O ACNUR e os seus parceiros isolam casas em áreas afetadas pela guerra antes do inverno. Foto: ACNUR/Iryna Tymchyshyn
Este ano, a invasão russa em grande escala da Ucrânia atinge um marco sombrio, entrando no seu quinto ano. Desde 24 de fevereiro de 2022, os ataques contínuos contra infraestruturas energéticas continuam a dificultar as condições de vida para milhões de pessoas e, no total, estima‑se que 10,8 milhões de pessoas em toda a Ucrânia necessitarão de assistência humanitária este ano. Em 2025, as Nações Unidas verificaram 14.656 vítimas civis, incluindo 2.514 mortos e 12.142 feridos — um aumento de 31 por cento em comparação com 2024. Destas vítimas, 744 eram crianças: 92 crianças morreram e 652 ficaram feridas. O número de vítimas infantis aumentou 11 por cento em 2025 em comparação com 2024.
Agências da ONU como o OCHA (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários), o ACNUR (Agência da ONU para os Refugiados), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o PAM (Programa Alimentar Mundial), entre muitas outras, coordenam e prestam ajuda à Ucrânia.
Ataques contra casas, escolas e hospitais
Segundo novos dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), cerca de 325.000 ucranianos que regressaram ao país poderão voltar a ser deslocados nos próximos meses, sendo que mais de um terço pondera voltar a sair do país. Em janeiro de 2026, a Ucrânia acolhia 3,7 milhões de deslocados internos. Desde a escalada da guerra, mais de 4,4 milhões de pessoas regressaram do deslocamento, incluindo mais de um milhão vindas do estrangeiro. Contudo, nem todas as pessoas que voltaram à Ucrânia conseguiram regressar às suas casas, estando 372.000 ainda deslocadas dentro do país.
Por todo o território, a população enfrentou uma acentuada intensificação da intensidade e da abrangência geográfica dos ataques em 2025. Os bombardeamentos atingiram cada vez mais casas, hospitais, escolas, instalações energéticas e redes de transporte. Quase 90 por cento dos ataques e mais de metade das vítimas civis ocorreram a menos de 20 km da linha da frente, onde comunidades inteiras foram devastadas.
Um rapaz está junto a uma escola danificada num ataque, destacando os riscos contínuos que as crianças enfrentam, já que as escolas na Ucrânia continuam a ser alvo de bombardeamentos. Foto: UNOCHA/Iryna Chernysh.
Plano de resposta ao inverno para apoiar mais de 1,7 milhões de pessoas
Em 2026, 4,12 milhões de pessoas são alvo de assistência humanitária, das quais 3,58 milhões são prioritárias. Esta ligeira redução face a 2025 não reflete uma melhoria da situação, mas sim uma resposta mais focada e rigorosamente priorizada. O Plano de Resposta ao Inverno 2025–2026 visa fornecer assistência humanitária multissetorial essencial a mais de 1,7 milhões de pessoas — incluindo mais de 356.000 deslocados e cerca de 1,3 milhões de pessoas afetadas pelo conflito mas não deslocadas — durante o período de inverno, de outubro de 2025 a março de 2026.
A resposta requer 277,7 milhões de dólares em financiamento. Cerca de 31.000 pessoas alojadas em centros coletivos receberão apoio através de reparações essenciais dos sistemas de aquecimento, manutenção de pequena escala e fornecimento de combustível, com abordagens ajustadas a cada área e forte coordenação com autoridades locais e ONG nacionais.
Odesa, Ucrânia. Um funcionário das Nações Unidas avalia os danos num apartamento numa zona residencial após um ataque. Foto: UNDSS/Vasyl Papushyn
Exemplos do trabalho da ONU no terreno na Ucrânia:
O Programa Alimentar Mundial (PAM) compra aproximadamente 82 por cento dos alimentos dentro da Ucrânia e trabalha com padarias locais para fornecer pão. A agência alimentar da ONU também distribui produtos alimentares a instituições como hospitais, centros de acolhimento, centros para deslocados e orfanatos, para apoiar a disponibilização de refeições quentes.
O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH) está na Ucrãnia com a Missão de Monitorização dos Direitos Humanos desde 2014, quando o conflito começou, e ao longo da invasão em grande escala lançada pela Rússia em 2022. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos documentou mais de 50.000 civis mortos e feridos, incluindo mais de 3.000 crianças, desde o início da invasão em grande escala.
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apoiou 1,9 milhões de pessoas em toda a Ucrânia através de prestação de serviços, fornecimento de material médico, encaminhamentos e capacitação, com forte foco nas zonas da linha da frente e de difícil acesso.
A taxa de pobreza aumentou nos agregados familiares com crianças, alerta a UNICEF, que tem prestado apoio a escolas, unidades de saúde e projetos de melhoria dos sistemas de aquecimento municipal.
Entre janeiro e setembro, a ONU e os seus parceiros chegaram a mais de 4,2 milhões de pessoas — mais de dois terços da meta para 2025.
O secretário-geral da ONU abriu a 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Foto: ONU Genebra
Os direitos humanos estão sob um ataque global, alertou o secretário‑geral das Nações Unidas, descrevendo um mundo onde o primado do direito está a ser gradualmente substituído pelo primado da força. Este retrocesso não é oculto nem acidental, explica António Guterres, acontece às claras, muitas vezes liderado por quem detém maior poder. À medida que as liberdades fundamentais são empurradas para trás de forma deliberada e estratégica, milhões sofrem — primeiro através da violência, da discriminação ou da exclusão, e depois novamente perante o silêncio do mundo perante o seu sofrimento. Quando os direitos humanos colapsam, sublinhou o líder da ONU, a paz, o desenvolvimento, a coesão social e a confiança colapsam com eles.
