Cria empregos, alimenta as economias locais, apoia as infraestruturas e contribui para o desenvolvimento muito além do PIB.
O turismo fortalece laços entre pessoas e lugares. Constrói pontes entre culturas, preserva tradições e restaura o património cultural. Lembra-nos da nossa humanidade partilhada e da riqueza da diversidade.
E, no entanto, o turismo também pode danificar os mesmos lugares e comunidades que celebra.
À medida que o mundo enfrenta a crise climática e o aumento das desigualdades, precisamos de ações ousadas, urgentes e sustentáveis que coloquem as pessoas e o planeta em primeiro lugar.
O tema deste ano, “Turismo e Transformação Sustentável”, apela-nos à ação.
Isto significa investir em educação e competências, especialmente para mulheres, jovens e comunidades marginalizadas; apoiar micro, pequenas e médias empresas; avançar a ação climática, reduzindo emissões no setor turístico, conservando biodiversidade e protegendo ecossistemas frágeis.
Hoje, e todos os dias, vamos aproveitar o poder do turismo como uma força para transformação, resiliência, sustentabilidade e progresso partilhado para todos.
Um novo mecanismo universal garante assento a todos os Estados-membros e promete transformar princípios em prática, colocando a humanidade no centro do avanço tecnológico; a resolução sobre o tema foi adotada em agosto.
A Assembleia Geral das Nações Unidas inaugurou nesta quinta-feira, em Nova Iorque, o Diálogo Global sobre a Governança da Inteligência Artificial.
A iniciativa reúne os 193 Estados-membros, representantes da sociedade civil, do setor privado e da comunidade científica. O objetivo é criar regras comuns sobre uma das tecnologias mais disruptivas do momento.
ONU/Mark Garten O secretário-geral da ONU, António Guterres
Guterres: “a humanidade não pode ser deixada a um algoritmo”
No Conselho de Segurança, o secretário-geral alertou que a inteligência artificial já influencia a paz e a segurança internacionais e que, sem regras claras, pode ser usada como arma.
Sublinhou quatro prioridades: manter sempre o controlo humano sobre o uso da força, construir quadros regulatórios globais, proteger a integridade da informação e garantir que a inovação sirva a humanidade.
António Guterres reiterou ainda o apelo a uma proibição de sistemas de armas letais autónomas sem supervisão humana, defendendo um acordo juridicamente vinculativo até 2026.
Consenso
A decisão foi possível após a adoção, por consenso, de uma resolução em agosto deste ano, que criou dois novos mecanismos globais: o Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial e o próprio Diálogo Global.
O secretário-geral da ONU saudou a decisão, afirmando que a criação do painel e do diálogo representa “um marco histórico que demonstra o compromisso dos Estados-membros em transformar as aspirações do Pacto para o Futuro e do Compromisso Digital Global em mecanismos operacionais”.
Guterres acrescentou que o objetivo é “garantir que a inteligência artificial seja utilizada para unir e não dividir, colocando a humanidade no centro do progresso tecnológico”.
ONU/Evan Schneider Uma visão ampla da reunião do Conselho de Segurança sobre Inteligência Artificial e paz e segurança internacionais
Sistema de Alerta Precoce
O novo Painel Científico Internacional Independente terá a função de fornecer avaliações imparciais e baseadas em evidências sobre riscos, oportunidades e impactos da Inteligência Artificial (IA).
Composto por 40 especialistas de diferentes regiões e áreas disciplinares, escolhidos através de um processo aberto de nomeação, o órgão produzirá relatórios anuais apresentados no Diálogo Global.
Os membros, que atuarão a título pessoal por um mandato de três anos, serão selecionados segundo critérios de excelência, diversidade geográfica e equilíbrio de género, sem possibilidade de mais de dois representantes da mesma nacionalidade ou instituição.
Acesso à informação
Segundo a ONU, o painel funcionará como um “motor de evidências” e um “sistema de alerta precoce”, aproximando a investigação científica de ponta dos debates políticos globais e nivelando o acesso à informação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
O Diálogo Global sobre Governação da IA será realizado anualmente, alternadamente entre Nova Iorque e Genebra, tornando-se o principal espaço multilateral para a cooperação internacional em torno da tecnologia.
A sessão inaugural, a ser presidida pelo presidente da Assembleia Geral, ocorrerá no Conselho de Tutela da ONU, reunindo Estados-membros, empresas, organizações da sociedade civil e universidades.
De acordo com os organizadores, o fórum pretende alinhar esforços nacionais e regionais, evitar fragmentação, reduzir barreiras e estimular a interoperabilidade entre diferentes sistemas regulatórios, promovendo a cooperação económica e científica.
De recomendações à prática
O lançamento do painel e do diálogo dá sequência a um processo iniciado em 2020, quando o roteiro de cooperação digital do Secretário-Geral propôs a criação de um órgão multissetorial para IA.
Em 2023, o Painel Consultivo de Alto Nível sobre Inteligência Artificial apresentou recomendações que culminaram na incorporação do tema ao Compromisso Digital Global, adotado por Chefes de Estado no Pacto para o Futuro, em setembro de 2024.
Com a aprovação unânime da resolução no mês passado, a ONU passa agora da formulação de princípios à implementação concreta, num movimento descrito como “multilateralismo na sua melhor forma”: inclusivo, ágil e ancorado em responsabilidade partilhada.
ONU News | Reunião especial do Ecosoc sobre Inteligência Artificial
Compromisso com o futuro
Os dois mecanismos lançados este mês marcam um momento histórico, sendo a primeira vez que a comunidade internacional cria estruturas permanentes para lidar com uma tecnologia em rápida evolução sob normas internacionais partilhadas.
Para a ONU, trata-se de uma promessa coletiva: garantir que a inteligência artificial reduza desigualdades em vez de as ampliar, fortaleça a confiança entre fronteiras e apoie o desenvolvimento sustentável, sempre com os direitos humanos como base.
As armas nucleares não oferecem segurança, apenas a promessa de aniquilação.
