Os traficantes de droga estão a tirar partido das novas tecnologias e da crescente instabilidade internacional para desenvolver novas drogas, diversificar rotas de tráfico e expandir-se para novos mercados. O alerta consta no World Drug Report 2026, divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), no Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas.
Segundo o relatório, o mercado mundial das drogas está a tornar-se cada vez mais complexo com a circulação de novas substâncias psicoativas: “Estamos a assistir ao aparecimento de novos tipos de drogas e algumas são mais potentes e perigosas do que nunca”, afirmou Monica Juma, diretora executiva do UNODC.
Mais de 330 milhões de consumidores
Em 2024, cerca de 331 milhões de pessoas consumiram algum tipo de droga, o equivalente a 6,2% da população mundial.
A canábis continua a ser a substância ilícita mais consumida, com 256 milhões de utilizadores. O relatório destaca ainda que o número de consumidores de canábis aumentou 40% na última década.
Segundo o UNODC, também a produção mundial de cocaína registou um forte crescimento e atingiu um novo máximo histórico em 2024, ao quadruplicar a produção nos últimos dez anos e ao registar cerca de 25 milhões de consumidores.
As restantes substâncias mais consumidas são:
Opióides: 63 milhões de consumidores;
Anfetaminas: 32 milhões de consumidores;
Ecstasy: 21 milhões de consumidores;
Expansão do mercado
A expansão do mercado também já não se limita às regiões tradicionalmente associadas ao tráfico. Novos fluxos provenientes da América do Norte, da África Ocidental e Central e do Sudoeste Asiático abastecem mercados emergentes no Médio Oriente, em África, na Europa e na região do Pacífico.
Impacto social
As consequências do consumo de drogas incluem milhões de mortes prematuras, perda de anos de vida saudável, destruição de comunidades, distorção das economias e o agravamento da violência e da insegurança.
Para o UNODC, combater o problema exige não apenas ações de repressão ao tráfico internacional, mas também políticas públicas centradas na prevenção, na saúde e na redução das desigualdades sociais.
“O tráfico ilícito de drogas não é um crime sem vítimas. Causa danos profundos a pessoas e a comunidades em todo o mundo, ao mesmo tempo que alimenta a violência, a criminalidade e a instabilidade.
A proliferação de drogas sintéticas e o crescimento das redes de tráfico online estão a agravar esta crise. Simultaneamente, sistemas de saúde frágeis, lacunas persistentes no tratamento e o acesso limitado a apoio estão a comprometer os esforços para reduzir o estigma e abordar os distúrbios relacionados com o consumo de drogas.
O tema deste ano desafia o mundo a desenvolver soluções assentes na antecipação, na inovação e na solidariedade. Tirando partido da tecnologia para travar o tráfico cibernético. Trabalhando com as forças policiais e autoridades para detetar e desmantelar redes criminosas e a produção de drogas sintéticas. E reforçando o investimento na prevenção, na redução de riscos e no tratamento.
Ao assinalarmos este Dia Internacional Contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, renovemos o nosso compromisso com as soluções ousadas, inovadoras e baseadas em evidência que este flagelo exige.”
Foto: Arquivo pessoal | A ONU News conversou com a embaixadora Ana Martinho sobre o Dia Internacional da Mulher na Diplomacia e seus conselhos para aspirantes a diplomatas.
*Artigo da autoria de Sara de Melo Rocha para a ONU News em português
Ana Martinho foi uma das primeiras mulheres a entrar na carreira diplomática em Portugal, após a Revolução dos Cravos de 1974. A ONU News conversou com a embaixadora sobre o Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia.
A portuguesa Ana Martinho, licenciou-se em Direito, em 1970. Começou por exercer funções em advocacia, numa altura em que a carreira diplomática não estava disponível para as mulheres. Em Portugal, a lei estabelecia que apenas “os cidadãos portugueses originários do sexo masculino” poderiam aceder ao serviço diplomático.
A mudança chegou com a Revolução de Abril. Em 1974, o I Governo Provisório anunciou oficialmente a abertura da carreira diplomática às mulheres. A decisão foi classificada como “uma medida de justiça e equidade, praticada pela generalidade dos países” e a referência à exigência do “sexo masculino” foi eliminada.
“Vou experimentar”
Ana Martinho relembrou à ONU News como tomou a decisão de se candidatar à carreira diplomática, após esta mudança.
“Vou experimentar, é uma porta que se abre”, confessou a embaixadora. E em agosto de 1975, integrou um dos primeiros grupos de jovens adidos diplomáticos. Estava a nascer uma nova geração dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, pela primeira vez, essa geração incluía mulheres.
Uma entrada sem resistência
A chegada das mulheres à diplomacia aconteceu num momento de reorganização do país, mas a integração interna revelou-se simples. Ana Martinho recorda que “fomos muito bem recebidas e não senti qualquer resistência nesse sentido.”
Ainda assim, a diplomata reconhece que a presença feminina introduziu novas nuances à prática profissional e sublinhou que “as diferenças refletem-se na maneira como as mulheres trabalham, numa forma de viver e de exercer diplomacia, um bocadinho diferente.”
Meio século depois, o impacto dessa evolução é visível no topo da administração pública, já que “as quatro diretoras-gerais do Ministério são mulheres”.
Uma carreira entre Lisboa e o mundo
O percurso da embaixadora atravessa várias geografias e inclui diversas funções bilaterais e multilaterais. Começou em Lisboa, seguiu para Nova Iorque, Bruxelas, Viena, Praga e Paris.
Ana Martinho passou por cargos em diferentes níveis do serviço diplomático, incluindo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) e a representação de Portugal nas Nações Unidas.
Em Lisboa, viria a alcançar um marco histórico ao tornar-se na primeira e única secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o cargo de topo da administração pública diplomática em Portugal.
Carta da ONU “é sagrada”
Na missão junto das Nações Unidas, a diplomata consolidou uma visão muito própria do sistema internacional: “Sou multilateralista e considero que o multilateralismo é a forma de resolver problemas que dizem respeito a todos.”
Ana Martinho fala sobre a ONU e a Carta das Nações Unidas como “algo sagrado”, mas reconhece também o contexto atual: “Existe, neste momento, uma polarização em que as Nações Unidas têm dificuldade em afirmar-se. Mas não é isso que deve fazer as ONU desistir, porque essa polarização vai acabar através de esforços positivos.”
Foto: ONU News/ Sara de Melo Rocha | Assembleia da República em Lisboa, Portugal.
Diplomacia portuguesa constrói pontes
Ao olhar para a evolução da política externa portuguesa das últimas décadas, Ana Martinho destaca o papel que Portugal tem desempenhado nos fóruns internacionais.
