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Mensagem para o Dia Mundial de Luta contra a SIDA

Este Dia Mundial de Luta contra a SIDA recorda-nos que temos o poder de transformar vidas e futuros, e de pôr fim à epidemia da SIDA de uma vez por todas.

O progresso alcançado é inegável.

Desde 2010, as novas infeções diminuíram 40 por cento.

As mortes relacionadas com a SIDA caíram para menos de metade.

E o acesso ao tratamento é melhor do que nunca.

Mas, para muitas pessoas em todo o mundo, a crise continua.

Milhões continuam sem acesso a serviços de prevenção e de tratamento do VIH, por causa de quem são, de onde vivem ou do estigma que enfrentam.

Entretanto, a redução de recursos e serviços está a pôr vidas em risco e a ameaçar conquistas duramente alcançadas.

Pôr fim à SIDA significa capacitar as comunidades, investir na prevenção e alargar o acesso ao tratamento a todas as pessoas.

Significa unir inovação e ação, garantindo que novas ferramentas, como os injetáveis, cheguem a mais pessoas que delas precisam.

Em cada passo, significa basear o nosso trabalho nos direitos humanos, para que ninguém fique para trás.

Acabar com a SIDA como ameaça à saúde pública até 2030 está ao nosso alcance.

Vamos concluir esta missão.

Mensagem para o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano

©SAMEER AL-DOUMY / AFP

O SECRETÁRIO-GERAL

29 de novembro de 2025

O Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano deste ano acontece após dois anos de sofrimento horrível em Gaza e no início de um cessar-fogo tão necessário.

Os sobreviventes estão de luto pela morte de dezenas de milhares de amigos e familiares, quase um terço deles crianças, e outros milhares ficaram feridos. A fome, as doenças e o trauma proliferam, enquanto escolas, casas e hospitais se encontram em ruínas.

A injustiça continua também na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, com operações militares israelitas, violência de colonos, expansão de assentamentos, despejos, demolições e ameaças de anexação.

Ao mesmo tempo, centenas de trabalhadores humanitários foram mortos. A maioria eram funcionários palestinianos da ONU, marcando a maior perda de funcionários na história da organização. Mais jornalistas morreram do que em qualquer conflito desde a Segunda Guerra Mundial.

Em muitos aspetos, esta tragédia testou as normas e leis que têm guiado a comunidade internacional durante gerações. A morte de tantos civis, o deslocamento repetido de toda uma população e a obstrução da ajuda humanitária nunca deveriam ser aceitáveis sob quaisquer circunstâncias.

O recente cessar-fogo oferece uma réstia de esperança. É agora vital que todas as partes o respeitem plenamente e trabalhem de forma honesta em direção a soluções que restaurem e defendam o direito internacional. Tal inclui devolver os restos mortais dos reféns dos ataques de 7 de outubro, de forma rápida e digna, às famílias de luto em Israel.

A ajuda humanitária que salva vidas deve ser permitida em larga escala para entrar em Gaza e a comunidade internacional deve continuar a apoiar firmemente a UNRWA, um recurso insubstituível para milhões de palestinianos, incluindo refugiados palestinianos.

Reitero o meu apelo pelo fim da ocupação ilegal do Território Palestiniano, conforme afirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça e pela Assembleia Geral, e pelo progresso irreversível rumo a uma solução de dois Estados, de acordo com o direito internacional e as resoluções pertinentes da ONU, com Israel e Palestina a viverem lado a lado em paz e segurança dentro das suas fronteiras seguras e reconhecidas, com base nas linhas de 1967 e Jerusalém como capital de ambos os Estados.

Neste Dia Internacional de Solidariedade, inspiremo-nos no próprio povo palestiniano, cuja resiliência e esperança são um testemunho do espírito humano. Estejamos solidários com os seus direitos à dignidade, à justiça e à autodeterminação e trabalhemos juntos para construir um futuro de paz para todos.

ONU pede restabelecimento da ordem constitucional na Guiné-Bissau

© Wikipedia Commons/Colleen Taugher | Bissau, a capital da Guiné-Bissau.

As Nações Unidas condenaram veementemente o golpe militar na Guiné-Bissau, alertando que a deposição das autoridades eleitas apenas alguns dias após as eleições nacionais representa uma grave violação da ordem constitucional e dos princípios democráticos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, está “profundamente preocupado com os acontecimentos em curso”, afirmou o seu porta-voz numa declaração divulgada na noite de quinta-feira.

“Condena fortemente o golpe de Estado perpetrado por elementos das forças armadas e qualquer tentativa de violar a ordem constitucional.”

Sublinhou ainda que ignorar “a vontade do povo que votou pacificamente nas eleições gerais de 23 de novembro constitui uma violação inaceitável dos princípios democráticos.”

Restaurar a ordem constitucional

O secretário-geral apelou à “restauração imediata e incondicional da ordem constitucional”, bem como à libertação de todos os responsáveis detidos, incluindo autoridades eleitorais, líderes da oposição e outros atores políticos.

Apelou todas as partes a demonstrarem contenção, a respeitarem o Estado de direito e a resolverem disputas através de “diálogo pacífico e inclusivo e de vias legais”.

Segundo relatos da comunicação social, militares derrubaram a liderança civil num rápido golpe de força antes de serem anunciados os resultados oficiais das eleições e instalaram o Major-General Horta Inta-a como presidente de transição.

De acordo com as mesmas fontes, o presidente deposto, Umaro Sissoco Embaló, chegou posteriormente ao Senegal.

O golpe marca a mais recente tomada de poder militar na África Ocidental e Central, sublinhando a instabilidade persistente na região.

Foto da ONU/Loey Felipe
| Embaló discursando na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025.

Reações regionais

O secretário-geral reafirmou igualmente o total apoio das Nações Unidas aos esforços da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), da União Africana e do Fórum dos Anciãos da África Ocidental para proteger a democracia, promover a estabilidade e ajudar a Guiné-Bissau a concluir o processo eleitoral de forma pacífica e a regressar rapidamente ao caminho democrático.

A União Africana também emitiu uma forte condenação, com o Presidente da sua Comissão, Mahmoud Ali Youssouf, a reiterar a “tolerância zero” da UA para alterações inconstitucionais de governo. Apelou à libertação imediata e incondicional de todos os responsáveis detidos e sublinhou que apenas a Comissão Nacional de Eleições tem autoridade legal para proclamar os resultados eleitorais.

