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Nações Unidas adotam compromisso histórico para prevenir futuras pandemias

ONU Gana | O coordenador residente da ONU no Gana, Charles Abani, recebe a vacina contra a COVID-19 (arquivo)

Após três anos de negociações motivadas pela crise da COVID-19, os países adotaram o primeiro acordo internacional da história destinado a melhorar a prevenção, preparação e resposta a futuras pandemias. O novo compromisso representa um passo decisivo para reforçar a cooperação global, proteger vidas e evitar as consequências devastadoras de novos surtos.

Os efeitos da pandemia de COVID-19 continuam a fazer-se sentir: cerca de sete milhões de pessoas perderam a vida, os sistemas de saúde ficaram sobrecarregados e a economia mundial quase paralisou.

O caos global levou a comunidade internacional a mobilizar-se para garantir que uma catástrofe semelhante não volte a acontecer — e que o mundo esteja muito melhor preparado caso surjam novas ameaças.

A decisão histórica foi tomada durante a Assembleia Mundial da Saúde, a reunião anual da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Embora a adoção formal tenha ocorrido na terça-feira, os Estados-membros da OMS aprovaram amplamente o acordo já na segunda-feira, com 124 votos a favor, nenhuma objeção e 11 abstenções.

Em vez de uma votação renhida, marcada por incertezas de última hora — antes da conferência, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, manifestou apenas “otimismo cauteloso” —, a aprovação por consenso acabou por ter um tom de celebração.

“O acordo é uma vitória para a saúde pública, para a ciência e para o multilateralismo,” declarou Tedros. “Vai permitir-nos proteger melhor o mundo, de forma coletiva, contra futuras ameaças pandémicas. É também o reconhecimento, por parte da comunidade internacional, de que não podemos permitir que cidadãos, sociedades e economias voltem a sofrer perdas tão dramáticas como as que vivemos durante a COVID-19.”

Uma oportunidade única

A pandemia revelou desigualdades profundas entre e dentro dos países no acesso a diagnósticos, tratamentos e vacinas. Um dos principais objetivos do novo acordo é colmatar essas lacunas e assegurar que, no futuro, as respostas a pandemias sejam mais justas e eficazes.

“Agora que o acordo foi concretizado, devemos agir com a mesma urgência para implementar os seus elementos fundamentais, incluindo sistemas que garantam o acesso equitativo a produtos de saúde essenciais em situações pandémicas,” afirmou o Dr. Teodoro Herbosa, secretário da Saúde das Filipinas e presidente da atual Assembleia Mundial da Saúde, que presidiu à adoção do compromisso.

“Tal como a COVID-19 foi uma emergência única numa geração, o Acordo Pandémico da OMS representa uma oportunidade igualmente única para aplicar as lições aprendidas e proteger melhor as populações em futuras crises.”

Durante o processo de negociação, a questão da soberania nacional foi várias vezes levantada, alimentada por desinformação online que sugeria, falsamente, que a OMS procurava impor medidas aos Estados.

O próprio acordo esclarece que tal não corresponde à realidade: nenhuma das suas disposições confere à OMS autoridade para alterar ou interferir nas leis nacionais, nem para obrigar os países a adotar medidas como proibir viagens, impor vacinações ou decretar confinamentos.

OMS/ Christopher Black | Os Estados-Membros da OMS aprovaram o primeiro Acordo sobre Pandemias a 19 de maio de 2025

11 abstenções e ausência dos EUA

Onze países abstiveram-se, incluindo Polónia, Israel, Itália, Rússia, Eslováquia e Irão. Após a votação, foi dada a oportunidade de explicarem os seus votos.

A delegação polaca indicou que não podia apoiar o tratado sem uma revisão interna. A Rússia apontou preocupações com a soberania, enquanto o Irão lamentou que “as principais preocupações dos países em desenvolvimento não tenham sido atendidas” e criticou “a ausência de compromissos vinculativos quanto ao acesso equitativo a contramedidas médicas, à transferência de tecnologia e de conhecimentos, bem como o silêncio continuado sobre o impacto negativo das medidas coercivas unilaterais nos sistemas de saúde.”

Durante o segmento de alto nível que antecedeu a votação, os Estados Unidos — que iniciaram o processo de um ano para se retirarem da OMS — não participaram na deliberação.

Num vídeo dirigido à Assembleia, o secretário da Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy, criticou severamente a organização, acusando-a de querer “consolidar todas as disfunções da resposta pandémica da OMS através deste Acordo” e declarando que o país “não participará nesse processo”.

Próximas etapas

A adoção do acordo foi considerada um avanço sem precedentes, mas representa apenas o início de um processo mais amplo.

O próximo passo será lançar um processo de redação e negociação de um sistema de Acesso e Partilha de Benefícios Relacionados com Agentes Patogénicos (PABS), através de um Grupo de Trabalho Intergovernamental.

O resultado deste processo será submetido à próxima Assembleia Mundial da Saúde.

Após a adoção do anexo PABS, o acordo ficará aberto à assinatura e à ratificação pelos parlamentos nacionais. Entrará em vigor quando for ratificado por 60 países.

Entre outras disposições, o acordo prevê:

  • um novo mecanismo financeiro para a prevenção, preparação e resposta a pandemias;
  • a criação de uma Rede Global de Cadeia de Abastecimento e Logística, que visa “reforçar, facilitar e remover barreiras ao acesso equitativo, rápido, seguro e acessível a produtos de saúde essenciais durante emergências de saúde pública de preocupação internacional, incluindo pandemias, bem como para a prevenção destas”.

Mensagem para o Dia Internacional contra a Homofobia, a Bifobia e a Transfobia  

SatyaPrem, Pixabay

O SECRETÁRIO-GERAL 

 

17 de maio de 2025 

 

É uma verdade trágica que a violência e a discriminação continuam a fazer parte do quotidiano de milhões de pessoas LGBTIQ+ em todo o mundo. Enfrentam uma vaga de discurso de ódio, agressões e restrições aos seus direitos. Ao mesmo tempo, os cortes no financiamento de serviços de saúde essenciais e de organizações da sociedade civil ameaçam ter impactos ainda mais devastadores.  

O tema do Dia Internacional deste ano – “o poder das comunidades” – recorda-nos que juntos somos mais fortes. As pessoas LGBTIQ+, bem como todas aquelas que trabalham com elas na defesa dos seus direitos, têm demonstrado repetidamente o valor das comunidades no apoio mútuo e na promoção da mudança. 

O seu exemplo deve inspirar-nos a unir esforços para concretizar a visão de um mundo onde cada membro da nossa família humana possa viver em liberdade, igualdade e dignidade. Devemos agir em conjunto para revogar leis discriminatórias, combater a violência e práticas nocivas, e pôr fim à estigmatização de comunidades marginalizadas. 

As Nações Unidas são um parceiro orgulhoso destes esforços. Não descansaremos enquanto os direitos de todas as pessoas não forem uma realidade – independentemente de quem sejam ou de quem amem. 

 

*** 

Opinião Guterres: “Capacetes azuis da ONU trazem estabilidade ao caos. É um investimento para pôr fim à violência.”

Mais de duzentos soldados de paz nepaleses chegam a Juba, vindos da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (MINUSTAH). para dar apoio militar à Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS).

Os conflitos estão a intensificar-se. A confiança na cooperação internacional está a enfraquecer. O mundo não pode negligenciar os capacetes azuis e as comunidades e pessoas que dependem do seu trabalho que salva vidas.

Os capacetes azuis das Nações Unidas e os seus icónicos capacetes azuis são um dos exemplos mais poderosos do compromisso mundial com a paz.

Ao longo de oito décadas, ajudaram dezenas de países em conflito a dar os primeiros passos rumo à estabilidade, à recuperação e à paz.

