Um Painel de Especialistas da ONU disse esta quarta-feira que um embargo de armas imposto à Líbia pelo Conselho de Segurança em 2011 continua sendo “totalmente ineficaz”.
Em seu relatório final sobre a Líbia, o grupo identificou “atos múltiplos” e de ameaça à paz, à estabilidade ou à segurança do país e que aumentaram os ataques contra instituições e instalações do Estado.
Violações
Segundo os especialistas, a incapacidade de fazer cumprir o embargo significa que civis, incluindo migrantes e requerentes de asilo, continuarão sofrendo violações generalizadas de direitos e abusos.
Unsmil/Abel Kavanagh
Mulher em Trípoli, na Líbia
Para eles, “grupos terroristas designados permaneceram ativos na Líbia, embora com atividades reduzidas”, mas “seus atos de violência continuam a ter um efeito prejudicial sobre a estabilidade e segurança do país.”
O embargo de armas foi aprovado em 2011 e proíbe os líbios de importar armas e equipamentos relacionados. Também obriga os Estados-Membros da ONU a impedir o fornecimento direto ou indireto de todo o armamento ao país.
Implementação
Os especialistas disseram “que em Estados-membros que apoiam diretamente as partes em conflito, as violações são extensas, flagrantes e com total desrespeito pelas medidas de sanção.”
Eles contam que o controle de toda a cadeia de suprimentos complica a detecção, interrupção ou interdição destas operações. Além disso, a implementação do congelamento de ativos e as medidas de proibição de viagens para alguns indivíduos continuam sendo ineficazes.
Em seu relatório de 548 páginas, o painel lista as violações que resultaram na transferência de armas para as Forças Afiliadas do Governo do Acordo Nacional, GNA, e a Força Afiliada de Haftar, centrada no Exército Nacional da Líbia, LNA.
Ocha/Giles Clarke
A Líbia vive um período de instabilidade política há vários anos com graves consequências sociais e económicas.
Petróleo
O Painel também afirma que as autoridades no leste da Líbia continuaram seus esforços para exportar ilegalmente petróleo bruto e importar querosene de aviação, embora em quantidades menores.
De acordo com os especialistas, o impacto da pandemia de Covid-19 fez com que as exportações por via marítima parassem temporariamente. O contrabando de combustível por terra continuou, embora em pequena escala.
Apesar dessa pausa, a infraestrutura das redes de contrabando das cidades costeiras de Zuwarah e Abu Kammash, no oeste do país, permanece intacta. Segundo os especialistas, “é de se esperar uma retomada de suas atividades ilícitas, uma vez que a demanda global por combustível se recupere.”
Recomendações
O Painel de Peritos notou uma série de recomendações ao Conselho de Segurança, incluindo a consideração de um mandato para impor medidas sobre aeronaves, como cancelamento de registro de bandeira, proibição de pouso e de sobrevoo na Líbia.
Também recomendou que o Conselho de Segurança autorizasse os Estados-membros a inspecionar, em alto mar ao largo da costa da Líbia, embarcações com destino ou proveniência do país, quando existem motivos razoáveis para acreditar que estão violando o embargo.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, condenou, nos termos mais veementes, os horríveis assassinatos de civis praticados por grupos armados não identificados no oeste do Níger.
Segundo a agência, o atentado ocorreu em duas aldeias da região de Tillabery. Pelo menos 58 pessoas morreram incluindo seis crianças de 11 a 17 anos
Ataque
Em comunicado, a diretora-regional do Unicef, Marie-Pierre Poirier, disse que a agência está profundamente triste e indignada com o ataque.
OIM/Monica Chiriac
Amarcia é uma das 1,5 milhões de pessoas que foram deslocadas no Níger devido ao conflito na região central do Sahel
No início de janeiro, na mesma região, grupos armados realizaram ataques simultâneos nas aldeias de Tchamo-Bangou e Zaroumdareye, matando pelo menos 100 pessoas, incluindo 17 crianças.
Para Poirier, “o aumento da violência armada na região do Sahel Central está tendo um impacto arrasador na sobrevivência, educação, proteção e desenvolvimento das crianças.”
A crescente insegurança ao longo das fronteiras com Burkina Fasso e Mali aumentou as necessidades na região de Tillabery, onde mais de 95 mil pessoas já estão deslocadas.
Serviços sociais
A diretora-regional afirmou que “nos últimos meses, o acesso de atores humanitários às populações afetadas por conflitos foi prejudicado.” Segundo ela, “chegar aos necessitados é cada vez mais desafiador.”
Poirie contou que “a violência está prejudicando os meios de subsistência e o acesso aos serviços sociais, incluindo educação e saúde.”
Além disso, a insegurança está piorando vulnerabilidades já existentes. Segundo a diretora, “mulheres e crianças estão arcando com o impacto da violência.”
PMA/Rein Skullerud
Violência no Níger tem deslocado dezenas de milhares de pessoas
Crise
O Níger continua a enfrentar várias crises humanitárias prolongadas que foram agravadas pelos impactos da pandemia de Covid-19.
De acordo com dados da ONU, cerca de 3,8 milhões de pessoas, incluindo 2 milhões de crianças, precisam de assistência humanitária em todo o país.
O Unicef continua trabalhando com o Governo e seus parceiros nas comunidades afetadas para prestar às crianças e famílias proteção essencial, serviços de saúde e educação.
Apesar desses esforços, Marie-Pierre Poirier diz que “mais apoio e envolvimento adicionais da comunidade internacional são urgentemente necessários para parar a violência e ajudar a alcançar aqueles que têm maiores necessidades.”
Ex-apresentadora da ONU News, jornalista brasileira relata o primeiro dia de reabertura em Lisboa, capital do país. Medidas de enfrentamento reduziram impacto da crise sobre os portugueses. De 841 mil casos há um ano, país notifica 541 atualmente.
Há dez anos, uma revolta pacífica contra o presidente da Síria provocou uma guerra civil com proporções dramáticas. Desde então, 13 milhões de sírios foram forçados a abandonar as suas casas. 5 milhões de crianças nascidas no país nunca conheceram a paz e 1 milhão de crianças já nasceram refugiadas em países vizinhos. Em 2020, a covid-19 veio aprofundar as carências humanitárias, levando o já debilitado sistema de saúde ao limite.
