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Porque é que mais de 670 milhões de pessoas passam fome?

© FAO/Alessandra Benedetti | A FAO está a apoiar pessoas deslocadas na República Democrática do Congo através de transferências monetárias e assistência agrícola.

Mais de oito por cento da população mundial, ou cerca de 673 milhões de pessoas, não estão a receber alimento suficiente e passam fome, segundo a ONU.

Os conflitos, as alterações climáticas e a desigualdade desempenham um papel, mas existem outras razões para aquilo que é designado de forma bastante seca como “insegurança alimentar”.

Às vésperas do Dia Mundial da Alimentação, a 16 de outubro, aqui estão cinco coisas que precisa de saber sobre porque é que, mesmo havendo comida suficiente para alimentar a população mundial de mais de oito mil milhões de pessoas, ainda assim há quem passe fome.

  1. Conflito e instabilidade política

Os conflitos armados, como os da Ucrânia, Sudão e Gaza, perturbam a produção de alimentos, as cadeias de abastecimento e o acesso aos mercados. Isto leva ao deslocamento de pessoas, criando insegurança alimentar aguda para milhões.

No Haiti, cerca de 5,7 milhões de pessoas, aproximadamente metade da população, muitas das quais fugiram das suas casas devido à violência, enfrentam uma situação de segurança alimentar deteriorada, com impressionantes 1,9 milhões em níveis de emergência.

Em zonas de conflito, a ONU, principalmente através do Programa Alimentar Mundial (PAM), fornece ajuda alimentar imediata às populações em situação de insegurança alimentar aguda.

As comunidades afetadas também recebem sementes, gado e ferramentas agrícolas para que possam cultivar os seus próprios alimentos e não depender exclusivamente da ajuda.

© PAM/Tanya Birkbeck | O PAM distribui alimentos aos residentes da Cité Soleil, afetada por gangues, na capital do Haiti, Porto Príncipe.
  1. Alterações climáticas e fenómenos meteorológicos extremos

A crescente variabilidade climática, incluindo secas, inundações e ondas de calor, dificulta a capacidade dos agricultores de produzir alimentos. Isto prejudica a produtividade agrícola e a disponibilidade de alimentos, especialmente em regiões vulneráveis.

Somália, Sudão, Sudão do Sul, Mali, Burquina Faso, República Democrática do Congo (RDC), Nigéria e Etiópia enfrentam insegurança alimentar aguda devido a uma combinação de conflito, secas, inundações e desertificação.

A Somália, por exemplo, enfrenta sua pior seca em quatro décadas, acumulando anos de conflito e deslocamento.

A ONU promove práticas agrícolas resilientes ao clima para mitigar o impacto dos choques ambientais e adaptar-se às novas normas meteorológicas, como a técnica agrícola da meia-lua na região do Sahel, em África.

© UNICEF/Zerihun | Sewunet Um menino roda um recipiente de água em Dollow, na fronteira da Somália com a Etiópia.
  1. Choques económicos e inflação

As recessões económicas globais e regionais, a subida dos preços dos alimentos e da energia e a inflação combinam-se para reduzir o poder de compra e o acesso a alimentos nutritivos, especialmente nos países de baixos rendimentos.

A pandemia da COVID-19, a guerra na Ucrânia e os choques climáticos contribuíram para aumentos nos preços dos alimentos entre 2020 e 2024.

À medida que os preços dos alimentos subiram, os salários reais caíram e a inflação aumentou; as pessoas, especialmente nos países de baixos rendimentos, tiveram menos capacidade de comprar alimentos nutritivos e muitas vezes fizeram menos refeições por dia.

Durante períodos de choques económicos e inflação, as Nações Unidas aumentam a distribuição de rações alimentares e suplementos nutricionais, bem como transferências em dinheiro para ajudar as famílias a comprar alimentos localmente, apoiando tanto a nutrição como os mercados locais.

© PAM/Arete/Damilola Onafuwa | Uma menina de dois anos come um suplemento nutricional num centro de saúde em Maiduguri, no norte da Nigéria.
  1. Pobreza estrutural e desigualdade

A pobreza enraizada e a desigualdade social limitam o acesso a alimentos e recursos, especialmente em comunidades rurais e marginalizadas, perpetuando a fome crónica.

Os baixos rendimentos, a fraca infraestrutura e os serviços locais muitas vezes significam que os grupos marginalizados (especialmente mulheres e comunidades indígenas) não têm acesso suficiente a alimentos.

Quase 700 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza globalmente, com dois terços residindo na África Subsaariana, segundo a ONU.

A ONU, através de várias agências, procura reforçar os sistemas de proteção social e passar de uma ajuda humanitária focada em crises para um modelo em que os países de baixos rendimentos conduzam o desenvolvimento de sistemas alimentares resilientes, inclusivos e sustentáveis.

Esta abordagem capacita as comunidades a reduzir a fome, desenvolver capacidades locais e melhorar a segurança alimentar a longo prazo.

© IFAD/GMB Akash | No Bangladesh, os agricultores estão a cultivar culturas mais resistentes às alterações climáticas.
  1. Perturbações comerciais e volatilidade dos mercados

Restrições às exportações, tarifas e preços voláteis das matérias-primas podem desestabilizar os mercados alimentares, tornando os alimentos menos acessíveis e mais caros nos países com défice alimentar.

Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka enfrentam volatilidade nos preços dos alimentos e desafios de endividamento. Estes problemas são agravados pela incerteza nas políticas comerciais, especialmente tarifas globais e inflação.

Isto limita, em última análise, o acesso das pessoas a alimentos acessíveis.

Mapa da Fome: Hunger Map 2025 | FAO | Food and Agriculture Organization of the United Nations

O Brasil e o México experienciaram revisões em baixa do crescimento devido a tensões comerciais e inflação. Isto enfraqueceu o consumo e aumentou a insegurança alimentar nas comunidades de baixos rendimentos.

A ONU apoia os países afetados de várias formas.

Monitoriza os preços globais, oferece orientação política e coordena respostas internacionais para ajudar os países a lidar com as crises interligadas de alimentos, energia e finanças. Estes esforços visam estabilizar os mercados e proteger os mais vulneráveis.

*Artigo de autoria da ONU News

Gaza: Reféns libertados, começa o aumento da ajuda humanitária

© UNOCHA | Crianças em Gaza celebram o cessar-fogo.

Na segunda-feira, o secretário-geral da ONU saudou a libertação de todos os reféns vivos de Gaza, enquanto as agências humanitárias informaram que os fornecimentos de ajuda vital estão agora a chegar em grande escala ao enclave devastado.

António Guterres expressou o seu “profundo alívio” pelo facto de os reféns terem sido libertados, dois anos depois de estarem entre os cerca de 250 sequestrados durante os ataques terroristas liderados pelo Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, sublinhando o seu “imenso sofrimento”.