O Dia Internacional para a Eliminação Total das Armas Nucleares lembra-nos esta lição central da Guerra Fria, quando a humanidade arriscou a sua própria sobrevivência ao longo de décadas.
Infelizmente, a sombra da aniquilação nuclear continua presente e a expandir-se rapidamente, alimentada por divisões e desconfiança, juntamente com o aumento das despesas militares, a expansão dos arsenais e países a brandir o sabre nuclear como meio de coerção.
A humanidade segue na direção errada. É tempo de traçar um novo rumo para uma paz duradoura através do desarmamento.
No Pacto para o Futuro, adotado em setembro passado, os Estados-membros reafirmaram o objetivo da eliminação total das armas nucleares. Os países devem privilegiar o diálogo em vez da divisão e o desarmamento em vez da destruição – não com palavras, mas com ações.
Neste dia importante, apelo aos Estados que possuem armas nucleares que levantem esta sombra que paira sobre a humanidade. Honrem as vossas obrigações de desarmamento e comprometam-se com a eliminação total das armas nucleares.
O caminho para a COP30, em Belém do Pará, ganhou novo fôlego. Quase 100 países, incluindo cerca de 40 chefes de Estado e de governo, anunciaram ou reafirmaram compromissos para apresentar novas metas climáticas ainda este ano. Os anúncios foram feitos durante a Cimeira do Clima, organizada pelas Nações Unidas e pelo Brasil à margem da Assembleia Geral da ONU.
“A ciência exige ação. A lei impõe-na. A economia justifica-a. E as pessoas pedem-na.” Com estas palavras fortes, António Guterres, secretário-geral da ONU, abriu a reunião que marcou um dos maiores momentos diplomáticos antes da conferência em Belém, em novembro.
Grandes emissores entram em cena
Entre os compromissos anunciados, destaca-se a entrada de grandes economias como a China, o maior emissor de gases com efeito de estufa, e a Nigéria, que apresentaram, pela primeira vez, metas de redução de emissões para todos os setores e gases poluentes. Outros países revelaram planos para expandir as energias renováveis, reduzir emissões de metano, proteger florestas e eliminar gradualmente os combustíveis fósseis.
Os líderes sublinharam que acelerar a transição energética pode gerar novos empregos, crescimento económico e maior segurança energética. Já os países em desenvolvimento lembraram a necessidade de incluir medidas de adaptação, resiliência e compensação por perdas e danos nos seus planos, destacando a urgência de mais financiamento internacional.
UN Photo/Manuel Elías | Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, intervém na Cimeira do Clima 2025.
O desafio de Belém
Apesar dos avanços, Guterres alertou que ainda há um longo caminho a percorrer para manter o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Os Diálogos de Soluções, realizados ao longo da semana pelas Nações Unidas e pelo Brasil, destacaram que as tecnologias e ferramentas necessárias para descarbonizar a energia, o transporte e a indústria, proteger as florestas e reforçar a resiliência já estão disponíveis. O desafio agora é acelerar a sua implementação em escala.
“A COP30 no Brasil deve concluir com um plano de resposta global credível para nos colocar na trajetória certa”, afirmou o secretário-geral.
A vice-secretária-geral, Amina Mohammed, reforçou a mensagem de esperança: “Líderes de todo o mundo uniram-se para mostrar que, mesmo num momento de divisão e incerteza, a determinação para enfrentar a crise climática continua viva e firme.”
UN Photo/Manuel Elías | Katherine Hayhoe (no ecrã e à direita no púlpito), professora e cientista climática, intervém na Cimeira do Clima 2025. À esquerda no púlpito está Johan Rockström, professor de Ciências Ambientais.
Diálogos de Soluções: rumo à ação
Antes da Cimeira, a ONU e o Brasil reuniram governos, empresas, sociedade civil e líderes financeiros nos Diálogos de Soluções Climáticas, que abordaram temas como:
UN Photo/Loey Felipe | Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, discursa no debate geral da 80.ª sessão da Assembleia Geral.
O presidente da República de Portugal discursou esta terça-feira, pela sexta e última vez, na abertura da semana de Alto Nível da 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Em 20 minutos, falou em inglês, português, espanhol e francês, destacando paz, multilateralismo, clima e o futuro da ONU.
Marcelo Rebelo de Sousa abriu o seu discurso homenageando o secretário-geral António Guterres, destacando o seu humanismo e o apego ao direito internacional, e reafirmou o apoio de Portugal ao seu trabalho.
O presidente alertou para as crises globais e defendeu que a ONU vive um momento decisivo. Deixou uma crítica indireta a Donald Trump, que questionou a utilidade da organização e frisou a importância da reforma da ONU assente na prevenção, parceria e proteção, com diplomacia preventiva e investimento na consolidação da paz.
O chefe de Estado destacou que desenvolvimento e paz caminham juntos, apontou a urgência de combater as divisões digitais e tecnológicas, e reiterou o compromisso de Portugal com a ação climática e a proteção dos oceanos, lembrando que 27% da sua superfície marinha já é área protegida.
UN Photo/Evan Schneider | O Secretário-Geral António Guterres (à direita) reúne-se com Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa.
Marcelo enfatizou ainda a experiência de Portugal em iniciativas multilaterais, a necessidade de maior inclusão de mulheres e jovens, e mencionou conflitos atuais, como na Ucrânia, Sudão e Haiti, além do reconhecimento de um Estado palestiniano.
Sobre o Conselho de Segurança, defendeu uma reforma profunda, com mais pluralidade e representação de África e grandes potências emergentes, e reafirmou a candidatura de Portugal a membro não-permanente para 2027-2028.
Concluiu assegurando que Portugal continuará a lutar por soluções internacionais que protejam o planeta e reforcem o papel central das Nações Unidas.
UN Photo/Loey Felipe | O Secretário-Geral António Guterres discursa na abertura do debate geral da octogésima sessão da Assembleia Geral. Atrás dele, no pódio, estão Annalena Baerbock (à esquerda), Presidente da octogésima sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, e Movses Abelian, Secretário-Geral Adjunto para a Assembleia Geral e Gestão de Conferências (DGACM).