Discursando durante a abertura da 61ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o secretário‑geral destacou como as crises atuais — da Ucrânia ao Território Palestiniano Ocupado e em regiões como o Sudão, o Sahel e a República Democrática do Congo — são sintomas desta erosão mais profunda. Condenou a impunidade generalizada e o hábito global de desculpar sofrimento em massa, tratar pessoas como moeda de troca e desrespeitar o direito internacional. Estas crises não resultam de falta de instituições ou de ferramentas; resultam de escolhas políticas feitas por líderes que se afastam das suas obrigações, lembrou o diplomata português.
A 61ª sessão do Conselho de Segurança da ONU começou a 23 de fevereiro de 2026. Foto: ONU Genebra
Guterres destacou ainda que esta crise alargada dos direitos humanos espelha e amplifica as fraturas que enfraquecem a ordem internacional: necessidades humanitárias em alta com financiamentos em queda, desigualdades a aumentarem a um ritmo vertiginoso, países atolados em dívidas e desespero, o caos climático a acelerar e a tecnologia — especialmente a inteligência artificial — usada para oprimir pessoas ou reforçar discriminações. Quem já é vulnerável é empurrado ainda mais para a margem, enquanto os defensores dos direitos humanos são silenciados quando tentam soar o alarme.
Durante a sua intervenção, Guterres deixou vários alertas. Em muitos países, o espaço cívico estreita‑se; jornalistas e ativistas são presos; ONGs são encerradas; os direitos das mulheres recuam; minorias, migrantes, refugiados, pessoas LGBTIQ+ e comunidades indígenas são alvo de ataques; e os direitos das crianças são ignorados. A desinformação envenena o debate público e alimenta violência real. Nesta ofensiva concertada, os direitos humanos são a primeira vítima e a própria democracia torna‑se frágil quando as liberdades de reunião, expressão e associação são negadas, sublinhou Guterres.
Para enfrentar este momento, o secretário‑geral apelou a uma ação urgente em três frentes. Primeiro, defender sem concessões os alicerces partilhados dos direitos humanos: a Carta da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e todos os tratados internacionais. Guterres enfatizou que os líderes não podem escolher seletivamente quais os direitos a cumprir. Todos os direitos — civis, políticos, económicos, sociais e culturais — são universais e interdependentes. Segundo, reforçar a governação global. Para o líder da ONU, reformar o Conselho de Segurança e o sistema financeiro internacional é essencial para proteger direitos, porque as instituições atuais já não refletem a realidade do mundo. Quando o Conselho fica paralisado ou quando a rivalidade geopolítica se sobrepõe à proteção de civis, a impunidade alastra e o sofrimento multiplica‑se.
Guterres sublinhou ainda como a Iniciativa ONU80 procura reforçar os vínculos entre direitos humanos, paz, desenvolvimento e ação humanitária em todo o sistema das Nações Unidas. A proposta de criar um Grupo de Direitos Humanos à escala de todo o sistema visa assegurar que os direitos humanos sejam incorporados em todas as políticas e operações da Organização. Este esforço assenta na agenda mais ampla de direitos humanos da ONU e requer vontade política dos Estados‑Membros e uma participação genuína dos países em desenvolvimento, há muito excluídos da tomada de decisões.
Por fim, o secretário‑geral exortou as nações a libertarem o poder transformador dos direitos humanos, lembrando que quando os direitos são respeitados, as sociedades tornam‑se mais justas, as economias mais equitativas e a paz mais duradoura, porque a dignidade é preservada. Avançar com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, acelerar a ação climática, fortalecer o Estado de Direito e apoiar as instituições de justiça internacional são passos essenciais. Os direitos humanos não são Ocidente ou Oriente, Norte ou Sul — são universais e inegociáveis.
No seu apelo final, pediu ao Conselho dos Direitos Humanos que não permita que a erosão dos direitos se torne o preço aceite da política. Um mundo que protege os direitos humanos, concluiu, protege‑se a si próprio.
A prioridade é apoiar 87 milhões de pessoas com necessidades vitais – objetivo é alcançar 135 milhões em 50 países em 2026. Em 2025, 98 milhões de pessoas receberam ajuda apesar de fortes cortes no financiamento e dos ataques contra trabalhadores humanitários
As Nações Unidas e os seus parceiros lançaram hoje o seu apelo humanitário global para salvar milhões de vidas onde os choques são mais severos – em contextos de guerras, desastres climáticos, terremotos, epidemias e situações de falhas de colheitas.
A prioridade imediata é salvar 87 milhões de vidas, sendo necessários 23 mil milhões de dólares, afirmou o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). O objetivo final, em 2026, é angariar um total de 33 mil milhões de dólares para apoiar 135 milhões de pessoas através de 23 operações nacionais e seis planos regionais para refugiados e migrantes.
“Este apelo identifica onde precisamos de concentrar primeiro a nossa energia coletiva: vida por vida”, afirma Tom Fletcher, Coordenador de Ajuda Humanitária da ONU. “A Perspetiva Humanitária Global 2026 assenta na reforma, na evidência e na eficiência. Estamos a transferir poder para as organizações locais, a colocar mais dinheiro diretamente nas mãos das pessoas que mais precisam e, por trás de tudo isto, estamos a renovar e a reimaginar a ação humanitária com idealismo, humildade e esperança.”
O apelo, altamente prioritário, surge após um ano em que os canais de ajuda humanitária ficaram sob enorme pressão e, nalguns casos, colapsaram devido a cortes brutais no financiamento. Em 2025, o financiamento do apelo – 12 mil milhões de dólares – foi o mais baixo da última década, e os trabalhadores humanitários conseguiram alcançar menos 25 milhões de pessoas do que em 2024. As consequências foram imediatas: aumento da fome, sistemas de saúde sob enorme pressão, queda no acesso à educação, atrasos no desminagem e famílias confrontadas com múltiplos impactos: sem abrigo, sem apoio financeiro, sem serviços de proteção.
