ONU News | Ibrahim Aloush dentro do seu camião estacionado em frente à estação de dessalinização em Jabalia
Em Gaza, onde a falta de acesso à água representa uma ameaça existencial, Ibrahim Alloush destaca-se como um herói anónimo, oferecendo uma tábua de salvação às pessoas sedentas da Faixa.
Todos os dias, conduz o seu camião-cisterna pela região, enchendo tanques e recipientes vazios.
A nossa câmara acompanhou Alloush numa missão difícil para levar um pouco de água aos habitantes de Jabalia. O correspondente da ONU encontrou Alloush na central de dessalinização de Jabalia, onde passa horas à espera de água.
Como em todo o lado em Gaza, a central está sobrelotada. Com a escassez de combustível, Alloush explicou que são necessários entre 35 a 40 litros de gasóleo por hora para manter a central a funcionar.
Horas de espera Na central, Ibrahim tem de ter paciência: “Vimos até aqui e esperamos cerca de cinco horas pela nossa vez de encher. Os preços da água são muito elevados devido aos custos de produção. As pessoas em Gaza não conseguem pagar por água, a menos que seja distribuída por organizações, instituições ou iniciativas.”
“O custo de um metro cúbico é muito alto devido ao preço do gasóleo, essencial para fazer funcionar os geradores. Um metro cúbico de água pode custar entre 90 a 100 shekels — cerca de 20 dinares jordanos.”
Caminho difícil Depois de cumprir a sua tarefa, Ibrahim Alloush entra no seu velho camião, liga o motor e parte numa viagem difícil pelos bairros devastados de Jabalia.
Para Alloush, a luta não termina na central de água. Circular por Gaza não é fácil. As ruas estão destruídas, há escombros por todo o lado, mas este tem de chegar às pessoas que o esperam — pessoas que esperam por água.
Há sempre alguém à sua espera. Há zonas onde é praticamente impossível chegar de camião. Se não fosse Alloush, essas comunidades não teriam qualquer abastecimento.
Sem água não há vida “Estamos a viver uma crise grave de água”, diz Ayman Kamal, residente da Faixa de Gaza. Enquanto alguns esperam meio dia apenas para encher cinco ou dez galões, outros nem sequer conseguem água, porque ficam demasiado atrás na fila.
“Sem água, não há vida… Esperamos por água potável que vem de zonas distantes, e as pessoas aglomeram-se para conseguir a sua parte”, diz outro residente, Fathi al-Kahlout, enquanto enche o seu balde.
“O bloqueio trouxe-nos muitos problemas. Esperamos que o mundo olhe para nós, nem que seja por um dia, como olha para outros países. Toda a gente, noutros países, vive com conforto. Porquê fomos nós condenados a isto?”, questiona Sameer Badr, explicando que os seus filhos passam os dias a ir e voltar à procura de água.
ONU News | Moradores de Gaza fazem fila perto do camião de água para encher os seus galões
Crise de água a agravar-se O encerramento contínuo das passagens fronteiriças e a proibição de entrada de combustível estão a paralisar as centrais de dessalinização. O fecho dos principais oleodutos de abastecimento de água também provocou uma redução drástica na quantidade de água potável disponível para os habitantes de Gaza. A crise está a piorar, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Com o colapso do cessar-fogo, os trabalhos de reparação em poços e pontos de água essenciais foram totalmente interrompidos, deixando muitas fontes fora de serviço ou em risco de danos maiores.
Segundo a UNICEF, cerca de um milhão de pessoas — incluindo 400 mil crianças — estão atualmente a receber uma ração diária de seis litros por pessoa, uma quebra acentuada face à média anterior de 16 litros.
Se o combustível acabar, a UNICEF avisa que esta quantidade poderá cair para menos de quatro litros por dia nas próximas semanas, forçando as famílias a recorrer a fontes de água não seguras, o que aumenta significativamente o risco de surtos de doenças, sobretudo entre as crianças.
OMS/Atul Loke |
Os cortes no financiamento da saúde global estão a provocar uma escassez crítica de medicamentos, fornecimentos e serviços, com potenciais impactos a longo prazo nos sistemas de saúde.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) alertou para perturbações nos serviços de saúde em 70% dos seus escritórios nacionais inquiridos, na sequência de suspensões e reduções súbitas na ajuda pública ao desenvolvimento (APD) destinada à saúde.
Os dados, resultantes de uma avaliação rápida conduzida pela OMS face à evolução acelerada da situação, levantam preocupações quanto a efeitos mais profundos e prolongados sobre os sistemas e serviços de saúde em todo o mundo, sobretudo em contextos frágeis e vulneráveis. A situação exige uma resposta urgente e coordenada a nível internacional.
O novo levantamento, realizado entre março e abril de 2025 com 108 escritórios da OMS, maioritariamente em países de baixo e médio rendimento, revela que muitos governos estão a tentar reforçar ou redirecionar fundos internos ou apoios externos alternativos para colmatar as lacunas. No entanto, até 24% das respostas indicam que os cortes orçamentais já se estão a traduzir num aumento dos pagamentos diretos por parte dos utentes. As populações mais pobres e vulneráveis serão, provavelmente, as mais afetadas.
“Estes resultados traçam um cenário preocupante sobre o impacto que os cortes abruptos e não planeados na ajuda estão a ter na saúde de milhões de pessoas”, afirmou o diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Embora estes cortes representem um choque, também estão a impulsionar uma transição acelerada da dependência da ajuda externa para uma maior autossuficiência sustentável, baseada em recursos internos. Muitos países têm solicitado o apoio da OMS, e estamos a trabalhar com eles para identificar e implementar as medidas mais eficazes.”
Os relatórios dos escritórios da OMS oferecem um retrato inicial da situação, baseando-se na colaboração estreita com os ministérios da saúde e no apoio regular prestado à definição de políticas e planeamento dos sistemas de saúde. O objetivo foi identificar o apoio urgente de que os países necessitam para evitar consequências catastróficas na saúde das populações e orientar a monitorização contínua do contexto em rápida mutação.
Principais conclusões do levantamento:
As suspensões e reduções na APD estão a afetar todas as funções dos sistemas de saúde, sendo os impactos mais frequentemente relatados nos domínios da preparação e resposta a emergências sanitárias (70%), vigilância em saúde pública (66%), prestação de serviços (58%), ajuda humanitária (56%) e recursos humanos da saúde e dos cuidados (54%).
Os serviços de saúde estão a ser interrompidos de forma generalizada em pelo menos um terço dos países inquiridos, com perturbações significativas na deteção e resposta a surtos, bem como nos programas de combate à malária, VIH, tuberculose, infeções sexualmente transmissíveis, planeamento familiar e saúde materna e infantil.