No seu discurso na abertura da Assembleia Geral, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, recordou os 80 anos da fundação da organização e destacou que, tal como em 1945, o mundo enfrenta novamente uma encruzilhada decisiva. Nascida da devastação da guerra, a ONU representou uma escolha pela cooperação, pelo direito e pela paz. Hoje, afirmou, esta escolha volta a estar em causa, perante conflitos persistentes, desigualdades crescentes, alterações climáticas aceleradas e avanços tecnológicos sem regulação adequada.
No centro da intervenção de Guterres esteve um apelo claro: “Agora é o momento de escolher”. O secretário-geral apresentou cinco opções críticas que determinarão o futuro da comunidade internacional: consolidar a paz baseada no direito internacional, defender os direitos humanos e a dignidade humana, assegurar a justiça climática, colocar a tecnologia ao serviço da humanidade e reforçar as Nações Unidas para o século XXI.
Ao abordar os conflitos em curso, o diplomata português destacou o sofrimento civil no Sudão, a destruição na Ucrânia e os horrores em Gaza, que classificou como os mais devastadores do seu mandato. Reiterou a necessidade de um cessar-fogo imediato, da libertação dos reféns e da implementação das medidas do Tribunal Internacional de Justiça. Enfatizou ainda que a paz duradoura no Médio Oriente só será possível com a solução de dois Estados.
UN Photo/Manuel Elías | Uma vista das delegações presentes no primeiro dia do debate geral da octogésima sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.
António Guterres apontou igualmente a urgência de reformar a arquitetura financeira internacional para combater a pobreza e a desigualdade, bem como de acelerar a transição energética justa e inclusiva. No campo da tecnologia, apelou à criação de normas globais para a inteligência artificial e outras inovações disruptivas, insistindo que “nenhuma empresa deve estar acima da lei” e que a tecnologia deve servir a dignidade e os direitos humanos.
No encerramento, partilhou a sua experiência pessoal de resistência sob uma ditadura, sublinhando que “o verdadeiro poder surge das pessoas”. Guterres também deixou uma mensagem de perseverança e compromisso: a ONU deve adaptar-se e inovar para continuar a ser um pilar da paz, da justiça e da humanidade. E concluiu: “Nunca devemos desistir. Eu nunca, jamais, desistirei.”
Em entrevista à ONU News, Marcelo Rebelo de Sousa afirma que o mundo precisa de mais diálogo e tolerância. Sobre ação climática, o líder português diz que é preciso pressionar os atores que mais poluem e conta que quer ser lembrado como o mesmo “Marcelo” que assumiu o poder há 10 anos; ex-professor, promete voltar a ensinar em 2026, mas desta vez em escolas secundárias.
O presidente de Portugal defendeu a existência das Nações Unidas como um fórum ímpar na promoção da tolerância, do diálogo e da cooperação entre os países. Ele encontra-se em Nova Iorque para participar no Debate Geral da Assembleia Geral da ONU, no ano em que a organização celebra oito décadas.
Para o líder português, que deixará o cargo em 2026, após 10 anos na presidência, não há nada que possa substituir a ONU, o maior fórum internacional de multilateralismo.
A ONU é universal
“Tem de haver diálogo, tem de haver tolerância. E ou há Nações Unidas ou não há nada que possa substituir, porque a ONU não é só esta reunião aqui, uma vez por ano, várias vezes por ano. Não. É no terreno, na educação, na saúde, na proteção da mulher, na proteção da criança, das pessoas com deficiência… Tudo isto tem de ser universal. Ser universal quer dizer que não pode ser resolvido por um, dois, três, sete ou vinte países; não pode.”
Uma das reuniões paralelas de alto nível nesta 80.ª Sessão da Assembleia Geral é a questão palestina e o conflito no Médio Oriente. No domingo, 21 de setembro, Portugal reconheceu publicamente a criação de um Estado Palestiniano numa reunião em Nova Iorque.
Para Marcelo Rebelo de Sousa, chegou a hora de resolver o tema de uma vez por todas. Esse reconhecimento unilateral, ao lado de outros países europeus e de outros continentes, “deve ajudar”, disse.
Nuno Vasco Rodrigues/UN World Oceans Day 2023 Uma equipe de mergulhadores científicos avalia a biodiversidade marinha no topo de um monte submarino em Porto Santo, Madeira, Portugal
Estado palestiniano e economia azul
“Era a única via para a paz. Adiar, deixar para depois, é a mesma coisa que não decidir e criar o facto consumado. E o facto consumado seria já não ser possível o segundo Estado. Ter dois Estados é crucial para a pacificação da região. Por que agora? Porque era o último momento para que fosse possível. Não apenas Portugal, mas outros países europeus e até países não europeus mostram que é uma resposta universal.”
Segundo o presidente, israelitas e palestinianos já celebraram vários acordos, mas até agora o Estado da Palestina não foi criado. A resolução 181 da Assembleia Geral, de 1947, recomendava a criação do Estado, conhecida como resolução da partilha.
Outro tema importante para Portugal nesta 80.ª Sessão da Assembleia Geral é a ação climática. O país destaca-se nesta área com a promoção da economia azul, o compromisso com a redução das emissões de gases de efeito estufa e também com a troca de dívida com países como São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, para impulsionar a proteção ambiental.
Para Marcelo Rebelo de Sousa, os conflitos e guerras retiraram a mudança climática da agenda, sendo necessário trazê-la de volta para proteger o planeta, a geração atual e as futuras.
UN Photo/Eskinder Debebe Conselho de Segurança da ONU
Conselho de Segurança e futuro
“É preciso pressionar as grandes potências que não cumprem os objetivos das sucessivas COPs. Por isso é necessário o multilateralismo, porque, se não houver pressão dos mais pequenos, dos médios, de quem sofre as emissões de carbono, não haverá equilíbrio de poderes. E não é apenas o sul em relação ao norte. São aqueles que sofrem, aqueles que produzem e poluem, e que acham que o tema desapareceu da agenda. Esta COP vai recolocar as alterações climáticas na agenda. Saíram da agenda por causa das guerras, por causa da ideia de um ou poucos mandarem no mundo.”