A CEDEAO condenou igualmente a tomada de poder militar e anunciou na quinta-feira a suspensão da Guiné-Bissau de todos os seus órgãos de tomada de decisão, na sequência de uma cimeira extraordinária de líderes regionais.

*Artigo de autoria da ONU News

Alerta UNAIDS: Crise de financiamento ameaça avanços na luta contra VIH

© UNAIDS

A resposta global ao VIH enfrenta um dos seus maiores desafios nas últimas décadas. Um novo relatório da UNAIDS para o Dia Mundial de luta Contra a SIDA revela que o corte repentino no financiamento internacional em 2025 está a comprometer gravemente os serviços de prevenção e tratamento, especialmente nos países de baixo e médio rendimento.

Segundo o documento, o recuo na assistência internacional representa uma redução estimada de 30 a 40% no financiamento externo para a saúde em 2025 face a 2023. As consequências têm sido imediatas, incluindo quedas significativas no acesso a medicamentos preventivos (como PrEP), circuncisão voluntária e programas comunitários de prevenção. Mais de 60% das organizações lideradas por mulheres suspenderam serviços essenciais, deixando milhões de pessoas ainda mais vulneráveis. Adolescentes e jovens mulheres são particularmente afetadas: em 2024 registaram-se cerca de 570 novas infeções diárias entre raparigas e mulheres de 15 a 24 anos.

A crise agrava-se num contexto de retrocessos nos direitos humanos: em 2025, o número de países que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo e a expressão de género aumentou pela primeira vez desde que a UNAIDS começou a monitorizar leis punitivas, em 2008. O programa alerta ainda que, se não houver recuperação das ações de prevenção, poderão ocorrer mais 3,3 milhões de novas infeções entre 2025 e 2030.

Apesar deste cenário preocupante, há sinais de resiliência. Países como Nigéria, Uganda, África do Sul e Tanzânia comprometeram-se a aumentar o investimento doméstico em serviços de VIH, e novas tecnologias de prevenção, como injeções semestrais, prometem reduzir significativamente novas infeções. Parcerias internacionais também têm vindo a assegurar o acesso a medicamentos genéricos a baixo custo.

© UNAIDS/Cynthia R Matonhodze | Uma mulher que vive com VIH recebe medicação num hospital no Zimbabwe.

Na Europa, porém, a deteção e o tratamento precoces do VIH continuam a falhar: mais de metade (54%) dos diagnósticos em 2024 foram realizados demasiado tarde para um tratamento ideal. Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) e do Gabinete Regional da OMS para a Europa revelam que esta falha nos testes, combinada com um número crescente de casos por diagnosticar, coloca seriamente em risco o objetivo de 2030 de eliminar a SIDA como ameaça para a saúde pública.

Hoje, 40,8 milhões de pessoas vivem com VIH, 1,3 milhões de novas infeções ocorreram em 2024 e 9,2 milhões ainda não têm acesso a tratamento. A UNAIDS sublinha que investir em prevenção, tratamento, inovação e direitos humanos é crucial para evitar retrocessos. Para a diretora executiva do programa, Winnie Byanyima, a decisão é clara: “Podemos permitir que estas crises revertam décadas de progressos ou unir-nos para alcançar o fim da SIDA. Milhões de vidas dependem das escolhas que fazemos agora.”

ONU alerta para crise global de feminicídio e violência digital

© Unsplash/Ehimetalor Akhere Unuabona | Mulheres protestam contra a violência de género cometida por homens.

Durante três anos, milhares de mensagens agressivas inundaram o telemóvel da atriz norte-americana Azie Tesfai, enviadas por um homem que ela nunca tinha visto nem conhecido.

Um dia, a interação anónima transformou-se em perseguição física. Ele enviou-lhe uma mensagem descrevendo exatamente o que ela estava a vestir.

“Há um terror muito específico em ser observada por alguém sem rosto”, disse Tesfai a responsáveis da ONU, embaixadores da Boa Vontade e representantes da sociedade civil em Nova Iorque, durante as comemorações do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

A atenção indesejada rapidamente evoluiu para ameaças explícitas de morte. Tesfai informou a polícia, mas esta não lhe ofereceu qualquer proteção.

“Não há, legalmente, nada que possamos fazer”, disseram-lhe, visto que tudo ocorria no digital e o agressor não tinha nome.

Um feminicídio a cada 10 minutos

Mais de 80 mil mulheres e raparigas foram mortas intencionalmente no ano passado, segundo um novo relatório sobre feminicídio da ONU Mulheres e do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC).

Mais da metade destes feminicídios foram cometidos por parceiros íntimos ou familiares. Isto significa que uma mulher ou rapariga é morta por um parceiro ou membro da família quase a cada 10 minutos. Em contraste, apenas 11 por cento dos homicídios de homens foram perpetrados por parceiros íntimos ou familiares no mesmo período.

A campanha deste ano centra-se na violência digital e apela aos governos para que implementem leis que acabem com a impunidade, às empresas de tecnologia para que garantam a segurança das plataformas e a doadores para que apoiem organizações dedicadas a erradicar a violência.

Crescente abuso digital

“Quase todas as mulheres em posições públicas de alto nível que conheci nos últimos anos, sejam jornalistas, ativistas ou políticas, enfrentam um assédio digital crescente, abusos sexualizados e ameaças de violência física”, afirmou a presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock.

De acordo com o relatório, o aumento do acesso a ferramentas digitais agravou formas de violência já existentes contra mulheres e raparigas, ao mesmo tempo que deu origem a novas formas de abuso, como a partilha não consensual de imagens, o doxing e vídeos deepfake.

A violência digital, que inclui também cyberbullying, cyberstalking e assédio sexual, pode resultar em danos físicos, sexuais, psicológicos, sociais, políticos ou económicos.

“O objetivo sempre foi o mesmo: intimidar, humilhar e, sobretudo, silenciar”, afirmou Baerbock.

“Com os rápidos avanços da inteligência artificial, a escala e a velocidade destes abusos estão a crescer para lá de tudo o que já vimos.”