O rasto de destruição deixado pela guerra continua a crescer. Ao fim de dez anos de conflito, 13 milhões de sírios foram forçados a fugir das suas casas. Desses, 6,6 milhões estão refugiados noutros países, representando um quarto do total da população refugiada ao nível mundial. No país, 13,4 milhões carecem de ajuda humanitária e 2,5 milhões de crianças não têm acesso à escola. Além das inúmeras vidas perdidas, a Síria viu o seu património histórico e cultural ser reduzido a cinzas. Fique a conhecer, com a ONU Portugal, os contornos daquele que é um dos conflitos mais trágicos da atualidade.
As últimas estimativas do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR) apontam cerca de 400 mil mortos desde o início da guerra.
“Depois de uma década de conflito, lutando contra uma pandemia e um fluxo constante de novas crises, a Síria desapareceu das capas dos jornais (…) E, ainda assim, a situação continua a constituir um pesadelo real” – secretário-geral da ONU, António Guterres, 2021
Os primórdios do conflito
A origem do conflito sírio remonta a um período de protesto e descontentamento generalizado da população síria face à alta taxa de desemprego, à corrupção e à falta de liberdade política. Em março de 2011, a Primavera Árabe trouxe à superfície o estado frágil de uma Síria liderada pelo mesmo presidente desde 2000.
Inspiradas pela revolta árabe, as primeiras manifestações pró-democracia exigiam a deposição do presidente Bashar al-Assad, que sucedeu ao pai. A oposição violenta de Assad às manifestações pacíficas motivou a eclosão de protestos em todo o país e iniciou oficialmente a Guerra Civil Síria – um dos mais mortais conflitos em curso no mundo.
Em julho de 2011, o mundo assiste à formação do Exército Livre da Síria (ELS), composto por cidadãos e militares que desertaram do Exército Sírio. Estima-se que cerca de 40 mil soldados tenham desertado do Exército nacional para formar aquela que é hoje uma das principais fações da oposição ao governo de Bashar al-Assad.
O conflito começa a ganhar novos contornos depois de fações fundamentalistas de todo o mundo emergirem e consolidarem o seu poder no país[1]. É por volta desta altura que a Síria se torna numa guerra proxy. O conflito sírio opõe a maioria muçulmana sunita, apoiada pelos estados do Golfo, e as forças xiitas alawitas leais ao presidente sírio, apoiadas pelo Irão e pela Rússia – os aliados mais importantes de Assad.
O conflito sírio despoletou uma das maiores violações dos direitos humanos no mundo com graves repercussões regionais e internacionais. A primeira foi a utilização de armas químicas de forma indiscriminada contra civis por parte do governo de Bashar al-Assad e a segunda foi o ataque de grupos armados não-estatais às populações.
A obstrução do acesso à ajuda humanitária, a opressão política e a prática de tortura dentro das prisões estatais fazem parte do legado sangrento de uma guerra sem fim à vista.
Números trágicos
Ao fim de dez anos de crise, as necessidades humanitárias agravam-se profundamente. A complexidade dos conflitos internos, a luta política entre os Estados influentes na região, o aglomerado de deslocações e a erosão das comunidades locais torna a crise Síria numa das maiores e mais complexas do mundo.
“Os números são assustadores, vergonhosos e profundamente trágicos” afirmou a Alta Comissária dos Direitos Humanos, Michelle Bachelet, ao comentar, em setembro de 2019, as mortes provocadas pelo conflito sírio.
Existem mais de 6,6 milhões de refugiados sírios registados noutros países e mais de 7 milhões de deslocados internos, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Mais de metade da população síria foi forçada a fugir da violência e representa um quarto da população total de refugiados no mundo.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) deu conta de que 2,5 milhões de crianças estão privadas de acesso escolar perante a destruição das escolas. Outras são forçadas a trabalhar ou a casar. 2018 foi o ano mais mortal para as crianças, com mais de mil mortas em combate – o maior número anual de vítimas desde o início da guerra em 2011. Dados das Nações Unidas mostram que, desde 2011 até abril de 2014, foram mortas cerca de 8.803 crianças. Já dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR) estima 22 mil crianças mortas durante o conflito.
De acordo com a UNICEF, muitas crianças trabalham 12 horas por dia, apenas para comprar pão ou vegetais e apoiar a família.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) aponta que 13,4 milhões de pessoas na Síria necessitem de assistência humanitária. Este número representa três vezes o total contado em 2012. Cerca de 8 em cada 10 pessoas na Síria vive abaixo do limiar de pobreza.
Os países vizinhos acolhem a maioria dos refugiados sírios
O aumento da violência e a vulnerabilidade extrema obrigou milhões de sírios a fugir e a refugiar-se nos países vizinhos. A Turquia é o país vizinho com o maior número de refugiados sírios, seguindo-se o Líbano, da Jordânia, do Iraque e do Egito, avança a OCHA. As restantes populações refugiadas estão espalhadas por outras regiões africanas e 1,05 milhões estão na Europa.
A eclosão do número de refugiados deu-se em 2015, com um aumento abrupto do número de pessoas a fugir do conflito. A tendência registada a partir desse ano mantém-se até 2021.
A destruição generalizada das infraestruturas civis e as limitadas oportunidades económicas colocam muitos sírios numa situação de vulnerabilidade extrema. As crianças, mulheres grávidas e lactantes, pessoas com deficiência, idosos e outros grupos de indivíduos com necessidades específicas enfrentam uma vulnerabilidade extrema.
Em 2019, 6,5 milhões de sírios sofriam de malnutrição e necessidades alimentares agudas – situação agravada pela falta de acesso aos cuidados de saúde.
As Nações Unidas na Síria
Desde a eclosão do conflito, as Nações Unidas desempenharam um papel central na Síria. Ao lado da própria população e dos parceiros humanitários, a ONU apoiou a população do país através da assistência direta e de programas específicos ao longo de todo o conflito. As organizações humanitárias juntam-se a esses esforços e contribuem, juntamente com a ONU, para uma das maiores respostas humanitárias do mundo. As próprias populações sírias têm desempenhado um papel igualmente fundamental na gestão humanitária da crise, através das estruturas de apoio familiar e comunitário, das ONGs e das instituições governamentais.
Em 2020, 7,6 milhões de pessoas receberam assistência alimentar mensal.