Ao abordar a questão da paz e segurança internacionais, o presidente afirma que é altura de o Conselho de Segurança ser reformado para refletir a realidade política do século XXI. Portugal, que já esteve várias vezes no órgão, é candidato a um assento para o biénio 2027-2028, juntamente com outras nações europeias.
Para Rebelo de Sousa, num momento em que o mundo tem 61 conflitos ativos, um número recorde desde a criação da ONU em 1945, “nunca houve, como em 2024, um ano com tantos vetos. Um Conselho de Segurança paralisado pelo veto significa umas Nações Unidas paralisadas. Significa um mundo paralisado.”
ONU News/Leda Letra Largo da Esperança, Lisboa, Portugal
Política direta
Sobre o futuro da política num mundo cada vez mais virtual, Rebelo de Sousa afirmou que a política sem estrutura ou organização pode levar a uma política sem conteúdo e experiência.
“Esta liderança que é, no fundo, liderança direta saltando por cima de instituições representativas, por cima de instituições democráticas, por cima de Parlamento, por cima de partidos, por cima de juízes, por cima de todos. Um líder todo-poderoso e seu eleitorado, isso facilita a forma e não o conteúdo. Facilita a utilização de novos meios. E, portanto, o que se passa é que os mecanismos democráticos, as forças democráticas a juventude que quer a participação, a democracia, o diálogo universal, tem de entender e fazer entender aos mais velhos que fazer política hoje tem que ser diferente do que era no passado, tem que ser de outra forma, mas com conteúdo.”
CPLP e legado
Sobre a concertação política na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que celebra 30 anos em 2026, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu uma comunidade mais conectada com a população, mantendo-se um fórum multilateral. Destacou o papel chave dos jovens nesta nova década da CPLP:
“Mais força à presença dos jovens na CPLP, mais força à componente social e económica, mais força à cultura, mais força ao contacto entre os povos. Não deve ser uma construção apenas de políticos e dirigentes, tem de chegar às ruas.”
Ao ser questionado sobre como quer ser lembrado após deixar a Presidência, respondeu que quer ser visto como o mesmo Marcelo que sempre foi.
Portugal reconheceu oficialmente o Estado da Palestina neste domingo, 21 de setembro, na véspera de uma conferência sobre a solução dos dois Estados, organizada no âmbito da 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, por iniciativa de França e da Arábia Saudita.
Para além de França e de Portugal, outros países ocidentais irão reconhecer o Estado da Palestina durante esta conferência: Andorra, Austrália, Bélgica, Canadá, Luxemburgo, Malta, Reino Unido e São Marino.
A Árábia Saudita e França já tinham coorganizado, no final de Julho, uma conferência das Nações Unidas dedicada à solução dos dois Estados, reunindo cerca de uma centena de delegações.
O texto resultante deste encontro, denominado “Declaração de Nova Iorque”, estabelece um roteiro para uma resolução sustentável do conflito israelo-palestiniano, excluindo explicitamente o Hamas das negociações.
Em maio de 2024, Espanha, Irlanda e Noruega reconheceram conjuntamente o Estado da Palestina. No mês seguinte, seguiram-se a Eslovénia, e mais tarde a Arménia e o México.
Antes da Assembleia Geral de 2025, 148 dos 193 Estados-membros das Nações Unidas já reconheciam oficialmente o Estado da Palestina.
Por sua vez, o Estado de Israel é reconhecido por 165 dos 193 Estados-membros da ONU.
Reconhecimento gradual desde 1988
O Estado da Palestina foi oficialmente criado pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Argel, a 15 de novembro de 1988. A Argélia foi o primeiro país a reconhecer oficialmente o novo Estado.
Seguiram-se cerca de cinquenta países: os membros da Liga Árabe, os países do antigo bloco soviético, bem como vários países africanos e asiáticos.
Várias ondas de reconhecimento vieram a seguir. Em 2010 e 2011, a maioria dos países da América Central e Latina reconheceu a Palestina.
Dez dos 27 Estados-membros da UE já reconhecem a Palestina
Mais tarde, países europeus começaram a reconhecer a Palestina: Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Bulgária e Chipre reconheceram o Estado da Palestina antes de aderirem à União Europeia.
Tecnicamente, a Suécia foi o primeiro Estado-membro da UE a reconhecer a Palestina já sendo membro da União. Atualmente, o Estado palestiniano é reconhecido por dez dos 27 Estados-membros.
Entre os 54 Estados-membros da União Africana apenas a Eritreia e os Camarões não reconhecem a Palestina. A União Africana, enquanto organização, apoia abertamente a causa palestiniana e concede à Palestina o status de Estado observador.
O Estado da Palestina e as Nações Unidas
A pedido da Argélia, a Palestina tornou-se membro da UNESCO em 2011, o que levou à suspensão dos pagamentos dos EUA à organização. Os Estados Unidos retiraram-se formalmente da UNESCO em 2017. Sob a administração Biden, os EUA voltaram a aderir em 2023, mas saíram novamente após o regresso de Donald Trump ao poder em 2025.
A Palestina foi admitida como Estado observador da ONU a 29 de novembro de 2012, após uma votação com 138 votos a favor, 9 contra e 41 abstenções.
Em 2015, tornou-se Estado parte do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. É também membro observador da Organização Mundial da Saúde (OMS), membro associado da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) e membro da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) desde 2018.
Solução de dois Estados
A solução de dois Estados prevê a coexistência pacífica de Israel e Palestina como Estados soberanos e independentes, vivendo lado a lado em segurança. A ideia antecede a fundação das Nações Unidas em 1945 e foi formalizada em várias resoluções da ONU, incluindo a proposta de partilha da Palestina em 1947, com Jerusalém internacionalizada.
Negociações importantes, como a conferência de Madrid (1991) e os Acordos de Oslo (1993), estabeleceram princípios para a criação de um governo palestiniano provisório e para futuras negociações de status permanente, embora sem resolução completa até hoje.