Acabar com a impunidade

“Os desafios são formidáveis”, alertou a diretora executiva da ONU Mulheres, Sima Bahous. “As sobreviventes enfrentam descrédito. Os agressores beneficiam de impunidade.”

Uma das principais barreiras ao combate da violência digital contra mulheres e raparigas é a ausência de bases legais e de regulamentação em muitos países para garantir segurança.

Bahous apresentou três soluções para acabar com a impunidade. Primeiro, a violência digital deve ser reconhecida como violência real; segundo, os sistemas de justiça devem responsabilizar as empresas de tecnologia; e, por fim, é preciso mais investimento em prevenção e resposta.

“Enquanto a lei não tratar a predação digital como dano real, espera-se que nos protejamos tornando-nos invisíveis”, disse Azie Tesfai, recordando os muitos episódios de abuso digital que enfrentou.

Ecoando o apelo da ONU para que a violência digital seja tratada como violência real, acrescentou: “Merecemos leis que nos protejam enquanto ainda estamos vivas para sermos protegidas.”

*Artigo de autoria da ONU News

16 Dias de Ativismo: uma campanha da ONU Mulheres contra a violência digital

A campanha “16 Dias de Ativismo contra a Violência de Género” é uma iniciativa global liderada pela ONU Mulheres, no âmbito do programa UNITE to End Violence Against Women. Realiza-se todos os anos entre 25 de novembro e 10 de dezembro, ligando o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres ao Dia dos Direitos Humanos.

Em 2025, o foco da campanha será a violência digital, uma das formas de abuso que mais rapidamente tem crescido em todo o mundo. Esta violência abrange desde o assédio online e o stalking até à desinformação com viés de género, deepfakes e a partilha não consensual de imagens íntimas. Tais abusos têm sido cada vez mais facilitados pela tecnologia, incluindo ferramentas de inteligência artificial, e representam uma ameaça crescente à segurança e ao bem-estar de mulheres e raparigas.

Segundo dados recentes do Banco Mundial, muitas mulheres ainda se encontram desprotegidas legalmente: menos de 40% dos países têm leis que defendam as mulheres contra assédio ou stalking digital. Isto deixa milhões de mulheres mais expostas e sem formas eficazes de se defender. A campanha de 2025 da UNiTE apela a uma ação global urgente: reforço das leis, responsabilização dos perpetradores e das plataformas digitais e investimentos contínuos em prevenção, literacia digital e serviços centrados nas sobreviventes.

“O que começa online não fica online. O abuso digital transborda para a vida real, espalhando medo, silenciando vozes e, nos piores casos, levando à violência física e ao feminicídio”, disse Sima Bahous, diretora executiva da ONU Mulheres. “As leis devem evoluir com a tecnologia para garantir que a justiça proteja as mulheres tanto online como offline. Proteções legais fracas deixam milhões de mulheres e raparigas vulneráveis, enquanto os perpetradores agem com impunidade. Isto é inaceitável. Através da nossa campanha ‘16 Dias de Ativismo’, a ONU Mulheres apela a um mundo onde a tecnologia sirva à igualdade, e não ao dano.”

Para além da campanha anual, a ONU Mulheres colabora com programas como o ACT to End Violence Against Women, financiado pela União Europeia em conjunto com o UN Trust Fund to End Violence Against Women. O ACT trabalha para elevar as prioridades e amplificar as vozes dos movimentos feministas de direitos das mulheres, oferecendo um quadro colaborativo focado em estratégias comuns para enfrentar a violência de género.

A ONU Mulheres mantém o compromisso de garantir direitos, igualdade e empoderamento a todas as mulheres, transformando leis, políticas e culturas. A campanha “16 Dias de Ativismo” destaca a urgência de enfrentar a violência digital e de assegurar que mulheres e raparigas possam viver em segurança e liberdade.

UNICEF alerta: mais de 400 milhões de crianças em todo o mundo enfrentam pobreza severa

UNICEF/UNI864582/Ponce | Hansel, 8, Peru

O mais recente relatório da UNICEF, Estado das Crianças no Mundo 2025: Erradicar a Pobreza Infantil – O Nosso Imperativo Comum, publicado hoje, no Dia Mundial da Criança, e revela que mais de 400 milhões de crianças em todo o mundo não têm acesso a pelo menos duas necessidades básicas diárias. 

O relatório baseia-se em dados de mais de 130 países e mostra que 118 milhões de crianças enfrentam três ou mais privações graves, e 17 milhões estão privadas de quatro ou mais. As regiões mais afetadas são a África Subsariana e o Sul da Ásia, sendo o saneamento a área mais crítica, com milhões de crianças sem acesso a uma casa de banho adequada.

“As crianças que crescem na pobreza e sem acesso a necessidades básicas como boa alimentação, saneamento adequado e abrigo enfrentam consequências devastadoras para a sua saúde e desenvolvimento”, afirmou a diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell. “Não tem de ser assim. Quando os governos se comprometem a erradicar a pobreza infantil através de políticas eficazes, podem desbloquear um mundo de oportunidades para as crianças.”

Entre 2013 e 2023, a proporção de crianças com privações graves caiu de 51% para 41%, embora o progresso esteja a abrandar devido a conflitos, crises climáticas e cortes na ajuda internacional. Exemplos de sucesso mostram que é possível avançar: na Tanzânia, a pobreza infantil multidimensional caiu 46 pontos percentuais, graças a subsídios governamentais e maior autonomia financeira das famílias; no Bangladesh, caiu 32 pontos percentuais, com melhorias em educação, habitação e saneamento, eliminando a defecação ao ar livre.

UNICEF/Izquierdo

A pobreza compromete a saúde, o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças, conduzindo a piores perspetivas de emprego, menor longevidade e aumento de depressão e ansiedade. O relatório sublinha que as crianças mais novas, as com deficiência e as que vivem em contextos de crise são particularmente vulneráveis.

O estudo examina também a pobreza monetária, que limita ainda mais o acesso das crianças à alimentação, à educação e aos serviços de saúde. Segundo os dados mais recentes, mais de 19% das crianças em todo o mundo vivem em extrema pobreza monetária, sobrevivendo com menos de 3 dólares por dia. Quase 90% destas crianças encontram-se na África Subsariana e no Sul da Ásia.