A natureza e a dimensão destas perturbações são, em alguns casos, comparáveis às observadas durante os períodos mais críticos da pandemia de COVID-19.
A escassez de medicamentos e produtos de saúde essenciais está a deixar um terço dos países sem os bens necessários para manter serviços fundamentais.
A suspensão da APD levou à perda de postos de trabalho no setor da saúde e dos cuidados em mais de metade dos países inquiridos, além de impactar negativamente formações e capacitações.
Os sistemas de informação em saúde estão a ser particularmente afetados, com mais de 40% dos países a relatar interrupções na recolha de dados essenciais, incluindo em sistemas de vigilância colaborativa e de emergência, sistemas de informação para a gestão da saúde, registos de doenças específicas, sistemas laboratoriais e inquéritos populacionais.
Oitenta e um dos 108 escritórios da OMS identificaram necessidades de apoio em diversas áreas da saúde, incluindo financiamento inovador, mobilização de recursos, assistência técnica e apoio direcionado.
Face à rápida evolução do contexto, a OMS continuará a monitorizar a situação e a mobilizar a comunidade global da saúde, incluindo parceiros e doadores, para informar planos de resposta urgentes que mitiguem os impactos nos países e promovam soluções mais sustentáveis.
A fome no nordeste do Sudão do Sul atingiu um ponto crítico, com quase 7,7 milhões de pessoas a enfrentarem insegurança alimentar grave, à medida que o conflito se intensifica, alertou esta quarta-feira a agência da ONU responsável por ajuda alimentar de emergência.
A situação é especialmente grave para os repatriados que fogem da violência no Sudão, representando agora quase metade dos que enfrentam níveis de fome catastróficos.
Segundo o Programa Alimentar Mundial (PAM), a chegada de mais de 1,1 milhões de pessoas deslocadas a comunidades já frágeis está a sobrecarregar os recursos e os esforços humanitários.
Com o início da época de escassez antes das colheitas, espera-se que as condições piorem ainda mais. O PAM apela aos doadores para que reforcem o apoio e evitem uma catástrofe humanitária crescente.
“Estes são dos piores níveis de insegurança alimentar que já vimos no país desde a independência”, afirmou Mary-Ellen McGroarty, diretora nacional do PAM no Sudão do Sul, numa videoconferência com jornalistas em Nova Iorque.
“Estamos a assistir ao impacto devastador do conflito no agravamento da fome. As comunidades fugiram apenas com a roupa que tinham no corpo e viram-se obrigadas a abandonar os seus já escassos meios de subsistência e estratégias sazonais de sobrevivência.”
Anos de instabilidade
O Sudão do Sul tornou-se independente do Sudão em 2011, mas a nação mais jovem do mundo tem sido assolada por conflitos e instabilidade desde então.
Uma guerra civil eclodiu em 2013 entre forças leais ao presidente Salva Kiir e as que apoiavam o seu antigo vice-presidente, Riek Machar. O conflito – marcado por violência étnica, atrocidades em massa e uma grave crise humanitária – prolongou-se até à assinatura de um acordo de paz frágil em 2018.
Nos últimos tempos, teme-se um novo mergulho na guerra civil, com a escalada das tensões entre líderes sul-sudaneses, incluindo relatos do alegado confinamento domiciliário de Machar no final do mês passado.
Conflito e doença
A crise ultrapassa os limites da fome: está em curso um surto de cólera no volátil estado do Alto Nilo. Em resposta, o PAM já transportou por via aérea 35 toneladas de ajuda para as zonas afetadas, estando mais ajuda pronta para envio assim que as condições de segurança o permitam.
A agência pretende ainda fornecer assistência alimentar a mais de 450 mil pessoas na região, com foco naquelas que enfrentam níveis de fome classificados como emergência (IPC4) e catástrofe (IPC5), segundo a classificação da ONU conhecida como IPC.
Contudo, o conflito ativo está a dificultar os esforços humanitários, e a distribuição de alimentos foi suspensa em seis condados devido aos combates e à insegurança.
“[Nós e os nossos] parceiros temos os alimentos prontos para entregar e distribuir assim que as condições o permitam”, referiu a agência.
Mulheres num ponto de rutura
À medida que o conflito se alastra e a fome se agrava, são as mulheres e raparigas que mais sofrem com esta crise. Muitas foram forçadas a fugir da insegurança repetidamente.
Os choques climáticos constantes e devastadores têm-lhes causado danos particularmente severos, deixando-as em risco de serem coagidas à prostituição, traficadas ou vítimas de violência sexual ao procurarem, sozinhas e por longas distâncias, alimentos, água ou trabalho.
Para responder ao aumento das necessidades, agências da ONU — como a UNFPA, especializada em saúde reprodutiva — têm operado espaços seguros que oferecem abrigo, apoio psicológico, formação profissional e informação essencial sobre prevenção da violência baseada no género.
Contudo, devido a cortes no financiamento, pelo menos dois destes espaços deverão encerrar até maio, deixando milhares de mulheres e raparigas sem acesso a apoio.
“Perante esta crise, cada euro conta, cada intervenção importa e cada vida salva é um passo rumo à paz”, afirmou a diretora executiva do UNFPA, Dra. Natalia Kanem.
O UNFPA precisa urgentemente de 8,8 milhões de dólares para manter os serviços vitais em funcionamento, mas recebeu apenas uma fração desse valor.
Com a entrada de ajuda humanitária em Gaza bloqueada há mais de um mês, o secretário-geral da ONU apelou esta terça-feira ao acesso garantido de ajuda humanitária ao enclave.
Na sede das Nações Unidas, António Guterres voltou a apelar, em discussão com jornalistas, a um novo cessar-fogo entre Israel e o Hamas, bem como à libertação de todos os reféns ainda detidos dentro do enclave devastado.
Desde 2 de março que não entra em Gaza qualquer alimento, combustível, medicamento ou produtos comerciais, devido ao bloqueio imposto por Israel. Os mantimentos acumulam-se nas passagens fronteiriças.
Entretanto, o cessar-fogo anunciado em janeiro, após 15 meses de guerra, colapsou, com o recomeço de bombardeamentos aéreos, operações terrestres e o lançamento de foguetes contra Israel por parte de militantes palestinianos.
“Um ciclo interminável de morte” “Com o corte da ajuda, reabriram-se as comportas do horror”, declarou Guterres.
“Gaza é um campo de morte – e os civis estão presos num ciclo interminável de morte.”
O secretário-geral sublinhou que “desde os horrendos ataques do Hamas de 7 de outubro, há verdades que se tornaram evidentes”, nomeadamente que os cessar-fogos funcionam.