Hoje, a ONU continua a apoiar a criação de um Estado palestiniano democrático, soberano e viável, que coexista em paz com Israel em fronteiras seguras e reconhecidas, com Jerusalém como capital de ambos os Estados e em conformidade com o direito internacional.
O secretário-geral António Guterres lançou um forte apelo aos líderes mundiais na véspera da Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, alertando que uma “crise global”, marcada pela guerra, pelas alterações climáticas, pela desigualdade e pelos riscos tecnológicos exige uma ação urgente e coordenada.
“Estamos a enfrentar uma crise global. Os conflitos estão a multiplicar-se num contexto em que as divisões geopolíticas não permitem enfrentá-los de forma eficaz”, afirmou Guterres à ONU News, numa entrevista com a chefe de Comunicações Globais, Melissa Fleming.
“Há uma sensação de impunidade, cada país acredita que pode fazer o que quiser. Por outro lado, vemos que os países em desenvolvimento enfrentam enormes dificuldades. Muitos estão a afundar-se em dívidas, sem acesso ao financiamento concessionado de que necessitam para recuperar as suas economias. A desigualdade está a aumentar.”
A cooperação internacional é indispensável
O secretário-geral destacou os múltiplos domínios em que as Nações Unidas procuram mobilizar a cooperação internacional.
“As alterações climáticas ainda não estão sob controlo. E temos vários sinais de que será provavelmente muito difícil manter o nosso objetivo central, que é limitar o aquecimento global a menos de 1,5° Celsius,” afirmou, referindo-se ao limite estabelecido no Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, de 2015.
António Guterres alertou também que, embora tecnologias de ponta como a inteligência artificial ofereçam potencial, podem amplificar a polarização e o discurso de ódio, pelo que a sua governação deve “garantir que a agência humana seja preservada e que estas tecnologias se tornem uma força para o bem.”
Guterres sublinhou que a Assembleia da próxima semana deve resultar em compromissos concretos em áreas-chave: redução das emissões de carbono, reforma do sistema financeiro internacional e reforço do multilateralismo.
O secretário-geral apelou aos líderes para “inverter a maré” e aceitar reformas na arquitetura financeira internacional, promovendo maior justiça e igualdade.
Foco no Médio Oriente
A paz e a segurança estarão também no centro das discussões. O secretário-geral afirmou esperar um apoio claro à solução de dois Estados para pôr fim ao conflito entre Israel e Palestina, bem como medidas imediatas para enfrentar a crise humanitária em Gaza.
“O massacre que está a acontecer em Gaza tem de acabar… precisamos de um cessar-fogo imediato, com a libertação de todos os reféns também de forma imediata,” declarou.
Guterres destacou ainda o Sudão e outros chamados “conflitos esquecidos”, apelando a uma ação unificada do Conselho de Segurança para evitar mais sofrimento.
Ação climática já
António Guterres afirmou à subsecretária-geral Fleming que o seu compromisso com o combate às alterações climáticas, através de uma ação urgente, permanece inabalável.
“Cada Estado-membro deve apresentar o seu novo plano climático… que traga uma redução drástica das emissões… para evitar uma irreversibilidade que conduziria a um desastre de proporções enormes para as populações de todo o mundo,” declarou, sublinhando que os países mais vulneráveis, incluindo os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e o continente africano, enfrentam riscos desproporcionais.
“Estou determinado”
Numa nota pessoal, Guterres rejeitou qualquer conselho de desespero.
“Não sou otimista nem pessimista, estou determinado… temos de construir esperança e nunca desistir até que os nossos objetivos sejam alcançados.”
O Afeganistão está a enfrentar uma ‘tempestade perfeita’ de crises sobrepostas, alertou na quarta-feira o enviado cessante da ONU ao Conselho de Segurança, enquanto uma defensora dos direitos das mulheres afegãs afirmou perante o órgão que as políticas dos Talibãs equivalem a ‘apartheid de género’ que está a sufocar toda uma geração de raparigas.
Roza Otunbayeva, a representante especial do secretário-geral para o Afeganistão, disse aos embaixadores que, embora o país tenha registado um declínio relativo no conflito armado desde a tomada de poder pelos Talibãs em 2021, a situação humanitária, económica e dos direitos humanos deteriou-se significativamente.
“É uma questão em aberto saber se existe pragmatismo suficiente entre as autoridades de facto [os Talibãs] para gerir esta tempestade perfeita de crises, ou se as decisões motivadas pela ideologia irão impedir soluções sustentáveis”, disse ela.
Mulheres e raparigas marginalizadas
No centro da crise, sublinhou a representante especial, estão as amplas restrições impostas pelos Talibãs às mulheres e raparigas afegãs.
Escolas para raparigas acima do sexto ano estão encerradas há quatro anos, o que representa um custo económico estimado de 1,4 mil milhões de dólares por ano, segundo o Banco Mundial. Uma sondagem recente da ONU Mulheres revelou que a maioria dos afegãos se opõe às proibições.
“Isto é particularmente evidente nas políticas das autoridades de facto em relação às mulheres afegãs”, disse ela. “Uma geração corre um sério risco de perder-se, com um enorme custo a longo prazo para o país.”
“Apartheid de género”
Também tomou a palavra no Conselho Hanifa Girowal, a vice-presidente do grupo afegão Women’s Rights First, que foi ainda mais direta ao descrever as políticas dos Talibãs como “perseguição de género” e “apartheid de género”.
Falando em nome das mulheres dentro do país e no exílio, a responsável contou a história de uma jovem em Kandahar que lamentou: “A esta altura já devia ter concluído o meu mestrado e tornado-me professora de Direito…em vez disso, por quatro longos anos, eu tenho vivido em incerteza, sem poder de decidir meu próprio futuro. Quanto mais tempo terei de esperar?”
Hanifa Girowal, que também já foi vice-governadora de Cabul, alertou que a exclusão sistemática de metade da população “não é apenas a negação da educação, é uma política deliberada de confinamento forçado, exclusão e subjugação.”
