O secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou aos líderes do Iémen para regressarem ao caminho da paz e libertarem todo o pessoal das Nações Unidas detido no país, após uma reunião com o Conselho de Segurança na quarta-feira.
Dirigindo-se aos jornalistas fora da sala do Conselho, Guterres referiu as tensões crescentes no Iémen e os “novos desenvolvimentos dramáticos” nas suas regiões orientais, que “estão a aumentar a pressão”.
Desde 2014, as forças do governo iemenita, apoiadas por uma coligação militar liderada pela Arábia Saudita, combatem os rebeldes Houthi, apoiados pelo Irão e que controlam a capital, Sana’a.
Risco de escalada mais ampla
Este mês, forças afiliadas a um grupo separatista chamado Conselho de Transição do Sul (STC) avançaram sobre duas regiões ricas em recursos, Hadramawt e al-Mahra.
“Como disse ao Conselho de Segurança, ações unilaterais não abrem caminho para a paz”, afirmou o secretário-geral. “Elas aprofundam divisões, endurecem posições e aumentam o risco de uma escalada mais ampla e de maior fragmentação.”
O líder da ONU alertou que uma retomada completa das hostilidades poderia ter sérias consequências para a segurança regional.
“Exorto todas as partes a exercerem a máxima contenção, a desescalar as tensões e a resolver as diferenças através do diálogo”, disse.
“Isto inclui os atores regionais, cujo envolvimento construtivo e coordenação em apoio aos esforços de mediação da ONU são essenciais para garantir interesses de segurança coletiva.”
Necessidade de uma solução política
O secretário-geral destacou que a soberania e a integridade territorial do Iémen devem ser preservadas.
Salientou a necessidade de “um acordo político sustentável e negociado” que abrace as aspirações de todo o povo do país e ponha fim ao conflito.
Os combates já mataram milhares e desencadearam uma das piores crises humanitárias do mundo. Quase metade da população, 19,5 milhões de pessoas, necessita de assistência humanitária e cerca de cinco milhões foram forçados a abandonar as suas casas.
Os esforços da ONU para apoiar o povo iemenita enfrentam enormes desafios, particularmente nas áreas controladas pelos Houthi, onde “o ambiente operacional se tornou insustentável”.
Libertação de pessoal detido
O secretário-geral condenou fortemente a detenção arbitrária contínua de 59 funcionários da ONU e de organizações parceiras, bem como de pessoal de ONG, organizações da sociedade civil e missões diplomáticas, e pediu a sua libertação imediata e incondicional.
As autoridades de facto Houthi encaminharam recentemente três funcionários da ONU para um tribunal criminal especial. Foram acusados no âmbito do desempenho das suas funções oficiais da ONU. Guterres afirmou que esta decisão deve ser revogada e todas as acusações retiradas.
“A detenção contínua dos nossos colegas é uma injustiça profunda para todos aqueles que dedicaram as suas vidas a ajudar o povo do Iémen”, disse.
“As Nações Unidas e os seus parceiros nunca devem ser alvo de prisão ou detenção em relação às suas funções oficiais. Devemos poder realizar o nosso trabalho sem interferências.”
Compromisso com a paz
O secretário-geral reiterou o compromisso da ONU em fornecer apoio vital a milhões de pessoas em todo o Iémen, apesar dos desafios.
Desde janeiro, mais de 5,3 milhões de pessoas receberam assistência alimentar, nutricional, de água e de saúde, e “com financiamento adequado e espaço operacional, podemos fazer muito mais”.
Recordou que as partes iemenitas estiveram perto da paz antes, durante o cessar-fogo de 2022 e os compromissos acordados em 2023.
Embora “os desenvolvimentos subsequentes tenham complicado gravemente a situação”, o caminho para a paz é possível e a ONU mantém o seu compromisso com esses esforços.
Apelou a todas as partes para se envolverem de forma construtiva com o Enviado Especial da ONU para o Iémen, “priorizarem o diálogo em vez da violência e evitarem quaisquer ações unilaterais que possam agravar esta situação frágil”, acrescentando que “o povo do Iémen exige e merece paz”.