O cessar-fogo permitiu a libertação de reféns, a distribuição de ajuda vital e demonstrou que a comunidade humanitária é capaz de agir.
Esperança desfeita O secretário-geral recordou que, “durante semanas, as armas silenciaram-se, os obstáculos foram removidos, os saques cessaram – e conseguimos levar ajuda vital a praticamente toda a Faixa de Gaza”. Isso terminou com o colapso do acordo.
“A esperança desapareceu para as famílias palestinianas em Gaza e para as famílias dos reféns em Israel – como voltei a sentir ontem ao reencontrar-me com famílias de reféns.”
Por isso, Guterres tem apelado repetidamente à libertação imediata e incondicional de todos os reféns, a um cessar-fogo permanente e ao acesso humanitário pleno ao território.
“Nestes momentos, é fundamental sermos absolutamente claros”, afirmou, acrescentando que, com as passagens fechadas e a ajuda bloqueada, não há segurança eficaz nem capacidade de entrega de assistência.
Referiu ainda um comunicado conjunto dos responsáveis humanitários da ONU, publicado na segunda-feira, que refuta a ideia de que há comida suficiente em Gaza para todos.
Obrigações internacionais “Temos também de ser claros quanto às obrigações”, prosseguiu Guterres, frisando as “obrigações inequívocas” de Israel, enquanto potência ocupante, ao abrigo do direito internacional.
Apontou para a Quarta Convenção de Genebra, que estipula o dever de garantir o fornecimento de alimentos e cuidados médicos à população, bem como a manutenção dos serviços médicos, hospitalares, de saúde pública e higiene.
Além disso, o pessoal médico deve poder exercer as suas funções.
Citou também o 59.º artigo da mesma convenção, que determina que, se a população de um território ocupado estiver mal abastecida, a potência ocupante deve permitir e facilitar programas de assistência por todos os meios ao seu dispor.
Guterres salientou ainda que o direito internacional humanitário exige o respeito pelo pessoal humanitário, rendendo homenagem aos “heróis humanitários” sob fogo em Gaza.
Contra novos “mecanismos de autorização” Apesar de as agências da ONU e os seus parceiros estarem prontos e determinados a agir, “os novos ‘mecanismos de autorização’ propostos pelas autoridades israelitas para a entrega de ajuda arriscam controlar e limitar de forma insensível a ajuda até à última caloria e grão de farinha”, disse o secretário-geral.
“Sendo claro: não participaremos em qualquer esquema que não respeite plenamente os princípios humanitários – humanidade, imparcialidade, independência e neutralidade.”
Guterres exigiu acesso humanitário sem entraves e a proteção do pessoal humanitário, em conformidade com o direito internacional.
Reforçou que “a inviolabilidade das instalações e bens das Nações Unidas deve ser respeitada” e reiterou o apelo a uma investigação independente sobre o assassinato de trabalhadores humanitários, incluindo funcionários da ONU.
Um caminho sem saída Guterres concluiu a conferência lembrando a importância de manter os princípios fundamentais. Apelou aos Estados-membros da ONU para que cumpram as suas obrigações, acrescentando que deve haver justiça e responsabilização quando isso não acontece.
“O mundo pode estar a ficar sem palavras para descrever a situação em Gaza, mas nunca fugiremos da verdade.”
Avisou que “o caminho atual é um beco sem saída – totalmente intolerável aos olhos do direito internacional e da história”, alertando ainda para o risco de a Cisjordânia ocupada se transformar “noutra Gaza”.
“É hora de pôr fim à desumanização, proteger os civis, libertar os reféns, garantir ajuda vital e renovar o cessar-fogo”, concluiu.
Um relatório do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais (DESA) revela que, após atingir o pico populacional, o número de habitantes do planeta deverá registar uma queda gradual até ao final do século. Portugal está entre os países que verão aumentar a esperança média de vida. Já Angola deverá duplicar o número de habitantes, enquanto o Brasil integra o grupo de nações com um crescimento acentuado entre 2025 e 2054.
O relatório do secretário-geral das Nações Unidas estima que a população mundial alcance os 10,3 mil milhões de pessoas por volta de 2080. A tendência de crescimento deverá manter-se nas próximas seis décadas, com uma ligeira descida até ao final do século, altura em que a população global deverá rondar os 10,2 mil milhões.
Migrações influenciam dinâmica populacional
O documento será debatido esta semana durante a 58.ª Sessão da Comissão sobre População e Desenvolvimento (CPD58), que decorre até 11 de abril na sede da ONU, em Nova Iorque. Sob o tema “Assegurar vidas saudáveis e promover o bem-estar para todos, em todas as idades”, especialistas da organização analisam as tendências demográficas globais.
António Guterres, secretário-geral da ONU, salienta que padrões nacionais como a fertilidade, a mortalidade e a migração internacional têm impacto direto na evolução populacional. Segundo o responsável, a humanidade vive mais tempo e forma famílias menos numerosas, o que evidencia uma clara transição demográfica.
Rovena Rosa/Agência Brasil | O Brasil, ao lado do Irão e do Vietnam, está na lista de países que terão um pico populacional entre 2025 e 2054
Portugal, Brasil e Angola: trajetórias distintas
Alguns países já ultrapassaram o seu pico populacional, enquanto outros deverão atingi-lo nas próximas décadas. O Brasil, juntamente com o Irão e o Vietname, está entre os países que alcançarão esse ponto entre 2025 e 2054.
Durante o mesmo período, prevê-se um aumento da esperança de vida à nascença em Portugal, Espanha e Itália. Entre os países de língua portuguesa, Angola deverá duplicar a sua população até 2054, tal como outras oito nações africanas, incluindo Mali, Somália, República Democrática do Congo e Chade.
Mais de 20% do crescimento esperado da população mundial deverá ocorrer nestas regiões africanas. Com o rápido aumento demográfico, países como o Paquistão, a Nigéria e a República Democrática do Congo poderão ultrapassar os Estados Unidos em termos de dimensão populacional.
Força de trabalho multigeracional
O relatório destaca ainda a importância de promover ambientes laborais multigeracionais, com oportunidades de formação e requalificação da força de trabalho. Entre as recomendações está a criação de postos de trabalho para pessoas idosas que desejem manter-se ativas mesmo após a reforma.
A evolução ou diminuição da população de cada país depende do equilíbrio entre três fatores: fertilidade, mortalidade e migração internacional. A migração pode influenciar, de forma indireta, o número de nascimentos tanto nos países de origem como nos de destino.
Em países como a Albânia, a Arménia, Guadalupe ou a Jamaica, assiste-se a uma redução do número de nascimentos. Já em Portugal, Espanha e Rússia, a imigração tem contribuído para o aumento da natalidade.