Hanifa Girowal, a vice-presidente do grupo afegão Women’s Rights First, descreveu as políticas dos Talibãs como “perseguição de género” e “apartheid de género”. Foto ONU/Loey Felipe
Ajuda em risco
A ONU forneceu quase de 13 mil milhões de dólares em assistência humanitária e para necessidades básicas desde 2021, grande parte entregue apesar das restrições e com salvaguardas reforçadas para evitar desvios.
No entanto, a assistência humanitária está sob pressão, advertiu Roza Otunbayeva, com o financiamento internacional reduzido em quase 50 por cento este ano.
“Estes cortes são parcialmente resultado das políticas anti-mulheres do Afeganistão”, disse, acrescentando que a aplicação das proibições às mulheres afegãs de trabalharem em ONGs e na ONU já dificultou os esforços de ajuda, inclusive após os recentes sismos.
“Esta restrição grave dificulta a capacidade da ONU de ajudar o povo afegão no seu momento de maior necessidade”, alertou ela.
A responsável apelou ao Conselho para adotar uma resolução que reafirme o propósito incondicional da ajuda humanitária e estabeleça um mecanismo de monitorização independente e internacional, com o objetivo de rastrear desvios e garantir a responsabilização.
Pressões económicas e climáticas
Para além da ajuda, a economia do Afeganistão continua em estado crítico. O crescimento de 2,7 por cento está a ficar atrás do aumento da população, enquanto 75 por cento dos afegãos vivem ao nível de subsistência, agravado por cortes no setor público.
As alterações climáticas estão a agravar as dificuldades. Uma nova seca ameaça a população maioritariamente rural, muitos dos quais são agricultores de subsistência.
Hanifa Girowal alertou também que Cabul, cidade com quase seis milhões de habitantes, poderá tornar-se “a primeira cidade moderna a ficar sem água” dentro de alguns anos, e não décadas.
A proibição do cultivo de papoila, aplicada desde 2023, reduziu a produção de ópio, mas devastou os agricultores pobres que antes dependiam dela para sobreviver. Entretanto, mais de dois milhões de afegãos regressaram do Irão e do Paquistão nos últimos dois anos, privando a economia de mil milhões de dólares em remessas e sobrecarregando os serviços locais.
Progresso e envolvimento limitados
Hanifa Girowal observou alguns desenvolvimentos positivos desde 2021, incluindo a amnistia geral dos Talibãs para ex-oponentes, uma estabilidade relativa após décadas de guerra, e medidas para acabar com a tortura e permitir o acesso dos direitos humanos da ONU às prisões.
A proibição contínua do cultivo de papoila também traz benefícios a nível regional, disse ela, desde que sejam encontradas alternativas sustentáveis para os agricultores.
No entanto, ressaltou que novos progressos dependem de um envolvimento significativo com os Talibãs no âmbito do processo de Doha, liderado pela ONU, que procura equilibrar o pragmatismo com o respeito pelas normas internacionais.
“A maioria dos afegãos quer que o envolvimento entre a comunidade internacional e o seu país continue, apesar dos obstáculos”, afirmou, apelando ao Conselho de Segurança que mantenha a unidade sobre o Afeganistão.
O tempo está a esgotar-se
Reiterando o apelo à unidade e à ação do Conselho de Segurança, Hanifa Girowal defendeu o estabelecimento de critérios claros para o envolvimento com os Talibãs.
Segundo ela, esses critérios devem incluir a reabertura de escolas e universidades para raparigas, a restituição do direito das mulheres ao trabalho e o acesso total dos observadores da ONU.
Apelou também aos países para que suspendam as deportações forçadas de afegãos, referindo que mais de dois milhões regressaram do Irão e do Paquistão só em 2025, o que, segundo afirmou, levou à perseguição e até a assassinatos.
“Estamos a ficar sem tempo”, disse. “A situação no terreno está apenas a piorar…mas a boa notícia é que vocês podem fazer algo quanto a isso.”
Faltam apenas cinco anos para o prazo da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, com metas destinadas a tornar a igualdade de género uma realidade para todos. O Gender Snapshot 2025, produzido pela ONU Mulheres e pelo Departamento dos Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, mostra que foi feito progresso significativo: as mulheres estão a conquistar assentos nos parlamentos, as raparigas estão a superar os rapazes na conclusão da escola e, em apenas cinco anos, quase 100 países eliminaram leis discriminatórias – desde a proteção contra o casamento infantil até leis sobre violação baseadas no consentimento.
No entanto, o relatório também revela dados preocupantes: 10% das mulheres vivem em extrema pobreza, um número que não melhorou desde 2020, e até 2030, 351 milhões de mulheres e raparigas ainda poderão continuar presas nesta condição. Além disso, 676 milhões vivem atualmente a menos de 50km de conflitos mortais – o número mais elevado registado desde a década de 1990. Em 2024, havia 64 milhões a mais de mulheres adultas em situação de insegurança alimentar moderada ou grave do que homens adultos. Estas estatísticas mostram que, embora haja progresso, o mundo enfrenta desafios urgentes que exigem ação imediata, investimento e vontade política.
Violência de género
A violência continua a ser uma realidade diária: 1 em cada 8 mulheres entre os 15 e os 49 anos sofreu violência por parte do parceiro nos últimos 12 meses. Países com leis e serviços fortes apresentam taxas 2,5 vezes mais baixas de violência, provando que a proteção eficaz funciona. Práticas nocivas, como a mutilação genital feminina (MGF), ainda afetam 4 milhões de raparigas por ano, metade antes dos cinco anos de idade.
Mercado de trabalho e revolução digital
Mais de 700 milhões de mulheres estão afastadas do mercado de trabalho devido ao peso dos cuidados e das tarefas domésticas não remuneradas que realizam em casa. Mesmo quando trabalham, têm empregos com remuneração mais baixa e com poucas oportunidades de progressão. No setor tecnológico, representam 29% da força de trabalho e 14% dos líderes, e 28% dos empregos femininos estão em risco com a IA, contra 21% dos masculinos. Mas a inclusão digital pode ser um grande equalizador, gerando oportunidades e crescimento.