Entre esta devastação, civis enfrentaram violações flagrantes do direito internacional humanitário e mais de 320 trabalhadores humanitários foram mortos, a grande maioria membros de equipas locais.
Em 2026, o maior plano de resposta individual será para o Território Palestiniano Ocupado, onde são necessários 4,1 mil milhões de dólares para apoiar 3 milhões de pessoas que sofreram níveis chocantes de violência e destruição. No Sudão, a maior crise de deslocamento do mundo, são necessários 2,9 mil milhões para 20 milhões de pessoas. O maior plano regional é para a Síria, no valor de 2,8 mil milhões de dólares, destinado a 8,6 milhões de pessoas.
À medida que as organizações humanitárias concentram recursos onde as crises são mais graves, estão também a reduzir duplicações e a apoiar economias locais, comprando localmente e garantindo que cada dólar trabalha para as pessoas que servem.
A ONU apresentará agora o apelo aos Estados‑membros e solicitará o seu apoio. Os países serão também instados a usar a sua influência para reforçar a proteção de civis, incluindo trabalhadores humanitários, em conflitos armados, responsabilizando os perpetradores – e aqueles que os armam.
“Depois, comunicarei os montantes comprometidos e responderei a uma pergunta simples: os governos estiveram à altura?”, disse Fletcher. “A resposta determinará quem vive e quem fica para trás.”
Nota adicionais:
A Perspetiva Humanitária Global 2026 está disponível online na plataforma Humanitarian Action, que integra os dados da GHO e informação operacional por país e continuará a ser atualizada:
Criança no Ruanda estudando usando rádio, devido à pandemia
Histórias reunidas pela ONU News ao redor do mundo revelam que este meio de comunicação garante segurança em áreas de conflito, salva vidas em contextos de catástrofes e promove ainclusão de pessoas com deficiência visual; especialistas falam de transformações ligadas à inteligência artificial e à exploração espacial.
Mesmo com o mundo imerso em écrans cada vez mais brilhantes e fluxos digitais intermináveis, as ondas de rádio continuam presentes, moldando de forma silenciosa, mas poderosa, a maneira como a humanidade se conecta.
Estas viajam além dos limites da visão, às vezes avançando com as fronteiras tecnológicas de ponta e, outras vezes, permanecendo sozinhas como um recurso vital nos locais onde outras formas de tecnologia falham.
Fonte sólida de informação
Todos os anos, o dia 13 de fevereiro marca o Dia Mundial da Rádio, uma celebração que coincide com o momento em que a Rádio das Nações Unidas ganhou vida, há 80 anos.
As equipas da ONU News reuniram histórias de todos os cantos do mundo que revelam uma verdade simples: em locais arrasados por conflitos, catástrofes ou profundas divisões digitais, a rádio continua sendo uma fonte sólida de informação.
Este papel duradouro está profundamente enraizado na própria história das Nações Unidas. Há oito décadas, quando o mundo emergia da devastação da Segunda Guerra Mundial, a Rádio ONU começou suas operações em estúdios modestos na sede das Nações Unidas em Nova Iorque.
Da Rádio ONU à ONU News
A audiência podia ouvir boletins de notícias e programas especiais em cinco línguas, além de escutar sessões completas do Conselho de Segurança e de outros órgãos importantes.
Membros da Divisão de Rádio da ONU, gravando uma transmissão especial para as redes de rádio dos países latino-americanos, na sede da ONU em Nova Iorque.
Ao longo de décadas, vozes icónicas como Edward R. Murrow, Marlon Brando, Audrey Hepburn e Frank Sinatra ajudaram a narrar reportagens globais. Os ouvintes também acompanhavam na Rádio ONU discursos históricos de líderes como John F. Kennedy, Mikhail Gorbachev, Nelson Mandela, Fidel Castro e o Papa João Paulo II.
Esse legado evoluiu para o que é hoje a ONU News, uma plataforma multimédia que publica em 10 línguas e serve audiências em mais de 170 países. A plataforma traz notícias de última hora, entrevistas, coberturas ao vivo e reportagens aprofundadas sobre os desafios mais urgentes do mundo e a busca de soluções.
Apesar das transformações geradas pelas novas tecnologias, o princípio central da ONU News permanece o mesmo: fornecer informação confiável às pessoas que mais precisam.
Reconstruir a radiodifusão em Gaza
Em nenhum lugar esta missão é mais urgente do que em zonas de conflito. Na Faixa de Gaza, antes de 7 de outubro de 2023, um total de 23 estações de rádio operavam no território. Após a guerra desencadeada pelos ataques do Hamas a Israel, todas as estações foram destruídas.
No entanto, Rami Al-Sharafi, diretor da Zaman FM, trabalha com determinação para reconstruir as transmissões entre os escombros do seu estúdio.
UN News O jornalista Rami Al-Sharfi é o diretor de rádio da estação ZMN 90.60 FM, em Gaza
Em declarações à ONU News Árabe, foi direto: “A Zaman FM retomou as transmissões e somos atualmente a única estação de rádio a transmitir frequências FM de dentro da Faixa de Gaza após esta destruição maciça”.
Rami afirmou que a necessidade por notícias é profunda, particularmente num momento em que Gaza enfrenta a propagação de doenças, o colapso das estruturas educativas e a interrupção dos serviços públicos.
Uma ferramenta crucial para a manutenção da paz
Em outras zonas de conflito, a rádio serve como uma presença estabilizadora. Na República Democrática do Congo, RD Congo, a Rádio Okapi tornou-se uma voz confiável desde a sua criação em 2002, como parte da Missão de Paz da ONU (MONUSCO).
Transmitindo em francês e em quatro línguas nacionais, a estação oferece informações credíveis em regiões do país afetadas pela violência e pelo deslocamento, de acordo com depoimentos reunidos pela ONU News em Francês.