As declarações do secretário-geral ocorreram enquanto se dirigia para Sharm el-Sheikh, no Egito, juntamente com líderes mundiais, para a cimeira pela paz em Gaza. O encontro internacional foi convocado após as forças israelitas terem se retirado de partes de Gaza, em conformidade com um acordo entre Israel e o Hamas, mediado no Egito por representantes dos Estados Unidos, do Qatar e da Turquia.

Numa mensagem publicada na plataforma X, Guterres reiterou o seu apelo à libertação dos corpos dos reféns falecidos e apelou a “todas as partes a aproveitarem este impulso e a cumprirem os seus compromissos no âmbito do cessar-fogo, para pôr fim ao pesadelo em Gaza”.

190.000 toneladas de ajuda a entregar

Enquanto isso, as agências humanitárias das Nações Unidas relataram progressos significativos na entrada de ajuda em Gaza.

“O nosso reforço humanitário em Gaza está bem encaminhado”, afirmou o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que destacou ter obtido a aprovação de Israel para a entrada de 190.000 toneladas de alimentos, abrigos, medicamentos e outros suprimentos no território, 20.000 a mais do que o anteriormente acordado.

Pela primeira vez desde março, o gás de cozinha foi autorizado a entrar na Faixa de Gaza.

Além disso, “mais tendas para famílias deslocadas, carne congelada, fruta fresca, farinha e medicamentos também atravessaram para Gaza ao longo do dia de domingo”, informou o OCHA numa atualização.

De forma crucial, a agência comunicou que os seus trabalhadores e parceiros já conseguem movimentar-se com mais facilidade em várias áreas, um avanço importante após as restrições de acesso impostas pelas autoridades israelitas.

Isto permitiu que as equipas humanitárias pré-posicionassem suprimentos médicos e de emergência nas zonas mais necessitadas, além de avaliarem estradas quanto a riscos de explosivos e apoiarem famílias deslocadas em áreas propensas a inundações, com a chegada do inverno.

“Isto é apenas o começo. Como parte do nosso plano para os primeiros 60 dias do cessar-fogo, a ONU e os nossos parceiros irão ampliar a escala e o alcance das operações para levar ajuda e serviços vitais a praticamente toda a população de Gaza”, concluiu o OCHA.

A medida faz parte do plano humanitário mais amplo para reforçar os serviços essenciais de alimentação, saúde, água, abrigo e educação, apresentado pelo chefe de ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher. Os principais pontos são:

  • Assistência alimentar para 2,1 milhões de pessoas, incluindo rações, apoio a padarias e cozinhas comunitárias, recuperação dos meios de subsistência de pastores e pescadores e apoio financeiro a 200 mil famílias para reforçar a dignidade e a autonomia.
  • Programas de nutrição alargados, com rastreios e alimentos ricos em nutrientes para grupos vulneráveis, como crianças, adolescentes e mulheres grávidas ou a amamentar.
  • Reforço dos serviços de saúde, com medicamentos essenciais, vigilância de doenças, cuidados de emergência e maternos, apoio à saúde mental e trabalhos de reabilitação.
  • Projetos de água e saneamento para 1,4 milhões de pessoas, incluindo reparação de redes, sistemas de esgotos e gestão de resíduos, além da distribuição de produtos de higiene.
  • Apoio a abrigos para famílias deslocadas e vulneráveis, com tendas, lonas e outros materiais antes da chegada do inverno.
  • Reforço da educação, com a reabertura de espaços temporários de aprendizagem para 700 mil crianças, fornecendo materiais escolares e atividades educativas.

Sintomas da guerra

Dois anos de violência extrema e bombardeamentos constantes por parte de Israel deixaram muitas famílias sem casas para onde regressar.

A violência criou também necessidades físicas e psicológicas enormes em toda a Faixa de Gaza, que as agências da ONU já estão a abordar.

A UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, destacou que “todos os um milhão” de jovens na Faixa de Gaza necessitam de apoio em saúde mental e apoio psicossocial.

A guerra devastou o sentimento de segurança, o desenvolvimento e o bem-estar das crianças, sublinhou a agência, com muitas a apresentar “sintomas graves de stress”, como retraimento, pesadelos e enurese noturna.

Para ajudar as crianças a curar-se e superar os seus medos, a UNICEF apoia um programa de autoajuda em que os formadores ensinam técnicas de gestão do stress para libertar e processar pensamentos e imagens dolorosas.

Um dos recursos é um “botão de segurança” imaginário, que as crianças podem pressionar quando se sentem sobrecarregadas pela situação.

“Sempre que me sentia com medo, punha a mão no botão de segurança e respirava fundo. Isso fazia-me sentir-me tão aliviado”, contou Anas, 15 anos, uma das crianças apoiadas pelo programa.

Em 2025, a UNICEF informou que oito em cada dez jovens que participaram no programa apresentaram redução dos sintomas de stress traumático.

*Artigo de autoria da ONU News

Ucrânia: Desminagem, reconstrução energética e apoio a veteranos — o que o PNUD está a fazer no terreno

Socorristas removem os escombros de uma casa destruída pelos bombardeamentos no oblast de Kiev. © Oleksandr Ratushniak / PNUD Ucrânia

Desde o início da invasão em larga escala da Federação Russa na Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, a Missão de Monitorização dos Direitos Humanos na Ucrânia (HRMMU) documentou, até meados de setembro de 2025, pelo menos 14.116 civis mortos e 36.481 feridos. O número verdadeiro é, muito provavelmente, bastante superior. A escala da destruição continua a agravar-se, com uma intensificação dos ataques desde junho de 2025.

Mais de 20 agências das Nações Unidas estão ativas na Ucrânia, entre as quais o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que trabalha em três objetivos principais: governação democrática e coesão social inclusiva, recuperação e crescimento económico sustentáveis e inclusivos, e transformação sustentável do ambiente e da energia.

Nesse contexto, o PNUD na Ucrânia apoia, de forma significativa, o funcionamento das administrações ucranianas em todo o país. Por exemplo, o PNUD ajudou na remoção segura de 800.000 toneladas de detritos e escombros, e mobilizou investimentos privados no setor da energia sustentável, tendo contribuído para a criação de 4.562 empregos verdes em 2024.

O PNUD desempenha um papel crucial na reconstrução da rede de produção e transmissão de energia, fortemente danificada pelos ataques, e na desminagem do território. Mas o trabalho do PNUD vai muito além disso: participa ativamente também na reintegração de veteranos na sociedade e no apoio aos 4,6 milhões de deslocados internos (IDPs) na Ucrânia, como explica Auke Lootsma, cidadão neerlandês e chefe do PNUD na Ucrânia, nesta entrevista exclusiva ao UNRIC.

Auke Lootsma, o chefe do PNUD na Ucrânia. Foto: UNRIC

Quais são as principais prioridades do PNUD na Ucrânia?