Investimento feminino: chave para o crescimento
O relatório destaca que investir nas mulheres é a estratégia de crescimento mais inteligente que um país pode escolher: se os governos agirem agora, a pobreza extrema feminina poderá cair de 9,2% em 2025 para apenas 2,7% em 2050, o que representaria um impulso de 342 biliões de dólares para a economia global. Fechar a lacuna digital de género também poderia beneficiar 343 milhões de mulheres e raparigas, tirar 30 milhões da pobreza e gerar 1,5 biliões de dólares de crescimento global até 2030.
A importância da recolha de dados e prioridades globais
A recolha de dados é essencial para o progresso: apenas 57% dos dados de género necessários estão disponíveis, já que mais da metade dos institutos nacionais de estatística sofreram cortes orçamentais em 2025. Sem informação confiável, políticas eficazes não podem ser implementadas.
A Beijing+30 Action Agenda identifica seis áreas prioritárias para acelerar a igualdade de género: inclusão digital, liberdade da pobreza, proteção contra violência, igualdade no poder e liderança, justiça climática e paz e segurança, sempre com foco em amplificar a voz de jovens mulheres e raparigas.
O mundo tem cinco anos para decidir se a igualdade será apenas uma promessa ou uma realidade. Investir em mulheres e raparigas não é um custo: é a chave para desbloquear crescimento económico, justiça social e sociedades mais seguras e resilientes.
Shaima, de 8 anos, espera a sua vez entre a multidão para receber uma refeição de um centro de solidariedade que distribui comida gratuitamente na cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza.
“Estou aqui à espera há duas horas, mas ainda não consegui comida. A minha mãe e a minha irmãzinha estão à minha espera. Não comem desde ontem.” Foto: UNOCHA
1 em cada 5 crianças sofre de desnutrição aguda à medida que a escalada militar aumenta
Pelo menos 2 mil pessoas desesperadas e famintas morreram recentemente enquanto procuravam ajuda alimentar, muitas perto de zonas designadas como “humanitárias”. Segundo o comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, Gaza “está a ser obliterada, reduzida a um deserto”, e a população faminta é forçada a concentrar-se em áreas de assistência limitadas, sem qualquer segurança real.
Dentre os grupos afetados, as crianças estão entre os mais vulneráveis. “Em agosto, 1 em cada 5 crianças na Cidade de Gaza foi diagnosticada com desnutrição aguda”, alertou a diretora-executiva da UNICEF, Catherine Russell. Em toda a Faixa de Gaza, a percentagem de crianças com desnutrição aguda aumentou de 8,3% em julho para 13,5% em agosto, atingindo 19% na cidade de Gaza. No total, 12.800 crianças foram identificadas como gravemente desnutridas, apesar de a capacidade de rastreio ter sido reduzida pelo encerramento de 10 centros de tratamento devido às ordens de evacuação e à escalada militar.
Mulheres grávidas e lactantes também estão fortemente afetadas, com a ingestão insuficiente de alimentos a aumentar os riscos para mães e bebés. Já 1 em cada 5 recém-nascidos na Faixa de Gaza nasce prematuro ou com baixo peso. A UNICEF tem trabalhado para aumentar os suprimentos nutricionais, incluindo alimentos terapêuticos prontos a usar, mas outros recursos essenciais continuam insuficientes, especialmente para prevenção e apoio a grupos vulneráveis.
A escalada militar agrava ainda mais a situação, impedindo o acesso seguro a serviços essenciais, como nutrição, cuidados de saúde e abrigos. A interrupção de centros de triagem e tratamento limita o alcance da ajuda humanitária, colocando vidas em risco e acelerando o colapso das linhas de sobrevivência das crianças e das famílias mais vulneráveis.
A UNICEF apela a todas as partes para restabelecer o cessar-fogo, proteger civis e infraestruturas essenciais, e garantir o acesso ininterrupto e seguro da ajuda humanitária à população. Sem esta ação urgente, a fome e a desnutrição em Gaza continuarão a aumentar, com consequências devastadoras para gerações inteiras.
Neste Dia das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul, celebramos o crescente dinamismo de oportunidades, inovação e solidariedade entre os países do Sul Global.
Num mundo cada vez mais multipolar, os países em desenvolvimento demonstram uma resiliência e engenhosidade notáveis — não apenas na resposta a crises, mas também na promoção de transformações profundas.
Estes países estão a criar soluções audazes e locais, e a partilhá-las além-fronteiras, como a agricultura inteligente face ao clima, tecnologias verdes, finanças digitais e avanços na saúde. Estas soluções são construídas com base no respeito mútuo, na aprendizagem partilhada e num propósito comum.
A cooperação Sul-Sul e triangular são motores de progresso e essenciais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Reconhecemos também a responsabilidade dos países desenvolvidos em ajudar a combater as crescentes desigualdades e a promover o desenvolvimento sustentável.
Ao assinalarmos este dia importante, celebremos a colaboração Sul-Sul como um catalisador para um multilateralismo renovado e para a construção de um mundo mais inclusivo e equitativo para todos.
Annalena Baerbock, Presidente da 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, abre a 1.ª reunião plenária da 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas.
“O mundo precisa das Nações Unidas. De forma alguma estaríamos melhor sem elas. Esta continua a ser a única organização capaz de reunir todos os países do mundo. A única capaz de agir verdadeiramente à escala global. A única com legitimidade política e autoridade moral a nível mundial”, afirmou a Sra. Baerbock, e continuou: “Este é o ano para adaptar, evoluir e construir as Nações Unidas de que precisamos para os próximos 80 anos – para a vida dos nossos filhos. […] A escolha do próximo Secretário-Geral é um dos processos-chave durante esta 80.ª sessão. A nossa decisão enviará uma mensagem poderosa sobre quem somos e se realmente servimos todos os povos do mundo, dos quais metade são mulheres e raparigas.” Foto ONU/Manuel Elias
A Assembleia Geral é um dos principais órgãos das Nações Unidas e funciona como um fórum universal para discussões de questões internacionais, onde todos os 193 Estados-membros têm representação e voto igualitário. Todos os anos, eles reúnem-se, em setembro, na sede da ONU em Nova Iorque, para debater temas globais de relevância, incluindo paz e segurança, direitos humanos, desenvolvimento sustentável e cooperação internacional.