Em Bukavu, no leste do congolês, um ouvinte disse que a Rádio Okapi “desempenha um papel fundamental na promoção da paz ao transmitir informações confiáveis e imparciais”, notando que “quando as pessoas querem ter a certeza de que uma informação é verdadeira, recorrem frequentemente à Radio Okapi”.
Unicef DRC Dicko A Rádio Okapi e a Rádio Nacional Congolesa comprometeram-se a transmitir sequências didáticas sobre as principais disciplinas do ensino fundamental e médio na República Democrática do Congo durante a pandemia de Covid-19
Para muitas comunidades, a estação é também um canal vital para a participação cívica e a responsabilização. A rádio “garante que as vítimas da guerra possam expressar o seu sofrimento para que este chegue às autoridades”, afirmou outro residente de Bukavu.
Informação que salva vidas
A influência da rádio vai além da informação, combatendo ativamente o discurso de ódio e reforçando a coesão social. Em Lubumbashi, um ouvinte declarou que a Rádio Okapi contribui para “interromper ou reduzir mensagens que incitam ao ódio”.
Para refugiados como Bahati Yohane, que vive com a família no campo de Kyangwali, no Uganda, a Okapi foi literalmente a salvação durante a escalada de violência na RD Congo. Em entrevista à ONU News Kiswahili ele afirmou: “Para ser sincero, se não houvesse rádio para nos informar sobre a situação de segurança, não estaríamos vivos neste mundo hoje”.
Na República Centro-Africana, este veículo quebra o isolamento em áreas remotas e inseguras. A missão da ONU no país, Minusca, apoia tanto a sua própria estação, a Guira FM, como emissores locais.
Rádio GUIRA-FM – aniversário de 4 anos
Durante uma campanha recente, a Minusca distribuiu mais de 500 aparelhos de rádio para a população local, melhorando o fluxo de informação nas comunidades e ajudando a interromper rumores que podem perturbar viagens, comércio e as relações entre vizinhos.
Estes esforços reativam uma tradição que começou há décadas, quando a ONU News Kiswahili estabeleceu uma parceria com a Rádio Tanzânia, agora Tanzania Broadcasting Corporation. O objetivo era transmitir o programa semanal “Mwangaza wa Umoja wa Mataifa”, que foi para o ar durante um período de 10 anos desde 1970.
A ex-editora chefe, Edda Sanga, recorda que “o programa ajudou a construir esperança e aspirações para muitas pessoas”, oferecendo histórias de progresso e soluções práticas. Segundo Edda, o programa era “ansiosamente aguardado” por ouvintes que procuravam atualizações sobre paz, direitos humanos, questões ambientais e conflitos que eclodiam em países vizinhos.
A Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura (UNESCO) também é uma parceira fundamental de estações de rádio em contextos instáveis. No Afeganistão, por exemplo, a agência apoia 10 estações que transmitem orientações sobre serviços básicos, chegando a 20 milhões de ouvintes. Cerca de 40% são mulheres e meninas.
Radioamadores como heróis nacionais
Fora das zonas de conflito, a força silenciosa do rádio torna-se ainda mais clara durante emergências climáticas. Quando tempestades ou inundações derrubam linhas telefónicas e a conexão com a internet, os sinais de rádio permanecem frequentemente como o último elo estável com o mundo exterior.
Eloísa Farrera/CINU Mexico Jesús Miguel Sarmiento, XE1EW, preside a Federação Mexicana de Experimentadores de Rádio
No México, os operadores amadores de rádio foram reconhecidos como heróis nacionais após o terremoto que abalou o país 1985, quando os sistemas de comunicação tradicionais falharam totalmente. Hoje, a Federação Mexicana de Radioamadores coordena a Rede Nacional de Emergência, devido à sua capacidade de transmitir informações vitais durante furacões, inundações e terremotos. Durante o Furacão Otis em 2023, os operadores improvisaram rapidamente sistemas de comunicação sob condições extremas.
Como o presidente da Federação, Jesús Miguel Sarmiento Montesinos, disse à ONU News Espanhol, “Eles transformaram fios de cobre em antenas, usaram os seus equipamentos e baterias, e imediatamente começaram a transmitir, relatando a situação nas áreas afetadas, a extensão das inundações e se as áreas estavam acessíveis ou inacessíveis”.
Uma plataforma inclusiva
O rádio também serve como uma força poderosa para a acessibilidade e inclusão. Na Índia, a Radio Udaan foi lançada em 2014 como a primeira estação online do país operada inteiramente por apresentadores e funcionários com deficiência visual.
Hoje, chega a 125 mil ouvintes em 120 países, abordando direitos das pessoas com deficiência, educação, tecnologia e inclusão social, e desafiando estereótipos através de desfiles de moda, competições de canto, encontros, caça de talentos e outros programas impulsionados pela comunidade.
A ONU News Hindi falou com o fundador, Danish Mahajan, que explicou que a sua experiência pessoal como pessoa com deficiência visual ajuda a moldar uma programação adaptada às necessidades do público.
Radio Udaan Uma estação de rádio online que dá voz aos deficientes visuais da Índia
Mahajan destacou a importância do conteúdo da ONU News, observando: “Sempre que há um programa, discussão ou comemoração especial da ONU relacionada com a deficiência, os temas, diálogos e conversas inspiradoras produzidas pelas Nações Unidas beneficiam enormemente a comunidade”.
O fundador também vê novas oportunidades através da inteligência artificial, IA descrevendo-a como uma “tecnologia transformadora” capaz de expandir a acessibilidade através de ferramentas como óculos inteligentes que ajudam indivíduos com deficiência visual a compreender o mundo ao redor.