O impacto da migração verifica-se sobretudo a nível nacional ou regional. A nível global, contudo, o efeito sobre o crescimento populacional é nulo.
A taxa de fertilidade mundial — número médio de filhos por mulher — desceu de forma acentuada nas últimas décadas, situando-se atualmente nos 2,25 filhos por mulher, menos um do que na geração anterior. Até ao final da década de 2040, espera-se uma descida para 2,1.
Expectativa de vida aumenta globalmente
A esperança média de vida tem vindo a crescer, aumentando mais de 8,4 anos desde 1995. Em 2024, a média mundial era de 73,3 anos e deverá chegar aos 77,4 anos em 2054. Nessa altura, mais de metade das mortes deverá ocorrer a partir dos 80 anos — um salto significativo face aos 17% registados em 1995.
Este aumento é atribuído a melhorias na saúde pública, na higiene, na medicina e na nutrição. Ainda assim, entre 2020 e 2021, o impacto da pandemia de Covid-19 travou temporariamente esta tendência.
A transição demográfica está a ser vivida em praticamente todos os países: vivemos mais e temos famílias mais pequenas.
Pnud Somalia/Ali Adan Abdi África Subsariana terá 2,2 mil milhões até 2054
Nos próximos 30 anos, a população da África Subsariana deverá crescer 79%, atingindo os 2,2 mil milhões em 2054. Até ao final do século, o número poderá chegar aos 3,3 mil milhões.
No último ano, as regiões com maior esperança média de vida foram a China, o Japão, Hong Kong e a Coreia do Sul, todas com mais de 84 anos. Na Europa, Portugal, Itália e Espanha também verão este indicador crescer, tal como Guadalupe e Martinica, nas Caraíbas. Em contrapartida, países como a Moldávia, a Jamaica e São Vicente e Granadinas deverão registar uma quebra, com a esperança de vida a cair para menos de 72 anos.
No Dia Mundial da Saúde, assinalado esta segunda-feira, as Nações Unidas alertam para as vulnerabilidades específicas enfrentadas por mulheres e raparigas em situações de crise. Em zonas de conflito, a saúde materna e mental está sob ameaça constante, agravada pela falta de cuidados básicos, insegurança e trauma prolongado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 300 mil mulheres continuam a morrer, todos os anos, durante a gravidez ou o parto – uma realidade que a campanha “Inícios saudáveis, futuros esperançosos” pretende transformar.
Em 2023, globalmente, ainda ocorreram cerca de 260.000 mortes maternas, sendo que em países afetados por conflitos, a taxa de mortalidade é o dobro da média mundial, com 504 mortes por 100.000 nados-vivos. Para mais, segundo a diretora do escritório do UNFPA de Londres, Mónica Ferro, apenas quatro países são responsáveis por 47% das mortes maternas: a República Democrática do Congo, a Índia, a Nigéria e o Paquistão. Entre estes países, a Nigéria suporta o maior fardo, contribuindo com 28,7% do total de mortes maternas a nível mundial. Estes números sublinham o peso desproporcional que os contextos de crise têm sobre a vida das mulheres.
A OMS apela aos governos para que priorizem a saúde das mulheres não apenas durante a gravidez, mas também a longo prazo, garantindo cuidados contínuos e sensíveis às necessidades reais. “Cada morte materna é uma tragédia, e uma evidência de que não cumprimos a promessa de garantir o direito à saúde para todas as pessoas, em todo o lado”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
Em contextos de conflito, o impacto na saúde mental é devastador. Cerca de 600 milhões de mulheres e raparigas vivem atualmente em zonas afetadas por violência – um aumento de 50% desde 2017. No terreno, o acesso a apoio psicológico é extremamente limitado. Estima-se que uma em cada cinco pessoas em contexto humanitário desenvolva perturbações mentais duradouras, mas apenas 2% recebem tratamento adequado. “A maioria dessas mortes poderia ser evitada com cuidados oportunos e eficazes durante a gravidez e o parto”, lembra a médica da OMS Haitham Shoman, destacando que o sofrimento mental agrava ainda mais os riscos físicos.
Em Gaza, as mulheres enfrentam níveis extremos de stress, depressão e privação, vivendo sob bombardeamentos constantes e sem acesso a apoio emocional. Testemunhos recolhidos por agências da ONU revelam um cenário de esgotamento, medo e desespero. Também na Ucrânia, onde a guerra aumentou os casos de violência de género e o trabalho de cuidado não remunerado, 42% das mulheres correm o risco de desenvolver depressão. Em países como o Afeganistão ou a Geórgia, a situação repete-se, com mulheres privadas de direitos básicos e sem acesso a serviços de saúde mental.
De acordo com Mónica Ferro, cada dólar investido em cuidados de saúde materna tem um retorno de até 20 dólares em benefícios económicos e sociais nos países de baixo e médio rendimento, o que reforça a importância de políticas de saúde pública eficazes e de investimentos em infraestruturas sanitárias.
Em Portugal, embora o contexto seja diferente, os desafios na saúde mental materna continuam presentes. Dados da Direção-Geral da Saúde indicam que cerca de 1 em cada 5 mulheres sofre de depressão pós-parto, sendo que os fatores de risco são agravados por desigualdades socioeconómicas ou pela solidão durante a gravidez. Iniciativas locais, como a Linha de Apoio Psicológico do SNS 24 e programas de saúde mental perinatal, têm procurado colmatar lacunas, mas os especialistas sublinham que é preciso um maior investimento.
A ONU reforça que o apoio à saúde mental em contextos de emergência não é um luxo: é uma necessidade vital. Investir em cuidados integrados, humanizados e acessíveis é essencial para garantir não só a sobrevivência, mas também a dignidade de todas as mulheres e raparigas, independentemente do local onde vivem.
A estátua “Kwibuka Flame of Hope”, um presente da República de Ruanda, foi instalada a 11 de setembro de 2024 na área do jardim norte da Sede das Nações Unidas em Nova York.
O SECRETÁRIO-GERAL
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MENSAGEM PARA O DIA INTERNACIONAL DE REFLEXÃO SOBRE O GENOCÍDIO DE 1994 CONTRA OS TUTSI NO RUANDA
7 de abril de 2025
Hoje, lamentamos a morte de um milhão de crianças, mulheres e homens assassinados no genocídio de 1994 contra os Tutsi no Ruanda.
Este capítulo aterrador da história humana não foi um frenesim espontâneo de violência horrenda. Foi intencional, premeditado e planeado — incluindo através de discursos de ódio que inflamaram divisões, espalharam mentiras e desumanização. A grande maioria das vítimas foram Tutsi, mas também Hutu e outros que se opuseram ao genocídio.