264 trabalhadores de assistência humanitária foram mortos em serviço, entre 2011 e 2020.
922 profissionais de saúde morreram em bombardeamentos ou ofensivas militares.
À medida que a crise avança, os esforços comprovam-se insuficientes para atender às necessidades humanitárias do país. O investimento em soluções mais dignas e sustentáveis para reduzir a dependência e aumentar a resiliência são fundamentais na resposta – mas são impedidos devido à insuficiência de recursos.
Em 2019, a resposta humanitária fez diferença na vida de milhões de pessoas, todos os meses:
4,5 milhões receberam assistência alimentar
1,9 milhões de pessoas receberam assistência agrícola
7,6 milhões de pessoas receberam água direta, kits de saneamento / higiene e assistência
4,7 milhões de crianças e professores se beneficiaram de programas de educação de qualidade
439 meninas e meninos acessaram os serviços de proteção
A Síria em 2021
Em 2021, prevê-se que o cenário na Síria permaneça complexo. As hostilidades e a insegurança vão continuar, principalmente no Noroeste do país – o que pode aumentar o fluxo de deslocações de civis.
Em 2021, o cenário na Síria mantém-se complexo. A persistência das hostilidades e a insegurança mantêm-se, principalmente no Noroeste, agravadas pela pandemia, que tem levado o sistema de saúde sírio ao limite.
Os bombardeamentos continuam, forçando centenas de milhares de pessoas a fugir em busca de segurança no noroeste da Síria, que se concentram a norte de Idleb, em Afrin, Azaz e Al Bab.
A ONU e os parceiros humanitários lançaram uma campanha com o objetivo de angariar total de 2,8 mil milhões de euros para atender às necessidades humanitárias na Síria.
Para dar apoio aos refugiados sírios na região e apoiar suas comunidades anfitriãs, a ONU pretende angariar 4,4 mil milhões de euros.
[1] Em janeiro de 2012 a Al-Qaeda forma um novo grupo jihadista denomiado Jabhat Fateh al-Sham, outrora chamado Frente Al-Nusra. Nessa mesma altura, grupos sírios-curdos, que há muito procuravam autonomia, rebelam-se e separam-se das forças de Assad no norte do país. Em Fevereiro de 2014 há um acontecimento que transforma para sempre a guerra na síria: a criação do Estado Islâmico do Iraque, da Síria e do Levante (EI), um grupo dissidente da Al Qaeda, com base no Iraque que cria um mini-estado ao qual chama Califado. O ISIS não combate directamente contra Assad mas contra outros grupos rebeldes e curdos. Em setembro de 2014, os EUA começam a bombardear o ISIS, tornando-se no inimigo número um dos EUA. A Turquia, por sua vez, começa a bombardear grupos curdos que lutam contra o ISIS na Síria. Este leva a um dos maiores problemas no conflito da Síria: os EUA querem combater o EI mas os seus aliados turcos e do Médio Oriente têm outras prioridades internas.
Ex-apresentadora da ONU News, jornalista brasileira relata o primeiro dia de reabertura em Lisboa, capital do país; medidas de enfrentamento reduziram impacto da crise sobre os portugueses; de 841 mil casos há um ano, país notifica 541 atualmente.
A Comissão sobre o Estatuto da Mulher (CEM), parte do Conselho Económico e Social (ECOSOC) das Nações Unidas, é um órgão legislativo internacional dedicado exclusivamente à promoção da igualdade de género e ao empoderamento feminino.
No contexto da pandemia da covid-19 e do aumento da violência e desigualdade de género associado à mesma, a Comissão tem este ano como tema principal ‘A participação plena e efetiva das mulheres na tomada de decisões na vida pública, assim como a eliminação da violência, para alcançar a igualdade de género e o empoderamento de todas as mulheres e meninas’. O encontro irá ainda avaliar o progresso na implementação das conclusões acordadas na 60ª sessão da CEM (2016) relativas ao ‘Empoderamento feminino e o desenvolvimento sustentável”.
História
A Comissão foi criada pela Resolução ECOSOC 11 (II) a 21 de junho de 1946 com o mandato de redigir recomendações para a promoção dos direitos das mulheres a nível político, económico, civil, social e educacional. A CEM é ainda responsável por monitorizar, rever e avaliar o progresso alcançado e os problemas encontrados na implementação da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995 e dos resultados do 23º período extraordinário das sessões da Assembleia Geral de 2000. Esta também contribui para a Agenda 2030, com o objetivo de acelerar a concretização da igualdade de género.
Todos os anos, representantes dos Estados-membros, entidades das Nações Unidas e ONGs, reúnem-se na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, para a sessão anual da Comissão. Geralmente realizada em março, com a duração de 10 dias, a sessão oferece uma oportunidade para rever o progresso em direção à igualdade de género e empoderamento feminino, identificar desafios, definir padrões e normas globais e formular políticas para promover um mundo mais igualitário. A CEM também é uma oportunidade para legisladores, ativistas e investigadores entrarem em contacto, criarem estratégias, mobilizarem e planearem novas iniciativas e ações para promover a igualdade.
Esta 65ª sessão da Comissão oferece ainda uma oportunidade para apresentar recomendações políticas práticas que assegurem uma melhor recuperação da pandemia direcionada a um futuro mais igualitário, resiliente e sustentável. A CEM poderá alcançar, neste momento critico, resultados que façam uma diferença tangível para todas as mulheres e meninas do mundo.
Dois anos se passaram, mas Abel Cossa ainda lembra de tudo que viu naquele dia em que o ciclone Idai arrasou a cidade da Beira, levando destruição e mortes a um povo que já sofria os efeitos de outros desastres naturais.
O funcionário do Programa de Alimentação Mundial conversou com a ONU News sobre suas memórias e diz que sua maior satisfação foi ver as famílias se reerguerem.
PMA/Rafael Campos
Abel Cossa, funcionário do PMA, ajudando com a distribuíção de ajuda ajuda humanitária
Campos
Abel foi uma das primeiras pessoas no local após o ciclone Idai atravessar a região. Sua meta era distribuir assistência alimentar e ajudar na reconstrução das casas e campos de cultivo destruídas pelo ciclone.