A embaixadora defende que o país beneficiou de uma característica que o distingue de muitas outras diplomacias: “A função de Portugal foi sempre positiva, por não ter uma agenda de poder.”
Esta posição permitiu a Portugal assumir frequentemente um papel de mediador, facilitador de consensos e “construtor de pontes”.
As mulheres e o futuro da diplomacia
50 anos depois de ter integrado uma das primeiras vagas para mulheres na diplomacia portuguesa, Ana Martinho olha para a evolução da carreira com naturalidade. A presença feminina em cargos de liderança (exceção quando entrou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros), faz hoje parte da realidade: “metade da população do mundo são mulheres”, relembra.
Às jovens que ponderam seguir uma carreira diplomática, deixa uma mensagem simples: “Entrem, façam o melhor que sabem e sejam vocês próprias.”
Ana Martinho continua a olhar para o futuro com a mesma curiosidade que a levou a candidatar-se à diplomacia em 1975. O seu percurso acompanhou a transformação da profissão em Portugal e ajuda a contar a história de uma mudança, que começou com a abertura de uma porta e que se traduziu numa presença cada vez mais forte das mulheres na representação do país.
Leia na íntegra aqui a entrevista da ONU News com a embaixadora Ana Martinho.
*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.
“Quase 90 por cento de todos os bens e mercadorias – desde alimentos a medicamentos e energia – chegam-nos por via marítima. São os navios e os trabalhadores marítimos que mantêm o mundo a funcionar.
Mas quando as nações entram em conflito, os trabalhadores marítimos são frequentemente apanhados no meio do fogo cruzado. Os recentes acontecimentos no Estreito de Ormuz deixaram dezenas de milhares de trabalhadores marítimos encalhados, enquanto trabalham longe de casa para manter o mundo abastecido de combustível e de alimentos.
O tema deste ano – “Transportando o comércio mundial. Assumindo os riscos.” – recorda-nos que os trabalhadores marítimos nunca devem ser vítimas ou peões de conflitos geopolíticos. Os governos e a indústria têm a responsabilidade de apoiar e protegê-los, garantindo o cumprimento das normas laborais, o respeito pelo direito internacional e assegurando que, em todo o mundo, permanecem em segurança.
Quem vive em terra firme é muitas vezes “cego para o mar”, desconhecendo a importância crucial do transporte marítimo até que surge uma crise. Neste Dia Internacional dos Trabalhadores Marítimos, honremos a sua coragem e competência e estejamos ao seu lado para enfrentar todas as tempestades.”
Refugiados sarauís no Campo de Refugiados de Smara, nos arredores de Tindouf, na Argélia. Foto ONU/ Evan Schneider
De que se trata a crise?
Há 50 anos que a Argélia acolhe refugiados Saarauís, uma realidade que constitui a segunda situação de refugiados mais duradoura do mundo. Estima-se que 173.600 pessoas, distribuídas por cinco campos, necessitem de assistência humanitária.
Os refugiados, denominados de Saarauís, vivem em cinco campos nos arredores da cidade de Tindouf, no oeste da Argélia: uma região caracterizada por temperaturas que podem exceder os 50ºC e por uma baixa taxa de pluviosidade. O deserto, agressivo, isolado e com frequentes tempestades de areia, limita os meios de subsistência e as oportunidades económicas.
Menino Sarauí. Foto: UN Photo/Evan Schneider
O Contexto da Situação
O conflito entre Marrocos e a Frente Polisário sobre a soberania do Saara Ocidente continua ativo, desde que Espanha abandonou a região em 1975.
A situação política permanece sem resolução, pelo que os campos de refugiados têm sido a única alternativa para os refugiados Saarauís. O status-quo tem impulsionado a frustração e a desilusão, especialmente entre os mais jovens.
O Impacto nas Pessoas
Os dados mais recentes das Nações Unidas e do PMA indicam que cerca de 80 a 88% da população de refugiados Saarauís nos campos de Tindouf, vive em situação de insegurança alimentar ou em risco de insegurança alimentar, o que corresponde a cerca de 140 a 153 mil pessoas.
60% são economicamente inativos e um terço não tem qualquer fonte de rendimento. A desnutrição aguda global afeta cerca de 11% das crianças entre os 6 e os 59 meses. A anemia afeta mais de metade das crianças nessa faixa etária e mulheres em idade reprodutiva.
As pessoas Saarauí estão em risco de perder a sua cultura e identidade devido à natureza prolongada deste impasse político.
Um grupo de refugiados Sarauís ergue grandes retratos durante a visita do secretário-geral Ban Ki-moon, em 2016, ao campo de refugiados de Smara, nos arredores de Tindouf, na Argélia. Foto ONU/Evan Schneider
A Resposta da ONU à Crise
O Saara Ocidental faz parte da lista das Nações Unidas de Território Não Autónomos desde 1963, após a transmissão de informações sobre o Saara Espanhol por Espanha, ao abrigo do Artigo 73.º da Carta das Nações Unidas.
A MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental) foi estabelecida pela Resolução 690 do Conselho de Segurança em 1991, de acordo com as propostas de acordo aceites em 1988, por Marrocos e pela POLISÁRIO.
O plano de acordo forneceu um período de transição para a preparação de um referendo no qual as pessoas do Saara Ocidental escolheriam entre independência ou integração com Marrocos. O referendo ainda não se realizou.
As Nações Unidas estão há muito empenhadas na busca de uma solução pacífica para o conflito no Saara Ocidental. A 6 de outubro de 2021, o secretário-geral nomeou Staffan de Mistura como o seu enviado pessoal para o Saara Ocidental, para exercer os seus bons ofícios em nome do secretário-geral.
As Agências da ONU no terreno
Para além da sua atuação tradicional nos campos de refugiados, a ACNUR (Agência da ONU para os Refugiados) tem, desde 2002, construído uma “ponte humanitária” entre o Território do Saara Ocidental com os campos de refugiados na Argélia.
O Programa Alimentar Mundial (PAM), tem apoiado os refugiados mais vulneráveis desde 1986, a pedido do Governo da Argélia, para cobrir as necessidades básicas de nutrição e alimentação.
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Também podes optar por apoiar as agências da ONU envolvidas.
Loja nas Honduras. Fotos: Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0
De que se trata a crise?
De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), pelo menos, 423.845 pessoas foram deslocadas internamente nas Honduras, como resultado da violência generalizada. Este número equivale a cerca de 4.5% da população do país.
Muitas pessoas fugiram para o estrangeiro, especialmente para o México e para os Estados Unidos. O Conselho Norueguês de Refugiadosconsidera a crise nas Honduras como uma das dez crises mais negligenciadas do mundo.