A análise inclui 37 países de rendimento elevado, mostrando que cerca de 50 milhões de crianças vivem em pobreza monetária relativa, ou seja, os seus agregados familiares têm rendimentos significativamente inferiores aos da maioria, o que pode limitar a sua capacidade de participar plenamente na vida quotidiana.

O relatório sublinha que erradicar a pobreza infantil é possível se os direitos das crianças forem prioridade nacional, com políticas económicas integradas, programas de proteção social, acesso a serviços essenciais e trabalho digno para os cuidadores. A UNICEF alerta que cortes na ajuda internacional podem agravar ainda mais a situação, ameaçando milhões de crianças em todo o mundo.

COP30 avança caminho para eliminar combustíveis fósseis com apelo dos jovens

© UNFCCC/Kiara Worth Participantes durante a mesa-redonda de jovens do secretário-geral da ONU, António Guterres, na COP30, em Belém, Brasil.

O tão aguardado roteiro sobre como a humanidade vai eliminar gradualmente os combustíveis fósseis poderá integrar as decisões da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP30.

Nesta terça-feira, ministros de diversos países declararam apoio à proposta do Brasil de incluir este tema na negociação oficial. Entre eles estavam Alemanha, Reino Unido, Colômbia, Quénia, Serra Leoa, Ilhas Marshall e outros.

A coligação de nações afirmou que a referência a esta transição precisa ser reforçada no texto em negociação, que deverá ser aprovado nesta quarta-feira. O objetivo é acelerar ações capazes de limitar o aquecimento global a 1,5°C.

Após as declarações, os ministros fizeram uma pausa para ouvir a campeã da Juventude da COP30. Marcele Oliveira explicou que crianças e jovens de todo o mundo aguardam uma decisão imediata sobre o tema, considerado uma “absoluta prioridade”.

Dirigindo-se aos ministros, afirmou que os combustíveis fósseis estão “a destruir sonhos” e que acabar com a dependência desta fonte energética é “a mobilização de justiça climática mais importante desta geração”.

© UNFCCC/Zô Guimarães A COP30 Youth Climate Champion, Marcele Oliveira, intervém na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorre em Belém, Brasil.

Proteção do futuro

Em entrevista para a ONU News, Marcele Oliveira afirmou que a proteção do futuro das crianças e jovens devem ser prioridade nas discussões da COP30.

“Tivemos uma decisão do Tribunal Internacional de Justiça que afirma que a inação dos países face às alterações climáticas constitui um crime ambiental. Por isso, precisamos de pressionar os países a tomar melhores decisões climáticas, e esta também é uma prioridade”, disse-nos.

“Claro que precisamos de afastar-nos dos combustíveis fósseis, investir na proteção das florestas e proteger aqueles que as protegem. E, naturalmente, para os jovens, é muito importante o reconhecimento da ação coletiva ao nível local, liderada por eles próprios.”

“Batalha decisiva”

Mais tarde, ao longo do dia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reuniu-se com jovens de várias partes do mundo e pediu desculpa às gerações atuais pela falha das gerações passadas em conter a crise climática. Esta falha é evidenciada pela constatação científica de que a temperatura vai inevitavelmente subir mais de 1,5 °C nos próximos anos.

Agora, apelou aos jovens para se juntarem a ele naquilo que chamou de “batalha decisiva”, para garantir que esta ultrapassagem seja a mais curta possível.

Guterres sublinhou que a transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis é essencial e que isso exige enfrentar grupos de lobby poderosos que “colocam os lucros acima do bem-estar da comunidade internacional e do planeta”. A pressão da juventude, acrescentou, é indispensável na COP30.

© UNFCCC/Kiara Worth

“Não queremos ser ativistas, queremos ser crianças”

João Victor da Silva, de 16 anos, do Brasil, disse ao secretário-geral da ONU: “Não queremos ser ativistas, apenas queremos ser crianças e adolescentes, mas, infelizmente, os adultos não estão a tomar as decisões corretas.”

De Aruba, Nigel Maduro partilhou uma realidade dolorosa: as praias onde aprendeu a nadar estão a desaparecer. Alertou que as negociações avançam lentamente, talvez demasiado lentamente para o seu país insular, que enfrenta temperaturas em subida e o aumento do nível do mar.

Jovens de vários países ecoaram o mesmo apelo: agir agora para garantir um futuro habitável.

O secretário-geral concordou que uma maior participação juvenil, especialmente de comunidades indígenas, conduziria a melhores resultados. Reconheceu também os apelos por um financiamento mais direto e menos burocrático para os povos indígenas, comprometendo-se a melhorar as condições para que isso seja possível.

© UNFCCC/Zô Guimarães | Crianças fazem ouvir a sua voz na conferência da ONU sobre o clima, em Belém, Brasil.

“Protestos são um diferencial da COP30”

A líder indígena Txai Suruí descreveu o encontro com os jovens como um dos momentos mais esperançosos da COP30, mas alertou que a Amazónia está perigosamente perto de um ponto de rutura que poderá levar a floresta à desertificação.

“Os protestos são uma característica distintiva desta COP, porque, embora alguns países possam não gostar deles, o Brasil é um país democrático, e os protestos também servem para garantir que estes líderes realmente tomem decisões em favor da vida.”

Txai destacou que o lobby corporativo continua a ser maior do que todas as delegações juntas e certamente maior do que a representação indígena, criando um desequilíbrio de vozes. Ainda assim, observa um crescente reconhecimento das comunidades indígenas como guardiãs da natureza.

Transição justa

Entretanto, para Marcele Oliveira, a transição dos combustíveis fósseis deve ser justa, uma abordagem que “ouça, acolha e respeite os territórios”. Medidas como a demarcação de terras indígenas, disse, são essenciais para garantir que esta mudança não prejudique ainda mais as populações já afetadas.

A ONU News está a reportar a partir de Belém, trazendo-lhe cobertura em primeira mão de tudo o que se passa na COP30.

*Artigo de autoria da ONU News

Conselho de Segurança da ONU autoriza força internacional de estabilização em Gaza

UN Photo/Loey Felipe | Uma imagem dos membros do Conselho a votar a favor da resolução.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, nesta segunda-feira, a criação de uma Força Internacional de Estabilização em Gaza, numa resolução apresentada pelos Estados Unidos. O texto foi aprovado com 13 votos a favor, nenhum contra e duas abstenções: China e Rússia.