Ao relembrarmos como estes crimes aconteceram, devemos também refletir sobre a sua ressonância com os nossos tempos atuais.
Vivemos dias de divisão. A narrativa do “nós” contra “eles” está a ganhar força, polarizando as sociedades. As tecnologias digitais estão a ser usadas como armas para inflamar ainda mais o ódio, fomentar divisões e espalhar mentiras.
Devemos aprender com a terrível história do genocídio em Ruanda e agir para conter a onda de discurso de ódio, evitar que a desunião e o descontentamento se transformem em violência, defender os direitos humanos e garantir a responsabilização.
Peço a todos os Estados que cumpram os compromissos assumidos no Pacto Digital Global para combater as mentiras e o ódio online, a cumprir as suas obrigações sob o direito internacional humanitário e de direitos humanos, e a tornarem-se partes na Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio sem mais demora.
Neste dia de memória, comprometamo-nos a ser vigilantes e a trabalhar juntos para construir um mundo de justiça e dignidade para todos – em honra de todas as vítimas e sobreviventes do genocídio no Ruanda.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) abriu hoje as nomeações para os Prémios Campeões da Terra, a mais alta distinção ambiental das Nações Unidas. Este prémio reconhece líderes de governos, sociedade civil e setor privado pelo seu impacto transformador no ambiente.
Este ano, o PNUMA procura candidaturas de indivíduos, organizações e governos que estejam a desenvolver e implementar soluções e políticas inovadoras e sustentáveis para impulsionar a ação climática e gerar benefícios positivos para a saúde e bem-estar das pessoas. Os prémios de 2025 darão destaque a soluções relacionadas com o metano, edifícios e construção, arrefecimento sustentável (incluindo eficiência energética), ar limpo e florestas.
Ano decisivo para a ação climática
2025 será um ano crucial para a ação climática, à medida que os governos submetem a terceira ronda de planos climáticos nacionais quinquenais (NDCs) antes da Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas em Belém (COP30). Assinala também o 10.º aniversário do Acordo de Paris.
Sem esforços intensificados, as projeções atuais indicam que as temperaturas globais poderão aumentar entre 2,6 e 3,1°C acima dos níveis pré-industriais até ao final do século. Embora este valor represente uma melhoria face ao aumento de 5°C previsto em 2010, o mundo ainda está longe da meta de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris.
O arrefecimento sustentável protege as pessoas das temperaturas crescentes, preserva a qualidade e segurança dos alimentos e mantém vacinas estáveis, além de contribuir para economias produtivas. A ação sobre o metano pode melhorar a qualidade do ar, evitar o desperdício de energia e reforçar a segurança alimentar, ao mesmo tempo que cria empregos e gera centenas de milhares de milhões de dólares em benefícios económicos diretos. A melhoria da qualidade do ar previne mortes prematuras, reduz custos de saúde e impulsiona o desenvolvimento económico, ao mesmo tempo que mitiga as alterações climáticas. A restauração dos ecossistemas florestais melhora os recursos hídricos e reduz o risco de desastres naturais, enquanto o investimento em edifícios resilientes ao clima reduz emissões e protege as pessoas de fenómenos meteorológicos extremos. As soluções climáticas podem também impulsionar o crescimento económico – a transição para emissões líquidas nulas até 2050 pode aumentar o PIB global em 7% face às políticas atuais.
Os Prémios Campeões da Terra reconhecem aqueles que estão a acelerar o progresso e a inspirar a ação. Em 2025, celebra-se o 20.º aniversário destes prémios. Desde a sua
criação em 2005, o PNUMA distinguiu 122 laureados, incluindo 28 líderes mundiais, 74 indivíduos e 20 organizações.
Indivíduos, organizações e entidades governamentais podem ser nomeados nas categorias de Liderança em Políticas, Inspiração e Ação, Visão Empreendedora e Ciência e Inovação. As candidaturas estão abertas de 2 a 30 de abril de 2025 para todos os interessados. Os vencedores serão anunciados no final do ano.
Nomeie um Campeão da Terra
Se conhece uma pessoa, organização ou governo que esteja a fazer a diferença na ação climática e na proteção ambiental, pode nomeá-los para os Prémios Campeões da Terra através do seguinte link: Formulário de Nomeação. As nomeações estão abertas a todos e são uma oportunidade única para destacar quem está a liderar mudanças positivas no mundo.
Campeões da Terra 2024
Em 2024, o PNUMA distinguiu indivíduos e organizações que desenvolveram e implementaram políticas e soluções sustentáveis para restaurar terras, aumentar a resiliência à seca e combater a desertificação. Os vencedores dos Prémios Campeões da Terra 2024 foram:
● Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas do Brasil.
● Amy Bowers Cordalis, defensora dos direitos indígenas.
MENSAGEM PARA O DIA INTERNACIONAL DE SENSIBILIZAÇÃO PARA AS MINAS TERRESTRES E ASSISTÊNCIA NA AÇÃO ANTIMINAS
4 de abril de 2025
Em todo o mundo, mais de 100 milhões de pessoas estão em risco devido a minas terrestres, resíduos explosivos de guerra, engenhos explosivos improvisados.
Do Afeganistão ao Mianmar, do Sudão à Ucrânia, da Síria aos Territórios Palestinianos Ocupados, entre outros, estes dispositivos mortíferos espalham-se por comunidades rurais e urbanas, matando civis indiscriminadamente e impedindo esforços essenciais a nível humanitário e de desenvolvimento.
Mesmo depois de cessarem os combates, os vestígios da guerra permanecem, escondidos em campos, caminhos e estradas, ameaçando vidas inocentes e os meios de subsistência das comunidades.
Ano após ano, os corajosos profissionais de ação antiminas das Nações Unidas trabalham com parceiros para localizar e remover estas armas, fornecer formação e avaliações de risco e garantir que as pessoas possam viver, trabalhar e viajar em segurança. Fazem-no sob grande risco – como foi demonstrado recentemente em Gaza.
O tema deste ano para o Dia Internacional de Sensibilização para as Minas Terrestres e Assistência na Ação Antiminas — Futuros seguros começam aqui — recorda-nos o papel fundamental da ação antiminas na reconstrução de comunidades devastadas, no apoio aos sobreviventes e na promoção da paz.
Apelo a todos os Estados que ainda não o fizeram que ratifiquem e implementem plenamente a Convenção sobre a Proibição de Minas Terrestres, a Convenção sobre Munições de Fragmentação e a Convenção sobre Certas Armas Convencionais. As normas e princípios humanitários consagrados nestes tratados devem ser respeitados e preservados.
Apelo também os Estados a cumprirem os compromissos globais assumidos no recentemente adotado Pacto para o Futuro, restringindo ou abstendo-se de usar armas explosivas em áreas povoadas e apoiando todos os esforços para pôr fim à ameaça dos engenhos explosivos.