O órgão também desempenha funções essenciais na tomada de decisões estratégicas da organização. Aprova resoluções e recomendações que, embora não juridicamente vinculativas, têm grande peso político e moral. É responsável por aprovar o orçamento da ONU, eleger os membros não permanentes do Conselho de Segurança e nomear o secretário-geral por recomendação do mesmo Conselho, garantindo a representação democrática de todos os Estados-membros e fomentando a diplomacia multilateral.
Annalena Baerbock (ao centro), Presidente da 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, abre a 1.ª reunião plenária da 80.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. À esquerda está o Secretário-Geral António Guterres e à direita Movses Abelian, Secretário-Geral Adjunto para a Assembleia Geral e Gestão de Conferências (DGACM). Foto ONU/Manuel Elias
A nova presidente: Annalena Baerbock
A 80.ª sessão da Assembleia Geral, iniciada em setembro de 2025, conta com a presidência da alemã Annalena Baerbock, a quinta mulher a ocupar este cargo e a primeira do grupo da Europa Ocidental. Ex-ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, foi eleita com o apoio de 167 países, refletindo um amplo consenso internacional.
Durante o seu discurso de posse, Baerbock destacou a necessidade de tornar a ONU mais eficiente e adaptada aos desafios do século XXI. Enfatizou também a implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e a promoção de uma Assembleia verdadeiramente inclusiva. A sessão deste ano concentra-se nos direitos humanos e na importância de reforçar a relevância da organização face às pressões financeiras e políticas.
Veja o discurso na íntegra:
A representação de Portugal
O embaixador Rui Vinhas lidera a representação oficial de Portugal na Assembleia Geral. Este ano, durante a semana de alto nível, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, irá dirigir-se ao plenário da ONU. A Assembleia Geral mantém-se como um espaço vital para a diplomacia multilateral, promovendo diálogo, cooperação e soluções conjuntas para os desafios globais, reafirmando o papel da ONU como plataforma central de debate e ação internacional.
“O mundo está a gastar muito mais em fazer guerra do que em construir a paz”, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, numa conferência de imprensa sobre um novo relatório acerca da ameaça representada pelo aumento constante das despesas militares.
Os gastos com segurança aumentaram em todas as cinco regiões globais durante o ano de 2024, marcando o maior crescimento anual em pelo menos três décadas. Em comparação com os 2,7 biliões de dólares destinados aos orçamentos militares, o mundo poderia eliminar a pobreza extrema com menos de 300 mil milhões de dólares.
“Um mundo mais seguro começa por investir pelo menos tanto no combate à pobreza como investimos na guerra”, disse Guterres.
Escolha entre ajuda ou armamento
O valor alarmante gasto apenas no último ano em despesas relacionadas com armamento é 750 vezes superior ao orçamento regular da ONU em 2024. Equivale também a quase 13 vezes a assistência ao desenvolvimento fornecida pelo comité de ajuda da OCDE em 2024, revelando um contraste gritante entre os gastos militares e o desenvolvimento sustentável.
“Redirecionar apenas uma fração dos gastos militares atuais poderia colmatar lacunas vitais — colocar crianças na escola, reforçar os cuidados de saúde primários, expandir as energias limpas e infraestruturas resilientes, e proteger os mais vulneráveis”, afirmou Guterres.
Com uma pequena parte do que foi investido nas forças armadas no último ano — e na última década — o mundo poderia:
financiar a educação de todos os alunos em países de baixo e médio rendimento,
eliminar a desnutrição infantil a nível global,
financiar a adaptação às alterações climáticas nos países em desenvolvimento,
aproximar a comunidade internacional da concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), segundo estimativas da ONU.
“Reequilibrar as prioridades globais não é opcional — é um imperativo para a sobrevivência da humanidade”, declarou Izumi Nakamitsu, chefe do departamento de desarmamento da ONU, na mesma conferência.
“O desenvolvimento sustentável está em risco”
Com apenas um dos cinco principais ODS em bom caminho, Guterres sublinhou que “a nossa promessa comum de desenvolvimento sustentável está em risco.”
Enquanto se gasta mais nas forças armadas, gasta-se menos em investimento social, redução da pobreza, educação, saúde, proteção ambiental e infraestruturas — comprometendo o progresso em quase todos os ODS e minando a Carta das Nações Unidas, o documento fundador da organização.
“Mas sabemos que o desenvolvimento é um motor de segurança e que a cooperação multilateral para o desenvolvimento funciona”, afirmou Haoliang Xu, vice-diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
“Quando a vida das pessoas melhora, quando têm acesso à educação, cuidados de saúde, oportunidades económicas e podem viver com dignidade e autodeterminação, teremos sociedades mais pacíficas e um mundo mais pacífico.”
Nova abordagem à segurança
“Investir nas pessoas é investir na primeira linha de defesa contra a violência em qualquer sociedade”, disse Guterres.
O relatório apela a uma abordagem mais centrada nas pessoas e multidimensional, que dê prioridade à diplomacia, à cooperação internacional e que abra caminho ao desenvolvimento sustentável.
Num ciclo vicioso, a falta de oportunidades económicas, a pobreza e o subdesenvolvimento geram instabilidade — alimentando a violência e o aumento das despesas estatais com o setor militar, segundo o relatório da ONU.
Investir no desenvolvimento e numa segurança sustentável tem o potencial de travar a atual corrida ao armamento e reduzir a necessidade de gastos militares.
“As evidências são claras: gastos militares excessivos não garantem a paz”, concluiu Guterres.
“Frequentemente, minam-na — alimentando corridas ao armamento, aprofundando a desconfiança e desviando recursos das verdadeiras bases da estabilidade.”