O contexto da crise
A crise de deslocamentos deve-se à combinação da violência, pobreza, crime organizado, fragilidade institucional e desastres relacionados com o clima.
Um dos maiores motores da crise é a violência proveniente de gangues como os MS-13 e Barrio 18. Estes grupos controlam bairros, extorquem negócios, recrutam crianças e ameaçam famílias. Muitas pessoas fogem após receberem ameaças de morte ou por recusarem pagamentos de extorsão.
O ACNUR descreve as Honduras como um país que enfrenta “violência, crime organizado, extorsão, violações de Direitos Humanos e violência de género”. Todos estes fatores contribuem para os deslocamentos forçados da população.
Mulheres, crianças, pessoas LGBTQI+, jornalistas e ativistas estão especialmente vulneráveis. As Honduras têm uma das maiores taxas de femicídios da América Latina e os gangues visam os mais jovens para recrutamento forçado.
Este é um dos países mais pobres da região. O ACNUR reportou níveis de pobreza de cerca de 64% em 2023, o que agrava a vulnerabilidade aos deslocamentos. As altas taxas de desemprego, as desigualdades e os serviços públicos limitados deixam muitas famílias incapazes de sobreviver em segurança, no local onde vivem.
A população enfrenta ainda outras ameaças, tais como: violência associada ao desemprego, condições de habitação inadequadas e insegurança alimentar. Isto faz com que a migração pareça a única opção.
Para além disso, as Honduras estão extremamente vulneráveis a furacões, inundações e secas. Os choques climáticos destroem casas, plantações e infraestruturas. Os furacões Eta e Iota de 2020, afetaram mais de 4 milhões de pessoas e deslocaram um grande número de residentes.
Muitos Hondurenhos não confiam na polícia nem no sistema judicial para os proteger. A corrupção, a impunidade e a presença limitada do Estado permitem que os grupos criminosos operem livremente, em algumas áreas do país.
Apesar da população denunciar ameaças, as autoridades são frequentemente impedidas ou relutantes em oferecer proteção. Isto incentiva ao deslocamento repetido e à constante migração.
As Honduras também se tornaram numa das principais fontes de caravanas de migrantes e requerentes de asilo.
Qual é o impacto?
O deslocamento forçado afeta significativamente a segurança habitacional, a continuidade da educação e a estabilidade de rendimento, enquanto que as pessoas em movimentos mistos requerem abrigo urgente e apoio às necessidades básicas.
A sociedade civil local reportou mais de 620 homicídios até meados de abril de 2026, o que reflete preocupações contínuas de segurança, quando comparado com o mesmo período de 2025.
Extorsões continuam a afetar comunidades, meios de subsistência, transportes públicos e acesso a serviços essenciais. Os relatórios também destacam a presença e influência contínua de grupos criminosos em diferentes partes do país, o que contribui para maiores riscos de proteção e potenciais deslocamentos nas comunidades afetadas.
O ACNUR antecipa um aumento no número de deslocados internos devido à persistência dos fatores que desencadeiam o deslocamento forçado, apesar dos progressos nos mecanismos de proteção legal.
Loja nas Honduras. Foto: Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0
Qual é a missão da ONU nas Honduras?
A resposta da ONU à crise de deslocamento nas Honduras é feita principalmente através do trabalho das agências como o ACNUR, a Organização Mundial de Trabalho (OIM), a Agência da ONU para a Infância (UNICEF) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O trabalho das agências foca-se nas pessoas deslocadas pela violência de gangues, extorsão, pobreza, desastres climáticos e insegurança.
O ACNUR oferece abrigo, apoio legal, assistência monetária de emergência, apoio psicossocial e serviços de proteção para pessoas deslocadas internamente (PDI), refugiados, requerentes de asilo e retornados. É dada especial atenção a crianças, mulheres, pessoas LGBTQI+ e comunidades indígenas.
A ONU apoiou fortemente a lei de 2022-2023 das Honduras sobre o deslocamento interno, que foi considerada uma reforma marcante. O ACNUR está a ajudar o Governo a implementá-la.
O PNUD, a OIM e o ACNUR trabalham juntos em soluções de longo prazo, entre elas: o fortalecimento das instituições locais, a melhoria da segurança comunitária, o apoio aos meios de subsistência e à educação, a prevenção do recrutamento de gangues e a ajuda à reintegração segura das famílias deslocadas.
Famílias afegãs afetadas pelo conflito, desastres e deslocações. Foto: OCHA/Sayed Habib Bidell
De que se trata esta crise?
O Afeganistão continua a sofrer os efeitos de décadas de conflitos, de uma crise económica asfixiante e catástrofes naturais, como os sismos devastadores que atingiram o oeste do país, em outubro de 2023.
De acordo com dados das Nações Unidas, aproximadamente 22.9 milhões de pessoas no Afeganistão precisaram de assistência humanitária em 2025, com a insegurança alimentar a afirmar-se como um dos principais fatores de necessidade.
O Afeganistão enfrenta uma crise humanitária sem precedentes, com o grave risco de colapso sistémico e de catástrofe humana. Para além disso, esta crise acarreta custos humanos inimagináveis e está a reverter muitos dos progressos alcançados nos últimos 20 anos, particularmente no que diz respeito aos direitos das mulheres e ao acesso das mesmas à educação e meios de subsistência.
Famílias Afegãs afetadas pelo conflito, desastres e deslocamentos. Foto: OCHA/Sayed Habib Bidell
Como surgiu a crise?
O país começou uma nova era com o fim do conflito armado de 20 anos entre os Talibãs e as Forças de Defesa e Segurança Nacional Afegãs, em agosto de 2021 e com a tomada de poder do país pelos Talibãs. Este novo capítulo foi caracterizado pelo rápido declínio económico, fome, risco de desnutrição, inflação motivada por choques globais nos preços de matérias-primas, aumento drástico de pobreza em zonas rurais e urbanas, quase colapso do sistema nacional de saúde, opressão nos meios de comunicação e da sociedade civil e ainda severas restrições à participação das mulheres na vida pública, na educação e no acesso ao mercado de trabalho.
A economia do Afeganistão entrou em declínio após 2021 e permanece estagnada, o que limita a capacidade dos agregados familiares para suprir com as necessidades básicas e restringe a capacidade das autoridades de fornecer serviços essenciais.
Impacto nas Pessoas e no Ambiente:
15.8 milhões de pessoas, numa população de 41.7 milhões, enfrentam uma situação de insegurança alimentar aguda;
1 em cada 3 afegãos não sabem quando será a sua próxima refeição.
Após a tomada de posse do país pelos Talibãs e da situação pós-conflito, três sismos com magnitude de 6.3 atingiram a província ocidental de Herat. Num período de apenas 8 dias, 40 mil casas ficaram danificadas – 10 mil das quais foram totalmente destruídas – o que afetou 275 mil pessoas. Milhares de famílias vivem agora em tendas e abrigos improvisados, onde estão expostas às temperaturas de inverno.