Estamos no quarto ano da invasão em larga escala da Ucrânia. Com a recente escalada de ataques, as necessidades da população continuam a aumentar.

O setor mais crítico é o da energia. No ano passado, antes do início do inverno, houve uma grande crise com cortes de eletricidade, que afetaram todos os setores da vida quotidiana. Reparar e reforçar o setor energético é, por isso, uma prioridade, tanto para o tornar menos vulnerável a ataques, como para apoiar os trabalhos de reparação e torná-lo mais verde e compatível com o quadro da União Europeia, tendo em vista uma futura adesão da Ucrânia à UE.

PNUD adquiriu 475 megawatts em equipamentos de geração de energia, garantindo assim o abastecimento de mais de 10 milhões de pessoas.

Outra prioridade é a ação anti minas. A Ucrânia está repleta de minas terrestres explosivas, que põem em perigo a vida das pessoas e representam uma ameaça significativa à segurança humana. Para além do impacto humano, a presença de minas e engenhos não detonados constitui um grande entrave à produção agrícola, especialmente no caso do trigo e do óleo de girassol, setores essenciais para as exportações ucranianas e para a recuperação económica do país.

O PNUD é a principal agência das Nações Unidas responsável pela ação humanitária anti minas na Ucrânia. O programa equipou 202 equipas de desminagem do Serviço Estatal de Emergência e mais de 2.000 profissionais de organizações locais de desminagem receberam formação ou apoio através de atividades de reforço de capacidades.

Até à data, mais de 35.000 quilómetros quadrados de terreno, incluindo zonas agrícolas, foram devolvidos ao uso produtivo, dos quais 23,9 mil km² com o apoio do PNUD. A experiência mostra que qualquer país com este nível de contaminação precisa de décadas para recuperar.

Quais são as outras principais atividades do PNUD na Ucrânia? E têm todos os meios necessários para as implementar no atual contexto de cortes orçamentais?

Uma das principais prioridades para nós é prestar cuidados e apoio aos veteranos que estão a fazer a transição para fora do conflito. Mais de 1 milhão de ucranianos estão atualmente ao serviço das forças armadas. Em janeiro de 2025, a Ucrânia contava 1,6 milhões de veteranos, e este número deverá aumentar para entre 5 a 6 milhões após a guerra.

Um dos nossos estudos revelou grandes desafios: 71% dos veteranos têm ferimentos físicos, um terço apresenta sintomas de stress pós-traumático (PTSD) e 41% dos veteranos com menos de 60 anos enfrentam dificuldades em encontrar emprego.

Apoiar a reintegração profissional destes veteranos deve ser feito com dignidade e produtividade. Numa situação pós-guerra, o apoio à reintegração dos veteranos será uma prioridade fundamental para o governo. Em 2024, o PNUD deu prioridade a abordagens de reintegração baseadas na comunidade, desenvolvendo programas em seis comunidades e duas províncias (oblasts).

Outro foco de ação são as pessoas deslocadas internamente (IDPs). Perder a casa e ter de se instalar num local onde não se conhece ninguém é uma experiência profundamente traumática, pelo que é essencial garantir apoio social.

Recordemos que cerca de 6 milhões de ucranianos se encontram no estrangeiro. Em 2024, havia 4,6 milhões de deslocados internos registados — num país que tinha 41 milhões de habitantes antes da guerra. O PNUD apoia o governo no fornecimento de cuidados médicos, serviços sociais e educação para as crianças.

Por fim, há a questão da economia. É essencial garantir que o país continua a funcionar. A transição para uma economia moderna e competitiva já está em curso.

Quanto à questão do financiamento, é claro que a Ucrânia é um dos maiores destinatários de ajuda humanitária e de recuperação, avaliada não em milhões, mas em milhares de milhões de dólares.

Alguns escritórios de agências da ONU na Ucrânia são hoje os maiores do mundo. O PNUD tem 500 colaboradores e gere cerca de 200 milhões de dólares por ano.

Podemos fazer mais? Claro que sim. A Ucrânia é um país vasto, com enormes necessidades. Mas, em comparação com os cortes de financiamento noutras partes do mundo, somos menos afetados.

Máquinas pesadas removem os destroços de um edifício residencial danificado em Kharkiv.
© Christina Pashkina / PNUD Ucrânia

Qual é, em termos gerais, a sua avaliação dos danos causados ao país pelo conflito? E isso constitui um obstáculo à reconstrução?

A destruição em larga escala ocorreu em todo o país, com graves danos a propriedades civis nas regiões da linha da frente e nas zonas fronteiriças que estiveram ocupadas.

Quem tinha uma casa perdeu praticamente tudo, porque ela representava o principal bem económico da família. As pessoas estão a enfrentar falência pessoal, além do trauma de perder a sua casa destruída por explosões.

O governo tenta fornecer compensações, mas o processo é complexo e muitas pessoas continuam a ter dificuldades em satisfazer as suas necessidades básicas. As taxas de pobreza aumentaram de 20,6% em 2021 para 35,5% em 2023.

A guerra também provocou ataques direcionados a infraestruturas essenciais, como centrais elétricas, hospitais, escolas, edifícios altos, estações de comboios, entre outros, com enorme impacto sobre a população civil.

O último valor estimado aponta para 524 mil milhões de dólares necessários para a recuperação da Ucrânia na próxima década. No entanto, isso é apenas a a ponta do iceberg, já que muitos outros custos ainda se irão somar.

Mesmo com os ataques ainda em curso, já é possível aplicar estratégias inteligentes de reconstrução. Em vez de reconstruir uma grande central elétrica, pode-se construir várias mais pequenas, para que, se uma for destruída, a rede elétrica não entre em colapso total.
Quando a guerra terminar, o esforço de reconstrução será colossal. O presidente Zelenskyy mencionou um “Plano Marshall”, e algo desse tipo será de facto necessário para recolocar a Ucrânia no caminho certo.

Quais são os principais desafios para o trabalho do PNUD no terreno?

Todos veem as notícias sobre os ataques e é evidente que isso representa um fator que dificulta o nosso trabalho no terreno.
Temos também de assegurar a segurança do nosso pessoal. Não temos exemplos concretos de membros da equipa que tenham sido alvos específicos, mas quanto mais perto se está da linha da frente, maior é o risco de se estar “no lugar errado, à hora errada”.
Nessas zonas, passamos de veículos normais para veículos blindados, por exemplo.

Preocupamo-nos também com a saúde mental do nosso pessoal. Quase todos na Ucrânia têm familiares no exército. Os colegas vivem constantemente com o receio de que aquela possa ter sido a última vez que viram os seus entes queridos. Os níveis de ansiedade e de stress são, naturalmente, muito mais elevados entre os nossos colegas ucranianos.

Foto de Mathias Reding no Unsplash.

Qual é a abordagem do PNUD relativamente aos refugiados e às pessoas deslocadas internamente?