A ação antiminas salva vidas. Juntos, vamos comprometermo-nos a construir futuros seguros — começando aqui e agora.
Portugal acaba de aprovar uma lei que estabelece uma moratória sobre atividades mineiras em águas profundas, devido aos riscos que a extração de minérios com maquinaria pesada representa para os ecossistemas e para a pesca.
O país deu um passo determinante na proteção dos oceanos ao aprovar a primeira lei europeia que impõe uma moratória à mineração no fundo do mar. A medida, que proíbe a exploração de minérios em águas profundas até 2050, responde a preocupações ambientais e às reivindicações de cientistas e organizações de defesa dos oceanos.
Em letra de lei
A aprovação desta legislação coloca Portugal na vanguarda da proteção marinha, numa altura em que a comunidade internacional debate os impactos da mineração submarina nos ecossistemas.
Tiago Pitta e Cunha, presidente da Fundação Oceano Azul, destacou a importância da decisão. “Portugal é o primeiro país a aprovar em letra de lei, ou seja, a primeira lei europeia que estipula uma moratória até 2050 para a exploração mineira. Isto é relevante também porque a lei tem um grau hierárquico superior ao de uma resolução parlamentar. Ou seja, uma lei só pode ser alterada por outra lei”, afirmou em entrevista à ONU News.
A promulgação da lei pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, garante que a posição do país sobre a mineração submarina não poderá ser revertida sem um novo debate parlamentar.
“Portugal está neste momento numa crise política, vão realizar-se eleições, e tenho a certeza de que o próximo governo, seja ele qual for, não poderá mudar a posição do país relativamente à moratória para a mineração submarina, porque esta só pode ser alterada por lei do parlamento”, explicou Pitta e Cunha. Ele destacou ainda que essa estabilidade legislativa é crucial, uma vez que Portugal teve três governos nos últimos três anos.
O que acontece no mar não fica no mar
Os riscos ambientais da mineração em alto-mar estão amplamente estudados e identificados. Estudos científicos indicam que o fundo do mar desempenha um papel fundamental na regulação do clima e na absorção de carbono.
“O que acontece no fundo do mar não fica no fundo do mar, tem repercussões negativas não apenas na coluna de água, mas em todo o sistema oceânico”, alerta Pitta e Cunha.
A exploração mineral pode causar distúrbios significativos nos sedimentos marinhos, que acumulam calor e ajudam a regular o aquecimento global. Além disso, perturbar essas camadas pode libertar grandes quantidades de carbono armazenado, agravando ainda mais a crise climática.
Contaminação na pesca
A contaminação da coluna de água também representa uma preocupação para a pesca e a segurança alimentar. “Para além do distúrbio dos sedimentos do fundo e do desaparecimento da biodiversidade, há uma pluma de sedimentos que contamina a coluna de água de uma forma absolutamente gigante”, afetando 20% da proteína consumida pela população mundial.
Portugal tem-se destacado internacionalmente na defesa dos oceanos. “Portugal realizou a maior conferência sobre oceanos do planeta, a Conferência da ONU em 2022, da qual foi coanfitrião com o Quénia. Esse evento impulsionou um grande progresso na agenda multilateral do oceano”, explicou Pitta e Cunha. Segundo o presidente da Fundação Oceano Azul, nos últimos três anos tomaram-se mais decisões sobre a proteção marinha do que nos trinta anos anteriores.
Apesar desse avanço, Portugal ainda enfrenta desafios na formulação de uma política externa para os oceanos. “Portugal não tem uma verdadeira política externa para o oceano e, sem isso, não possui mecanismos para influenciar decisões de outros Estados-membros”, alertou Pitta e Cunha.
Mesmo assim, o especialista defende que a nova lei fortalece a posição do país como líder global na proteção dos oceanos, podendo incentivar outras nações a adotar medidas semelhantes.
Impacto internacional
A decisão portuguesa tem impacto nas discussões internacionais, especialmente no âmbito da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), organismo da ONU responsável pela regulamentação da mineração submarina em águas internacionais.
A ISA tem sido pressionada por governos, cientistas e organizações ambientais para impor uma moratória global à mineração no fundo do mar, mas enfrenta resistência de alguns países e empresas interessadas na exploração desses recursos.
A posição de Portugal pode fortalecer esse movimento e contribuir para um debate mais amplo sobre a necessidade de proteger os ecossistemas marinhos.
Em todo o mundo, pessoas com autismo fazem contribuições extraordinárias para as sociedades, para o progresso humano e para as vidas de muitos. Hoje, refletimos sobre estas conquistas, mas também reconhecemos os desafios significativos que persistem.
As pessoas com autismo enfrentam frequentemente isolamento, estigmas e desigualdade. Têm sido privadas de acesso à saúde e à educação – especialmente em tempos de crise – e a sua capacidade jurídica tem sido ignorada e desrespeitada. Esta discriminação contraria a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o compromisso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de não deixar ninguém para trás. Isto tem de mudar.
Os governos devem adotar legislação e políticas que garantam a igualdade e promovam a participação plena das pessoas com autismo na sociedade. Precisamos de sistemas de saúde e educação inclusivos, ambientes de trabalho acessíveis e um planeamento urbano que assegure oportunidades equitativas para que as pessoas com autismo possam prosperar.
No Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo, renovemos o compromisso de construir um mundo onde ninguém com autismo fique para trás.
Crédito: SMG International | As equipas de resgate chinesas realizam operações de resgate em Mandalay, Myanmar.
A catástrofe provocada pelos sismos de magnitude 7,7 e 6,4 que atingiram o centro de Mianmar na sexta-feira já provocou mais de 2.000 vítimas mortais, segundo a junta militar no poder, com milhares de feridos e muitos ainda desaparecidos.
O coordenador humanitário e residente da ONU em Mianmar, Marcoluigi Corsi, expressou profundo pesar pelo elevado número de vítimas e destacou que a verdadeira dimensão do desastre ainda é incerta. “Este desastre agrava ainda mais uma crise já extrema e coloca em risco a resiliência das comunidades, já fragilizadas pelo conflito, deslocamento forçado e desastres anteriores”, afirmou.
A ONU e organizações parceiras estão a mobilizar apoio de emergência para as áreas afetadas, onde milhares de pessoas dormem ao relento, temendo réplicas, e sem condições de regressar a casa. As infraestruturas de comunicação e transporte estão gravemente danificadas, dificultando as operações de resgate. As equipas internacionais, vindas de cerca de 20 países, têm chegado ao país, mas a distribuição de ajuda enfrenta obstáculos devido aos danos nos aeroportos e à instabilidade política.