O Idai arrasou completamente quatro províncias e 50 distritos de Moçambique, afetando a vida de mais de 1,8 milhão de pessoas e inundou 700 mil hectares de plantações.
A resposta humanitária envolveu várias agências das Nações Unidas. Entre elas, o Fundo da ONU para População, Unfpa, que apoia meninas e mulheres em ações de saúde sexual e reprodutiva.
PMA/Rein Skullerud
Distribuíção alimentar na cidade da Beira após o ciclone Idai
A representante do Unfpa em Moçambique, Andreia Wojnar, diz que a data deve ser lembrada destacando o papel das mulheres que enfrentaram desafios únicos de género, como mães, grávidas e cuidadoras no meio de um desastre natural.
Segundo ela, o papel das mulheres foi crucial para ajudar a reerguer as comunidades após a tragédia.
Abel Júlio Cossa atualmente trabalha em Nhamatanda no programa de construção de resiliência “Food Assistance for Assets”, onde as famílias recebem assistência alimentar para trabalhar em suas machambas ou em recuperação de bens ativos de suas comunidades, como pontes e escolas.
Já a chefe do Sistema ONU em Moçambique, Myrta Kaulard, afirma que “é comovente testemunhar a resiliência de mulheres, crianças, homens, que perderam entes queridos e tudo o que tinham no ciclone Idai e conseguiram se recuperar gradualmente. Sua batalha contra eventos climáticos extremos é titânica. A ONU em Moçambique está empenhada em fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar Moçambique na sua corrida pela resiliência climática e desenvolvimento sustentável”.
As Nações Unidas estimam que 12 milhões de mulheres tiveram serviços de planejamento familiar interrompidos devido à pandemia, o que inclui o fornecimento de anticoncepcionais. A situação levou a 1,4 milhão de gravidezes indesejadas em todo o mundo.
Atuando com a organização de saúde Avenir Health a agência iniciou as projeções em 11 de março passado, quando foi declarada a pandemia. A análise de um ano envolveu serviços contraceptivos a de 115 países de rendas média e baixa.
Viagens
A parceria com o apoio do Google Mobility mostrou como o acesso ao planejamento familiar foi prejudicado pelos cortes em viagens, cadeias de abastecimento, estoques e sobrecarga de instalações de saúde.
Unicef/ishwanathan
Entre abril e maio passados ocorreram as maiores interrupções nos serviços de planejamento
Entre abril e maio passados ocorreram as maiores interrupções nos serviços de planejamento, com uma duração média de três meses e meio.
Estimativas antes desse período revelaram que cortes de seis meses no planejamento familiar poderiam afetar 47 milhões de mulheres em países de baixa e média rendas. Com a situação, poderiam surgir 7 milhões de gravidezes não planejadas.
No entanto, a agência da ONU revela que muitos sistemas de saúde se beneficiaram da combinação de ação rápida e engenhosidade. A situação ajudou a manter ou restaurar o acesso a serviços essenciais incluindo os anticoncepcionais.
Mesmo com altos custos e restrições no abastecimento, o Unfpa comprou e entregar as pílulas e outros suprimentos de saúde reprodutiva, bem como equipamento de proteção individual para os profissionais do setor.
Serviços
A agência destaca o uso de um aplicativo de viagens compartidas para levar os contraceptivos a quem precisa. Mensagens por SMS foram enviadas a mulheres para aconselhamento de planejamento familiar em centros especializados.
Ainda assim, muitas delas continuam enfrentando sérios obstáculos para receber serviços essenciais de saúde reprodutiva.
Por isso, o Unfpa sugere uma avaliação total de danos da pandemia que inclua os efeitos da crise em mulheres e meninas pela forma como fica alterado seu futuro com as mortes e os ferimentos em busca de contracepção e cuidados de saúde.
UNFPA Moçambique
Corte no fornecimento de anticoncepcionais levou a 1,4 milhão de gravidezes indesejadas em todo o mundo
Esta segunda-feira, 15 de março, marca o segundo aniversário do ciclone que atingiu o centro de Moçambique afetando cerca de 1,8 milhão de pessoas e causando mais de 600 mortes.
Em mensagem de vídeo, em português, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterou a solidariedade das Nações Unidas para com o povo e o governo moçambicanos.
Visita
Ele lembrou da devastação que testemunhou durante a visita que fez a Moçambique após a passagem dos ciclones Idai e Kenneth.
“Jamais esquecerei o que vi. Fiquei profundamente comovido com a força e a resiliência de todos aqueles que foram afetados e também inspirado pelo heroísmo das equipas de ajuda de emergência.”
Segundo o chefe da ONU, a força dos ciclones alerta “para o facto de que o tempo está a esgotar-se no combate às alterações climáticas.”
Ele diz que “as tempestades tropicais são cada vez mais intensas e frequentes” e destaca a gravidade da situação em África. Há regiões do continente que estão aquecendo a um ritmo duas vezes superior à média global do planeta.
O continente é dos que tem menores responsabilidades na crise climática, mas segundo Guterres, “é dos que mais sofre as consequências.”
“É urgente adotar medidas imediatas destinadas a mitigar o aquecimento global e, ao mesmo tempo, apoiar as nações que estão na linha da frente das alterações climáticas para que vejam reforçada a sua resiliência e capacidade de adaptação.”
@Ouri Pota
Pandemia da Covid-19 ameaça recuar os avanços na recuperação pós-ciclone Idai.
Resiliência
Dois anos depois, muitas famílias ainda lutam para reconstruir as suas vidas, mas o país tornou sendo atingido por uma tempestade tropical, Chalane, em dezembro passado, e semanas depois pelo ciclone Eloíse, em janeiro.
“São catástrofes atrás de catástrofes. O povo de Moçambique precisa da nossa ajuda urgente para enfrentar a tripla ameaça resultante da violência, das crises climáticas e da pandemia Covid-19.”
O chefe da ONU apela à comunidade internacional para que intensifique os seus esforços e apoie o plano de resposta humanitária. O país precisa de US$ 254 milhões para responder às crescentes necessidades humanitárias.
Para terminar, o secretário-geral pede que a data sirva para unir esforços na ajuda ao povo moçambicano.