O governo ucraniano não considera os seus cidadãos no estrangeiro como refugiados.
A prioridade é trazer esses ucranianos de volta ao país e, quando regressarem, farão parte do esforço de reconstrução e precisarão de apoio para se reintegrar.

Tenho a sensação de que poderia ser feito mais para estabelecer contacto com os ucranianos que vivem em cada Estado-membro da UE, compreender a sua situação atual e identificar as melhores formas de os apoiar.

Os 4,6 milhões de deslocados internos (IDPs) registados em 2024 são um grupo essencial no contexto do princípio das Nações Unidas de “não deixar ninguém para trás”.

A Ucrânia é um país altamente desenvolvido, pelo que, em vez de fazermos o trabalho diretamente, como em outras situações de crise, ajudamos o governo a utilizar os seus próprios sistemas, que já existem e estão a funcionar.

O governo dispõe de um orçamento e de um sistema de proteção social, e os deslocados internos têm direito às mesmas prestações sociais, tal como acontece noutros países da Europa.

Foi publicado em dezembro de 2024 um estudo sobre a juventude ucraniana. Quais são as principais consequências do conflito para a geração mais jovem?

Os jovens ucranianos têm grandes esperanças na integração europeia e são fortemente pró-União Europeia.

Veem a guerra como um grande obstáculo às suas aspirações e sonhos de se tornarem cidadãos da UE, de estudar e encontrar um bom emprego.

O estudo mostra que 42% dos jovens estão preocupados com questões de saúde (próprias ou dos seus familiares), 31% com a falta de dinheiro e 26% com a segurança física.
Nada menos que 25% afirmam sofrer de estados de espírito negativos, depressão, ansiedade e solidão.

As interrupções na educação e no desenvolvimento profissional têm efeitos profundamente prejudiciais.

Por isso, a resolução deste conflito é particularmente importante para os jovens, a fim de que possam recuperar a esperança num futuro estável e próspero.

Mensagem para o Dia Internacional para a Redução do Risco de Catástrofes

©PMA/Arete/Abdirahman Yussuf Mohamud

O SECRETÁRIO-GERAL

13 de outubro de 2025

À medida que a crise climática acelera, os desastres multiplicam-se e amplificam-se, devastando vidas e meios de subsistência, apagando décadas de progresso em apenas um instante. O custo para a economia global é impressionante: estima-se que atinja 2 biliões de dólares todos os anos, quando os custos indiretos são tidos em conta.

No entanto, o financiamento para reduzir as suas repercussões continua perigosamente baixo. Apenas 2% da assistência ao desenvolvimento e, muitas vezes, menos de 1% dos orçamentos governamentais são dedicados à redução do risco de desastres. Isto não é apenas uma lacuna, é um erro de cálculo. Cada dólar investido em infraestruturas resilientes em países em desenvolvimento poupa 4 dólares quando os desastres ocorrem.

O tema do Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres deste ano lembra-nos da urgência de financiar a resiliência. Governos e doadores devem aumentar os investimentos na redução do risco de desastres. Os setores público e privado devem integrar o risco em cada decisão para reduzir a exposição e a vulnerabilidade aos perigos. E a resiliência deve estar incorporada nas bases do desenvolvimento.

Neste Dia, comprometamo-nos a enfrentar o aumento do risco com um aumento de fundos, construindo um futuro mais seguro e mais equitativo para todos.

Mensagem para o Dia Internacional da Rapariga

UN Photo/Albert González Farran.

O SECRETÁRIO-GERAL

 11 de outubro 2025

O nosso mundo está cercado por crises. Os conflitos estão a explodir. As catástrofes climáticas estão a acelerar. O deslocamento atinge níveis recorde. E, com frequência, são as raparigas que pagam o preço mais alto.

Quando as crises atingem, a violência sexual e a mortalidade materna disparam.  O casamento infantil em situações de fragilidade é quase duas vezes superior à média mundial.  As raparigas são constatemente excluídas das decisões que moldam as suas vidas.

Mas, como o tema deste ano nos lembra, as raparigas também estão na linha da frente das soluções. Em todo o mundo, elas lideram movimentos pela justiça de género, educação, alterações climáticas e muito mais.

Apelo aos decisores em todos os lugares: reconheçam o poder das raparigas e apoiem-nas.

Ajam de acordo com as suas exigências. Dêem prioridade aos seus direitos. E invistam nas suas oportunidades, não só porque é correto, mas porque é essencial para sociedades pacíficas e prósperas.

Cada rapariga, em qualquer lugar, merece igualdade, oportunidades e dignidade. Neste Dia Internacional da Rapariga, comprometamo-nos a construir um mundo melhor para as raparigas.

Mensagem para o Dia Mundial da Saúde Mental

O SECRETÁRIO-GERAL

10 de outubro de 2025

Vivemos tempos de provação e desafio. Os conflitos multiplicam-se, o deslocamento de pessoas está a aumentar, e a crise climática manifesta-se com uma frequência e intensidade cada vez maiores.

O Dia Mundial da Saúde Mental deste ano centra-se nos serviços de saúde mental em situações de emergência. Lembra-nos o impacto profundo que as crises têm no bem-estar das pessoas e a necessidade urgente de apoio para aliviar o sofrimento e reduzir a angústia.

Uma em cada cinco pessoas afetadas por conflitos sofre de um problema de saúde mental. No entanto, muitas não têm acesso aos cuidados de que necessitam, especialmente em países de baixa e média rendas, onde os sistemas de saúde estão sobrecarregados e com recursos insuficientes.  Os profissionais da linha de frente também sofrem.

O apoio à saúde mental não é opcional, é essencial. Deve estar integrado nas respostas de emergência, apoiado por um investimento significativo e prestado por  profissionais da linha de frente devidamente formados, e cuidados baseados em evidências.

O subfinanciamento crónico da saúde mental deve terminar. Neste Dia, comprometamo-nos a apoiar a saúde mental de todas as comunidades, incluindo, e especialmente, quando a tragédia atinge.

12 coisas que talvez não saiba sobre o Programa Alimentar Mundial (PAM)

Torneio de futebol no campo de Bulengo para pessoas deslocadas em Kivu-Norte com o apoio do PAM. Mynd: PAM/Michael Castofas
  1. O PAM é a maior agência humanitária do mundo que salva vidas em situações de emergência e usa a assistência alimentar para criar um caminho para a paz. A organização atua em mais de 120 países e territórios e prestou assistência a 124 milhões de pessoas em 2024 – 54% das quais eram mulheres e raparigas.

    Pessoas na Província de Kunar transportam biscoitos energéticos distribuídos a centenas de famílias afetadas por um devastador terramoto no Afeganistão. Foto: WFP/Photolibrary
  2. Todos os dias, o PAM pode ter até 5.000 camiões, 80 aeronaves e 20 navios em circulação, a entregar alimentos e outro tipo de assistência.