A resposta humanitária da ONU inclui a distribuição de abrigo, de medicamentos, de água potável e de saneamento. O Programa Alimentar Mundial (PAM) já iniciou a entrega de alimentos de emergência a 100.000 pessoas e planeia expandir a assistência para 800.000 nos próximos meses. A Organização Mundial de Saúde (OMS) mobilizou três toneladas de provisões médicas e lançou um apelo urgente de 8 milhões de dólares para garantir cuidados médicos essenciais e prevenir surtos de doenças.
As mulheres, as crianças e os idosos estão entre os mais vulneráveis nesta crise. O Fundo de População da ONU (UNFPA) alertou para os riscos acrescidos que mulheres e raparigas enfrentam, incluindo a falta de acesso a serviços de saúde materna e o aumento da violência de género. A UNICEF também enfatizou a urgência de apoio a crianças, muitas das quais ainda estão desaparecidas ou separadas das suas famílias.
Enquanto o país enfrenta esta nova tragédia, a comunidade internacional apela à mobilização urgente de recursos para evitar uma deterioração ainda maior da crise. A ONU destacou que, além da resposta imediata, será crucial investir na resiliência das comunidades para enfrentar futuras catástrofes.
Apesar de nesta segunda-feira se ter celebrado o Eid al-Fitr, um dia de grande significado para os muçulmanos em todo o mundo, em Gaza não houve festividades. Em vez de celebração, a população viveu mais um dia marcado pelo sofrimento, pela escassez e pela violência que não cessa há mais de um ano e meio.
Desde o início da guerra, há 539 dias, o número de mortos em Gaza ultrapassa os 50 mil, segundo o Ministério da Saúde local. Entre as vítimas estão mulheres, crianças e idosos, numa tragédia humana de proporções avassaladoras. Além disso, 284 funcionários da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) perderam a vida desde outubro de 2023. Só na última semana, oito trabalhadores humanitários foram mortos. O corpo de um deles foi encontrado em Rafah, enterrado em valas rasas, junto a trabalhadores da Sociedade do Crescente Vermelho Palestiniano, uma violação flagrante da dignidade humana.
A situação humanitária é cada vez mais insustentável. Pela primeira vez desde o início do conflito, Gaza passou mais de três semanas sem registar qualquer entrada de ajuda humanitária. Antes, durante a trégua, entravam entre 500 e 600 camiões por dia. Agora, os hospitais estão sem medicamentos, os preços dos bens essenciais dispararam, a fome agrava-se e o risco de doenças aumenta exponencialmente. Ao mesmo tempo, os bombardeamentos continuam e o número de deslocados cresce diariamente. Desde 7 de outubro de 2023, cerca de 1,9 milhões de pessoas, 90% da população, foram forçadas a abandonar as suas casas, muitas delas repetidamente.
A violência tem sido particularmente devastadora para as mulheres e crianças. Entre 18 e 25 de março, mais de 800 pessoas foram mortas, das quais 174 eram mulheres e 322 eram crianças. Desde o início da guerra, estima-se que cerca de 60% das vítimas sejam mulheres e crianças, um reflexo da brutalidade do conflito. Para muitas delas, já não há sequer a ilusão de encontrar um lugar seguro. “A morte é a mesma, seja na Cidade de Gaza ou em Deir al-Balah”, desabafa uma mulher palestiniana.
A ONU tem apelado insistentemente ao respeito pelo direito humanitário internacional. Alvo frequente de ataques, as instalações da UNRWA em Gaza continuam a ser um refúgio precário para milhares de deslocados, que, mesmo em abrigos da ONU, não estão a salvo da violência. A organização continua a providenciar assistência médica, educação e apoio psicossocial, mas os recursos são cada vez mais escassos.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou recentemente a necessidade de um cessar-fogo imediato e do levantamento do bloqueio que impede a entrada de ajuda humanitária. “Isto não pode tornar-se a nova norma”, afirmou Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA. “O bombardeamento deve parar. O cerco tem de ser levantado. Todos os reféns têm de ser libertados.”
Enquanto a comunidade internacional não age, a população de Gaza continua a enfrentar um futuro cada vez mais incerto. O Eid al-Fitr, que deveria ser um momento de união e esperança, foi mais um dia de luto num conflito que parece não ter fim.
O Dia Internacional do Lixo Zero deste ano coloca foca-se na moda e nos têxteis.
E com razão. A Terra é uma vítima da moda.
A produção têxtil utiliza frequentemente milhares de produtos químicos – muitos deles prejudiciais para as pessoas e para o ambiente. Devora recursos, como terra e água.
E expele gases com efeito de estufa, inflamando a crise climática. No entanto, a produção de roupas acontece a um ritmo impressionante.
E o desperdício têxtil é enorme: a cada segundo, o equivalente a um camião do lixo cheio de roupa é incinerado ou enviado para aterros.
Precisamos de uma abordagem diferente: Que cumpra o compromisso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a produção e o consumo sustentáveis.
Há sinais de esperança.
Os consumidores estão cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade.
Há iniciativas importantes que estão a reunir empresas, associações industriais, sociedade civil, entre outros, para impulsionar a sustentabilidade em todo o setor. Incluem a Carta da Indústria da Moda para a Ação Climática – convocada pelas Nações Unidas – e o Pacto da Moda, lançado pelo Governo de França.
E o Conselho Consultivo das Nações Unidas sobre o Lixo Zero está a unir parceiros para acabar com o desperdício – incluindo o dos têxteis – e ajudar a atingir os ODS. Mas precisamos de fazer mais para garantir a mudança: Os consumidores através das suas escolhas; Os jovens e a sociedade civil através da advocacia.
Os governos através de regulamentos que promovam a sustentabilidade e empregos dignos;
E as empresas através da adoção da circularidade, da redução de resíduos e da eficiência de recursos nas suas cadeias de abastecimento.
Neste Dia Internacional do Lixo Zero, vamos todos comprometer-nos a garantir que estar na moda faz sentido para as pessoas e para o planeta.
No Deserto do Atacama, no Chile, pilhas de roupas indesejadas atingiram alturas tão grandes que, segundo relatos, eram visíveis do espaço. Na capital do Bangladesh, Daca, corantes têxteis deixaram um rio negro, segundo a imprensa internacional. E no Canal da Mancha, investigadores encontraram fibras sintéticas nos estômagos de peixes.
Estes são alguns dos sinais de uma indústria da moda que, segundo especialistas, está a deixar uma pegada ambiental cada vez mais pesada, contribuindo para a poluição, alimentando as alterações climáticas e consumindo grandes extensões de terra.