Desde que o Paquistão anunciou a repatriação dos “estrangeiros ilegais”, a 1 de novembro de 2023, mais de 450 mil afegãos retornaram ao país, dos quais mais de 85% eram mulheres e crianças. Esta população necessita de atenção e assistência imediata na fronteira, tal como de apoio a longo prazo para apoiar a reintegração.
450 mil Afegãos foram expulsos do Paquistão desde 1 de novembro de 2022- Foto: OCHA/Sayed Habib Bidell
Respostas da ONU à Crise
Entre janeiro e outubro de 2026, a ONU e as ONG parceiras prestaram assistência vital direta a 26.5 milhões de pessoas, incluindo 14.2 milhões de mulheres e meninas.
As operações de assistência continuam a enfrentar graves cortes de financiamento.
O Plano de Resposta e de Necessidades Humanitárias de 2025 necessita de aproximadamente 2.42 mil milhões de dólares, mas permanece significativamente subfinanciado, o que limita a proporção de sustentabilidade de assistência.
As agências da ONU envolvidas e a sua função
As Nações Unidas têm uma missão política no Afeganistão, a UNAMA (Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão) que apoia a paz, a estabilidade, os Direitos Humanos e a coordenação entre atores internacionais. [afghanistan.un.org]
Várias agências da ONU estão profundamente envolvidas no trabalho humanitário e de desenvolvimento, entre elas:
OCHA – Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários;
ACNUR & IOM – Agências para Refugiados, Retornados e Deslocados;
PMA – Programa Mundial de Alimentos;
UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância;
OMS – Organização Mundial de Saúde;
UNFPA – Fundo de População das Nações Unidas para a Saúde Sexual e Reprodutiva;
ONUMulheres – Agência para a Igualdade de Género;
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento;
UNMAS – Serviço de Ação contra Minas das Nações Unidas;
UNODC – Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime;
Banco Mundial.
Oficiais da ONU na Passagem de Torkham, na fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Foto: OCHA/Sayed Habib Bidell
Durante importante discurso em Londres denuncia dependência dos combustíveis fósseis e propõe sete medidas urgentes para enfrentar o aquecimento global e garantir segurança energética
O secretário-geral das Nações Unidas lançou um forte apelo à ação climática durante a London Climate Action Week, ao afirmar que o mundo enfrenta simultaneamente duas grandes crises interligadas: a crise climática e a crise energética. No seu discurso, sublinhou que ambas resultam de um mesmo fator — a dependência dos combustíveis fósseis — e exigem uma resposta comum, centrada numa transição rápida e justa para energias limpas.
António Guterres começou por alertar que os sinais da crise climática são cada vez mais evidentes e alarmantes, referindo que os últimos onze anos foram os mais quentes já registados, enfatizando ainda que os fenómenos climáticos extremos estão a tornar‑se mais frequentes e destrutivos, enquanto os cientistas avisam que o planeta se aproxima de pontos de não retorno.
O líder da ONU destacou ainda o papel de fenómenos climáticos como o El Niño, que poderá agravar ainda mais o aumento das temperaturas globais e desestabilizar os sistemas alimentares e hídricos. Segundo o diplomata português, o objetivo definido no Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C está em risco iminente de ser ultrapassado nos próximos anos.
Entre as consequências mais graves desse cenário, o secretário‑geral apontou o colapso de recifes de coral, a aceleração do degelo na Gronelândia e na Antártida Ocidental, e a ameaça de subida do nível do mar que poderá afetar milhões de pessoas. Destacou também o risco de transformação da Amazónia e de alterações profundas nos sistemas oceânicos.
Paralelamente, Guterres abordou a segunda crise, a energética, agravada por tensões geopolíticas no Médio Oriente. Esta situação provocou choques nos mercados energéticos globais comparáveis às crises do petróleo dos anos 1970, gerando impactos significativos, sobretudo nos países em desenvolvimento.
O secretário‑geral criticou o modelo económico atual, baseado em combustíveis fósseis, classificando-o como ultrapassado e insustentável. Segundo ele, este sistema não só intensifica a crise climática como aprofunda desigualdades, penalizando sobretudo os países e populações mais vulneráveis, que menos contribuíram para o problema.
Apesar do cenário preocupante, Guterres destacou que existe uma oportunidade histórica para mudar de rumo. Apontou o crescimento acelerado das energias renováveis, com custos significativamente reduzidos nas últimas décadas, tornando‑as a opção mais barata e acessível em muitas regiões do mundo.
O secretário‑geral defendeu que a segurança energética do futuro dependerá da independência face aos combustíveis fósseis, reforçando que fontes como o sol e o vento não estão sujeitas a bloqueios geopolíticos. Sublinhou ainda a necessidade de eletrificação da economia e de investimentos em infraestruturas energéticas modernas.
Neste discurso emblemático, Guterres apresentou sete medidas essenciais para enfrentar as crises, incluindo a redução imediata das emissões, o corte do metano, o fim da expansão dos combustíveis fósseis e uma transição energética justa. Destacou também a importância de regular o impacto ambiental das tecnologias emergentes, como os centros de dados ligados à inteligência artificial.
Por fim, Guterres insistiu na necessidade de financiamento internacional robusto para apoiar os países em desenvolvimento, bem como na defesa da ciência e da verdade face à desinformação. Concluiu a sua intervenção com uma mensagem de esperança, afirmando que o mundo ainda pode transformar estas duas crises numa oportunidade histórica para construir um futuro mais sustentável e justo.
No entanto, ao longo dos últimos 20 anos, o Fundo de Consolidação da Paz das Nações Unidas (PBF) tem ajudado discretamente muitos países a evitar a violência, a recuperar de conflitos e a construir futuros mais pacíficos para os seus cidadãos.
Hoje, é o principal instrumento da ONU para investir na paz, antes que as crises fiquem fora de controlo.
À medida que a ONU assinala a sua primeira Semana da Consolidação da Paz, eis o que precisas de saber sobre este Fundo inovador.
Descrito como “um instrumento financeiro de primeiro recurso”, o Fundo de Consolidação da Paz é visto como o fundo de emergência da ONU para a promoção da paz.
Mulheres no Quirguistão reforçaram a cooperação entre grupos étnicos através de um projeto de agricultura apoiado pelo PBF. Foto: ONU
Criado pelos Estados-membros da ONU em 2005, este Fundo disponibiliza financiamento rápido a países que enfrentam, ou estão a recuperar, do risco de conflito. Ao contrário dos programas de apoio tradicionais, que podem levar anos até chegar ao terreno, o Fundo foi criado com o objetivo de ser atribuído rapidamente, assim que haja uma oportunidade para promover a paz.