Foto ONU/Eskinder Debebe
Vista desde a prefeitura de Beira, a cidade moçambicana mais atingida pelo ciclone Idai
Leia a mensagem do secretário-geral na íntegra:
“Nesta ocasião em que se assinalam dois anos desde que o ciclone tropical Idai se abateu sobre Moçambique, reitero a solidariedade das Nações Unidas para com o povo e o governo moçambicanos.
Visitei Moçambique logo após a passagem dos ciclones Idai e Kenneth e testemunhei, em primeira mão, a devastação provocada e os esforços de recuperação.
Jamais esquecerei o que vi.
Fiquei profundamente comovido com a força e a resiliência de todos aqueles que foram afetados – e também inspirado pelo heroísmo das equipas de ajuda de emergência.
A força dos ciclones alerta-nos para o facto de que o tempo está a esgotar-se no combate às alterações climáticas. As tempestades tropicais são cada vez mais intensas e frequentes. Há regiões em África que estão a aquecer a um ritmo duas vezes superior face à média global do planeta. Na verdade, o continente africano sendo dos que tem menores responsabilidades na crise climática, é dos que mais sofre as suas consequências.
É urgente adotar medidas imediatas destinadas a mitigar o aquecimento global e, ao mesmo tempo, apoiar as nações que estão na linha da frente das alterações climáticas para que vejam reforçada a sua resiliência e capacidade de adaptação.
Dois anos após o Ciclone Idai, muitas famílias ainda lutam para reconstruir as suas vidas. A tempestade tropical Chalane atingiu Moçambique em dezembro de 2020, seguida pelo ciclone Eloise em janeiro de 2021.
São catástrofes atrás de catástrofes!
O povo de Moçambique precisa da nossa ajuda urgente para enfrentar a tripla ameaça resultante da violência, das crises climáticas e da pandemia Covid-19.
Apelo à comunidade internacional para que intensifique os seus esforços e apoie o plano de resposta humanitária para Moçambique. O país necessita de 254 milhões de dólares para responder às crescentes necessidades humanitárias provocadas por esta tripla crise.
Nesta data, que nos faz a todos refletir, vamos unir esforços na ajuda ao povo moçambicano.”
A diretora-executiva do Programa Conjunto da ONU sobre HIV/Aids, Unaids, defende uma “mobilização verdadeiramente global” em favor da produção de vacinas para aumentar imunizantes de baixo custo para controlar o coronavírus.
Winnie Byanyima diz que a Aliança de Vacina do Povo expõe “a hipocrisia, o vazio da solidariedade humana e o autointeresse míope” que prejudicam os esforços para controlar o vírus em vários países.
Suprimentos
A agência integra a coalizão internacional com entidades como Oxfam, Frontline Aids, Global Justice Now e Yunus Center. O grupo quer que as nações desenvolvidas abram mão de grandes monopólios farmacêuticos e de lucros em detrimento da saúde das pessoas.
Foto: ONU/Amanda Voisard
A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima.
Um ano após a declaração da pandemia de Covid-19, a aliança lembra que os países em desenvolvimento enfrentam uma escassez crítica de oxigênio e suprimentos médicos para lidar com os casos.
A maioria conseguiu administrar uma única dose do imunizante, em contraste com nações ricas que “vacinam seus cidadãos a um ritmo de uma pessoa por segundo no último mês.”
Até esta sexta-feira, o conselho executivo da Organização Mundial do Comércio, OMC, discute um projeto sobre a renúncia de direitos de propriedade intelectual para vacinas e tratamentos da Covid-19.
Covax
Para a coalizão, um bloqueio dessa proposta de mais de 100 países em desenvolvimento no evento anularia os monopólios detidos por empresas farmacêuticas e permitiria uma necessidade urgente ampliar a produção de vacinas.
Unicef/Dhiraj Singh
OMC discute ate esta sexta-feira um projeto sobre a renúncia de direitos de propriedade intelectual para vacinas
Esses imunizantes seriam seguros e eficazes para “garantir que os países mais pobres tenham acesso às doses de que precisam de forma desesperada.”
A nota publicada pelo Unaids realça que mais nações em desenvolvimento verão a chegada de doses nos próximos dias da iniciativa Covax liderada pela Organização Mundial de Saúde.
Mas lembra que as quantidades disponíveis correspondem a apenas 3% do total dos habitantes devem ser vacinados até o meio do ano, e apenas um quinto até o final de 2021.
Quase 1 milhão de pessoas em todo o mundo já assinaram o apelo da Aliança de Vacinas para o Povo.
Unicef/Antoine Raab
A maioria dos países em desenvolvimento conseguiu administrar uma única dose do imunizante
A 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o novo coronavírus (covid-19) como pandemia. Passado um ano, a ONU continua a liderar a resposta à crise, ao lado dos líderes mundiais, da ciência e das comunidades. A recuperação sustentável desta crise “sem precedentes” dependerá do compromisso, da cooperação e da solidariedade mundial.
Há um ano, o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, alertava os governos mundiais para pandemia de Covid-19. Identificado a 1 de dezembro de 2019, em Wuhan, República Popular da China, o novo coronavírus foi declarado como Emergência de Saúde Pública Internacional (ESPI) pela OMS, a 30 de dezembro. Em março, já afetava a vida de milhares de pessoas, exercendo pressão sobre as economias e os sistemas nacionais de saúde.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou todos os países a agir com rapidez, tomando medidas sérias para conter a disseminação do vírus.
“Janela de oportunidade”
Hoje, sabemos que a resposta lenta dos países ao “mais alto nível de alarme de âmbito global” em janeiro representou um desperdício de uma “janela de oportunidade”, resume Tedros Ghebreyesus. Numa conferência de imprensa dada esta segunda-feira, o diretor-geral da OMS recordou que “naquele momento, fora da China, havia menos de 100 casos de Covid-19 e ainda não havia mortos”. A contenção na resposta à ameaça permitiu que os casos de infeção pelo SARS-COV-2 se multiplicassem rapidamente.