    Camiões carregados com farinha de trigo chegam a Kerem Shalom, na fronteira Gaza-Israel-Egito. Foto: WFP/Photolibrary
  3. O PAM trabalhou em situações de emergência em 47 países em 2024, prestando assistência vital a 90 milhões de pessoas.

    Pessoas recolhem a assistência alimentar de emergência do PAM, lançada por via aérea a milhares de famílias no Estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul. Foto: WFP/Peter Louis
  4. Em 2024, o PAM forneceu refeições escolares, rações para levar para casa e transferências em dinheiro a 20 milhões de alunos, enquanto 45 governos nacionais aumentaram o financiamento interno para os programas de refeições escolares.

    Crianças no Departamento de Choluteca, Honduras, desfrutam de sopa de feijão vermelho como parte do programa de refeições escolares do PAM. Foto: WFP/Giulio d’Adamo
  5. O PAM recebeu 9,8 mil milhões de dólares em contribuições em 2024. Isto correspondeu a apenas 54% das necessidades operacionais, implicando escolhas difíceis, incluindo reduções de rações e o recuo de programas em operações-chave.

    Alimentos do PAM são distribuídos a pessoas deslocadas pelo conflito na Região Somali, na Etiópia. Foto: WFP/Michael Tewelde
  6. O PAM prestou assistência a 1,9 milhões de pequenos agricultores em 51 países em 2024, melhorando a sua gestão pós-colheita e o acesso aos mercados.

    Dois agricultores preparam-se para cuidar das suas culturas na região do Lago Chade, no Chade, após beneficiarem da iniciativa Haguina de resiliência para restaurar terras, para a qual o PAM colaborou com o Governo, o ACNUR e outros. Foto: WFP/Asma Achahboun
  7. Em 2024, o PAM apoiou 20,4 milhões de pessoas no desenvolvimento de meios de subsistência mais resilientes. Isto incluiu a reabilitação de 228.200 hectares de terra, o plantio de 25.500 hectares de floresta e a construção ou reparação de 54 pontes e 2.744 km de estradas e trilhos de acesso.

    José Faustino Hernández planta uma muda de café na sua parcela agrícola localizada em Jalapa, Guatemala, no âmbito de um programa que apoia práticas agrícolas sustentáveis. Foto: WFP/Nelson Pacheco
  8. Em 2024, o PAM distribuiu 2,5 milhões de toneladas métricas de alimentos a 81 milhões de pessoas – dois terços de todos os que receberam apoio – em 71 países.

    Uma mulher transporta alimentos a partir de um ponto de distribuição na província de Cabo Delgado, Moçambique. Foto: WFP/Denise Colletta
  9. Em 2024, o PAM comprou 59% dos alimentos utilizados nas suas operações em mercados locais e regionais, poupando tempo e dinheiro nos custos de transporte e ajudando a sustentar e a desenvolver as economias locais.

    Funcionários descarregam caixas de alimentos para pessoas afetadas pelo conflito, no Oblast de Donetsk, Ucrânia. Foto: WFP/Sayed Asif Mahmud
  10. Em 2024, o PAM transferiu 2,2 mil milhões de dólares em transferências em dinheiro e vales de mercadorias para 46,9 milhões de pessoas em 75 países, aumentando a liberdade de escolha dos consumidores e fortalecendo os mercados locais.

    Gentille Sibomana (à esquerda) compra alimentos com um vale eletrónico biométrico na Província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo. Os vales aumentam a escolha do consumidor enquanto fortalecem os mercados locais. Foto: WFP/Benjamin Anguandia
  11. O PAM apoiou 24 milhões de pessoas para que estivessem melhor protegidas contra choques climáticos em 2024, incluindo através de alertas precoces, transferências de dinheiro antes dos choques e pagamentos de seguros posteriormente, permitindo que as pessoas reconstruíssem os seus meios de subsistência.

    Um barco é conduzido pelas águas na Divisão de Sukkur, no Paquistão, onde a ação antecipatória ajudou a reduzir o impacto das inundações. Foto: WFP/Dinar Ahmad
  12. Em 2024, o PAM prestou prevenção e tratamento de desnutrição, salvando vidas, a 21,4 milhões de mulheres e crianças em 20 países afetados por crises.

    Uma criança bebe papa enriquecida em Mokora Sombola, na região do Extremo Norte dos Camarões. Foto: WFP/Joseph Fambovev

*Artigo da autoria do Programa Alimentar Mundial   

Doe para ajudar o Programa Alimentar Mundial a salvar e transformar vidas.

Mensagem para o Dia Mundial dos Correios

Foto: UPU

O SECRETÁRIO-GERAL

9 de outubro de 2025

No Dia Mundial dos Correios, celebramos os 4,6 milhões de trabalhadores postais que conectam países e comunidades ao redor do mundo.

O tema deste ano, “Correio para as Pessoas: Serviço local. Alcance global”, homenageia as pessoas por trás do serviço e lembra-nos que, quando os indivíduos trabalham em conjunto, o seu impacto pode tornar-se verdadeiramente global.

Com a coordenação da União Postal Universal, os trabalhadores postais formam uma rede que entrega mais do que correspondência. Entregam serviços essenciais, oportunidades e confiança, chegando a áreas remotas, ligando aldeias e cidades, diminuindo a distância entre o rural e o urbano e criando um mundo acessível a todos.

O correio é um serviço feito por pessoas, para pessoas. Hoje e todos os dias, agradecemos aos trabalhadores postais e reafirmamos o nosso compromisso de apoiar um serviço postal forte e sustentável, para as comunidades e para o nosso mundo.

Libertem “incondicionalmente e imediatamente” os reféns em Gaza, apela Guterres

UN Photo/Mark Garten

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, assinalou os dois anos desde os ataques terroristas perpetrados pelo Hamas no sul de Israel, reiterando o seu apelo de longa data à libertação imediata e incondicional dos reféns que continuam a ser mantidos em cativeiro.

“Os atacantes mataram brutalmente mais de 1.250 israelitas e cidadãos estrangeiros”, recordou num comunicado.

“Mais de 250 outras pessoas foram raptadas e levadas para a Faixa de Gaza como reféns, incluindo mulheres, crianças e idosos. Neste dia, lembremo-nos de todos aqueles que foram mortos e sofreram terrível violência. O horror daquele dia sombrio ficará para sempre gravado na memória de todos nós.

Mantidos em condições deploráveis

Estima-se que 48 reféns permaneçam em cativeiro. Acredita-se que cerca de 20 ainda estejam vivos, enquanto 28 provavelmente já faleceram.

Aqueles que ainda vivem estão a ser mantidos em condições deploráveis, disse António Guterres, que se encontrou com algumas das famílias dos reféns e sobreviventes, que partilharam as suas experiências aterradoras.

“Já o disse várias vezes, e hoje repito-o com ainda maior urgência: libertem os reféns, incondicionalmente e imediatamente”, acrescentou.