A proposta norte-americana integra o chamado “Plano Abrangente dos Estados Unidos para o Fim do Conflito em Gaza”, que estabelece uma estratégia em várias etapas para restaurar a segurança no território. O país descreveu o documento como um roteiro completo para pôr fim à guerra, desencadeada pelos ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023.

Apesar de não terem votado contra, tanto a China como a Rússia expressaram reservas durante a explicação de voto, sinalizando preocupações com alguns elementos do texto.

UN Photo/Loey Felipe | Uma imagem dos membros do Conselho a votar a favor da resolução.

A primeira fase, já em andamento, permitiu alcançar um cessar-fogo considerado frágil, possibilitou a libertação de reféns israelitas e de prisioneiros palestinianos, levou a uma retirada parcial das tropas israelitas e reforçou a entrada de ajuda humanitária em Gaza.

Segundo os Estados Unidos, a aprovação da resolução permite avançar para a segunda fase do plano. Esta etapa prevê o desarmamento do Hamas, uma retirada adicional das Forças de Defesa de Israel e a mobilização das forças de segurança israelitas. Inclui ainda a criação de um governo tecnocrático interino, sob a égide do Conselho de Paz, como etapa de transição antes de um eventual retorno da Autoridade Palestina à administração do território. 

O plano contempla também a mobilização de uma missão de imposição de segurança com cerca de 20 mil militares até ao próximo ano.

Restaurar a dignidade de Gaza: a limpeza começa

ONU News | Voluntários das Nações Unidas, ONG e a ONU estão envolvidos na campanha "Vamos Reconstruir Gaza".

No sábado, foi lançada em Gaza uma campanha de grande escala sob o lema “Vamos Reconstruir Gaza”, com a participação de organizações locais e agências das Nações Unidas, numa tentativa de iniciar operações de limpeza e remoção dos destroços deixados pela guerra.

Dezenas de participantes, incluindo funcionários da ONU, voluntários e residentes que regressaram recentemente do sul da Faixa de Gaza, participaram nas atividades no centro da cidade. Uma participante, uma mulher em cadeira de rodas, segurava um cartaz com a frase “Vamos Reconstruir Gaza” para expressar o seu apoio à campanha.

Amjad Al-Shawa, diretor da Rede de ONGs Palestinianas, afirmou que a iniciativa representa “uma mensagem partilhada com o mundo de que o povo de Gaza é capaz de devolver vida à sua cidade.”

Acrescentou que equipas de engenharia especializadas em gestão de entulho começaram a procurar soluções para lidar com mais de 60 milhões de toneladas de detritos resultantes da destruição de casas e infraestruturas, sublinhando que “a campanha de voluntariado de hoje é apenas o início de um longo processo até que Gaza volte mais bonita do que era.”

Funcionários de agências da ONU também se juntaram aos esforços de limpeza, reafirmando o seu apoio às iniciativas locais.

Alessandro Marakic, funcionário do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), disse: “Estamos aqui com as autoridades locais, organizações da sociedade civil e a Câmara de Comércio para iniciar as operações de limpeza. O que estamos a testemunhar hoje são pessoas a regressar à sua cidade e a recuperar parte da sua dignidade ao restaurar a ordem nas ruas.”

Acrescentou que o programa realiza diariamente a recolha de resíduos sólidos e está atualmente a preparar planos para a época de inverno, de forma a assegurar uma gestão adequada da água e das águas residuais.

A campanha incluiu a mobilização de maquinaria e camiões para limpar os destroços das ruas, enquanto dezenas de trabalhadores e voluntários participaram na remoção de lixo e na limpeza de espaços públicos, como parte de esforços mais amplos para restaurar a vida na cidade após muitos meses de guerra.

*Artigo de autoria da ONU News

Mensagem para o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários

OMS/Malin Bring

O SECRETÁRIO-GERAL

16 de novembro de 2025

Neste Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários, homenageamos aqueles que perderam a vida ou os meios de subsistência nas estradas do mundo.

Todos os anos, 1,2 milhões de pessoas morrem em acidentes rodoviários e outras 50 milhões ficam feridas ou com incapacidades.

Nove em cada dez mortes em acidentes rodoviários ocorrem em países de baixo e médio rendimento. Um terçodas vítimas são crianças e jovens, tornando os acidentes rodoviários a principal causa de morte nesta faixa etária.

Mas existem soluções, desde a melhoria das infraestruturas, legislação e sensibilização, à aplicação das leis de segurança e à partilha de boas práticas entre fronteiras.

Até à data, as Convenções da ONU sobre Segurança Rodoviária, o Fundo de Segurança Rodoviária e o Enviado Especial para a Segurança Rodoviária ajudaram 94 países a salvar vidas nas estradas.

E este ano, na Conferência Ministerial Global sobre Segurança Rodoviária, os governos reafirmaram o compromisso de reduzir para metade o número de mortes em estradas até 2030.

Vamos salvar vidas e prevenir ferimentos. Juntos, podemos transformar a memória em ação e ajudar a garantir que cada viagem termine em segurança.

Lisboa recebe conferência internacional da UNICEF sobre os desafios da infância

UNICEF/Gui Sousa

No dia 19 de novembro, Lisboa irá acolher uma conferência internacional organizada pela UNICEF Portugal dedicada a discutir os principais desafios que afetam a infância no mundo contemporâneo. O encontro, intitulado “A infância entre fronteiras e desafios: que caminho seguir?”, terá lugar no Centro Cultural de Belém e reúne especialistas nacionais e internacionais para debater estratégias de proteção e promoção dos direitos das crianças. 

O evento, que marca os 35 anos desde que Portugal ratificou a Convenção sobre os Direitos da Criança, ocorre num momento em que menores em várias regiões do mundo enfrentam conflitos, desigualdades, migrações, crises climáticas e impactos da tecnologia. A conferência busca analisar como instituições, comunidades e políticas públicas podem oferecer soluções para um futuro mais seguro e justo.

A abertura contará com o presidente do Conselho de Administração da Fundação CCB, Nuno Vassallo e Silva e a diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, que destacou a importância de olhar para a infância com uma perspectiva transformadora. “Precisamos de reforçar alianças, de recriar respostas e de agir de forma coordenada para proteger cada criança, em qualquer lugar, em qualquer circunstância”, acrescentou.