“Uma recessão global, talvez de dimensões recorde, é quase certa”
Na primeira comunicação virtual à imprensa sobre a pandemia, a 19 de março, António Guterres anunciou uma crise global, diferente de todas as enfrentadas pela ONU nos seus 75 anos. O aniversário histórico da organização viria a ficar marcado pela liderança da resposta à crise sanitária mundial, que fez desabar uma crise económica e humanitária. Nas palavras do chefe da ONU, “a crise veio expor todas as profundas fragilidades e desigualdades” dos países, agudizando problemas já existentes ao nível do emprego, da desigualdade de género e da saúde mental. O apelo ao cessar-fogo universal foi imediato, a par da emissão de uma série de relatórios sobre os impactos socioeconómicos da doença. Em junho, Guterres lançou o Plano Global da ONU de Resposta à Covid-19, com medidas políticas para as áreas principais, disponibilizadas aos governos mundiais para “salvar vidas, proteger sociedades e recuperar melhor”.
“Recuperar melhor” sem “deixar ninguém para trás”
A resposta global da ONU tem tido como três grandes pilares a ação coordenada de saúde; o combate às consequências socioeconómicas e humanitárias; e o plano de recuperação pós-pandemia. Neste contexto, o combate à desinformação e a promoção de um processo de vacinação eficaz, justo e igualitário são dois dos maiores desafios. Para “recuperar melhor”, a reafirmação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável determina um caminho com metas claras em áreas fundamentais, que visa a construção de um futuro mais igualitário, mais próspero e mais sustentável para todos. Para António Guterres, a recuperação “terá de andar de mão dada com a ação climática”, que classifica enquanto “a maior batalha das nossas vidas”.
Vacinar primeiro os profissionais da saúde e grupos de risco, proteger os sistemas de saúde dos países mais pobres, garantir o fornecimento adequado de vacinas nos países em desenvolvimento com o sistema COVAX e partilhar licenças de produção são algumas das prioridades do momento para a Organização Mundial de Saúde.
Na recuperação global da pandemia, o desafio principal será garantir que os pacotes de recuperação económica dão prioridade à inclusão e à sustentabilidade. A retoma da produção deverá assegurar investimento em proteção social e cobertura universal de saúde, alinhando-se com a resposta à emergência climática.
“Tanto as alterações climáticas, como a pandemia da Covid-19, são crises que só poderão ser enfrentadas por todos, juntos, como parte da transição para um futuro inclusivo e sustentável”
Atualmente, de acordo com Tedros Ghebreyesus, a OMS está concentrada em “apoiar todos os países a pôr fim à pandemia com as vacinas e as medidas de saúde pública que têm sido a base da resposta”, acrescentando que os países “não podem desperdiçar o progresso feito”.
No espaço de um ano, a pandemia de covid-19 provocou mais de 2 milhões e 600 mil mortos e mais de 500 milhões de empregos perdidos em todo o mundo. Em Portugal, já foram registadas mais de 16 mil mortes e mais de 800 mil casos de infeção pelo vírus SARS-CoV-2.
Cerca de 320 milhões de doses de vacinas já foram administradas a nível mundial, das quais cerca de 1 milhão em Portugal.
Esta quinta-feira, 11 de março, marca o 10º aniversário do grande terremoto e tsunami em Fukushima, no leste do Japão.
Em mensagem sobre a data, o secretário-geral, António Guterres, disse que este é “um dia solene em memória das 18,4 mil pessoas que morreram ou ainda estão desaparecidas” como resultado do desastre natural.
Vítimas
O chefe da ONU também enviou suas condolências para todos os que continuam sofrendo com a perda de entes queridos.
Ele lembrou as pessoas que continuam deslocadas, incapazes de retornar para suas casas por causa de preocupações com a segurança em torno da usina nuclear destruída de Fukushima Daiichi.
Sobre o desastre, Guterres saudou as conclusões do Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica. Em relatório publicado essa semana, o Comitê disse que a radiação libertada pelo acidente parece não estar aumentando os casos de câncer na população.
Agora, o secretário-geral diz que “o Japão lidera o mundo em temas de prevenção de desastres.” Segundo ele, “o país investiu, pesadamente, em reconstruir com mais segurança nos últimos 10 anos.”
Aiea/Giovanni Verlini
Comitê da ONU disse que a radiação libertada pelo acidente parece não estar aumentando os casos de câncer em Fukushima
Prevenção
António Guterres disse ainda que o país ajudou a compartilhar as lições aprendidas para o futuro.
Ele deu o exemplo do Marco de Sendai para Redução de Risco de Desastres, adotado há seis anos, dizendo que é um projeto global para um mundo mais seguro.
Segundo o chefe da ONU, para prevenir e gerenciar desastres, “os países precisam planejar, investir, alertar com antecedência e instruir sobre o que fazer.” Também devem priorizar os mais vulneráveis, como as pessoas idosas e pessoas com deficiência.
Guterres destacou ainda os muitos riscos que o mundo enfrenta hoje, como terremotos, riscos biológicos, pandemias e eventos climáticos extremos, e disse que o mundo deve ser inclusivo, para que “ninguém seja deixado para trás quando ocorre um desastre.”
Condições adversas de tempo nesta terça-feira atrasaram operações; pelo menos 134 sobreviventes que seguiam para a Europa foram resgatados; cerca de 190 vidas já foram perdidas este ano na tentativa de atravessar o Mediterrâneo Central.
O chefe da missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) em Portugal, Vasco Malta, fala à ONU Portugal sobre o trabalho da OIM no contexto de pandemia e salienta prioridades para a recuperação
ONU Portugal: Entre os projetos que a OIM Portugal tem neste momento em mãos quais é que gostaria de destacar? Quais são aqueles que estão a merecer maior atenção da vossa parte?
Vasco Malta: No sentido do nosso esforço e dedicação, não há qualquer diferenciação entre projetos. Todos são bastante importantes, todos têm objetivos claros e todos estão, de alguma forma, coordenados com a nossa missão. No que respeita à dimensão da opinião pública, há três projetos que efetivamente têm maior peso e repercussão: o primeiro é o projeto de Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração (Projeto ARVoRe), que tem grande interesse por parte do público. Pela particularidade do momento que vivemos, destacaria igualmente o projeto de apoio aos nacionais britânicos, para garantir os seus direitos ao abrigo do acordo de saída do Reino Unido da União Europeia, que também tem tido, efetivamente, repercussão na opinião pública e no próprio contacto com os imigrantes instalados no nosso país. Em terceiro, os projetos de recolocação e reinstalação de requerentes de asilo e refugiados. São principalmente estes três, sem desmérito por qualquer dos outros, que têm, de facto, tido maior impacto na comunicação social e junto do nosso público alvo que são os migrantes, para quem nós trabalhamos.