O Ministério da Saúde de Gaza relata que, desde 7 de outubro de 2023, mais de 67.000 palestinianos foram mortos e quase 170.000 ficaram feridos durante a ofensiva israelita.

Acabem com o sofrimento de todos. Esta é uma catástrofe humanitária de uma dimensão que desafia a compreensão”, afirmou Guterres.

Apelou a todos os combatentes para porem fim aos combates em Gaza, em Israel e na região em geral: “Parem de fazer os civis pagarem com as suas vidas e o seu futuro.”

“Devemos escolher a esperança”

Com negociações indiretas já em curso em Sharm El-Sheikh entre representantes de Israel e do Hamas, numa tentativa de chegar a um acordo total sobre o plano de paz de 20 pontos dos Estados Unidos, o chefe da ONU afirmou que é tempo de aproveitar a oportunidade para pôr fim à guerra.

Após dois anos de trauma, devemos escolher a esperança, agora. A recente proposta do Presidente dos EUA, Donald J. Trump, apresenta uma oportunidade que deve ser aproveitada para pôr fim a este trágico conflito”, acrescentou.

O Hamas declarou que aceitará partes do plano norte-americano, incluindo a libertação de todos os reféns, vivos e falecidos. No entanto, questões como o desarmamento total e o papel do grupo no pós-guerra permanecem em aberto.

O secretário-geral afirmou que um cessar-fogo permanente e “um processo político credível são essenciais para evitar mais derramamento de sangue e abrir caminho à paz”, com base no direito internacional.

A ONU mantém-se firme no seu compromisso de apoiar uma paz duradoura, acrescentou.

“Honramos a memória de todas as vítimas trabalhando pelo único caminho possível: uma paz justa e duradoura, na qual israelitas, palestinianos e todos os povos da região vivam lado a lado com segurança, dignidade e respeito mútuo”, concluiu o comunicado.

Mensagem para o Dia Mundial do Habitat

UN/Kibae Park

O SECRETÁRIO-GERAL

6 de outubro de 2025

No nosso mundo em rápida urbanização, são as cidades que muitas vezes suportam o peso das crises atuais. Conflitos, instabilidade política e a emergência climática forçaram 123 milhões de pessoas a abandonar as suas casas, a maioria em busca de segurança em cidades e vilas que já estão sob pressão.

Cerca de uma em oito pessoas vivem em bairros informais, e mais de 300 milhões não têm casa alguma. Os serviços de saúde, os sistemas de água e as redes de transporte estão sobrecarregados, enquanto os riscos de novos desastres continuam a aumentar.

No entanto, as cidades são onde as soluções podem criar raízes e crescer. Quando planeamos para a inclusão, os recém-chegados ajudam a impulsionar as economias, a fortalecer as comunidades e a enriquecer a cultura.

Neste Dia Mundial do Habitat, damos visibilidade às soluções, desde melhores habitações, a direitos de propriedade, até água e saneamento. Reconhecemos a liderança vital dos prefeitos e dos governos locais, bem como a resiliência das comunidades urbanas, especialmente das mulheres e dos jovens.

Acima de tudo, procuramos partilhar as inovações que ajudam a garantir o acesso para os mais vulneráveis, incluindo pessoas com deficiência, pessoas idosas e crianças.

Uma cidade é mais do que tijolos e cimento. É a promessa de um lar.

Juntos, vamos construir cidades mais fortes que garantam segurança e pertença para todos.

Agência Espacial da ONU: “o espaço não é um sonho distante”

© UNOOSA

Numa época de tensões geopolíticas, garantir que o espaço seja utilizado para fins pacíficos e que beneficie toda a humanidade não é uma tarefa fácil, mas há mais de 60 anos que essa tem sido a missão do Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA).

Ao assinalarmos a Semana Mundial do Espaço (4 a 10 de outubro), a diretora do UNOOSA, Aarti Holla-Maini, destaca que continua a existir um “compromisso partilhado com um espaço pacífico e sustentável” e que o seu escritório está a trabalhar para garantir que os benefícios do espaço cheguem a todos, em todo o lado.

Competição e congestionamento no espaço

O interesse da humanidade em explorar e compreender o espaço, bem como em extrair os seus recursos, aumenta dia após dia. O espaço está a tornar-se cada vez mais congestionado, com satélites lançados por mais de 90 países.

Apesar de ser uma zona de competição, o espaço tem, até agora, evitado tornar-se uma área de conflito direto. Mas, com vários atores em cena, a coordenação e a governação do espaço tornaram-se muito mais complexas.

“Toda a gente sabe que há demasiadas coisas a serem lançadas para o espaço. As pessoas pensam que é o faroeste. O nosso escritório tem o mandato de pôr ordem nisso”, afirma a britânica Holla-Maini, que dirige o escritório espacial da ONU desde 2023.

Manter a paz e a sustentabilidade no espaço

© UNOOSA

O UNOOSA desempenha um papel vital na coordenação do tráfego espacial e na promoção da sustentabilidade. Apoia, por exemplo, os países na compreensão dos fundamentos do direito espacial.

Com mais de 100 missões lunares previstas de agora até 2030, a iniciativa do UNOOSA, “Uma Lua para Todos”, ajuda a reforçar a coordenação global. 

As missões lunares vão desde a investigação científica a empreendimentos comerciais, como a mineração e o estabelecimento de assentamentos humanos. Estas missões precisam se coordenar para garantir que não se dirijam ao mesmo local ao mesmo tempo.

“Embora estas atividades, naturalmente, representem imensas oportunidades para avançarmos no nosso conhecimento e compreensão, e até para estimular o crescimento económico, continuam a apresentar desafios significativos em termos de governação, segurança e sustentabilidade”, afirma Holla-Maini.

A queda de detritos de satélites na Terra é também uma área central para o escritório espacial da ONU. Embora rara, esta ocorrência pode acontecer e tem vindo a aumentar em frequência.

“O nosso escritório já foi contactado cinco vezes só este ano”, refere Holla-Maini, que aponta para um enquadramento jurídico da ONU que define os direitos e as obrigações dos Estados caso tal aconteça. 

O UNOOSA também coordena a defesa planetária contra asteroides. O asteroide 2024 YR4 foi recentemente notícia quando o UNOOSA soou o alarme de que a sua probabilidade de impacto na Terra em 2032 tinha subido até 3%. Um impacto já foi descartado, mas o UNOOSA coordenou com governos e agências que puderam monitorizar o asteroide.

“O nosso papel é sempre o de reforçar capacidades. Muitos países em todo o mundo não têm a capacidade de realizar este tipo de trabalho”, detalha Holla-Maini.

Tecnologias espaciais no dia a dia

O espaço pode trazer muitos benefícios à vida na Terra, e a Semana Mundial do Espaço deste ano foca-se no tema “Viver no Espaço

“Convida-nos a imaginar como poderá ser a vida diária além da Terra mas desafia-nos também a refletir sobre como as inovações espaciais já estão a moldar a vida na Terra”, explica Holla-Maini.