Empatia que os algoritmos não conseguem replicar
A inteligência artificial também está a transformar o panorama global do áudio. Na China, estas mudanças acontecem a velocidade notável, com a audiência de podcasts a exceder os 150 milhões e com previsão de crescer ainda mais.
A ONU News Chinês falou com o professor Sun Shaojing, da Universidade Fudan, que explicou que o conteúdo de áudio está ficando profundamente enraizado na vida quotidiana da China, presente em veículos elétricos que circulam por cidades lotadas e em dispositivos inteligentes que acompanham momentos de solidão.
O Pacto Digital Global da ONU visa reunir governos e a indústria para garantir que a tecnologia, como a IA, funcione para toda a humanidade
Shaojing ressaltou que apresentadores de notícias gerados por IA e vozes sintéticas estão se a tornar cada vez mais comuns, oferecendo precisão, eficiência e um alcance multilíngue numa escala outrora inimaginável. No entanto, dentro desta precisão tecnológica, o professor Sun identifica um paradoxo: as próprias imperfeições da fala humana – as pausas, hesitações e texturas emocionais – são o que dá alma à voz.
“Ao reportar sobre cenas de desastres, indivíduos afetados, o seu sofrimento e as suas necessidades, a IA perderia muitas das dimensões emocionais e empáticas que requerem compaixão e ligação humana. Não alcançaria a mesma profundidade de impacto emocional ou ressonância”, afirma.
Aumenta a procura por comunicações de rádio no espaço sideral
Mesmo para além da Terra, o rádio continua a ter um papel chave. Desde o momento em que o primeiro satélite rompeu a atmosfera em 1957, as ondas de rádio firmaram-se como a ponte invisível por trás das comunicações espaciais, da monitorização da Terra e dos sistemas de localização e de navegação.
À medida que a exploração espacial acelera, estas frequências tornam-se ainda mais críticas. O chefe de Serviços Espaciais da União Internacional de Telecomunicações, UIT, Alexandre Vallet, disse à ONU News Português que satélites equipados com sensores altamente sensíveis dependem de frequências protegidas da UIT para rastrear com precisão os impactos acelerados das alterações climáticas.
Vallet explicou que os planos cada vez mais ambiciosos de exploração da Lua, anunciados pelas principais potências espaciais, incluindo propostas dos Estados Unidos e da China de construir bases permanentes, deverão impulsionar um aumento acentuado nas necessidades de radiocomunicação.
O responsável alertou que este aumento poderá ameaçar a Zona Protegida da Lua, uma área resguardada por um tratado da UIT da década de 1970 e que não sofre nenhuma interferência de rádio ou satélite. Desse modo, a área preserva um silêncio considerado essencial para estudar a origem do universo.
“Para a próxima conferência sobre os regulamentos de rádio, no final de 2027, discutiremos o estabelecimento, pela primeira vez, de um quadro regulamentar para a gestão do espectro de rádio da Lua. Isto incluirá encontrar um bom equilíbrio entre a necessidade de ligações de comunicação e a necessidade de proteger o espectro para fins científicos”, afirmou o especialista.
A rápida transformação da economia espacial deve aprofundar ainda mais a dependência da humanidade das ondas de rádio. Vallet afirmou que indústrias emergentes como turismo espacial, manufatura orbital, mineração de asteroides e Data Centers de IA fora da Terra dependerão de canais de comunicação estáveis, baseados em sinal de rádio.
Um sinal que perdura
Através de zonas de conflito, resposta a desastres, esforços de acessibilidade, inovação digital e até nos confins do espaço, a rádio continua a demonstrar a sua força silenciosa, mas notável.
Num mundo sobrecarregado por imagens e novas tecnologias, estas ondas invisíveis perduram como um lembrete de que as formas mais simples de comunicação detêm frequentemente a maior capacidade de informar, de proteger e de unir.
MINUSMA/Gema Cortes | Polícia da ONU patrulha a região de Menaka, no nordeste do Mali
O SECRETÁRIO-GERAL
12 de fevereiro de 2026
Hoje, reafirmamos a nossa determinação comum em prevenir o extremismo violento e em proteger as comunidades da praga do terrorismo.
Os grupos terroristas exploram rotineiramente a instabilidade, as tecnologias descontroladas e a fragilidade socioeconómica para visar e intimidar grupos vulneráveis. Os jovens, incluindo crianças, estão cada vez mais suscetíveis à radicalização através das redes sociais online e de ambientes de jogos não regulamentados.
Tanto a Estratégia Global das Nações Unidas de Combate ao Terrorismo, que este ano celebra o seu vigésimo aniversário, como o Plano de Ação das Nações Unidas para Prevenir o Extremismo Violento, que comemora o seu décimo aniversário, lembram-nos de que medidas de segurança mais fortes por si só não são suficientes.
É necessário ir à raiz do problema, através de esforços renovados para abordar as queixas e as condições que favorecem o terrorismo, reforçando os sistemas educativos, expandindo o espaço cívico e promovendo o diálogo e a confiança entre e dentro das comunidades.
Isto também significa trabalhar com todos os intervenientes, incluindo o setor privado e as empresas tecnológicas, para criar mecanismos que possam prevenir o extremismo violento.
Todos estes esforços devem assentar nos direitos humanos e no Estado de Direito, para que cada pessoa tenha uma voz na construção do futuro da sua sociedade.
Juntos, construamos comunidades resilientes e inclusivas, onde o extremismo violento não encontre espaço, e onde a paz prevaleça para todos.
Annalena Baerbock pediu ao Parlamento Europeu que defenda a verdade e o multilateralismo; discurso em Estrasburgo realça papel central da Carta da ONU; alerta destaca uso da desinformação e de notícias falsas como instrumentos de poder e para os seus impactos na democracia.