Os princípios orientadores do Fundo permanecem os mesmos de há duas décadas: ser rápido, flexível, acelerador da mudança e assente na liderança nacional.
Quem apoia?
O Fundo atua através de Governos, comunidades locais, organizações da sociedade civil, grupos de mulheres, redes de jovens, em parceria com mais de 20 agências da ONU.
E o seu alcance é global. Ao longo das últimas duas décadas, apoiou iniciativas de consolidação da paz em mais de 75 países e territórios, desde a Serra Leoa à Colômbia, Papua Nova Guiné, Quirguistão e Haiti.
Em última análise, os principais beneficiários são as pessoas comuns: comunidades que se reerguem após uma guerra, jovens que procuram oportunidades em vez de violência, mulheres que mediam disputas e famílias que aspiram por um futuro mais estável.
Assegurar a paz
O Fundo apoia projetos que ajudam as sociedades a afastarem-se do conflito e a aproximarem-se da paz.
Isso inclui:
Apoiar acordos de paz e transições políticas;
Unir comunidades divididas através do diálogo e da reconciliação;
Restaurar serviços essenciais e instituições locais;
Criar empregos e oportunidades económicas em comunidades afetadas pela violência;
Capacitar mulheres e jovens a assumirem papéis de liderança na consolidação da paz;
Em suma, o Fundo investe nos alicerces que tornam a paz duradoura.
Porque é importante?
A Consolidação da paz procura impedir a escalada de conflitos locais.
Ao ajudar os países a abordar tensões numa fase precoce, o Fundo tem como objetivo prevenir a violência, antes que vidas sejam perdidas e que as comunidades sejam deslocadas.
O Fundo também preenche uma lacuna única no sistema da ONU. Pode assumir riscos, agir rapidamente e apoiar iniciativas que outros doadores estão impossibilidades ou relutantes em financiar.
Como os Estados-membros da ONU têm reconhecido, a paz não consiste apenas em terminar guerras, mas sim por construir sociedades inclusivas.
Mulheres presentes num workshop no Peru dedica à promoção da paz ao nível comunitário. Foto: ONU
O Fundo alcança todas as regiões do mundo.
Na Serra Leoa, contribuiu para eleições pacíficas e fortaleceu instituições, após uma guerra civil devastadora, enquanto apoiava jovens.
Na Papua Nova Guiné, apoiou preparações para o histórico referendo de Bougainville, o que permitiu aos eleitores participassem pacificamente na decisão sobre o seu futuro político.
Na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão, ajudou comunidades a transformar disputas relacionadas com terras e recursos hídricos, em cooperação e desenvolvimento partilhado.
Na Guatemala, apoiou comunidades de mulheres Indígenas que procuravam justiça por crimes de violência sexual em contexto de guerra, o que contribuiu para uma coordenação histórica reconhecida internacionalmente
Um dos maiores investimentos do Fundos de Consolidação da Paz não é nos Governos, mas sim nas pessoas.
Ao longo dos anos, o Fundo tornou-se um dos maiores financiadores de iniciativas de consolidação da paz lideradas por mulheres no sistema das Nações Unidas, e apoiou mediadoras, negociadoras, líderes comunitárias e organizações de base que trabalham na linha da frente da prevenção de conflitos.
Desde a mediação de acordos de paz locais até ao apoio a sobreviventes que procuram justiça, milhares de mulheres têm desempenhado um papel direto na consolidação da paz através de projetos financiados pelo Fundo, por todo o mundo.
Mulheres em Kadugli no Sudão participam num fundo que salvou uma aldeia como parte do fundos que constroem riqueza e resiliência na sua comunidade. Foto: ONU/Giles Clark
O Fundo em Números
Mais de:
75 países e territórios apoiados;
2 mil milhões de dólares investidos;
1.150 projetos de consolidação da paz financiados;
120 organizações beneficiárias e mecanismos de financiamento apoiados;
A procura pelo apoio do PBF tem aumentado, não apenas devido ao aumento do número de conflitos, mas também porque cada vez mais países pretendem investir na prevenção e evitar a violência antes que ela surja.
Em resumo:
Por mais de 20 anos, o Fundo de Consolidação da Paz operou numa simples premissa: investir nas pessoas para construir a paz é mais barato, inteligente e humano que responder após o conflito eclodir.
O trabalho pode nem sempre estar nas manchetes, mas para milhões de pessoas que vivem em situações frágeis, pode significar a diferença entre regressar à violência ou ter a oportunidade de construir um futuro em paz.
“Das escolas ao trabalho social. Dos tribunais às ruas limpas. De parques nacionais, à fiscalização e aos transportes públicos, os funcionários públicos fazem o mundo girar.
No Dia das Nações Unidas para o Serviço Público, honramos as contribuições dos funcionários públicos em todo o mundo e reafirmamos o papel fundamental do setor público na construção de uma sociedade mais segura e estável.
À medida que as alterações climáticas, os conflitos e a inteligência artificial moldam o mundo, o nosso futuro depende de instituições que sejam inovadoras e capazes de se adaptar. Isto significa assegurar que as tecnologias digitais são implantadas de forma ética e eficaz, tanto para alcançar mais pessoas carenciadas, tal como para permitir uma maior participação da comunidade na tomada de decisões.
Ao trabalhar com transparência, integridade e justiça, os funcionários públicos ajudam a fortalecer a boa administração e a construir confiança entre pessoas e instituições.
Vamos apoiar as pessoas dedicadas que transformam políticas em progresso e, juntos, construiremos um futuro melhor para todos.”
“À medida que as divisões se acentuam por todo o mundo, novos e prolongados conflitos estão a forçar milhões de mulheres, crianças e homens a procurar segurança longe de casa.
Estes tempos turbulentos devem ser um momento de solidariedade renovada e de ação robusta para proteger as pessoas deslocadas por conflitos e perseguições. Isso inclui defender a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, que já salvou milhões de vidas desde a sua adoção, há 75 anos, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.
No Dia Mundial do Refugiado, apelamos a um apoio mais forte a todos os que foram forçados a fugir, bem como aos países e comunidades que os acolhem. Isto é possível através da defesa do Direito Internacional dos Refugiados. Da salvaguarda do direito de procurar asilo. Da criação de soluções que permitam aos refugiados viver em segurança e dignidade, com oportunidades reais de autossuficiência. E ao redobrar os esforços feitos em prol da paz.
Deixemo-nos inspirar pela generosidade das comunidades nos países em desenvolvimento, que acolhem cerca de três quartos dos refugiados no mundo.