Hoje, mais de 61.000 militares e polícias de manutenção da paz, provenientes de 119 países, e mais de 7.000 civis, são âncoras de segurança num mar de conflito e perigo.

Corajosamente, ajudam a proteger civis, conter a violência, garantir o fluxo da ajuda humanitária e criar espaço para a diplomacia e o diálogo em locais onde as soluções políticas estão estagnadas ou ausentes.

UN Photo/Harandane Dicko | Vista das forças de manutenção da paz das Nações Unidas da Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas no Mali (MINUSMA).
O contingente egípcio da MINUSMA, sediado em Douentza, na região de Mopti, no centro do Mali, é composto por 200 elementos de manutenção da paz que asseguram a segurança dos comboios logísticos e das operações no terreno. Esta equipa é composta principalmente por mulheres que procuram e detectam engenhos explosivos improvisados (IED) durante os comboios logísticos e as patrulhas de longo e curto alcance.

Manutenção da paz das Nações Unidas é um investimento inteligente

Na República Centro-Africana, por exemplo, após anos de guerra civil brutal, os capacetes azuis ajudaram a estabilizar o país e estão a apoiar as primeiras eleições locais em quase 40 anos.

No sul do Líbano, os capacetes azuis facilitam o acesso humanitário e, desde o cessar-fogo de novembro, realizaram operações anti minas.

No Chipre, a sua presença ajuda a reduzir tensões, melhora as relações intercomunitárias e abre espaço para o diálogo e uma solução de longo prazo.

No Sudão do Sul, os capacetes azuis estão a ajudar as comunidades a sobreviver aos choques climáticos e aos conflitos, construindo diques e estradas através de novas planícies alagadas, ligando as pessoas aos mercados e aos serviços básicos.

A manutenção da paz da ONU não é apenas uma ferramenta que salva vidas – é um investimento inteligente.

Do Camboja a Timor-Leste, de El Salvador à Costa do Marfim e à Namíbia, a manutenção da paz das Nações Unidas apoiou transições da guerra para a paz a uma fração do custo das atividades militares em todo o mundo.

A paz não é garantida. Dê uma oportunidade à paz.

Muitos desses países contribuem agora com tropas, utilizando a sua própria experiência para ajudar outros em crise a trilhar o caminho da paz. Mas a manutenção da paz está sob ameaça.

Peacekeeping

Os conflitos estão a intensificar-se. As necessidades humanitárias estão a disparar. O direito internacional está a ser pisado. A confiança na cooperação internacional está a enfraquecer. O apoio político está a diminuir. O terrorismo, o crime transnacional, as novas armas e a crise climática estão a agravar ainda mais os perigos.

Ao mesmo tempo, as pressões financeiras aumentam, com falhas recentes a impedir o pagamento de centenas de milhões de dólares devidos a países que contribuem com tropas e equipamentos.

O mundo não pode negligenciar os capacetes azuis e as comunidades e pessoas que dependem do seu trabalho que salva vidas.

A Reunião Ministerial sobre a Manutenção da Paz das Nações Unidas em Berlim, organizada pelo governo alemão nos dias 13 e 14 de maio, está focada no futuro da manutenção da paz. Contamos com os países de todo o mundo para renovarem o seu compromisso com a manutenção da paz através de novos compromissos financeiros e logísticos arrojados, para colmatar lacunas de capacidades e garantir que a manutenção da paz e os capacetes azuis estejam bem equipados para os desafios de hoje e de amanhã.

Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar para tornar as missões de paz mais focadas, móveis e reativas. Numa revisão em curso das operações de paz, estamos a modernizar as estruturas das missões através da integração de novas tecnologias, do reforço da flexibilidade e da valorização de cada contribuição.

Estamos também a reforçar a cooperação com organizações regionais, incluindo a União Africana. O Conselho de Segurança adotou uma resolução histórica que permite o apoio da ONU a missões de imposição da paz lideradas pela União Africana – reconhecendo o valor da liderança e solidariedade regionais.

Mas, por mais eficazes ou eficientes que sejam as operações, a manutenção da paz só terá sucesso se o mundo a apoiar.

A paz não é automática. Exige investimento.

Agora é o momento de dar uma oportunidade à paz e apoiar os capacetes azuis da ONU enquanto eles respondem ao chamado vital pela paz em todo o mundo.

*Artigo de opinião de António Guterres, secretário-geral da ONU

Guterres propõe reformas estruturais para cortar custos

ONU Photo/Rick Bajornas | Edifício do Secretariado na Sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Perante constrangimentos financeiros e desafios globais crescentes, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou a reformas estruturais profundas para reforçar a eficácia da organização.

Numa reunião informal com os Estados-membros em Nova Iorque, esta segunda-feira, Guterres apresentou o plano de reforma UN80, uma iniciativa lançada em março que visa cortar custos, racionalizar operações e modernizar a abordagem das Nações Unidas nas áreas da paz e segurança, desenvolvimento e direitos humanos.

“Vivemos tempos de perigo”, afirmou. “Mas também tempos de grandes oportunidades e responsabilidades. A missão das Nações Unidas é hoje mais urgente do que nunca.”

Três eixos de transformação

A iniciativa UN80 assenta em três prioridades principais: aumentar a eficiência operacional, avaliar a forma como os mandatos atribuídos pelos Estados-membros estão a ser implementados e explorar reformas estruturais em todo o sistema da ONU.

As primeiras conclusões deverão ser refletidas na proposta orçamental para 2026, em setembro. Reformas que exijam análises mais aprofundadas serão apresentadas na proposta para o orçamento de 2027.

Reduções orçamentais significativas

Segundo Guterres, as medidas previstas deverão resultar em reduções “significativas” no orçamento geral. Um dos exemplos apontados é a possível redução de 20% do pessoal nos departamentos de assuntos políticos e de operações de paz, através da eliminação de duplicações.

Este nível de redução poderá servir de referência para outros departamentos, tendo em conta as especificidades de cada um.

Entre as medidas previstas estão também a consolidação do trabalho antiterrorismo no Escritório das Nações Unidas para o Combate ao Terrorismo (UNOCT), o fim de contratos de arrendamento de edifícios e a transferência de postos de trabalho para locais onde o custo de vida é mais baixo.

“Pode haver custos imediatos com relocalizações e eventuais indemnizações por cessação de funções”, reconheceu Guterres. “Mas ao transferirmos postos para fora de cidades com custos elevados, podemos reduzir significativamente a nossa presença comercial e os custos associados.”

Mais eficiência e modernização

O primeiro eixo da reforma foca-se na eficiência e modernização, com o desenvolvimento de um novo modelo que centralize serviços, explore relocalizações e promova o uso de plataformas digitais e da automatização.

Os departamentos em Nova Iorque e Genebra já estão a rever a possibilidade de transferir equipas para locais com custos mais reduzidos, ou até extingui-las.

Avaliação dos mandatos

O segundo eixo passa por avaliar a execução dos mandatos existentes — não os próprios mandatos, que são prerrogativa exclusiva dos Estados-membros.

Uma análise preliminar identificou mais de 3.600 mandatos únicos apenas no Secretariado. Está agora em curso uma análise mais detalhada.

Guterres sublinhou que o elevado número de mandatos e a complexidade burocrática que lhes está associada representa um desafio particular para os países com menos recursos.

“Com base neste trabalho, os Estados-membros poderão querer considerar a hipótese de realizar eles próprios uma revisão dos mandatos”, sugeriu.

Reformas estruturais em curso

O terceiro eixo — dedicado à reforma estrutural — já está em andamento. Foram recebidas cerca de 50 propostas iniciais por parte de responsáveis séniores da ONU, o que Guterres classificou como um sinal de “grande ambição e criatividade”.

Entre as áreas prioritárias a rever estão a paz e segurança, o desenvolvimento, os direitos humanos, as questões humanitárias, a formação e investigação, bem como as agências especializadas.