Do ponto de vista global, acho importante destacar o papel da OIM em 2020, em números. Destacaria que tivemos 340 migrantes apoiados no retorno voluntário aos seus países de origem; 222 refugiados reinstalados no nosso país; 809 participantes em 46 sessões de informação organizadas pela OIM; 72 crianças e jovens estrangeiros não acompanhados recolocados em Portugal; 104 migrantes referenciados por parceiros no Brasil; 614 cidadãos do Reino Unido apoiados pela organização; 9 idiomas utilizados nos materiais produzidos pela OIM sobre a covid-19; 24 requerentes de asilo da Grécia, Itália e Malta que foram recolocados; 17 pessoas que beneficiaram de apoio psicossocial.
Vasco Malta é o chefe da Missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) em Portugal.
OP: De que forma é que a covid-19 veio trazer mais desafios ao vosso trabalho, à gestão dos fluxos migratórios e à gestão destes projetos?
VM: Neste momento, a OIM estima que existam cerca de 3 milhões de migrantes em todo o mundo, bloqueados pelo fecho das fronteiras, pelo confinamento obrigatório ou pelas próprias restrições de viagem. Como seria espectável, o vírus teve enormes impactos na mobilidade dos indivíduos, seja ao nível inter-regional, como percebemos no nosso próprio país com a proibição de viajar entre concelhos, seja ao nível de deslocações entre países vizinhos ou mesmo grandes migrações internacionais. Só com uma mobilidade humana bem pensada e estruturada poderemos retomar à normalidade no transito de migrantes a nível mundial.
A covid-19 evidenciou a relação entre a saúde, a alimentação e as economias enquanto fatores dependentes da existência de uma movimentação segura, regulada e ordenada de pessoas. É importante destacar que, enquanto muitos países, inclusive o nosso, estavam e estão confinados devido à pandemia, muitas vezes foram os próprios trabalhadores migrantes a contribuir de forma decisiva para cuidar dos doentes, para cuidar dos idosos, para manter todo o ciclo de produção, cultivo e entrega de alimentos. O regime de takeaway, por exemplo, é muitas vezes praticado por migrantes. É muito justa, por isso, a homenagem aos trabalhadores migrantes na linha da frente desta pandemia.
OP: Na perspetiva da OIM, quais serão os grandes desafios para a gestão dos fluxos migratórios na recuperação pós-pandemia?
VM: A retoma da mobilidade humana e do comércio transfronteiriço será essencial para recuperar da crise atravessada no continente europeu – e esta foi uma das recomendações da OIM à presidência portuguesa da União Europeia (UE). Só será possível retomar a mobilidade, adaptando os regimes de migração e gestão de fronteiras com foco na dimensão da saúde. Advogamos que a Europa digital deve chegar à gestão de fronteiras, por via de ferramentas digitais inovadoras, que têm que existir. A OIM está pronta para ajudar o governo português e a própria UE a estabelecer mecanismos digitais para assegurar a gestão de fronteiras, de forma a que a variável saúde seja tida em conta, e para que seja segura para todas as partes: quer para quem controla as fronteiras, quer para os migrantes que procuram atravessá-las. É importante fazer chegar a Europa digital ao processo de gestão de fronteiras.
OP: Em termos concretos, como é que o escritório da OIM pode apoiar uma pessoa migrante em situação de vulnerabilidade?
VM: O papel da OIM é promover, em colaboração com o governo, fluxos migratórios regulares, seguros e dignos para toda a gente. Muitas vezes, o papel da OIM passa por garantir, junto dos seus parceiros, que qualquer migrante se pode deslocar do país A para o país B com dignidade e plena garantia dos direitos humanos. Muitos migrantes em situação de vulnerabilidade extrema procuram-nos por razões várias: porque não se adaptaram ao país, tiveram problemas com a língua, o emprego ou a habitação. O nosso papel sempre foi, por um lado, garantir apoio psicossocial a estas pessoas, mas também ajudá-las em conjunto com as autoridades competentes em Portugal – no domínio da integração com o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e no domínio da gestão de fronteiras, com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Isto, tendo sempre em conta a situação particular da pessoa em causa, sendo essencial promover redes de apoio para superar as vulnerabilidades. O nosso papel também é esse: trabalhar e colaborar com o governo para promover migrações regulares, seguras e dignificantes para todos.
O 70º aniversário da OIM será celebrado em dezembro, com um conjunto de iniciativas desenvolvidas com o escritório regional de Bruxelas e a sede da OIM em Genebra. O objetivo é tornar esta data num marco histórico que efetivamente consiga alertar toda a comunidade para a necessidade que é garantir fluxos migratórios regulares, seguros e dignos para todos.
Mais de 527 mil presos em todo o mundo foram contaminados pelo vírus da Covid-19 em 47 países. Deste total, 3,8 mil perderam a vida para a doença.
Os dados são do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, que realiza o 14º Congresso sobre Prevenção do Crime e Justiça Pena, em Quioto, no Japão.
Especialista em reforma prisional do Unodc, Philipp Meissner. Foto: Unodc
O especialista em reforma prisional da agência da ONU, Philipp Meissner, afirma que os presidiários são “desproporcionalmente” afetados pelo novo coronavírus.
Nesta entrevista à ONU News, ele explica o porquê.
Qual é a situação dos presidiários acometidos pela pandemia ao redor do mundo?
Os sistemas carcerários com mais de 11 milhões de detidos estão sendo mais afetados que outros setores. Estima-se que mais de 527 mil presos foram infectados em 11 países. Deste total, 3,8 mil morreram em 47 nações. Com testes escassos em várias localidades e um vírus que se movimenta muito rapidamente, o número real pode ser ainda mais alto. Também é preciso pensar que por causa da interação muito próxima com os prisioneiros, os agentes de prisão, trabalhadores de saúde e outros profissionais nos presídios estão sob maior risco de contaminação. Não resta dúvida de que as prisões são ambientes de alto risco de transmissão da Covid-19 para todos que vivem e trabalham lá.
Onde os prisioneiros sofrem mais esses riscos?