Muitos produtos familiares, desde colchões de espuma com memória a painéis solares e sistemas de reciclagem de água, foram originalmente desenvolvidos para a indústria espacial.

“Já estamos a viver no espaço porque, cada vez que usamos os mapas nos nossos telemóveis ou nos carros, cada vez que consultamos a previsão do tempo, cada vez que fazemos um pagamento digital, estamos a depender de satélites.”

Melhorar a resiliência climática   

Os dados provenientes de satélites podem também ser usados para monitorizar tendências climáticas e sinais de fenómenos meteorológicos extremos.

Embora os dados de alta resolução sejam frequentemente geridos por entidades comerciais, tornando-os caros, ou utilizados para fins militares, tornando-os inacessíveis, agências espaciais e atores privados fornecem ao UNOOSA imagens gratuitas para apoiar missões que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

“Podem ser utilizadas para ajudar na resiliência a desastres climáticos, na conectividade, na saúde, na educação e na redução da divisão digital e de dados”, detalha Holla-Maini.

As emissões de carbono podem ser monitorizadas, os níveis do mar acompanhados, mapas de calor elaborados e a dimensão dos danos avaliada quando ocorrem desastres. Podem mesmo ser utilizadas para monitorizar a pesca ilegal, a poluição e crimes ambientais.

No Brasil, por exemplo, a tecnologia de alta resolução ajudou a combater o desmatamento ilegal.

“É literalmente possível ver do espaço quando atores criminosos abrem apenas um pequeno caminho para entrarem com o seu equipamento. Isso permite às autoridades intervir e reprimir antes de o desmatamento ilegal ocorrer”, afirma Holla-Maini. Num só ano no Brasil, isto ajudou a prevenir 40 operações ilegais.

O espaço é a província de toda a humanidade

© UNOOSA

Como parte da sua missão de garantir que o espaço beneficie toda a humanidade, o UNOOSA ajuda, em particular, os países em desenvolvimento a utilizar a tecnologia espacial de forma eficaz. Por exemplo, tem apoiado países como Guatemala, Maurícias, Quénia e Nepal a construir os seus primeiros satélites.

“Há uma suposição de que o espaço é apenas para quem tem satélites e agências espaciais, o que significa que uma massa crítica de Estados-membros não participa na governação do espaço. E isso é um problema. Precisamos da voz de todos.”

Todos os Estados-membros da ONU, sejam eles nações espaciais ou não, estão representados pelo Comité das Nações Unidas para os Usos Pacíficos do Espaço Exterior (COPUOS).

“Precisamos do Escritório Espacial da ONU mais do que nunca para manter os Estados-membros juntos à mesma mesa, a discutir e a trabalhar em conjunto na governação do espaço. Não podemos permitir que a atual geopolítica divida os Estados-membros e que cada um siga o seu próprio caminho.”

A agência trabalha também para aumentar a representação feminina no setor espacial. O seu programa Space4Women oferece mentoria, formação e visibilidade às mulheres do setor, e o UNOOSA fornece um kit de ferramentas para ajudar as instituições a criar políticas e programas mais inclusivos em termos de género.

“O espaço não é um sonho distante. É já uma realidade partilhada. E, se trabalharmos juntos, pode ajudar-nos a resolver os desafios mais urgentes da Terra”, conclui Holla-Maini.

Mensagem para o Dia Internacional da Não-Violência

UN Photo/Rick Bajornas

O SECRETÁRIO-GERAL 

2 de outubro de 2025

Neste Dia Internacional da Não-Violência, homenageamos a vida e o legado de Mahatma Gandhi, assim como o seu compromisso inabalável com a paz, a verdade e a dignidade para todos.

Gandhi não só falou destes ideais, ele viveu-os. E neste tempo de crescentes tensões e de divisões cada vez mais profundas, a sua mensagem assume uma urgência renovada.

Estamos a assistir a uma preocupante erosão da nossa humanidade partilhada. A violência está a substituir o diálogo. Os civis estão a suportar o peso dos conflitos. O direito internacional está a ser desrespeitado. Os direitos humanos estão a ser pisoteados. E os fundamentos da paz estão sob tensão.

Gandhi compreendia que a não-violência não é uma arma dos fracos, mas a força dos corajosos. É o poder de resistir à injustiça sem ódio; enfrentar a opressão sem crueldade; e construir a paz através da dignidade, e não da dominação.

Nestes tempos perigosos e de divisões, que encontremos a força para seguir o seu exemplo, pôr fim ao sofrimento, promover a diplomacia, curar divisões e criar um mundo justo, sustentável e pacífico para todos.

Mensagem para o Dia Internacional das Pessoas Idosas

UNFPA Vietnam

 

O SECRETÁRIO-GERAL

1 de outubro de 2025

O número de pessoas com mais de 60 anos mais do que duplicou nos últimos trinta anos, atingindo 1,2 mil milhões. Até 2050, mais 900 milhões de pessoas idosas farão parte da nossa família humana. Trata-se de uma mudança demográfica profunda, com consequências de longo alcance para as economias, os sistemas de saúde e a coesão social.

Temos de responder com antecipação e ação. Isto significa garantir que os direitos das pessoas idosas sejam plenamente respeitados, a sua dignidade preservada e os seus contributos reconhecidos.

Como nos lembra o tema deste ano, as pessoas idosas são agentes poderosos de mudança. As suas vozes devem ser ouvidas na formulação de políticas, na erradicação da discriminação pela idade e na construção de sociedades inclusivas.

Todas as comunidades e faixas etárias beneficiam da sabedoria das pessoas idosas. Têm muito a ensinar sobre como navegar na incerteza, resolver conflitos e promover solidariedade entre gerações.

Vamos comprometer-nos a ouvir, aprender e agir. Vamos construir um mundo onde todas as pessoas, independentemente da idade, possam viver com respeito, segurança e oportunidades.

Estudo revela violência digital deliberada contra mulheres na vida pública

UN Women/Christopher Herwig

Uma investigação conduzida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em oito países mostra que uma em cada cinco interações com mulheres nas redes sociais tem carácter violento; Portugal é o único país lusófono incluído na análise.

Em Portugal, 60% das interações violentas dirigidas a mulheres com visibilidade pública nas redes sociais subestimam as suas capacidades ou questionam o seu direito a opinar. Um quinto desses ataques nem sequer se refere às ideias expressas, são puramente pessoais.

As conclusões são de um estudo ibero-americano que analisou milhares de comentários online e revela como a violência digital é usada para afastar a mulher do Estado democrático, com o objetivo de silenciar a sua voz na esfera pública.

Jornalistas e artistas

A investigação foi promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB) e pela Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra as Mulheres, envolvendo oito países: Andorra, Bolívia, Espanha, México, Panamá, Portugal, República Dominicana e Uruguai.