A presidente da 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, pediu, esta terça-feira, ao Parlamento Europeu, para que a União Europeia assuma um papel central na defesa da Carta da ONU, do sistema internacional e da verdade.
Discursando em Estrasburgo, a líder do maior órgão deliberativo da organização descreveu um contexto de crescente instabilidade global e ataques ao multilateralismo.
Reforço do compromisso com a ONU
Baerbock alertou que a ordem internacional não está apenas sob pressão, mas “sob ataque”, referindo-se aos diversos conflitos que marcam a atualidade, incluindo a Venezuela, o Irão, a Gronelândia, a Ucrânia, Gaza e o Sudão.
A representante sublinhou que o contexto geopolítico atual contradiz mais de um século de progresso, defendendo que no momento em que a ONU é mais necessária, aqueles que têm uma “responsabilidade especial de proteger a paz e a segurança” estão a afastar-se ou mesmo a atacá-la abertamente.
Baerbock apelou a uma aliança entre regiões para proteger e reforçar a Carta da ONU, envolvendo África, Américas, Ásia, Pacífico e Europa. O discurso enfatizou o reforço do compromisso e uma responsabilidade especial por parte da União Europeia.
União para combater a desinformação
Baerbock alertou para o uso deliberado de notícias falsas e da manipulação informativa como instrumentos de poder político, mencionando a presença generalizada nas “redes sociais, televisão, parlamentos, discursos e na Assembleia Geral”.
A presidente da Assembleia Geral destacou ainda que defender a verdade e combater a desinformação e o discurso de ódio exigem uma resposta firme, imediata e coletiva, como demonstrado recentemente no caso da Gronelândia. O uso do poder do mercado integrado europeu para apoiar iniciativas das Nações Unidas em matéria de governação digital e de inteligência artificial foi uma das sugestões apresentadas.
Ataques aos direitos das mulheres
Falando enquanto mulher, Baerbock defendeu o reconhecimento dos deepfakes como imagens não consensuais, reforçando que 99% têm mulheres como alvo. Para a diplomata alemã, os fenómenos não são isolados, mas sim “ataques sistemáticos contra as mulheres”, que devem ser levados tão a sério como qualquer outra ameaça.
Para a presidente, a defesa da verdade não pode ser passiva, acrescentando que “o silêncio é uma escolha e a inação também”, e que a ação conjunta entre os Estados é essencial perante situações de chantagem, coerção ou intimidação.
ONU/Amanda Voisard Altos funcionários da ONU seguram cópias da Carta da ONU na sede da ONU em Nova Iorque
Resposta europeia à guerra na Ucrânia
Baerbock recordou a resposta da União Europeia à invasão da Ucrânia, há quatro anos, quando em poucos dias, os Estados-membros aprovaram em conjunto um dos maiores pacotes de sanções da história, demonstrando unidade, determinação e um propósito comum.
A presidente da Assembleia Geral da ONU reconheceu, contudo, que essa resposta não teria sido possível sem apoio internacional, lembrando que as solicitações feitas na Assembleia Geral das Nações Unidas e sublinhando que a guerra na Ucrânia não dizia apenas respeito à Europa, mas sim à ordem internacional e à Carta da ONU.
Apelo global à Europa
A presidente afirmou ainda que uma situação semelhante se verifica atualmente, com desafios que não se limitam à Gronelândia, mas se estendem à América Latina, à África e a outras regiões.
Nesse contexto, pediu a uma resposta clara da União Europeia, defendendo um compromisso inequívoco com a ONU e com a paz internacional. Destacou ainda o apelo conjunto feito com o secretário-geral, António Guterres, para a criação de uma aliança transversal entre regiões.
Baerbock saudou também a posição da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que afirmou estar pronta para reforçar esse compromisso, nomeadamente através de acordos comerciais estratégicos, como os estabelecidos com o Mercosul e a Índia.
Comércio, desenvolvimento e segurança global
A presidente da Assembleia Geral frisou o potencial transformador de acordos comerciais alargados e enfatizou que parcerias com regiões como a Austrália, Nova Zelândia, Canadá, África e Médio Oriente podem criar uma base económica sólida para a paz.
Para a responsável, cabe à União Europeia assumir um papel de liderança neste esforço, impulsionando alianças económicas que reforcem simultaneamente a segurança, o desenvolvimento sustentável e a cooperação internacional.
ONU/Mark Garten Sede das Nações Unidas em Nova Iorque
Reforma das Nações Unidas e responsabilidade financeira
Baerbock reconheceu a existência de burocracia excessiva ao longo dos mais de 80 anos da organização, mas rejeitou qualquer ideia de desmantelamento e alertou ainda para o risco de instrumentalização das fragilidades da ONU por parte de atores que pretendem enfraquecer o multilateralismo ou concentrar a responsabilidade pela paz mundial em grupos restritos.
A representante encorajou a UE a reforçar o seu envolvimento no processo de reforma, ONU80, e apelou à participação ativa nos debates sobre a reforma da arquitetura financeira internacional.
para além disso, defendeu ainda o pagamento em dia e integral das contribuições à ONU e a revisão das regras financeiras em vigor, de forma a evitar um colapso financeiro nos próximos meses.
Inclusão na liderança da ONU
No encerramento da sua intervenção, Baerbock destacou a importância de uma liderança corajosa e inclusiva, defendendo o apoio às candidaturas femininas ao cargo de Secretário-Geral da ONU. Citando o antigo secretário-geral, Kofi Annan, concluiu que não é possível haver desenvolvimento sem paz, nem paz sem respeito pelos direitos humanos.
O discurso apelou ainda a que os Estados não confundam verdade com fraqueza, nem reforma com fracasso.
No Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, reafirmamos uma verdade fundamental: a igualdade nas ciências é essencial para o progresso da humanidade.