Entre os temas em debate estão os impactos dos desafios geopolíticos nos direitos da criança, com a participação do representante da UNICEF junto da UE, Bertrand Bainvel, a presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Florbela Paraíba e o jornalista Germano Almeida. Outro painel vai discutir a prevenção da violência contra as crianças, com especialistas como Benjamin Perks, Miguel Maio, Rute Agulhas e Hugo Rodrigues.

A conferência encerrará com uma intervenção da jurista e ex-ministra da Saúde de Portugal, Maria de Belém Roseira, sublinhando a necessidade de um compromisso coletivo em favor da infância. O encontro reforça o papel da UNICEF Portugal como plataforma de diálogo e cooperação, promovendo a troca de conhecimento e a mobilização de diferentes setores da sociedade em torno da proteção da infância.

Na COP30, Portugal anuncia projetos de 1,5 milhão de euros para países lusófonos

ONU News/Felipe de Carvalho | Pavilhão de Portugal na COP30 em Belém, no Pará, Brasil

Portugal lançou uma iniciativa para promover a transparência nas políticas climáticas nos países de língua portuguesa, em todo o mundo. O Pavilhão de Portugal no evento foi concebido por dois renomados arquitetos portugueses: Eduardo Souto de Moura e Álvaro Siza.

O país está a investir num Plano Nacional de Energia e Clima, com o objetivo de mitigar os efeitos das alterações climáticas e alcançar a neutralidade carbónica até 2045. 

Portugal alinha-se às metas da União Europeia em ação climática, mas procura ir mais além, especialmente através de parcerias bilaterais com outros países lusófonos.

Troca de experiências

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, participou na COP30, em Belém, Brasil, e falou ao enviado especial da ONU News, Felipe de Carvalho, sobre um fundo de parceria com os demais países de língua portuguesa.

“Anunciamos uma verba de 1,5 milhões de euros para reforçar a transparência nas políticas climáticas destes países. Portanto, uma rede de capacitação, de troca, de experiências para uma melhor transparência nos inventários, nos financiamentos, como fazer toda a gestão desses dossiers complexos na área do clima.”

Durante a Cimeira dos Líderes, na semana passada, em Belém, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, prometeu 1 milhão de euros para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil.

Energia elétrica a partir de fontes renováveis

A ministra Maria da Graça Carvalho destacou que, no primeiro semestre deste ano, Portugal atingiu 80% de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, graças à descarbonização do setor elétrico.

A responsável pelo Ambiente e Energia referiu que o país continua a enfrentar desafios como erosão costeira, escassez de água no sul e incêndios florestais, muitos deles de origem criminosa, que afetam Portugal todos os verões.

Parcerias e expansão

Sobre as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), a ministra afirmou que Portugal pretende cumprir a meta mais ambiciosa da União Europeia, de redução entre 66,5% e 72,5% das emissões que causam o aquecimento global.

Ao ser perguntada sobre a estratégia de conversão de dívidas em ação climática, a ministra Maria da Graça de Carvalho falou sobre parcerias com Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

“Nós alargamos agora o programa com Cabo Verde que está a decorrer muito bem. Já fizemos o primeiro projeto que é a expansão de uma central fotovoltaica, a expansão na Ilha de Santiago. Foi acordado na última Cimeira de Portugal e Cabo Verde de expandir como conversão da dívida. Já acordámos fazer o mesmo com São Tomé e Príncipe. Ainda falta implementar para começar o primeiro projeto com São Tomé, mas como Cabo Verde tem funcionado muito bem. E é um exemplo reconhecido, um exemplo inovador de financiamento reconhecido em todo o mundo.”

Fundo Azul e 2026

A ministra do Ambiente e Energia de Portugal, Maria da Graça de Carvalho, terminou a entrevista falando sobre uma das áreas pioneiras do país na economia azul.

Portugal, que já gere o Fundo Azul, pretende atingir 30% das suas áreas marinhas protegidas até 2026. Atualmente, esse valor é de 19%. Para alcançar a meta, o país irá incluir a região da Madeira e ampliar a cooperação com outros países.

*Artigo de autoria de Felipe de Carvalho, enviado especial da ONU News à COP30 em Belém.

© Unfccc/Kiara Worth | A COP30 começa em Belém, na Amazônia brasileira

Leia a entrevista na íntegra:

ONU NEWS: Olá, eu sou o Felipe de Carvalho, correspondente da ONU News em Belém, na COP 30, e estou aqui no pavilhão de Portugal para conversar com a ministra do ambiente e energia, Maria da Graça de Carvalho. Muito obrigado, ministra, por falar conosco, bem-vinda à ONU News. 

Maria da Graça de Carvalho: Muito obrigada pela oportunidade.

ONU News: Vamos começar falando um pouco de Portugal, os grandes temas aqui da COP 30 são, obviamente, mitigação e adaptação. Em relação à mitigação, qual é o plano para Portugal para reduzir as emissões que estão causando o aquecimento global? 

MGC: Nós temos um plano nacional de energia e clima aprovado pelo governo e aprovado pela assembleia da república, que tem a nossa ambição e metas para 2030 e declara a neutralidade carbónica em 2045, e depois tem sub-metas para cada um dos setores: para o setor da produção de eletricidade, dos transportes, da indústria e da agricultura. Portugal é um país que tem tido bons resultados nomeadamente na descarbonização da eletricidade. Nós temos 71%, no ano passado, fechamos o ano com 71% da eletricidade de origem renovável, e nos primeiros 6 meses deste ano chegamos aos 80%, portanto temos muitos bons resultados na descarbonização da sociedade. Estamos agora a lançar e lançamos antes de vir para a COP a estratégia da adaptação. Somos um país muito suscetível às alterações climáticas, tanto em termos de cheias no norte como faltas de água do sul, também sujeitos a grandes incêndios e erosão da costa. Portanto, mesmo antes de termos esta estratégia, temos muitas obras em curso; na proteção do litoral, no evitar os efeitos das cheias, obras para melhorar a eficiência hídrica para diminuir as perdas de água do sul. Estamos a construir uma dessalinizadora no sul, vamos começar a construir outra na costa alentejana também no sul, portanto há uma série de medidas em relação à adaptação às alterações climáticas. Temos também uma política na transição justa, programas para ajudar as pessoas com mais dificuldades, mais vulneráveis na eficiência dos edifícios, mas também nos transportes. 

