alimentar Mundial (PAM) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) prestam auxílio alimentar aos refugiados.

Enquanto a FAO foca a sua ação em Cox Bazar, onde alcança 395 mil pessoas, o PAM providencia assistência alimentar alargada a 866 mil pessoas, no Bangladesh, e fornece assistência nutricional a 200 mil pessoas vulneráveis em Rakhine, no Myanmar.

O objetivo da FAO no terreno expande-se para além da ajuda alimentar, abrangendo áreas como a proteção ambiental. No Bangladesh, como consequência do estabelecimento inesperado de uma grande população de refugiados, foram destruídos 8 mil hectares de florestas. Em 2019, a FAO regenerou uma área de 571 hectares através da reflorestação de meio milhão de árvores em terrenos circundantes a Cox Bazar.

A UNICEF e a esperança num futuro melhor

Presente no terreno desde 2017, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) trabalha para aumentar a cobertura escolar nos campos de refugiados e a sobrevivência das gerações mais novas. Em 2019, a UNICEF garantiu a distribuição de vitamina A a mais de 190 mil crianças com menos de 5 anos e a vacinação de 73 mil crianças.

Criança recupera de má nutrição aguda ao colo da mãe, em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: Knowles-Coursin
Uma criança de 10 meses recupera de desnutrição aguda severa ao colo da mãe, em Cox Bazar, no Bangladesh. Créditos: Knowles-Coursin

Ao nível do apoio escolar, a UNICEF concentra os seus esforços nas crianças dos 4 aos 14 anos, assegurando a educação a 213 mil crianças rohingya. Recentemente, esta agência tem também desenvolvido projetos de cooperação com o governo do Bangladesh, conseguindo a admissão de 10 mil crianças Rohingya em escolas bengali. O trabalho das várias agências da ONU no terreno é clara e sinteticamente descrito por Henrietta Fore, Diretora-executiva da UNICEF:

“Apesar das dificuldades extremas, trabalhamos incansavelmente para manter as esperanças e sonhos das crianças vivos”.

Logótipo e Bandeira da ONU

Um funcionário prepara as bandeiras da ONU para o Debate de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU. Créditos: ONU / Kim Haughton

O logótipo e a bandeira da ONU são os símbolos utilizados pela Organização para se fazer representar nos diferentes palcos onde opera. Estes elementos são essenciais em cenários de conflito, permitindo a rápida e fácil identificação dos agentes e dos postos de comando das Nações Unidas.

O logótipo e a bandeira da ONU desempenham ainda um papel simbólico, enquanto garante da esperança e dos sonhos dos povos da Terra em alcançar a paz e a unidade mundial.

O Logótipo

O logótipo original das Nações Unidas foi criado em 1945, consistindo “num mapa do mundo representado através de uma projeção azimutal equidistante centrada no Polo Norte, inscrita numa coroa composta por ramos de oliveira convencionalmente cruzados. A projeção do mapa estende-se até 60 graus de latitude para sul e inclui cinco círculos concêntricos” (descrição original presente no relatório do secretário-geral de 15 de outubro de 1946).

O logótipo das Nações Unidas foi aprovado a 7 de dezembro de 1946 e encontra-se hoje presente na imagem de várias agências especializadas da ONU. O emblema é também utilizado nos selos oficiais das Nações Unidas.

A Bandeira

A bandeira das Nações Unidas consiste na sobreposição do emblema oficial em branco sobre um fundo azul claro.

Bem-estar de crianças e adolescentes sob ameaça em todo o mundo, alerta estudo

Nenhum país protege de forma adequada a saúde, o ambiente e o futuro das crianças, segundo um relatório de 40 especialistas em saúde infantil e de adolescentes em todo o mundo.

A publicação A Future for the World’s Children? ou Um Futuro para Crianças do Mundo?, em tradução livre, mostra que menores de idade na Noruega, na Coreia do Sul e na Holanda têm maior chance de sobrevivência e bem-estar.

Língua Portuguesa

Dentre as nações de língua portuguesa, Portugal figura na posição 22 do índice que compara indicadores como saúde, educação e nutrição. A seguir estão Brasil em 90º, Cabo Verde em 109º e São Tomé e Príncipe em 125.  Já Timor-Leste aparece na posição 135, Angola em 161º, Guiné-Bissau em 166º e Moçambique na posição 170.

Nos piores cenários entre os 180 Estados analisados estão República Centro-Africana, Chade, Somália, Níger e Mali.

O estudo inclui o índice de sustentabilidade revelando que cada pessoa dos países mais desenvolvidos emite mais dióxido de carbono, CO2, do que o objetivo nacional definido para 2030. Entre as questões avaliadas estão equidade e diferenças de rendimentos.

Entre os países lusófonos, Portugal está em 129º lugar no ranking de sustentabilidade, Brasil vem em 89, Angola 63, Cabo Verde 59 e São Tomé e Príncipe em 41. Timor-Leste está em 33º lugar, Moçambique em 29º e Guiné-Bissau em 16º.

Países ricos

Entre os maiores países emissores de gás carbônico estão Estados Unidos, Austrália e Arábia Saudita. O documento destaca que as emissões nas economias mais ricas são feitas de forma desproporcional.

A Comissão formada pela Organização Mundial da Saúde, OMS,  o Fundo da ONU para a Infância Unicef, e a revista médica The Lancet destacam que a saúde e o futuro de crianças e adolescentes em todo o mundo estão sob ameaça.

Entre os  fatores que agravam essa situação estão  a degradação ecológica, a mudança climática e as práticas de marketing prejudiciais que promovem alimentos processados, bebidas açucaradas, álcool e tabaco.

O Brasil é destacado entre os países de renda média por investir no reforço do seu sistema de informações de saúde de rotina como parte da reforma do sistema de saúde.

Crianças

Aos países em desenvolvimento, o documento recomenda mais ações para que suas crianças vivam de forma mais saudável por causa da ameaça das emissões excessivas de carbono para seu futuro.

O estudo alerta para consequências arrasadoras para a saúde infantil se o aquecimento global ultrapassar os 4 °C até 2100, de acordo com as projeções atuais. A consequência incluem ondas de calor extremo e proliferação de doenças como a malária o dengue além de condições como a subnutrição.