ONU Photo/Manuel Elías | Uma visão ampla da reunião informal do plenário da Assembleia Geral que ouviu um briefing do secretário-geral sobre a Iniciativa ONU80

Crise de liquidez continua

Guterres esclareceu que a UN80 não pretende ser uma solução direta para a crise de liquidez que a organização enfrenta, embora uma maior eficiência possa ajudar a atenuar o impacto.

“A crise de liquidez tem uma causa simples: os atrasos nos pagamentos”, afirmou, recordando que a reforma estrutural não resolve o problema de fundo — o incumprimento por parte de alguns Estados-membros das suas obrigações financeiras.

Contribuições em atraso

De acordo com dados apresentados ao Comité Consultivo do Orçamento da Assembleia Geral, apenas 1,8 mil milhões de dólares foram recebidos dos 3,5 mil milhões previstos no orçamento ordinário para 2025 — um défice de cerca de 50%.

A 30 de abril, os pagamentos em atraso ascendiam a 2,4 mil milhões de dólares, com os Estados Unidos a deverem cerca de 1,5 mil milhões, seguidos pela China (597 milhões), Rússia (72 milhões), Arábia Saudita (42 milhões), México (38 milhões) e Venezuela (38 milhões). Outros Estados-membros ainda devem 137 milhões de dólares.

No caso do orçamento das operações de manutenção da paz — que segue um ciclo de julho a junho — o montante em dívida, incluindo anos anteriores, é de 2,7 mil milhões. No que toca aos Tribunais Internacionais, a dívida total era de 79 milhões a 30 de abril.

Consulta contínua

O secretário-geral garantiu que continuará a consultar os Estados-membros de forma próxima e regular sobre a crise de liquidez e as reformas necessárias, apresentando propostas concretas para análise e ação.

Os funcionários das Nações Unidas e os seus representantes estão igualmente a ser ouvidos. “Queremos que qualquer reestruturação seja feita com profissionalismo e humanidade”, reforçou.

Guterres concluiu sublinhando que a iniciativa UN80 representa uma “grande oportunidade” para fortalecer o sistema das Nações Unidas e garantir uma resposta eficaz às populações que dela dependem.

Perante a sugestão de que a ONU se deveria concentrar apenas na paz e segurança, rejeitou essa ideia: “Seria um erro abandonar o desenvolvimento e os direitos humanos. Os três pilares são essenciais.”

“Que saibamos aproveitar este momento com urgência e determinação, trabalhando juntos para construir uma ONU mais forte e eficaz — para hoje e para o futuro.”

Mensagem para o Dia Mundial da Língua Portuguesa

O SECRETÁRIO-GERAL

5 de maio de 2025 

 

Neste Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebramos uma das línguas mais faladas do planeta – uma língua global que une perto de três centenas de milhões de pessoas em todos os continentes, com projeções que apontam para 380 milhões em 2050 e cerca de 500 milhões no final do século. 

É uma língua viva e em expansão, presente no diálogo político, na diplomacia, na ciência, na cultura, na economia, nos negócios e na cooperação internacional. Desde 2019, este dia é reconhecido oficialmente pela UNESCO, refletindo o valor universal da língua portuguesa e a sua crescente projeção internacional. 

Uma língua que se estende por todos os continentes — de Lisboa a Luanda, de Brasília a Maputo, de Díli a Bissau — e que deu voz a autores como Camões, Jorge Amado, Sophia de Mello Breyner, Pepetela, Agualusa, Mia Couto, Germano Almeida, Agustina Bessa-Luís, Adélia Prado, entre muitos outros. 

A ONU News em português tem hoje a quinta maior audiência entre os serviços linguísticos das Nações Unidas, com os seus conteúdos visualizados por mais de dois milhões de pessoas e as redes sociais seguidas por cerca de 15 milhões de utilizadores em todo o mundo. 

Nas Nações Unidas, reconhecemos o papel das línguas na construção de consensos e na promoção do multilateralismo. A língua portuguesa é exemplo vivo dessa vocação: atravessa fronteiras e continentes, aproxima povos, é veículo de comunicação digital, enriquece o trabalho das Nações Unidas, que este ano celebram 80 anos. 

Saúdo os 9 Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, os seus 34 Observadores, e todas as comunidades lusófonas pelo seu contributo essencial para um mundo mais diverso e plural. 

Feliz Dia Mundial da Língua Portuguesa! 

 

Gaza isolada e sem meios para sobreviver

© WFP | A população de Gaza está a ficar sem alimentos enquanto o bloqueio de ajuda continua.

Dois meses após o início de um devastador bloqueio à ajuda humanitária, os alimentos esgotaram-se em Gaza e a população luta por acesso à água potável, enquanto os bombardeamentos persistem, alertou esta sexta-feira o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). 

A partir da Cidade de Gaza, a porta-voz do OCHA, Olga Cherevko, descreveu aos jornalistas em Genebra a gravidade da situação: “Uma amiga minha viu pessoas a arder há poucos dias, por causa das explosões – e não havia água para as salvar.” 

Desde que todos os pontos de entrada na Faixa de Gaza foram selados pelas autoridades israelitas em março, impedindo a entrada de carga, instalou-se o “pior cenário possível”, afirmou Cherevko: os mantimentos esgotam-se, enquanto o conflito se intensifica. 

“As reservas alimentares esgotaram-se quase por completo, e o acesso à água tornou-se impossível”, declarou a responsável. 

Durante a sua intervenção, Cherevko relatou ainda confrontos violentos pela água nas imediações do local onde se encontrava, com pessoas a atirar pedras e a disparar contra um camião-cisterna que tentava abandonar a zona. 

Infâncias roubadas 

A porta-voz afirmou que todos os dias vê crianças “privadas da sua infância há já muitos meses” e idosos a remexer no lixo à procura de comida ou de materiais combustíveis, perante a escassez de combustível. 

Durante uma visita, na quinta-feira, ao Hospital Patient Friends — uma unidade pediátrica alvo de vários ataques durante a guerra — ouviu relatos sobre o aumento das taxas de desnutrição. 

“Os hospitais relatam que deixaram de ter unidades de sangue disponíveis, num cenário de chegadas contínuas de feridos em massa”, sublinhou Cherevko, acrescentando que o combustível está a ser racionado com rigor. 

© UNRWA | Os casos de subnutrição entre crianças em Gaza estão a aumentar devido à falta de alimentos.

Gaza à beira do colapso 

“Gaza está à beira de esgotar todos os seus recursos”, alertou. 

Cherevko assegurou que as Nações Unidas mantêm “contacto constante” com as autoridades israelitas e continuam a apelar à reabertura das passagens fronteiriças. “Temos mecanismos para evitar desvio de ajuda e garantir que esta chega às pessoas que dela necessitam”, explicou. 

“Estamos prontos para retomar as entregas em larga escala assim que os acessos forem reabertos”, garantiu. “Mantemos o nosso compromisso com os princípios humanitários e com o alívio do sofrimento, onde quer que seja.” 

Na véspera, o coordenador humanitário da ONU e chefe do OCHA, Tom Fletcher, dirigiu um apelo direto a Israel: “Levantem este bloqueio brutal. Deixem os humanitários salvar vidas.” 

Fletcher reiterou ainda a urgência da libertação dos reféns capturados pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, salientando que “nunca deveriam ter sido retirados às suas famílias” e defendendo que “a ajuda, e as vidas civis que salva, nunca devem ser usadas como moeda de troca.” 

Horror geracional 

Segundo Cherevko, nos últimos mês e meio, cerca de 420 mil pessoas foram novamente forçadas a fugir, muitas apenas com a roupa que traziam no corpo. “Foram alvo de disparos durante o caminho, chegando a abrigos sobrelotados, enquanto tendas e outras estruturas destinadas a oferecer refúgio continuam a ser bombardeadas.” 