ON: E a mais recente contribuição nacionalmente determinada de Portugal foi apresentada recentemente, que é até 2035. Quais são os pontos centrais? 

MGC: A nossa NDC é como a da União Europeia, e portanto a UE fixou uma margem de redução de 66.5% até 72.5%, que é comum aos 27 estados membros, mas nós iremos cumprir o ponto mais ambicioso desse intervalo. 

ON: Ministra, Portugal também tem sido um país inovador em relação a novas estratégias de mobilizar recursos, e um dos grandes desafios da COP 30 é como chegar ao tal 1,3 trilhão que é necessário para os países em desenvolvimento se preparem para essa crise. Portugal está a liderar em relação à conversão de conversão de dívida e investimento climático num projeto que já começou com Cabo Verde mas que também tem o potencial de se expandir para outros países lusófonos. Quais são os próximos passos dessa estratégia de converter dívida em financiamento climático? 

MGC: Nós alargamos agora o programa com Cabo verde que está a correr muito bem, está a decorrer o primeiro projeto para a expansão de uma central fotovoltaica na ilha de São Tiago, a central de Palmarejo. Vamos expandir, já foi acordado na última cimeira entre Portugal e Cabo Verde expandir essa conversão de dívida e já acordamos em fazer o mesmo com São Tomé e Príncipe. Ainda falta implementar para começar o primeiro projeto com São Tomé, mas Cabo Verde tem funcionado muito bem e é um exemplo inovador de financiamento reconhecido em todo o mundo. 

ON: Perfeito. E ministra, em relação à cooperação de países lusófonos no clima, que projetos, que projetos/iniciativas Portugal está pensando nos próximos anos, como se fosse uma espécie de “COP Lusófona”, existe uma articulação para criar, são países que têm biodiversidade são países que têm acesso ao mar, quais são as estratégias comuns? 

MGC: Nós temos uma grande cooperação com os países de expressão portuguesa, aliás, este pavilhão é um pavilhão muito frequentado por todos os países que falam português, é um pavilhão que traz aqui a cultura de Portugal, foi desenhado por um arquiteto famosíssimo, Souto Moura em cooperação com Álvaro Siza, dois grandes nomes da arquitetura mundial, trouxemos ontem o fado, António Zambujo, e é o ponto de encontro para a lusofonia. Nós temos na nossa cooperação para o clima, nos nossos compromissos do protocolo de Paris, privilegiamos muito a cooperação com os países de língua portuguesa. Nos últimos anos financiamos cerca de 79 países nestes 79 projetos destes países na ordem dos 18 milhões de euros e agora nesta sessão que aqui está a decorrer, anunciamos uma verba de 1,5 milhão de euros para a transparência nas políticas climáticas nos países lusófonos. Portanto uma rede de capacitação de troca, de experiências para uma maior transparência nos inventários, nos financiamentos, como fazer toda a gestão destes dossiers complexos na área do clima. 

ON: E última pergunta ministra, para 2026 tem algo planejado na área de economia azul, que é também um ponto que todos os países lusófonos têm em comum? 

MGC: Sim sim, nós temos também o Fundo Azul, que também é gerido por nós, e o nosso grande objetivo é a cooperação da conservação e proteção das áreas marinhas. Portugal está a trabalhar para chegar muito em breve, já em 2026 a 30% do seu mar protegido, neste momento temos 19% e queremos agora com uma área muito grande em volta da Madeira chegar aos 30% e queremos extender esta cooperação com outros países, por exemplo com São Tomé que tem um potencial enorme nesta área marinha protegida. 

ON: Muito obrigado ministra por conversar connosco sobre os planos de Portugal e estratégias. 

MGC: Muito obrigada.

Sudão: Mulheres sofrem fome e violência ao fugirem de El Fasher

© UNFPA | Uma clínica temporária em Tawila para pessoas que fogem do conflito no Darfur. "Existem cada vez mais evidências de que a violação está a ser usada deliberada e sistematicamente como arma de guerra", afirma a ONU Mulheres.

No Sudão devastado pela guerra, é provável que a violação esteja a ser usada como arma de guerra e o simples facto de ser mulher é “um forte indicador” de fome, violência e morte, alertou na terça-feira a agência das Nações Unidas para a igualdade de género.

“As mulheres que nos falam a partir de El Fasher, o epicentro da mais recente catástrofe do Sudão, dizem-nos que têm suportado fome, deslocação, violações e bombardeamentos”, declarou a diretora regional da ONU Mulheres para a África Oriental e Austral, Anna Mutavati, em conferência de imprensa em Genebra. “Mulheres grávidas deram à luz nas ruas, uma vez que os últimos hospitais de maternidade foram saqueados e destruídos.”

A milícia das Forças de Apoio Rápido (RSF) capturou a capital do estado de Darfur do Norte, El Fasher, após mais de 500 dias de cerco, no final de outubro, em meio a relatos de atrocidades generalizadas, incluindo execuções sumárias e violência sexual.

Os combates começaram em abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão e as paramilitares RSF, após o colapso da transição para um governo civil, que se seguiu à queda do antigo ditador Omar al-Bashir quatro anos antes. A luta intensa devastou comunidades, deslocou milhões de pessoas e agravou uma crise humanitária já extrema.

Em 2008, o Conselho de Segurança da ONU reconheceu que a violação em conflitos e outras formas de violência sexual podem constituir crimes de guerra, crimes contra a humanidade e até um elemento de genocídio.

Mutavati afirmou que a situação está a deteriorar-se rapidamente, à medida que os combates se espalham em torno da cidade, provocando deslocações em massa. Milhares de mulheres e raparigas fugiram para outras localidades do Darfur do Norte, incluindo Tawila, a cerca de 70 quilómetros de distância, Korma e Malit, onde a presença humanitária é “muito escassa”.

Na segunda-feira, o Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que quase 89.000 pessoas fugiram da região, algumas procurando refúgio perto da fronteira com o Chade.

“O que as mulheres nos dizem é que, na sua horrível jornada, cada passo que deram para ir buscar água, apanhar lenha ou esperar numa fila para comida representou um alto risco de violência sexual”, afirmou a representante da ONU Mulheres. “Há cada vez mais provas de que a violação está a ser usada de forma deliberada e sistemática como arma de guerra.”