O impacto é fortemente sentido pelos detidos na maioria dos países e em todos os continentes. Até mesmo os sistemas penais relativamente bem ressarcidos estão enfrentando sérios desafios na mitigação dos efeitos da pandemia nas cadeias. E essas consequências são principalmente severas em sistemas carcerários que foram sendo pressionados, superlotados, por negligência ou falta de pessoal e outros recursos. Tudo isso levou a condições precárias nas prisões, por exemplo, com saneamento e limpeza insuficientes, poucos serviços de saúde e condições de higiene.
A superlotação das prisões, que continua afetando a maioria dos países, aumenta os desafios postos pela Covid-19 e a atual viabilidade de levar prevenção e medidas de controle da pandemia a esses locais.
Mais de 527 mil presos em todo o mundo foram contaminados pelo vírus da Covid-19 em 47 países.
Quais dificuldades as autoridades nacionais enfrentam no combate à Covid-19 em presídios pelo mundo?
Mesmo antes da pandemia, muitas prisões lutavam até mesmo para cobrir suas necessidades básicas e assegurar a saúde dos detidos. Estamos falando de espaço suficiente, nutrição, água potável, acesso a itens de limpeza e higiene e até mesmo de ventilação apropriada. Em muitas prisões do mundo, as pessoas não têm áreas de trabalho ou outros espaços. E o acesso a equipamento de proteção pessoal, termômetros e material de testagem de Covid-19 tornou-se um desafio. Esses fatores também agravaram o perfil, tipicamente fraco, de saúde das populações carcerárias incluindo a alta prevalência de doenças crônicas e contagiosas. Aqui, o princípio da equivalência do cuidado, que deveria fornecer aos prisioneiros o acesso a serviços de saúde gratuitamente e em padrões similares ao da população não-carcerária, não é assegurado em muitas nações. É fundamental que os padrões internacionais, em particular, as Regras Mínimas da ONU para o Tratamento de Prisioneiros, conhecidas como Regras Nelson Mandela, sejam acatadas. O ambiente na prisão tornou-se tenso em muitos países o que é alimentado por ansiedade, medos e incertezas entre prisioneiros e os empregados do sistema prisional. Os motins em cadeias e outros incidentes de segurança em 50 países demonstraram a importância da comunicação, de forma transparente, sobre a Covid-19, e sempre que possível com a participação ativa dos detentos. As medidas adotadas em muitos países resultaram, tipicamente, em mais endurecimento como a suspensão de visitas assim como a restrição ao acesso a programas de reabilitação e outras atividades construtivas fora das celas. O fato de o detento não poder ver os familiares, os filhos, por um período longo de tempo, tem um impacto sério na saúde mental e no bem-estar dos presos incluindo mães e pais. Isto também agrava o sofrimento inerente à situação da detenção em si.
Unsplash/R.D. Smith
Presos encarcerados em instalações com poucos recursos podem enfrentar condições precárias
As autoridades nacionais estão dedicando atenção suficiente à situação dos prisioneiros durante esta pandemia?
O gerenciamento da prisão e os serviços são um ponto fraco na justiça penal em vários países. Os presos são um segmento da sociedade que é geralmente esquecido na hora de se formular políticas públicas e entre a opinião pública. Desde o início da pandemia, o Unodc e outros parceiros têm sido bastante ativos sobre a urgência de se incluir as prisões, os detentos e o pessoal dos presídios na resposta de saúde pública à Covid-19. Mesmo que muitas jurisdições estejam chamando a atenção para o tema e feito esforços, muito precisa ser alcançado ainda para responder à situação dos prisioneiros na pandemia e mitigar os riscos da doença nas prisões. E isto deveria, claro, incluir programas de imunização.
Que soluções estão sendo encontradas para acabar com a propagação do virus nos presídios?
Um dos temas mais importantes é a grave superlotação. E vários países tentaram contornar este problema com a suspensão de sentenças para crimes menos sérios e até mesmo a soltura temporária, em caráter de emergência de saúde, dos detentos para evitar a propagação. Nesse caso, aqueles que estão sob risco de se contaminar ou perto de completarem suas penas. Calcula-se que mais de 700 mil detentos tenham sido autorizados a sair da prisão durante a pandemia, em todo o mundo.
Mulher em uma prisão feminina em Herat, Afeganistão.
Como a ONU pode melhorar as medidas de prevenção em prisões?
A ONU tem advogado por uma reforma prisional holística assim como uma reavaliação do quadro atual de encarceramento com uma visão de lidar com a superlotação e as prisões em massa. Mais especificamente, o Unodc tem se engajado em serviços de correção e carcerário nacionais em mais de 50 países par assistir as medidas de prevenção e controle da infecção. O objetivo é assegurar a aderência mínima aos padrões e a promoção, em casos apropriados, de um aumento de alternativas ao encarceramento.
O apoio global do Unodc inclui:
O Unodc segue conduzindo treinamentos online sobre a prevenção da pandemia e resposta em presídios em países como Brasil, Egito, Paquistão, Peru, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e nações do sul da África, do leste da Europa e das regiões centro-asiáticas.
Em Uganda, 16 tanques de água, 40 camas hospitalares, sabão, milhares de colchões e cobertores estão sendo licitados para aumentar a resposta à pandemia. Equipamento de vídeoconferência deve acelerar o gerenciamento virtual de audiências da Justiça pela internet. Os presos também estão se beneficiando de mais tempo ao telefone com a família.
Iniciativas semelhantes ocorrem no Quênia, na Somália e outros países do sul da África como Malauí, as instalações dos presídios receberam mais água potável, áreas de ventilação e outras medidas de higiene e prevenção.
Na região do Sahel, o Unodc está fornecendo equipamentos para enfermarias e equipamentos médicos para uma prisão da Mauritânia.
Bolívia, Líbano, Mianmar, Filipinas, Sri Lanka, Somália e Zâmbia além de outros países receberam equipamento de proteção para suas prisões incluindo máscaras, termômetros, luvas, álcool em gel, roupas de proteção e outros itens.
Na Mauritânia, uma estação de rádio na prisão está sendo organizada com o apoio do Unodc em três presídios para levar informação regular sobre a Covid-19 assim como dicas de saúde e higiene.
Já na Namíbia, o Unodc continua envolvendo os prisioneiros em ações construtivas e apoiando o treinamento vocacional numa linha de produção para sabão e álcool em gel com a meta de promover medidas de prevenção.