“Temo que, daqui a cinco, dez ou vinte anos, olhemos para os nossos filhos e netos com vergonha, sem conseguir explicar por que não fomos capazes de travar este horror”, desabafou. 

“Quantas vidas mais terão de ser ceifadas até que digamos ‘basta’?” 

Alto Comissário apela à ação internacional 

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos apelou esta sexta-feira à comunidade internacional para evitar o colapso total do apoio vital em Gaza. 

“Com o bloqueio absoluto à ajuda essencial a entrar na nona semana, é urgente uma ação concertada para travar esta catástrofe humanitária antes que atinja níveis ainda mais inimagináveis”, afirmou Volker Türk. 

Crime de guerra 

As padarias deixaram de funcionar por falta de farinha e combustível, e os poucos alimentos ainda disponíveis estão a esgotar-se rapidamente. 

“O uso da fome como método de guerra contra a população civil constitui um crime de guerra, tal como todas as formas de punição colectiva”, advertiu Türk. 

Contra ‘zona humanitária’ em Rafah 

O responsável da ONU criticou ainda o alegado plano israelita para declarar o governadorado de Rafah, no sul de Gaza, como uma nova “zona humanitária”, obrigando os palestinianos a deslocarem-se até lá para receber ajuda. 

“Um plano destes deixaria inevitavelmente grandes zonas de Gaza, e muitas pessoas que não conseguem deslocar-se — como pessoas com deficiência, doentes, feridos e mulheres que sustentam as suas famílias — sem acesso a comida”, alertou. 

© UNRWA | Os habitantes de Gaza fazem fila para obter comida em janeiro de 2025, quando esta estava mais amplamente disponível no enclave.

Ataques a abrigos 

Entretanto, Israel continua a atacar locais em Gaza onde civis procuram refúgio. Entre 18 de março e 27 de abril, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) registou 259 ataques a edifícios residenciais e 99 a tendas de pessoas deslocadas internamente. 

A maioria destes ataques provocou mortos, incluindo mulheres e crianças. Pelo menos 40 dos ataques contra tendas de deslocados ocorreram na zona de Al-Mawasi, onde o exército israelita havia indicado à população que procurasse abrigo. 

 

Artigo original por ONU News

Mensagem para o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

UNESCO/Marc James

O SECRETÁRIO-GERAL

MENSAGEM PARA O DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA

3 de maio de 2025

Num mundo atormentado por conflitos e divisões, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa destaca uma verdade fundamental:

A liberdade das pessoas depende da liberdade de imprensa.

O jornalismo livre e independente é um bem público essencial.

É a base da responsabilização, da justiça, da igualdade e dos direitos humanos.

Os jornalistas, em todo o mundo, devem poder trabalhar livremente e sem medo ou favorecimentos.

Quando os jornalistas não conseguem exercer o seu trabalho, todos perdemos.

Tragicamente, isso está a tornar-se mais difícil a cada ano que passa.

E também mais perigoso.

Os jornalistas enfrentam ataques, detenções, censura, intimidação, violência e até a morte, simplesmente por fazerem o seu trabalho.

Estamos a assistir a um aumento acentuado no número de jornalistas mortos em zonas de conflito, especialmente em Gaza.

E agora, como o tema deste ano nos recorda, a liberdade de imprensa enfrenta uma ameaça sem precedentes.

A inteligência artificial (IA) pode apoiar a liberdade de expressão ou sufocá-la.

Algoritmos tendenciosos, mentiras descaradas e o discurso de ódio são como minas terrestres na autoestrada da informação.

Informações rigorosas, verificáveis e baseadas em factos são as melhores ferramentas para as desativar.

O Pacto Digital Global, adotado no ano passado, inclui medidas concretas para reforçar a cooperação internacional na promoção da integridade da informação, da tolerância e do respeito no espaço digital.

A IA deve ser moldada de forma compatível com os direitos humanos e que coloque os factos em primeiro lugar.

 

Acordo internacional dá esperança ao alto-mar

Créditos: Unsplah Pascal van de Vendel

Esta semana, delegados de todo o mundo reúnem-se em Nova Iorque para discutir aquele que tem sido descrito como um dos mais importantes acordos ambientais das últimas décadas: o Acordo sobre a Conservação e Utilização Sustentável da Biodiversidade Marinha de Áreas para Além da Jurisdição Nacional (BBNJ, na sigla em inglês).

Adotado em 2023, o Acordo BBNJ visa prevenir uma crise iminente de biodiversidade no alto-mar. Durante as reuniões em Nova Iorque, espera-se que os apoiantes do tratado chamem dezenas de países a ratificarem o acordo, um passo essencial para a sua entrada em vigor.

“Este acordo é um salva-vidas para o oceano, que sustenta toda a vida na Terra”, afirmou a diretora da Divisão de Ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA), Susan Gardner. “Por isso é que é tão importante que o mundo avance com o processo de ratificação.”

O que é o alto-mar?

É a parte do oceano que se situa para além das fronteiras nacionais — cerca de dois terços da superfície oceânica do planeta. À primeira vista, estas extensões podem parecer desertas, mas abaixo da superfície existe uma enorme riqueza de vida marinha, desde plâncton microscópico a baleias-azuis do tamanho de autocarros. Estas zonas estão também repletas de depósitos minerais e outros recursos naturais, cuja exploração tem vindo a despertar cada vez mais o interesse de países e empresas.

O que é o Acordo BBNJ?

Trata-se de um acordo internacional que alarga várias proteções ambientais fundamentais ao alto-mar. Adotado pelos Estados-Membros das Nações Unidas em 2023, tem como objetivo proteger a fauna e flora marinhas que habitam as zonas mais remotas do oceano. O tratado foi negociado ao longo de mais de duas décadas e o secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu-o como uma “conquista histórica”.

Porque é que o acordo é importante?

O alto-mar tem-se tornado numa espécie de faroeste marítimo, onde a poluição química, a sobrepesca e outras práticas lesivas têm lugar com pouca ou nenhuma supervisão. Esta situação está a destruir ecossistemas marinhos e a causar efeitos em cadeia nas zonas costeiras. Segundo Gardner, a ação humana desregulada no alto-mar é uma das razões pelas quais cerca de 10% das espécies marinhas enfrentam o risco de extinção.

“O oceano é composto por uma constelação de ecossistemas interligados”, explicou. “A perda de biodiversidade no alto-mar pode ser devastadora para os milhares de milhões de pessoas que dependem do oceano para sobreviver.”

O oceano sustenta indústrias como o turismo, a biotecnologia, as energias limpas e a farmacêutica. Em 2023, o comércio global de bens e serviços ligados ao oceano atingiu o valor recorde de 2,2 biliões de dólares.

Crédito: AFP/Mauro Pimental | O alto mar tornou-se uma espécie de Velho Oeste marítimo, onde ocorre poluição química, pesca excessiva e uma série de outros malefícios ambientais.

O que estabelece o acordo?

O tratado cria uma base legal para conservar e gerir de forma sustentável as espécies marinhas que habitam o alto-mar, através de quatro pilares principais:

● Permite aos países designar zonas do oceano como áreas marinhas protegidas, contribuindo para limitar práticas nocivas como a sobrepesca;

● Obriga empresas que planeiem atividades comerciais de grande escala, incluindo a mineração em mar profundo, a realizar avaliações de impacto ambiental antes de iniciar operações;

● Exige que as empresas que utilizem informação genética de espécies marinhas contribuam financeiramente para um fundo destinado à proteção dos oceanos e da biodiversidade;

● Incentiva a investigação científica marinha e a partilha de estratégias de conservação entre países.

O acordo proíbe a pesca?