Quer alguns números? A indústria da moda é responsável por até 8% das emissões globais de gases com efeito de estufa e, a cada segundo, o equivalente a um camião do lixo cheio de roupa é incinerado ou enviado para aterros sanitários, segundo a Fundação Ellen MacArthur.
Mas há soluções
Especialistas apontam que governos, empresas e cidadãos podem adotar medidas simples para minimizar o desperdício no setor e reduzir o seu impacto ambiental.
“A boa notícia é que ainda vamos a tempo de construir um setor da moda mais circular e sustentável”, afirma Elisa Tonda, Chefe da Divisão de Recursos e Mercados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP). “Mas precisamos que todos colaborem para concretizar as mudanças sistémicas necessárias para transformar a indústria da moda numa força positiva para o ambiente.”
No dia 30 de março, o mundo assinala o Dia Internacional do Desperdício Zero, que este ano foca-se na moda e nos têxteis. Em antecipação a esta data, conversámos com Elisa Tonda sobre cinco formas de tornar o setor mais sustentável.
1. Construir uma indústria da moda mais circular
O modelo de negócio linear da indústria da moda está na origem da maior parte do desperdício que gera, explica Tonda. Um volume impressionante de roupas é produzido de forma barata e rápida, sem grande preocupação com o impacto ambiental. Estas peças são frequentemente usadas por pouco tempo e depois descartadas em aterros sanitários ou incineradas. Isto acelera as alterações climáticas, esgota os recursos naturais e contamina o solo, o mar e o ar com químicos perigosos.
A solução?
A indústria deve reduzir a produção de novas peças e adotar um modelo mais circular, prolongando a vida útil das roupas e dos materiais, explica Tonda. Para isso, os fabricantes podem conceber peças mais duráveis, recorrer a tecidos sustentáveis e garantir que as roupas são mais fáceis de reciclar.
Além disso, à medida que a indústria e os consumidores transitam de um modelo de fast fashion para produtos mais duradouros e sustentáveis, será crucial apoiar os países produtores para que não fiquem para trás nesta transformação.
Mais de 15.000 produtos químicos, alguns perigosos, são usados na fabricação têxtil, o que levou a apelos para que os governos regulassem o que entra nas peças de roupa. Foto de NurPhoto via AFP/Rehman Saad
2. Melhorar a reciclagem de tecidos
Apenas 1% das fibras usadas em novas peças de vestuário, em têxteis para casa e em calçado provém de materiais reciclados, segundo a organização não-governamental Textile Exchange.
Para aumentar esta taxa, Tonda sugere que as cidades invistam em infraestruturas para a recolha de resíduos têxteis, como contentores de roupa usada, e expandam programas de reciclagem de tecidos. Ao mesmo tempo, os governos nacionais podem implementar programas de responsabilidade alargada do produtor, tornando os fabricantes – e não os municípios e consumidores – responsáveis pelo destino final das roupas.
As marcas de vestuário, por sua vez, podem conceber peças que sejam mais fáceis de reciclar, optando por tecidos reutilizáveis e eliminando produtos químicos nocivos.
3. Eliminar químicos perigosos da roupa
Mais de 15.000 substâncias químicas são utilizadas na produção têxtil, segundo um artigo da revista Springer Nature. Algumas delas, como as usadas para tornar as roupas resistentes ao fogo ou às manchas, são tóxicas e podem permanecer no ambiente durante décadas, prejudicando a saúde humana, a vida animal e o planeta.
Estes compostos também dificultam a reciclagem segura das peças, pois podem interagir entre si de formas complexas.
Por isso, Tonda defende que os governos devem regular e promover a gestão segura destes químicos. Paralelamente, as marcas devem adotar substâncias ecológicas, seguindo os princípios da chamada “química verde e sustentável”.
O problema agrava-se com as fibras sintéticas: quando estas roupas são lavadas ou usadas, libertam microfibras de plástico carregadas de químicos nocivos. Assim, Tonda defende que os fabricantes devem eliminar substâncias tóxicas das suas peças e que é necessário recolher mais dados sobre a libertação de microfibras e melhorar os filtros para as conter.
Para reduzir o desperdício, especialistas dizem que os consumidores podem comprar em lojas vintage, reparar ou alterar roupas existentes, alugar peças para ocasiões especiais e trocar itens com amigos. Foto de Science Photo Library via AFP/Caia Image
4. Desafiar a ideia de que “o novo é sempre melhor”
A indústria da moda, impulsionada por um dos setores de marketing mais poderosos do mundo, tem incentivado os consumidores a comprar mais do que precisam. Entre 2000 e
2015, a produção de vestuário duplicou, enquanto o número médio de utilizações por peça caiu 36%, segundo a Fundação Ellen MacArthur.
Um relatório recente do UNEP e da ONU para as Alterações Climáticas apelou a profissionais da moda – incluindo marcas, editores de revistas e influenciadores – para combaterem esta tendência. O documento defende que devem promover estilos de vida mais sustentáveis, pressionar as marcas a reduzirem a produção e eliminar mensagens que incentivem o consumo excessivo.
“Podemos criar mensagens de marketing e produtos com uma longevidade emocional, para que os consumidores sintam vontade de manter e usar as peças por mais tempo”, afirma Tonda.
Os governos também podem exigir às empresas que divulguem o impacto ambiental das roupas que produzem, ajudando os consumidores a tomar decisões mais sustentáveis.
5. Comprar menos, comprar melhor
Embora a maior responsabilidade pela sustentabilidade da indústria da moda recaia sobre governos e empresas, Tonda salienta que os consumidores também têm um papel essencial.
A profissional sugere que as pessoas “comprem dentro dos seus próprios armários”, apoiem modelos circulares e optem por alternativas mais sustentáveis, como:
● Reparar ou alterar roupas existentes
● Alugar peças para ocasiões especiais
● Comprar em lojas vintage ou de segunda mão
● Trocar roupas com amigos
Se for necessário comprar novo, Tonda recomenda escolher marcas sustentáveis e materiais ecológicos, privilegiando peças de alta qualidade que durem mais tempo.
“Os consumidores têm um enorme poder e, ao escolher opções mais circulares, podem enviar um sinal claro à indústria para se tornar mais sustentável”, conclui Tonda.
O Dia Internacional do Lixo Zero
O Dia Internacional do Lixo Zero, celebrado a 30 de março, foi estabelecido pela Resolução 77/161 da Assembleia Geral da ONU e é organizado em conjunto pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-Habitat).
O objetivo é sensibilizar para a importância da gestão de resíduos e do consumo responsável na promoção do desenvolvimento sustentável. A data apela a indivíduos e organizações para adotarem uma abordagem baseada no ciclo de vida dos produtos, reduzindo o consumo de recursos e as emissões ambientais em todas as fases da produção.