Apesar dos avanços no acesso à educação, as mulheres a estas áreas continuam a ser prejudicadas por falta de financiamento para investigação, estereótipos de género e práticas discriminatórias nos locais de trabalho. A nível global, apenas uma em cada três pessoas investigadoras é do sexo feminino.
Esta lacuna é particularmente evidente no domínio da tecnologia, com as mulheres a representarem apenas 26% da força de trabalho em dados e inteligência artificial, e apenas 12% em computação em nuvem. A ausência de vozes femininas, especialmente em cargos de liderança, incorpora preconceitos nas ferramentas digitais e provoca impactos negativos no mundo real.
A exclusão das mulheres da ciência enfraquece a nossa capacidade coletiva de enfrentar desafios globais urgentes, desde as alterações climáticas à saúde pública e à segurança espacial. Para resolver estes problemas, devemos garantir que cada menina possa imaginar um futuro nas STEM e que cada mulher possa prosperar na sua carreira científica.
É por isso que as Nações Unidas apoiam mulheres e meninas nas STEM, incluindo através de bolsas de estudo, estágios e programas de mentoria em diversas disciplinas.
Desde o avanço das energias renováveis até à prevenção da próxima pandemia, o nosso futuro depende de desbloquear todo o talento humano possível. Hoje e todos os dias, asseguremo-nos de que as mulheres e meninas possam concretizar as suas ambições científicas, pelos seus direitos e pelo bem de todos.
O secretário-geral visitou os campos de refugiados rohingya na zona costeira de Cox's Bazar, no sul do Bangladesh. O Bangladesh acolhe mais de um milhão de refugiados rohingya que fugiram da violência no país vizinho, Mianmar, e Cox's Bazar alberga o maior campo de refugiados do mundo. Foto: UN Photo/Shari Nijman.
Cinco anos após os militares terem tomado o poder em Myanmar, as Nações Unidas alertam que a crise no país se agravou. No marco do aniversário, a 30 de janeiro de 2026, o secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou profunda preocupação com uma “situação a deteriorar-se rapidamente”, marcada por ataques aéreos crescentes, grave insegurança alimentar e deslocamento de mais de 5,2 milhões de pessoas.
Uma “fachada” de democracia
O aniversário coincide com a conclusão de umas eleições em três fases impostas pelos militares, um processo que a ONU rejeitou em grande parte. O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, descreveu o sufrágio como uma “fachada” que serviu apenas para agravar a polarização social.
As eleições decorreram apenas em 263 das 330 comunas, excluindo regiões afetadas por conflitos e toda a população rohingya. “A usurpação do poder pelos militares tem sido acompanhada por uma gestão desastrosa”, observou Türk, apontando para uma economia que perdeu quase 100 mil milhões de dólares desde o golpe de 2021.
O advogado da Gâmbia interroga o perito testemunhal convocado pela Gâmbia, o professor Michael Newton. Foto: UN Photo/ICJ-CIJ/Frank van Beek. Cortesia do ICJ. Todos os direitos reservados.
Responsabilização no “tribunal mundial”
Embora a situação política permaneça sombria, um raro momento de responsabilização ocorreu no Tribunal Internacional de Justiça (CIJ), em Haia. O relator especial da ONU, Tom Andrews, elogiou a coragem dos sobreviventes rohingya que viajaram desde o maior campo de refugiados do mundo para testemunhar no caso de genocídio apresentado pela Gâmbia. Salientou que as suas vozes permitem que “a luz da verdade brilhe através da escuridão dos crimes mais horríveis”.
Sobreviventes falam: Salma e Yusuf Ali
Para os sobreviventes presentes nas audiências, os processos legais são um apelo a um futuro que lhes foi negado durante décadas. A delegação das vítimas, juntamente com os três testemunhos que depuseram perante o Tribunal, viajou de Cox’s Bazar para Haia com apoio financeiro da União Europeia e do Canadá, e com a assistência da Legal Action Worldwide (LAW).
Salma: à procura de dignidade
Salma, sobrevivente de violação e tortura pelo exército de Myanmar num posto de controlo durante a sua fuga para o Bangladesh em 2016, vê o caso no CIJ como um caminho para um regresso digno. Para ela, a justiça não é apenas um veredicto; é a restauração dos direitos humanos básicos. “Queremos todos os nossos direitos. Queremos respeito, dignidade e cidadania”, afirmou. “Também queremos reparações pelas nossas perdas.”
Enfatizou que a luta pela justiça é uma herança coletiva: “Continuaremos a lutar pelos nossos direitos enquanto estivermos vivos; depois disso, é responsabilidade da próxima geração dar continuidade a este trabalho.”
1 de julho de 1997 Refugiados no ponto de partida de Teknaf, no distrito de Cox’s Bazar. Foto: UN Photo/UNHCR/A. Hollmann
Yousuf Ali: a quebrar o ciclo
Yousuf Ali, que sobreviveu a prisão e tortura sexualizada pela Polícia de Guardas de Fronteira (BGP) poucas semanas antes das “operações de limpeza” de 2017, vê o caso como uma ferramenta vital para desmontar um “ciclo de perpetradores”.
Ele liga a violência diretamente à negação sistemática da educação, que considera uma tática deliberada para manter os rohingya ignorantes dos seus direitos e da gravidade dos crimes cometidos contra eles. Destacou a importância da educação, especialmente para as gerações futuras, pois permite quebrar o ciclo de violência.
Historicamente, os rohingya enfrentaram leis proibitivas em matéria de educação. Desde 1982, Myanmar nega aos rohingya o acesso a instituições de ensino ao abrigo da Lei da Cidadania birmanesa, que restringe a cidadania com base na etnia e, segundo especialistas em direitos humanos da ONU e a ONU Mulheres, serve como principal instrumento de discriminação contra minorias, nomeadamente os rohingya. Sem estatuto legal, as crianças rohingya foram sistematicamente impedidas de frequentar escolas públicas, levando a um vasto empobrecimento educativo.