Não. O tratado não impõe proibições à pesca. O seu objetivo é promover uma gestão responsável da biodiversidade marinha, garantindo que os recursos do oceano possam continuar a sustentar a vida humana nas próximas gerações. Os objetivos do acordo estão alinhados com a Convenção-Quadro Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022, que estabelece metas para proteger e restaurar a natureza até 2030.

Porque é que o acordo está agora em destaque?

Apesar de ter sido adotado em junho de 2023, o Acordo BBNJ só entrará em vigor após a ratificação por parte de 60 países. No final de março, apenas 21 o tinham feito.

Esta semana, Nova Iorque acolhe a primeira de várias reuniões preparatórias com vista à implementação do acordo. Espera-se que os debates sirvam de impulso para a ratificação por parte de mais Estados-Membros.

“Não temos o luxo de esperar”, alertou Gardner. “Precisamos de agir agora para garantir que o oceano continua vibrante e resiliente — e capaz de sustentar a vida no planeta, como tem feito há milénios.”

Como está o PNUMA a apoiar o processo?

Em parceria com outras agências da ONU, o PNUMA está a ajudar os países a avançar com a ratificação e a preparar-se para aplicar o acordo. Especificamente, está a apoiar 26

Estados no acesso a financiamento através do Fundo para o Ambiente Global, tanto para a ratificação como para as primeiras ações de implementação. Esta iniciativa integra um esforço mais vasto do PNUMA para proteger, restaurar e gerir de forma sustentável os ecossistemas marinhos e costeiros.

O trabalho do PNUMA é possível graças às contribuições dos Estados-Membros para o Fundo para o Ambiente, o fundo central que permite concretizar a sua missão global. Saiba como apoiar o PNUMA e investir nas pessoas e no planeta.

Convenção-Quadro Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal

O planeta enfrenta uma perigosa perda de biodiversidade. Um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção, os solos estão a degradar-se e as fontes de água estão a esgotar-se. O Quadro Global para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em dezembro de 2022, define metas globais para travar e reverter a perda da natureza até 2030. Para combater as causas desta crise, o PNUMA trabalha com parceiros para agir em paisagens e áreas marinhas, transformar os sistemas alimentares e colmatar o défice de financiamento para a natureza.

Países concluem negociações para novo acordo pandémico global

Após mais de três anos de negociações intensas, os Estados-membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) deram um passo histórico ao finalizarem a proposta de um acordo global para melhorar a preparação e a resposta a futuras pandemias. O texto será submetido à consideração da próxima Assembleia Mundial da Saúde.

O acordo propõe reforçar a colaboração internacional, a equidade e a resiliência perante ameaças globais à saúde. Entre os principais pontos, destaca-se a adoção de uma abordagem “Uma Só Saúde” para a prevenção de pandemias, o fortalecimento dos sistemas de saúde nacionais, a criação de uma rede global de cadeia de abastecimento e logística para emergências sanitárias, e a mobilização de uma força de trabalho de saúde de resposta rápida e multidisciplinar.

O rascunho do acordo afirma a soberania dos países na definição das suas políticas de saúde pública. Especificamente, assegura que a OMS não terá autoridade para impor medidas como encerramentos de fronteiras, campanhas de vacinação obrigatórias ou confinamentos, mantendo-se como um instrumento de cooperação e coordenação internacional.

As negociações foram lideradas pelo Órgão de Negociação Intergovernamental (INB), que reuniu representantes de todas as regiões do mundo. Segundo os co-presidentes do INB, a conclusão deste acordo representa um avanço fundamental para a equidade em saúde e uma demonstração do compromisso partilhado em proteger as gerações futuras contra crises sanitárias.

Resultado das lições aprendidas com a pandemia de COVID-19, este acordo pretende criar um quadro sólido de preparação e resposta que proteja melhor as populações no futuro. Ao reforçar a solidariedade e a ação conjunta, os Estados-membros demonstraram que é possível encontrar soluções comuns para ameaças globais.

Especialista portuguesa defende regulação de IA

Universidade de Umeå/Michael Hansson | Virgínia Dignum fez parte do grupo consultivo da ONU para a inteligência artificial e alerta para os riscos sociais e políticos das tecnologias emergentes

Virgínia Dignum, especialista portuguesa em inteligência artificial, integrou o grupo consultivo da ONU para esta área e alerta para os riscos sociais e políticos associados às tecnologias emergentes. A investigadora defende que a organização deve assumir um papel central na promoção de um diálogo internacional sobre a matéria.

A inteligência artificial (IA) está a moldar o futuro a um ritmo acelerado e, para Virgínia Dignum, é urgente que o mundo una esforços para assegurar que essa transformação seja segura, justa e inclusiva.

Professora catedrática na Universidade de Umeå, na Suécia, e membro da Academia Real Sueca de Ciências da Engenharia, Dignum fez parte do Conselho Consultivo das Nações Unidas sobre IA, criado em 2023, juntamente com mais de 30 especialistas internacionais, com o objectivo de apoiar a ONU na definição de formas de governar a IA a nível global.

O papel transformador da IA

“As conclusões a que chegámos foram, basicamente, constatar ou reafirmar que a inteligência artificial tem um papel transformador tanto a nível social como empresarial, humano e ambiental”, afirmou em entrevista à ONU News.

Contudo, alertou que esse papel transformador “poderá, em princípio, comportar muitos riscos para vários atores e contextos diferentes, caso deixemos a inteligência artificial continuar desregulada, como tem estado até agora.”

A ONU como espaço de diálogo global

A especialista considera que uma governação global da IA é essencial para garantir um desenvolvimento fiável que beneficie tanto as pessoas como o planeta. Nesse sentido, defende que o papel da ONU é fundamental — não necessariamente como regulador, mas como facilitador de diálogo internacional.

“Penso que o papel mais importante das Nações Unidas é o de garantir o diálogo e o espaço para que este possa continuar entre todos os países, regiões, interesses financeiros e públicos, éticos e de desenvolvimento.”

© Unsplash/Igor Omilaev | Em 2021, a Unesco apresentou a Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial, o primeiro instrumento normativo global sobre o tema

Conclusões do relatório 

O relatório final do Conselho Consultivo da ONU sobre IA, publicado em Setembro de 2024, alerta para um “défice de governação global” neste domínio. Segundo o documento, o panorama atual é caracterizado por um conjunto fragmentado de normas e instituições, com falhas significativas e regiões inteiras excluídas dos debates internacionais sobre o tema. Esta fragmentação impede uma resposta coordenada aos desafios colocados pela tecnologia. 

O relatório sublinha ainda a disparidade tecnológica entre países, referindo que nenhuma nação em desenvolvimento acolhe clusters de computação de alto desempenho. 

Para combater estas desigualdades, recomenda-se o investimento em modelos distribuídos e federados de desenvolvimento de IA, bem como na criação de recursos partilhados que promovam a inclusão e mitiguem enviesamentos ligados à falta de diversidade linguística e cultural nos dados usados no treino dos sistemas inteligentes. 

Oportunidades transformadoras 

Apesar das preocupações, Virgínia Dignum é clara quanto ao potencial da IA para transformar positivamente diversos setores da sociedade. 

Entre as áreas com maior potencial, destaca a saúde, a educação, a gestão de infraestruturas e a resposta a catástrofes naturais. “A capacidade que tivemos para desenvolver a vacina da Covid-19 tão rapidamente deveu-se também ao uso de ferramentas de inteligência artificial, que permitiram excluir e calcular muito mais possíveis vacinas do que seria possível manualmente.” 

A IA tem também contribuído de forma significativa para a análise de exames médicos, manutenção de redes elétricas e de comunicações, podendo ser cada vez mais usada em cenários de risco, como terramotos ou inundações, onde a ação humana é limitada. 