Juntos, podemos proteger os direitos de todas as pessoas que foram obrigadas a fugir, agora e para as gerações futuras.”
“A violência sexual em contextos de conflito continua a constituir uma grave violação dos direitos humanos, uma afronta à dignidade humana e uma ameaça duradoura à paz e à segurança internacionais.
Mulheres, homens, meninas e rapazes continuam a ser alvo destes crimes devastadores, frequentemente utilizados como tática de guerra, de repressão e de intimidação.
As consequências são profundas e duradouras — para as vítimas e sobreviventes, para as suas famílias e para comunidades inteiras.
Este flagelo destrói vidas, agrava desigualdades, fragiliza o tecido social e compromete processos de paz e reconciliação.
Neste Dia Internacional, reafirmamos o nosso compromisso inabalável de prevenir e erradicar todas as formas de violência sexual relacionada com conflitos.
Devemos reforçar a responsabilização, garantindo que os autores destes crimes são levados à justiça.
Devemos também assegurar que os sobreviventes têm acesso a um apoio abrangente — incluindo cuidados de saúde, apoio psicossocial e assistência jurídica.
É essencial amplificar as vozes das vítimas e dos sobreviventes, colocando-os no centro das respostas e dos processos de tomada de decisão.
A comunidade internacional deve intensificar os seus esforços para enfrentar as causas profundas da violência sexual em contextos de conflito, incluindo a desigualdade de género, a impunidade e a fragilidade institucional.
Parcerias fortes, liderança política e financiamento sustentável são fundamentais para alcançar progressos reais.
Juntos, devemos agir com urgência e determinação para pôr fim a estes crimes e construir um mundo onde a dignidade e os direitos de todas as pessoas sejam plenamente respeitados.
“O discurso de ódio é o primeiro passo do caminho da desumanização, um caminho que conduz à violência, ao conflito e a crimes atrozes. É uma ferramenta de divisão que ataca grupos específicos, incluindo mulheres, migrantes, refugiados, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e muitas outras minorias, frequentemente para fins políticos.
Na nossa era digital, o discurso de ódio propaga-se mais rápido do que nunca, amplificado por plataformas desreguladas e intensificado pela Inteligência Artificial. Muitos algoritmos recompensam a indignação e a divisão e incentivam mentiras em troca de reações e promoção de violência por visualizações. A anonimidade online também torna mais difícil de responsabilizar os predadores.
Mas existem soluções práticas que podem quebrar este ciclo perigoso, desde a educação para reconhecer e rejeitar o discurso de ódio, ao apoio às vítimas de ataque por abuso, até a intervenções mais firmes por parte de governos e empresas tecnológicas. Os Estados têm a clara obrigação sob o Direito Internacional de combater o incitamento ao ódio e de promover a inclusão, o respeito pela diversidade e a solidariedade. Ao mesmo tempo, a liberdade de expressão nunca deve servir de desculpa para propagar mensagens de ódio.
Neste quinto Dia Internacional contra o Discurso de Ódio, rejeitamos o preconceito em todas as suas formas e trabalhamos juntos para construir um mundo com base nos Direitos Humanos, na dignidade e no respeito.”
A Alemanha defronta a Argentina na final do Campeonato do Mundo de 2014. Imagem: Danilo Borges/copa2014.gov.br. Licença Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil.
A História: como o calor extremo está a afetar o futebol o Mundial da FIFA de 2026.
A Taça do Mundo da FIFA de 2026, o maior torneio da história do futebol, será disputada num período de ondas de calor extremo cada vez mais intensas, causadas pelo agravamento das alterações climáticas que afetam milhares de milhões de pessoas em todo o mundo.
Espera-se que o calor extremo seja um dos temas centrais do torneio, dentro de campo, nas bancadas, nas imediações dos estádios e em todas as cidades anfitriãs.
É provável que o público reconheça os sinais visíveis de como o futebol está a mudar: um ritmo de jogo mais lento, jogadores a gerir o esforço físico, alterações de tática, substituições antecipadas, pausas para hidratação, toalhas refrescantes, coletes de gelo, medidas de proteção para os adeptos e possíveis constrangimentos nas cidades anfitriãs e zonas envolventes.
Não se trata apenas de episódios isolados de calor. As alterações climáticas estão a tornar o calor extremo mais frequente, mais intenso e mais perigoso. O principal fator é a queima contínua de carvão, de petróleo e de gás, que liberta gases de efeito estufa para a atmosfera e contribui para o aquecimento global.
O futebol está a adaptar-se, mas a adaptação por si só não é suficiente. Reduzir a poluição associadas aos combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes de energia limpa é essencial para proteger os jogadores, os adeptos e o futuro da modalidade.
Para emissoras, comentadores e jornalistas, este é um momento importante para explicar o que os telespectadores estão a observar. O tema vai muito além do futebol: está ligado a uma das questões mais relevantes do nosso tempo, com impactos na saúde, na economia e nas comunidades de todo o mundo.
Principais factos e novos dados
1. O calor fará parte do torneio
Um em cada quatro jogos deverá ser disputado sob condições de calor perigoso. A organização World Weather Attribution (WWA) estima que 26 dos 104 jogos decorrerão em condições nas quais o stress térmico representará um risco real, sendo recomendável pausas para arrefecimento. O alerta foi transmitido por especialistas à FIFPRO, a Federação Internacional de Associações de Futebolistas Profissionais.
Não se trata apenas de um dia quente comum. O estudo utiliza a Temperatura de Globo e Bolbo Húmido (WBGT), um indicador que tem em consideração o calor, a humidade, a luz solar, o vento e a radiação direta. Ao contrário da temperatura do ar isolada, a WBGT fornece uma medida mais concreta do stress térmico a que os jogadores estão sujeitos. Portanto, um determinado valor de WBGT pode representar uma sensação de calor muito maior do que aparenta e não deve ser interpretado da mesma forma que a temperatura do ar.
Por exemplo, de acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, uma temperatura do ar de 40°C e uma humidade relativa de 30% corresponde a uma WBGT de cerca de 26°C, valor que os especialistas da FIFPRO consideram limitador para o desempenho físico dos atletas.
Espera-se que estas condições afetem algumas das partidas mais importantes do torneio. Entre os jogos em risco estão a final, dois quartos-de-final e o jogo de atribuição do terceiro lugar.
Alguns jogos poderão ultrapassar o limite máximo. O mesmo estudo da WWA estima que cerca de cinco partidas poderão atingir os 28°C de WBGT, valor a partir do qual os especialistas recomendam o adiamento da partida.