O estudo foi apresentado em Lisboa este 29 de setembro, num evento na Assembleia da República, organizado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), em parceria com a SEGIB.

Em Portugal, o único país lusófono na lista, foram analisadas 43 contas de mulheres com presença pública activa, incluindo políticas, jornalistas, artistas e activistas. O estudo avaliou as reações às suas publicações na rede social X.

Números revelam padrões de silenciamento

A psicóloga e coordenadora da equipa de violência de género da CIG, Marta Silva, explicou como as agressões ocorrem.

“O digital não traz nada de novo, o que traz é a forma como a violência se opera e como as coisas continuam estratificadas e, no fundo, é mais um veículo onde a discriminação e a violência se instala.”

O estudo mostra que, no caso português, a maioria dos ataques não se centra no debate de ideias, mas na tentativa de descredibilizar a mulher enquanto sujeito político.

As ofensas tentam reconduzir as mulheres a um lugar de serviço dentro de casa, como explica Marta Silva nesta entrevista à ONU News, em Lisboa.

“O que se percebeu, de facto, é que no caso de Portugal, um quinto dessas interações, desses ataques, não eram à ideia, à opinião, eram à emissora. ‘Isso não é para a tua cabecinha, vai mas é para a cozinha. Mantém-te no teu lugar. Não venhas para aqui, para a esfera, que é dos homens.’”

Igualdade, saúde sexual e ativismo

Cerca de 60% das interações violentas são dirigidas à alegada falta de capacidade das mulheres para exercer cargos ou expressar opiniões, recorrendo a estereótipos de género persistentes.

O estudo revela também que 40% dos ataques dizem respeito à filiação política e ao ativismo cívico das mulheres, com maior incidência sobre as que defendem causas ligadas à igualdade de género, saúde sexual e reprodutiva, direitos das mulheres e ativismo climático.

Marta Silva afirma que as agressões variam conforme o partido político e que “há maior peso sobre mulheres à esquerda do que à direita”.

Os dados mostram ainda que 8% das agressões incidem sobre o corpo e a sexualidade, 2% sobre a identidade e 1% envolvem ameaças diretas à integridade física.

Autocensura e afastamento do espaço público

O efeito desta violência é profundo e pode comprometer a liberdade de expressão e a cidadania plena. Apesar de o estudo não incidir na reação das visadas, Marta Silva refere que há algumas respostas frequentes, que passam por sair das redes sociais ou pela autocensura.

“A pessoa cancela a sua conta. Ou suspende durante uns tempos e depois volta. Ou a pessoa autocensura-se. Passa a ser altamente cuidadosa e parcimoniosa no que vai escrever. Isto é um constrangimento ao exercício da liberdade de expressão daquela pessoa.”

São comportamentos que refletem o objetivo último desta violência. “A ideia é afastar a mulher de mais este espaço público”, explica Marta Silva.

ONU News/Sara de Melo Rocha Estudo sobre violência digital contra mulheres olhou para oito países da luso ibérica

Prevenir, denunciar, punir

Para responder ao avanço da violência digital, o estudo propõe um conjunto de medidas dirigidas aos Estados e às plataformas digitais, organizadas em três grandes eixos: prevenção, responsabilização e repressão penal.

Na área da prevenção, os especialistas defendem um investimento consistente em educação e literacia digital, sobretudo entre os mais jovens. A prioridade, sublinha Marta Silva, deve ser questionar os discursos de género e desmontar a normalização de estereótipos misóginos.

“Temos de fazer uma reflexão profunda para perceber isto: porque é que temos tantos rapazes com discursos misóginos validados e tantas raparigas a concordar que o seu papel deve ser mais submisso.”

Regras claras e liberdade

A segunda linha de atuação centra-se na responsabilidade das plataformas. O relatório recomenda a definição de regras claras sobre os limites da liberdade de expressão e a criação de mecanismos eficazes para a remoção de conteúdos violentos ou ameaçadores.

Marta Silva defende que é preciso “fazer um trabalho de proximidade com quem gere os Instagrams, o Facebook, os Twitters, a Meta.”

Por fim, o estudo reforça a necessidade de aplicar as leis já existentes no combate à violência online, sublinhando que muitas das condutas observadas configuram crimes de ódio, injúria, incitamento à violência ou importunação sexual.

O relatório sugere ainda a criação de canais de denúncia rápidos e eficazes, eventualmente apoiados por inteligência artificial, capazes de rastrear e sinalizar ataques com maior celeridade e transparência.

Um fenómeno global, com raízes comuns

Portugal integra desde 2023 a Iniciativa Ibero-Americana para Prevenir e Eliminar a Violência contra a Mulher, um grupo que partilha experiências e soluções entre países com contextos culturais diversos.

“Independentemente das geografias, o que há para fazer, em maior ou menor escala, radica sempre nos mesmos problemas.”

A especialista sublinha que o digital amplifica desigualdades antigas, funcionando como extensão das violências tradicionais.

*Artigo da ONU News de autoria de Sara de Melo Rocha, correspondente da ONU News em Lisboa.

Mil milhões de refeições são desperdiçadas todos os dias enquanto 735 milhões de pessoas passam fome

Um assombroso terço de todos os alimentos produzidos globalmente é perdido ou desperdiçado.

Neste Dia Internacional para Consciencialização da Perda de Alimentos e a Redução do Desperdício, a situação continua crítica: uma em cada 11 pessoas enfrenta fome, enquanto toneladas de refeições são descartadas diariamente. Reduzir a perda e o desperdício de alimentos é fundamental, especialmente num contexto de população global crescente e de recursos limitados. 

Globalmente, cerca de 13,2% da produção alimentar perde-se entre a colheita e a venda no retalho, enquanto aproximadamente 19% é desperdiçada em lares, restaurantes e supermercados. Estima-se que as famílias representem cerca de 60% do desperdício alimentar mundial. Para inverter esta realidade, governos, produtores, empresas e consumidores devem agir de forma integrada, fortalecendo os sistemas alimentares e adotando soluções inovadoras que promovam uma produção e consumo mais sustentáveis.

A perda e o desperdício de alimentos não afetam apenas a segurança alimentar e a disponibilidade de alimentos, mas também levam à subida de preços e comprometem a sustentabilidade dos recursos utilizados na produção, como água, terra, energia, mão de obra e capital. Além disso, o descarte de alimentos em aterros sanitários contribui significativamente para as emissões de gases de efeito estufa, intensificando as alterações climáticas.

Com apenas cinco anos para alcançar a meta 12.3 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12, que via consumo e produção responsáveis, torna-se urgente acelerar a ação coletiva. A introdução de novas tecnologias, soluções inovadores e novas formas de trabalho é essencial para reduzir perdas, maximizar a utilização da produção alimentar e garantir sistemas alimentares resilientes e sustentáveis para o futuro.