Riscos reais 

Dignum defende, contudo, que os riscos são igualmente reais e não devem ser ignorados. “Os riscos mais tangíveis são os de exclusão, discriminação, enviesamento e injustiça nas decisões mediadas por sistemas de IA.” 

A estes juntam-se as ameaças associadas à desinformação, potenciadas pela capacidade da IA para gerar textos, imagens e vídeos falsos com elevado realismo e rapidez. 

Unsplash/Steve Johnson | Inteligência artificial pode impulsionar a desinformação

Medo pode travar desenvolvimento da IA 

Outro perigo, sublinha a especialista, é o de ficarmos paralisados pelo medo, impedindo-nos de explorar os benefícios da tecnologia. “O risco de não utilizarmos a IA por receio dos problemas que possa trazer” é, para Dignum, tão preocupante como os próprios riscos tecnológicos. 

A resposta, afirma, depende da vontade coletiva de agir. “A inteligência artificial, por si só, não vai resolver estes problemas, nem o fará se não houver consenso e interesse político, social e humano para os enfrentar.” 

Exemplos promissores 

Segundo Virgínia Dignum, já existem exemplos concretos de regiões e países a seguir caminhos promissores em matéria de regulação e desenvolvimento ético da IA. 

Destaca o caso da União Europeia, que aprovou o AI Act — uma legislação pioneira que estabelece critérios mínimos de qualidade para sistemas de alto risco. 

Refere também os avanços na Índia, que, apesar de ainda não dispor de legislação formal, tem promovido debates estratégicos sobre políticas públicas. 

Na América do Sul e em África, existem igualmente sinais encorajadores, com vários países a delinear abordagens próprias e, no caso da União Africana, a publicação de um relatório sobre oportunidades e capacidades no continente. 

“É importante que este diálogo exista, que aprendamos uns com os outros”, defende, rejeitando soluções únicas e promovendo a partilha de experiências e estratégias entre regiões. 

Conclui com uma metáfora simples, mas eficaz: “Precisamos de regulação para garantir que a inteligência artificial, tal como os automóveis que utilizamos, tem travões, cintos de segurança e airbags.” 

Artigo originalmente publicado por ONU News 

Multilateralismo: um caminho para a paz e a cooperação global

UN Photo/Manuel Elías | As Nações Unidas e o próprio sistema multilateral só são eficazes na medida em que os Estados-Membros se comprometam com o mesmo.

Assinala-se hoje, 24 de abril, o Dia Internacional do Multilateralismo e da Diplomacia para a Paz: uma data que convida à reflexão sobre a importância do diálogo, da cooperação entre países e da construção conjunta de soluções para os desafios globais. Neste contexto, vale a pena recordar o que está realmente em jogo quando falamos de multilateralismo e porque é que este continua a ser essencial para o nosso futuro coletivo.

O multilateralismo é um termo frequentemente utilizado nas Nações Unidas, mas cujo  impacto vai muito além dos corredores e salas de conferências onde ocorrem as negociações diplomáticas internacionais.

Fora da ONU, ele afeta a vida quotidiana das pessoas de diversas formas. Contribui para a redução de conflitos, o crescimento económico e a segurança nas viagens internacionais. Além disso, é essencial para enfrentar desafios globais como as alterações climáticas e a inteligência artificial não regulamentada.


O que significa realmente “multilateral”?

Originalmente, “multilateral” era um termo da geometria que significava “com muitos lados”. Agora, é usado para descrever a política e a diplomacia internacionais, nas quais diversos países com visões e objetivos distintos cooperam.

O sistema das Nações Unidas é o principal fórum multilateral onde os países se reúnem para resolver problemas globais. Através de conferências, cimeiras e encontros, estes discutem adversidades importantes.

Sala da Assembleia Geral durante a abertura da Cimeira do Futuro em setembro de 2024. A Cimeira do Futuro ofereceu uma oportunidade única de mudança e de compromisso para com novas soluções que respondam aos desafios e oportunidades de hoje e de amanhã. Foto ONU: Loey Felipe

Cooperação, compromisso e coordenação

Nos assuntos internacionais, os países colaboram (cooperação), fazem concessões (compromisso) e organizam as suas ações (coordenação) para resolver questões que nenhum país conseguiria enfrentar sozinho.

Estes três “Cês” são fundamentais para a construção de confiança e a resolução pacífica de disputas

Tornar o mundo moderno possível

Imagine que cada país desenvolvia o seu próprio sistema telefónico, de aviação, de transporte marítimo ou de correios, sem coordenação internacional. As viagens, a comunicação e o comércio globais seriam um caos. Graças ao multilateralismo, existem sistemas internacionais que tornam tudo isto possível.

O facto de existirem normas globais para uma variedade de atividades do nosso quotidiano, desde a saúde aos sistemas postais e às viagens, deve-se ao multilateralismo e à criação de várias organizações multilaterais. Muitas dessas organizações foram estabelecidas no século XIX e acabaram por integrar o sistema da ONU.

Duas organizações multilaterais anteriores à ONU:

União Internacional de Telecomunicações (UIT): Criada em 1865 para padronizar as redes telegráficas. Hoje, regula frequências de rádio, de satélites e a internet.

Organização Internacional do Trabalho (OIT): Fundada em 1919 para promover direitos laborais, incentivar oportunidades de emprego digno, reforçar a proteção social e consolidar o diálogo sobre problemas laborais.

Desenvolvimento de políticas multilaterais

Desde 1945, a ONU tem ajudado os países a trabalharem em conjunto para criar importantes acordos internacionais.

O principal órgão de formulação de políticas da ONU é a Assembleia Geral, um fórum único para discussões multilaterais sobre questões internacionais.

Cada um dos 193 Estados-membros das Nações Unidas tem um voto igual, independentemente da sua economia, população ou força militar: o voto do Mónaco tem o mesmo peso que o da China.

Foto ONU: Eleanor Roosevelt, dos Estados Unidos, segura um poster da Declaração Universal dos Direitos Humanos em francês.

Conquistas da ONU

Outra característica do multilateralismo é a definição de normas. A Assembleia Geral desempenha esse papel normativo ao criar tratados e leis internacionais sobre desarmamento, direitos humanos e proteção ambiental.

Um dos seus maiores feitos foi a redação e adoção da inovadora Declaração Universal dos Direitos Humanos, que fomentou a base para um amplo conjunto de leis de direitos humanos.

Elaborada por representantes de diferentes tipos de contextos culturais e jurídicos de todas as regiões do mundo, esta foi proclamada pela Assembleia Geral em 1948.

A Declaração estabeleceu, pela primeira vez, direitos fundamentais a serem universalmente protegidos, tendo inspirado as constituições de Estados recentemente independentes e novas democracias.

A Guerra Fria

Durante a Guerra Fria (do final da década de 1940 até ao início da década de 1990), a ONU desempenhou um papel crucial na manutenção da paz e no controlo de armamentos.

Apesar da constante ameaça de guerra nuclear, uma terceira guerra mundial foi evitada, em parte, porque a ONU providenciou um espaço para negociação e tomada de decisões.

A ONU na atualidade

Quase 80 anos depois, as Nações Unidas continuam a ser a principal organização multilateral do mundo, coordenando ações internacionais em áreas como a manutenção da paz, o desenvolvimento económico e o comércio.

Milhões de vidas foram salvas graças à assistência humanitária providenciada e coordenada pelas Nações Unidas, que fornece alimentos, cuidados de saúde e abrigo a regiões afetadas por conflitos e desastres.

O quadro multilateral expandiu-se para além de países, passando a incluir representantes da sociedade civil, da juventude e do setor empresarial, entre outros.

O futuro do multilateralismo

Os Estados-membros frequentemente enfrentam ameaças e desafios globais complexos, desde guerras civis devastadoras e conflitos transnacionais até ao crescente aumento da desigualdade económica entre e dentro dos países, bem como às ameaças existenciais representadas pela inteligência artificial não regulamentada e pelas mudanças climáticas.