O risco não está distribuído uniformemente. As cidades-anfitriãs do sul e interior dos Estados Unidos, bem como cidades no México estão, de modo geral, mais expostas. Estádios ao ar livre em cidades como Miami, Kansas City e Filadélfia registam aumentos significativos da probabilidade de atingir níveis perigosos de calor. Isto significa que, dependendo do local onde as seleções estiverem a jogar, as mesmas poderão ter trajetórias mais fáceis ou mais difíceis até à final.
Até as cidades mais frias estão em risco. Embora Toronto e Vancouver sejam considerados alguns dos locais mais frios, essas cidades também podem sofrer ondas de calor intensas.
Em 2021, uma onda de calor que atingiu a Columbia Britânica, no final de junho, levou os termómetros aos de 49,6 °C, o que causou mais de 600 mortes. Essa onda de calor não teria sido possível sem as alterações climáticas. No ano passado, Toronto registou um dos verões mais quentes da sua história, marcado por seis ondas de calor com temperaturas acima de 36 °C. Um estudo científico recente estimou que a taxa de mortalidade global associada ao calor extremo alcançou as 5 milhões de mortes por ano.
Mais dias de calor extremo nos estádios anfitriões. Quase todos os estádios anfitriões do Mundial de 2026 registam um aumento no número de dias com calor extremo, durante o período do torneio.
Não afeta apenas o futebol de elite. Os campos amadores e de formação estão mais expostos, com menos recursos para garantir sombra, drenagem, refrigeração, gestão da água ou outras medidas de adaptação.
Conclusão: Não se trata apenas de um clima quente. É a combinação de calor, humidade, sol e vento que gera um verdadeiro desgaste nos jogadores e adeptos.
O Mundial é o palco mais visível, mas o que é realmente relevante é toda a pirâmide do futebol — das finais internacionais até aos campos locais onde os jogadores se apaixonam pelo desporto pela primeira vez.
2. O calor altera o próprio jogo
O calor extremo pode tornar o jogo mais lento. Os jogadores podem pressionar menos, correr menos, recuperar mais lentamente e gerir a energia de maneira diferente.
Quase metade dos jogos do Mundial apresentam pelo menos 50% de probabilidade de enfrentar calor que prejudique o rendimento dos atletas. Por causa das alterações climáticas, 97 dos 104 jogos programados têm uma maior probabilidade de serem disputados em condições adversas para o rendimento dos jogadores.
O Mundial de Clubes de 2025 serviu de alerta. Um estudo que analisou 57 partidas e 1.070 observações de jogadores constatou que a média do WBGT ultrapassou os 28°C em 31 jogos e expôs os atletas a um risco extremo de problemas de saúde relacionados com o calor.
Durante os jogos, tanto adeptos como jogadores expressaram preocupações com as altas temperaturas. Estas condições provocaram desmaios entre jornalistas, adeptos e até de um árbitro assistente; obrigaram suplentes a permanecer nos balneários durante os jogos; levaram os jogadores a pedir substituições; e causaram atrasos no início de jogos.
O estudo constatou que o calor afetou o desempenho. Valores mais elevados de WBGT, temperatura do ar e humidade estiveram associados a menores distâncias percorridas pelos atletas, incluindo diferentes velocidades de corrida.
Isto significa que o calor afeta a tática e o desempenho. Pode afetar a pressão, as transições, o ritmo, as substituições, a recuperação, a concentração e a disposição para assumir riscos.
Conclusão: Quando o ritmo de jogo diminui, a explicação não está apenas na tática. Com o calor, os jogadores também precisam de proteger o próprio corpo. O resultado traduz-se em jogos menos intensos e, para muitos, menos emocionantes de assistir.
3. Os apoiantes também enfrentam níveis perigosos de calor
Os jogadores contam com a proteção de equipas médicas, pausas para refrescar e apoio especializado. Os adeptos, muitas vezes, não.
O perigo pode ser ainda maior fora do estádio. Zonas de adeptos, filas, rotas de transporte, estacionamentos e comemorações ao ar livre podem expor as pessoas a um calor perigoso por horas.
Estádios com ar-condicionado não resolvem o problema. Dos estádios do Mundial de 2026, apenas 3 dos 16 têm ar-condicionado. Mesmo onde o campo é arrefecido, os adeptos que se deslocam para ver o jogo e regressam a casa continuam expostos a níveis de calor e humidade extremos.
Conclusão: Apesar dos jogadores estarem no centro das atenções, os adeptos podem ser ainda mais afetados por passarem mais tempo ao sol — fora do estádio, nas filas, nas áreas reservadas aos adeptos e no caminho de volta para casa.
4. Os impactos das alterações climáticas vão muito além do calor e afetam milhares de milhões de pessoas em todo o mundo
O calor é apenas uma parte do problema climático. Os impactosmais abrangentes incluem: chuvas extremas que provocam inundações, secas e escassez de água, incêndios florestais e tempestades de grande intensidade que se vão agravando à medida que as alterações climáticas avançam. Mais informações sobre as alterações climáticas incluem:
Causas: A principal causa é a poluição resultante da queima de carvão, petróleo e gás, que retém o calor na atmosfera. A destruição das florestas e dos oceanos também contribui com a libertação de grandes quantidades de gases de efeito estufa e reduz a capacidade natural do planeta de absorver carbono da atmosfera.
Impactos humanos e económicos: são cada vez mais graves e generalizados e afetam todos os países, a saúde pública, empregos e a viabilidade das empresas, as infraestruturas essenciais, os preços e a disponibilidade de produtos básicos para o consumo doméstico, como alimentos.
Soluções: A solução passa por criar uma transição mais rápida dos combustíveis fósseis para energias limpas, como a energia solar e eólica e o fortalecimento da resiliência aos impactos climáticos para proteger as pessoas, comunidades, infraestruturas e economias.
Conteúdo relevante para emissoras, produtores e editores
Este torneio proporcionará às emissoras momentos repetidos e de grande visibilidade em que o clima e o futebol se cruzam em tempo real, através de narrativas centradas no calor extremo.
Pausas para hidratação, redução da intensidade de jogos, fadiga visível, exposição dos adeptos ao calor, alterações no ritmo dos jogos e alertas de calor na cidade anfitriã são todos pontos de partida para uma explicação sobre o assunto.
Este documento destina-se a editores de desporto, planeadores de conteúdo, produtores, equipas digitais, equipas de envolvimento do público, correspondentes especializados em clima, desportos, saúde e redações.
Esta é uma história sobre:
Bem-estar e desempenho dos jogadores — stress térmico, desidratação, recuperação, tomada de decisões e rendimento físico.
Táticas e qualidade do jogo — pressão, transições, ritmo, substituições e gestão de riscos.
Segurança dos adeptos — especialmente em torno das zonas de adeptos, filas, rotas de transporte, comemorações ao ar livre e áreas de exibição pública.