Nenhum lugar é seguro

Alertando que os corpos das mulheres “se tornaram cenas de crime no Sudão”, Mutavati insistiu que “já não existem espaços seguros” onde as mulheres possam encontrar proteção ou acesso a cuidados psicossociais básicos.

“A dignidade básica também colapsou”, afirmou, explicando que, no Darfur do Norte, um único pacote de pensos higiénicos custa cerca de 27 dólares, enquanto a assistência monetária humanitária equivale, em média, a menos de 150 dólares por mês por família de seis pessoas.

Mutavati falou ainda de “decisões impossíveis” que as famílias são forçadas a tomar, “tendo de escolher entre comida, medicamentos e dignidade”. 

“As necessidades essenciais das mulheres e raparigas ficam no fim dessa lista”, disse.

A responsável destacou também que, no Sudão,como em outras crises, “as mulheres e raparigas comem menos e comem por último”.

“A maioria das mulheres e raparigas poderá nem sequer estar a comer no Sudão… As mulheres frequentemente saltam refeições para que os filhos possam comer, enquanto as adolescentes ficam com as menores porções, o que compromete a sua nutrição e saúde a longo prazo”, explicou.

“Em áreas sitiadas e remotas como Darfur ou Kordofan, as mulheres e raparigas são muitas vezes as que têm de procurar formas de sobrevivência”, acrescentou Mutavati, citando relatos de mulheres “a recolher folhas e bagas silvestres para ferver e fazer sopa”, enquanto enfrentam riscos adicionais de violência.

A fome instala-se

No início de novembro, a mais recente análise de segurança alimentar apoiada pela ONU (IPC) confirmou condições de fome em El Fasher e na capital do estado de Kordofan do Sul, Kadugli.

Mutavati afirmou ainda que profissionais de saúde relatam um aumento de casos de desnutrição aguda grave em bebés, muitas vezes associada à fome das mães, que reduz a capacidade de amamentar.

“Há um efeito em cadeia da fome que as mulheres estão a sofrer”, alertou.

Apelando ao fim da violência, a um maior acesso humanitário e a mais apoio para cozinhas comunitárias geridas por mulheres e outros prestadores de ajuda, Anna Mutavati sublinhou que as mulheres e raparigas no Sudão “são a medida da nossa humanidade partilhada”.

“Cada dia que o mundo demora a agir em relação ao Sudão, mais uma mulher dá à luz sob fogo, enterra o filho morto de fome ou desaparece sem justiça”, concluiu.

Chefe humanitário apela ao acesso à ajuda

O principal responsável humanitário da ONU, Tom Fletcher, chegou ao Sudão na segunda-feira para pressionar pelo fim das atrocidades e exigir acesso sem restrições para os trabalhadores humanitários.

A situação no Darfur do Norte continua volátil após a queda de El Fasher. Embora os grandes confrontos tenham diminuído, os civis continuam a enfrentar ataques esporádicos, saques e violência de género.

Em Kordofan do Sul, um ataque com drone atingiu a cidade de Um Barmbeeta, destruindo uma escola e ferindo vários deslocados, enquanto a insegurança continua a bloquear o acesso a zonas onde milhares de pessoas permanecem isoladas da ajuda.

Mais de 12.000 pessoas fugiram da violência em Darfur e Kordofan em direção ao Estado do Nilo Branco desde o final de outubro, sobrecarregando recursos já escassos. A ONU voltou a apelar à proteção dos civis e ao acesso seguro e contínuo dos trabalhadores humanitários através das linhas de frente.

*Artigo de autoria da ONU News

Alerta ACNUR: milhões de refugiados com apoio limitado para o inverno

© ACNUR/Oxygen Empire Media Production | Crianças afegãs deslocadas internamente encontram-se à porta da tenda da sua família em Cabul, fevereiro de 2025.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados, ACNUR, alerta que, com a chegada do inverno, milhões de refugiados e pessoas deslocadas nos seus próprios países enfrentarão temperaturas rigorosas com muito menos assistência, devido aos cortes de financiamento humanitário.

“Os orçamentos humanitários estão esticados ao limite e o apoio de inverno que podemos oferecer será muito menor este ano”, afirmou a diretora de Relações Externas do ACNUR, Dominique Hyde. “As famílias terão de enfrentar temperaturas muito baixas sem coisas que muitos de nós consideramos básicas: um teto adequado, isolamento, aquecimento, cobertores, roupa quente ou medicamentos.”

Na Ucrânia, este será o quarto inverno da guerra. Milhões de pessoas, incluindo deslocados internos, enfrentam necessidades humanitárias crescentes, com ataques que continuam a destruir vidas e infraestruturas, interrompendo o fornecimento de gás, eletricidade e água. As temperaturas podem chegar a -20°C, tornando a estação ainda mais dura para famílias já sobrecarregadas por anos de violência e de destruição.

No Afeganistão, as temperaturas abaixo de zero já ameaçam muitas famílias. Nove em cada dez afegãos vivem na pobreza, consequência de décadas de conflito e de uma crise económica persistente, com desemprego elevado e sistemas de apoio social sobrecarregados. Este ano, mais de 2,2 milhões de afegãos regressaram do Paquistão e do Irão em condições extremamente difíceis, muitos de mãos vazias e sem perspectivas de reconstrução. Dois terramotos recentes agravaram ainda mais a vulnerabilidade dessas famílias.

“As famílias deslocadas não deveriam enfrentar o inverno sozinhas. As nossas equipas estão no terreno, determinadas a proteger os refugiados do frio, mas estamos a ficar sem tempo e recursos. Precisamos de mais financiamento para tornar a vida de muitas pessoas um pouco mais suportável.”, acrescentou Hyde.

Para enfrentar esta crise, o ACNUR lançou uma campanha global de angariação de fundos, com o objetivo de arrecadar pelo menos 35 milhões de dólares. Os recursos irão apoiar famílias deslocadas e retornadas em diversas regiões a cobrir necessidades urgentes, como reparação de casas destruídas, isolamento de habitações, fornecimento de aquecimento e cobertores, além de medicamentos e alimentos quentes.

Quer ajudar? Cada doação conta. Faça a sua através do link: https://shorturl.at/13eGj