Para garantir que a ONU continue adequada à sua missão como o principal fórum de multilateralismo nas próximas décadas, em 2020, os Estados-membros convidaram o secretário-geral, António Guterres, a desenvolver uma visão para uma governação global mais robusta, para benefício das gerações presentes e futuras.

As reformas políticas em áreas como a manutenção da paz, a arquitetura financeira internacional, a educação e o envolvimento da juventude na formulação de políticas foram reunidas na iniciativa A Nossa Agenda Comum, que apresentou recomendações para uma ONU renovada. Essas recomendações, por sua vez, contribuíram para o Pacto para o Futuro, um marco adotado por líderes mundiais na Cimeira do Futuro, realizada nas Nações Unidas, em Nova Iorque, em setembro de 2024.

Apelo do secretário-geral

No seu primeiro ano de mandato, António Guterres afirmou que leis e convenções não são suficientes.

O líder da ONU enfatizou: “Precisamos de um compromisso mais forte com uma ordem baseada em regras, com as Nações Unidas no seu cerne, apoiadas pelas instituições e tratados que dão vida à Carta” e apelou a um multilateralismo em rede , que envolva outras organizações internacionais e regionais, e a um multilateralismo inclusivo, capaz de resistir aos desafios e às ameaças do presente e do futuro.

Um compromisso mais urgente do que nunca

Num mundo cada vez mais interligado — e simultaneamente mais fragmentado — o multilateralismo já não é apenas uma opção diplomática: é uma necessidade coletiva. Guerras prolongadas, crises climáticas, avanços tecnológicos não regulamentados e desigualdades crescentes são desafios que nenhum país pode enfrentar sozinho. Por isso, no Dia Internacional do Multilateralismo e da Diplomacia para a Paz, a reflexão é clara: o reforço da cooperação global é essencial para garantir um futuro mais justo, seguro e sustentável para todos.

Haiti em colapso: violência, fome e um povo ignorado

© OHCHR/Marion Mondain | Vendedores rodeados de lixo vendem produtos em Porto Príncipe, Haiti.

O Haiti vive atualmente uma das piores crises humanitárias do século XXI. A capital, Porto Príncipe, encontra-se sob o domínio de grupos armados, que controlam cerca de 85% da cidade. Assassinatos, sequestros, violações e ataques a hospitais e escolas tornaram-se parte da vida quotidiana. Milhares de pessoas foram forçadas a fugir das suas casas, enquanto a insegurança alimentar atinge quase metade da população. 

A diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Amy Pope, visitou recentemente o país e descreveu o cenário como “complexo e desesperador”. Sublinhou a dificuldade de acesso às comunidades mais vulneráveis e apelou ao reforço da segurança, da estabilidade e do financiamento para as operações humanitárias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o colapso dos serviços de saúde. O aumento da violência tem impedido o acesso a cuidados básicos, e surtos de cólera reaparecem em várias regiões. Segundo dados recentes, as agressões contra profissionais de saúde aumentaram nove vezes em comparação com anos anteriores. 

A fome é outra face desta crise. Estima-se que um em cada dois haitianos vive em situação de fome aguda. Com os mercados bloqueados e os serviços públicos interrompidos, muitas comunidades enfrentam dias sem qualquer acesso a alimentos ou água potável. Os números da ONU revelam uma escalada dramática na desnutrição infantil e no número de deslocados internos. 

Para responder à gravidade da situação, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, em 2023, uma Missão Multinacional de Apoio à Segurança (MSS), liderada pelo Quénia. Esta força internacional tem como objetivo apoiar a Polícia Nacional Haitiana, restaurar a ordem e criar condições mínimas para a realização de eleições democráticas. Desde o início de 2025, centenas de agentes de países como Jamaica, Belize e Bahamas começaram a chegar ao território haitiano. 

A crise no Haiti não é apenas um desafio humanitário — é um apelo urgente à solidariedade internacional. O sofrimento do povo haitiano exige uma resposta sustentada, coordenada e centrada nos direitos humanos. A reconstrução de um Haiti seguro, estável e livre só será possível com o apoio contínuo da comunidade internacional.

Guterres elogia o Papa Francisco como símbolo de paz

ONU Photo/Rein Skullerud | Secretário-geral, António Guterres (à direita), durante uma audiência com o Papa Francisco no Vaticano, em Roma, em dezembro de 2019.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, juntou-se ao mundo no luto pela morte de Sua Santidade o Papa Francisco, que faleceu esta segunda-feira, na Cidade do Vaticano, aos 88 anos.

O pontífice – nascido Jorge Mario Bergoglio, em Buenos Aires, na Argentina – foi eleito em março de 2013. Foi o primeiro sacerdote da região das Américas a liderar a Igreja Católica a nível mundial e uma voz firme pela justiça social a nível global.

Guterres descreveu-o como um mensageiro de esperança, humildade e humanidade.

Legado e inspiração

“O Papa Francisco foi uma voz marcante pela paz, pela dignidade humana e pela justiça social. Deixa um legado de fé, serviço e compaixão por todos — especialmente pelos que vivem à margem da vida ou estão presos nos horrores do conflito”, afirmou.

Acrescentou ainda que foi “um homem de fé para todas as fés — trabalhando com pessoas de todas as crenças e origens para iluminar um caminho em frente.”

O secretário-geral afirmou que a ONU se sentiu profundamente inspirada pelo compromisso do Papa com os objetivos e ideais da organização, uma mensagem que transmitiu nos vários encontros que tiveram.

Forte mensagem ambiental

Guterres recordou que o Papa falou do ideal da organização como “uma família humana unida” durante a sua visita histórica à sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, em 2015.

“O Papa Francisco também compreendia que proteger a nossa casa comum é, no seu cerne, uma missão profundamente moral e uma responsabilidade que pertence a todos”, afirmou o secretário-geral, destacando que a sua segunda encíclica — Laudato Si’ — foi um contributo importante para a mobilização global que levou ao Acordo de Paris sobre as alterações climáticas.

“O Papa Francisco disse uma vez: ‘O futuro da humanidade não está exclusivamente nas mãos dos políticos, dos grandes líderes, das grandes empresas… [está], acima de tudo, nas mãos das pessoas que reconhecem o outro como um ‘tu’ e a si mesmas como parte de um ‘nós’”, acrescentou.

Guterres concluiu dizendo que “o nosso mundo, dividido e em discórdia, será um lugar muito melhor se seguirmos o seu exemplo de unidade e compreensão mútua nas nossas próprias ações.”

Uma voz pela mudança

Durante a sua visita à ONU em setembro de 2015, o Papa Francisco proferiu um discurso abrangente perante os líderes reunidos na Sala da Assembleia Geral para adotar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Apelou à ação global para proteger o ambiente e acabar com o sofrimento de “vastas multidões de excluídos.” Sugeriu também que as Nações Unidas poderiam ser melhoradas e que “podem ser uma garantia de um futuro seguro e feliz para as próximas gerações”.

“O quadro jurídico internacional das Nações Unidas e de todas as suas atividades, como qualquer outro esforço humano, pode ser aperfeiçoado, mas continua a ser necessário”, afirmou.

Cinco anos depois, durante a reunião virtual da Assembleia Geral da ONU, devido à pandemia da COVID-19, o Papa declarou que a crise representava também uma oportunidade para repensar o nosso modo de vida — e os sistemas que agravam as desigualdades globais.

As pessoas antes do lucro

O Papa Francisco foi um forte defensor da ONU, incluindo do seu trabalho humanitário.

Colaborou com as três agências das Nações Unidas sediadas em Roma: a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

Numa mensagem enviada à conferência da FAO, em junho de 2021, expressou preocupação com o aumento da insegurança alimentar durante a pandemia e apelou à criação de uma “economia circular” que garanta recursos para todas as pessoas e promova o uso de fontes de energia renováveis.