Operações dos jogos — intervalos para hidratação, infraestrutura de arrefecimento, programação, prontidão médica e possíveis decisões de adiamento.
O futuro do futebol — desde os estádios do Mundial até aos campos de formação.
Opções de envolvimento
Explicação de 60 a 90 segundos durante uma pausa para hidratação Por que a pausa é necessária; como o calor afeta o corpo e a intensidade/estilo de jogo; porque a humidade é relevante; como as alterações climáticas estão a intensificar os impactos do calor extremo e quais são as soluções; e o que o futebol está a fazer para se adaptar.
Um pacote pré-jogo para jogos com previsão de calor intenso e alto risco Utilizar os dados de temperatura da cidade anfitriã (link abaixo), imagens de arquivo sobre os impactos do calor (link abaixo), análises de desempenho dos jogadores e recomendações de segurança para os adeptos, para contextualizar as condições que as equipas e os adeptos irão enfrentar no estádio ou nas áreas circundantes.
Uma discussão conduzida por comentadores sobre os impactos no desempenho – para transmissões pré-jogo, intervalo e pós-jogo Analisar como o calor extremo pode afetar a pressão, os sprints, a tomada de decisões, a recuperação e as substituições – o que leva a um jogo mais lento e conservador – com um contexto sobre como o aumento do calor extremo, impulsionado pelo agravamento das alterações climáticas, está a tornar estas condições cada vez mais comuns.
Uma secção ou debate sobre segurança dos adeptos Prático e acessível: sombra, água, deslocamento, zonas de adeptos, espectadores idosos, crianças, trabalhadores ao ar livre e saúde pública. Isso pode resultar num jornalismo valioso de serviço ao público, incluindo em regiões fora dos EUA, Canadá e México, onde ocorrem grandes aglomerações ao ar livre para assistir aos jogos do Mundial ou outros eventos desportivos locais.
Uma visão mais ampla do “futuro do futebol” ou da “saúde do futebol” num mundo cada vez mais quente – reportagem especial Dos estádios do Mundial aos campos de formação: calor, inundações, secas e condições climáticas extremas estão a afetar toda a pirâmide do futebol.
A) Pacote de conteúdos de transmissão e apoio
A Divisão de Alterações Climáticas da ONU (UN Climate Change) pode apoiar equipas editoriais com um pacote de materiais gratuito e sem restrições de direitos.
Esse suporte disponível inclui:
Material informativo escrito: versão em tempo real do material em inglês, atualizada ao longo do torneio, neste link.
Vários especialistas em saúde, calor e clima disponíveis para entrevistas e videochamadas, ou briefings por telefone (oficiais e informativas). Informações e contactos no link acima.
Contactos:
Para entrar em contacto com porta-vozes para entrevistas: Dom Goggins na UN Climate Change (DGoggins@unfccc.int / +447410696642) ou com a equipa de imprensa pelo e-mail press@unfccc.int. Para questões técnicas relacionadas com o b-roll e/ou depoimentos em vídeo, entre em contato pelo e-mail press@unfccc.int.
B) Importância para comentadores, especialistas e escritores
Isso é algo que afeta os jogos e todos os que assistem.
Pontos de referência rápida
Sobre os intervalos para hidratação Esses intervalos fazem parte dos torneios de futebol modernos. Eles visam o bem-estar dos jogadores, como resposta às condições de calor cada vez mais intensas, nas quais o jogo é disputado. As condições de calor estão a alcançar novos recordes praticamente todos os anos, devido ao aquecimento global.
Sobre o ritmo da partida O impacto do calor é visível no jogo. Nessas condições, os jogadores podem ter que gerir o esforço de maneira diferente — ao repensar quando pressionar, quando recuperar e quando desacelerar o jogo.
Sobre as substituições Nesse tipo de calor, as substituições deixam de ser apenas táticas. Passam também a ser uma ferramenta essencial de gestão da carga física e de proteção da saúde dos jogadores.
Sobre a segurança dos adeptos Os jogadores contam com equipas médicas, intervalos para refrescar e ambientes controlados. Os adeptos fora do estádio — nas filas, nas zonas de adeptos e nos espaços públicos — podem ficar expostos ao sol por muito mais tempo.
Sobre o panorama geral O aquecimento global está a influenciar o desporto como um todo, incluindo o futebol. A ciência já se pronunciou: o aumento de fenómenos de calor extremo não afeta apenas o jogo em si, mas também representa riscos mais amplos para a saúde, meios de subsistência, segurança alimentar e economias.
Sobre as soluções O futebol está a adaptar-se com pausas para arrefecimento, protocolos contra o calor e um melhor planeamento. Mas a adaptação por si só não é suficiente. Reduzir a poluição causada pelos combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás — é o que realmente protege o futuro do futebol.
O que observar durante as partidas
Esta história pode ser contada de forma natural quando ocorrer qualquer uma das seguintes situações como:
Pausas para hidratação, uso de toalhas refrescantes, coletes de gelo ou ventiladores com nebulização;
Jogadores visivelmente cansados, com cãibras ou com menor a intensidade de pressão;
Guarda-redes e defensas a demorarem mais para reiniciar o jogo, para ajudar a controlar o ritmo;
Substituições mais cedo do que o habitual;
Equipa médica a tratar casos de stress térmico ou desidratação;
Grandes zonas de adeptos ao ar livre, filas, interrupções no transporte ou alertas de saúde pública;
Para mais informações: dgoggins@unfccc.int / +447410696642
“As pastagens naturais são vastos espaços abertos existentes em todos os climas e em todos os continentes.
Cobrem metade da superfície terrestre, fornecem alimentos e fibras essenciais e sustentam mais de dois mil milhões de pessoas. Desempenham também um papel crucial como habitats de vida selvagem e sumidouros de carbono.
No entanto, até 50% das pastagens naturais do mundo estão agora degradadas ou em risco. Estas condições ameaçam o sistema alimentar global, prejudicam os meios de subsistência locais, reduzem a biodiversidade e aumentam as emissões de gases com efeito de estufa.
Neste Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, lançamos um apelo urgente para reconhecer e respeitar as pastagens naturais do mundo.
Isto implica investir na recuperação, em especial na segurança hídrica;
Capacitar as comunidades rurais através de emprego sustentável;
E desenvolver soluções além-fronteiras através da cooperação internacional.
Este ano assinala-se também o Ano Internacional das Pastagens Naturais e dos Pastores – uma oportunidade para apoiar os pastores e os povos indígenas, cujo conhecimento tradicional pode ajudar a salvaguardar estes ecossistemas.
Para proteger o nosso futuro, temos de proteger a terra. Juntos, asseguremos que as pastagens naturais em todo o mundo prosperem para as gerações futuras”.