“Se quisermos sair da crise que nos assola, devemos desenvolver uma economia feita à medida do ser humano, não motivada principalmente pelo lucro, mas ancorada no bem comum, ética e amiga do ambiente”, afirmou.

Foto da ONU/Kim Haughton | O Papa Francisco discursa na Assembleia Geral durante sua visita à Sede das Nações Unidas em 2015.

Pôr fim aos conflitos

Mais recentemente, o Papa manifestou o seu apoio aos esforços da ONU para pôr fim à instabilidade no Sudão do Sul, onde o aumento das tensões políticas e a mobilização de forças armadas rivais em algumas regiões fez temer um regresso à guerra civil.

Na semana passada, o representante especial da ONU para o Sudão do Sul, Nicholas Haysom, informou o Conselho de Segurança de que a Missão das Nações Unidas no país (UNMISS) está envolvida em esforços diplomáticos intensivos para alcançar uma solução pacífica, em colaboração com diversos intervenientes, incluindo a União Africana, o bloco regional IGAD, o Papa Francisco, entre outros.

Mensagem sobre o Dia Internacional da Mãe Terra

O SECRETÁRIO-GERAL 

22 de abril de 2025 

 

A Mãe Terra está com febre. 

O ano passado foi o mais quente desde que há registo. 

O ponto culminante de uma década marcada por temperaturas recorde. 

Sabemos o que está a causar esta doença: as emissões de gases com efeito de estufa que a humanidade continua a lançar para a atmosfera – maioritariamente resultantes da queima de combustíveis fósseis. 

Sabemos quais são os sintomas: incêndios florestais devastadores, cheias, calor extremo. Vidas perdidas, meios de subsistência destruídos. 

E sabemos qual é a cura: reduzir rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa e acelerar a adaptação às alterações climáticas para proteger as pessoas – e a natureza – de desastres climáticos. 

Entrar no caminho da recuperação é uma vitória para todos. 

As energias renováveis são mais baratas, mais saudáveis e mais seguras do que os combustíveis fósseis. 

E investir na adaptação é essencial para construir economias resilientes e comunidades mais seguras, agora e no futuro. 

Este ano é decisivo. 

Todos os países devem apresentar novos planos nacionais de ação climática alinhados com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 ºC – fundamental para evitar o pior da catástrofe climática. 

É uma oportunidade vital para aproveitar os benefícios da energia limpa. Apelo a todos os países para que a aproveitem, com o G20 a liderar o caminho. 

Precisamos também de agir contra a poluição, travar a perda de biodiversidade e garantir o financiamento necessário para proteger o nosso planeta. 

Juntos, vamos arregaçar as mangas e fazer de 2025 o ano em que restauramos a saúde da Mãe Terra. 

Sudão em crise: dois anos de guerra e de catástrofe humanitária

Naçoes Unidas Uma mulher prepara comida em um campo para deslocados no Sudão

À medida que o Sudão entra no terceiro ano de um conflito devastador entre fações militares rivais — as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) — a crise humanitária continua a aumentar a um ritmo alarmante. O número de crianças que necessitam de ajuda humanitária urgente duplicou para 15 milhões desde 2023, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Estas crianças enfrentam uma mistura letal de violência, deslocação, fome e doença, com o acesso humanitário a deteriorar-se rapidamente. Entretanto, a atenção e o financiamento globais não conseguiram acompanhar o ritmo das necessidades crescentes.

O conflito já desalojou 12,4 milhões de pessoas, fazendo do Sudão a maior crise de deslocações do mundo. Mais de metade destes indivíduos deslocados são crianças, e quase um terço tem menos de cinco anos de idade. As crianças não são apenas vítimas de deslocações forçadas, mas também estão cada vez mais expostas a munições não detonadas, à falta de assistência médica e ao colapso dos sistemas educativos — 90% delas estão fora da escola. A guerra aumentou dez vezes o número de violações graves contra crianças, incluindo assassinatos, mutilações, raptos e violência sexual, com os ataques a expandirem-se muito para além dos pontos críticos anteriores, como o Darfur e o Kordofan do Sul.

© UNICEF/Proscovia Nakibuuka Uma mulher prepara comida num campo para deslocados no estado de Kassala, no Sudão.

A fome instalou-se em pelo menos dez locais, ameaçando alastrar à medida que o Sudão se aproxima da estação das chuvas. Durante este período, aumentam os casos de subnutrição aguda grave — a UNICEF alerta que até 462 mil crianças podem ser afetadas este ano. Os surtos de doenças já estão a aumentar; só no ano passado, registaram-se mais de 49.000 casos de cólera e 11.000 casos de dengue, afetando sobretudo crianças e mães. Estas crises de saúde são agravadas por inundações, contaminação da água e saneamento deficiente em campos de deslocados e zonas de conflito.

Apesar da situação terrível, o acesso humanitário continua severamente restringido devido à violência, às barreiras burocráticas e ao subfinanciamento. Apenas 266,6 milhões de dólares dos mil milhões de dólares necessários para a UNICEF em 2025 foram garantidos, tendo sido angariados apenas 12 milhões de dólares este ano. Os trabalhadores humanitários enfrentam riscos extremos: 90 foram mortos desde o início da guerra, e foram documentados mais de 150 ataques a unidades de saúde. Com a maioria dos hospitais em zonas de conflito a deixarem de funcionar, as mortes maternas estão a aumentar, e as mulheres e raparigas deslocadas estão em grande parte sem acesso a água potável e a cuidados médicos básicos.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, realçou que os civis estão a pagar o preço mais elevado neste conflito, que continua a devastar casas, mercados, escolas e hospitais. A violência sexual continua a grassar, e o uso da violação como arma de guerra tem sido amplamente noticiado. As infraestruturas entraram em colapso, deixando milhões de pessoas sem eletricidade ou água potável, e apenas um quarto das unidades de saúde estão operacionais nas zonas mais afetadas. Guterres enfatizou que as fações em guerra devem ser responsabilizadas pelas suas obrigações internacionais e pela Declaração de Jeddah, que inclui compromissos para proteger os civis.

© UNICEF/UNI779552/Ahmed Mohamd A 5 de abril de 2025, crianças brincam num espaço para crianças (CFS) apoiado pela UNICEF no bairro de Alhatana, Omdurman, estado de Cartum, Sudão.

A comunidade internacional está a ser instada a intervir. A diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell, apelou ao financiamento e ao acesso imediatos, alertando que as crianças do Sudão não podem esperar. As agências da ONU referem que só no ano passado prestaram assistência a mais de 15,6 milhões de pessoas. No entanto, sem um maior apoio, poderão em breve não conseguir sustentar sequer serviços mínimos, muito menos expandi-los para satisfazer as necessidades crescentes.

As raízes da guerra do Sudão estão no colapso de uma transição frágil para o governo civil após a queda do governante de longa data Omar al-Bashir. Os combates pesados, principalmente em centros urbanos como Cartum e regiões como o Darfur, devastaram as infraestruturas e os meios de subsistência. O fluxo contínuo de armas e combatentes para o país está a sustentar a guerra, com atores externos a alimentar a sua disseminação. Os líderes humanitários apelam ao fim das transferências de armas e a novos esforços diplomáticos para reativar as conversações de paz e as estruturas de governação transitória.

À medida que o conflito avança, Jens Laerke, do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, alertou que o Sudão está a tornar-se uma “crise humanitária de proporções industriais”. No entanto, apesar da sua escala, a situação recebe uma atenção internacional limitada. Sem apoio internacional imediato e substancial, milhões de sudaneses — especialmente crianças — correm o risco de morte, fome e traumas a longo prazo numa crise que não mostra sinais de melhoria.