“Passámos 50 anos sem liberdade nem educação”, explicou Yousuf. “Os nossos avós sofreram e agora somos nós, a terceira geração, a sofrer. Se não pararmos isto, os nossos filhos também sofrerão.” Para Yousuf, o “caos” do deslocamento em Cox’s Bazar, onde 300.000 criançasperderam recentemente o acesso à escola devido a cortes de financiamento, é a continuação dessa luta geracional.
Uma missão de averiguação de factos mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU declarou, em 2018, ter fundamentos razoáveis para concluir que crimes graves ao abrigo do direito internacional, incluindo genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, foram cometidos. Posteriormente, foi criado um Mecanismo Independente de Investigação para Myanmar (IIMM) para recolher e preservar provas de crimes internacionais graves cometidos em Myanmar desde 2011, em apoio a esforços de justiça e responsabilização.
A Gâmbia apresentou a sua queixa em novembro de 2019, acusando Myanmar de violar a Convenção sobre o Genocídio através de atos alegadamente cometidos durante as chamadas “operações de limpeza” realizadas pelo exército de Myanmar, o Tatmadaw.
Essas operações intensificaram-se drasticamente em 2017, levando mais de 700.000 rohingya a fugir para o vizinho Bangladesh, em meio a assassinatos generalizados, violência sexual, queima de aldeias e outros abusos. Zeid Ra’ad al-Hussein, então alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, descreveu a situação como um “exemplo clássico de limpeza étnica“.
Um apelo à ação global
O secretário-geral da ONU reiterou que qualquer caminho viável de regresso ao governo civil e a uma sociedade inclusiva, pacífica e justa exige a proteção de todas as comunidades, incluindo os rohingya, a cessação imediata da violência e a libertação de todos os líderes detidos arbitrariamente, incluindo o presidente Win Myint e a conselheira de Estado Aung San Suu Kyi.
À medida que o CIJ inicia as suas deliberações, a mensagem dos sobreviventes à comunidade internacional é clara. “Seja qual for a decisão dos juízes, a vida de milhões depende disso”, afirmou Yousuf. Salma acrescentou um último apelo: “Continuem a contar as nossas histórias… continuem a falar sobre os nossos direitos até que possamos finalmente voltar a casa.”
Todos os anos, milhões de raparigas e mulheres em todo o mundo são vítimas da Mutilação Genital Feminina (MGF), uma prática que envolve a remoção parcial ou total dos órgãos genitais femininos por motivos não médicos. O procedimento pode causar dor extrema, infeções graves, complicações durante o parto e, em casos extremos, levar à morte.
A MGF é praticada predominantemente em cerca de 30 países de África e do Médio Oriente, mas também ocorre em algumas regiões da Ásia e entre comunidades migrantes que vivem na Europa Ocidental, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.
Motivações e consequências
A mutilação genital feminina não traz qualquer benefício para a saúde e é frequentemente justificada por normas sociais, crenças religiosas, desinformação relacionada com a higiene e pela tentativa de controlar a sexualidade feminina, associando-a à preservação da virgindade, à elegibilidade para o casamento e, muitas vezes, à prioridade do prazer masculino.
Em algumas culturas, a prática é considerada um rito de passagem para a vida adulta e um pré-requisito para o casamento. Ainda assim, na maioria dos casos, o procedimento é realizado contra a vontade da mulher.
De acordo com dados da UNFPA, mais de 230 milhões de raparigas e mulheres em todo o mundo já foram submetidas à MGF. Além disso, cerca de 4 milhões de meninas correm risco a cada ano, sendo aproximadamente metade delas menores de cinco anos. Caso as ações não sejam aceleradas, estima-se que mais 22,7 milhões de meninas poderão ser afetadas até 2030.
Combate e iniciativas de mudança
Perante este cenário, combater a mutilação genital feminina é uma urgência global que exige ação coletiva, envolvendo governos, organizações internacionais e comunidades locais. O Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, celebrado a 6 de fevereiro, representa uma oportunidade fundamental para denunciar esta violência e reforçar a mobilização em torno da sua erradicação.
O tema de 2026 — “Towards 2030: No End to Female Genital Mutilation Without Sustained Commitment and Investment” (“Rumo a 2030: Não haverá fim da MGF sem compromisso sustentado e investimento”) — sublinha a importância de manter e intensificar os esforços políticos, financeiros e comunitários para eliminar esta prática até 2030, em conformidade com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O progresso contra a MGF também é impulsionado por sobreviventes e comunidades, para além de leis e políticas. Em Mara, na Tanzânia, Olivia Albert, submetida à MGF aos 13 anos, lidera agora um grupo juvenil que educa meninas, trabalha com líderes tradicionais e cria espaços seguros para quem corre risco. Na Guiné, o Imam Ousmane Yabara Camara utiliza os seus sermões para esclarecer que a MGF não é um preceito do Islão, promovendo a consciencialização e proteção das meninas. Estes exemplos mostram que mudanças reais são possíveis quando comunidades, sobreviventes e líderes se mobilizam de forma coordenada. (Fonte: UNFPA)
| Portugal investe em políticas direcionadas aos jovens
Portugal reafirmou o seu empenho no desenvolvimento social, na justiça social e na redução das desigualdades durante a sessão da Comissão para o Desenvolvimento Social das Nações Unidas que acontece até sábado.
Em entrevista à ONU News esta terça-feira, a secretária de Estado da Ação Social e Inclusão, Clara Marques Mendes, sublinhou o compromisso do país com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS, e com políticas centradas no bem-estar das populações mais vulneráveis.
Avaliação dos progressos e alinhamento com os ODS
Segundo a representante, a participação portuguesa nestas reuniões internacionais constitui um momento de reflexão e de avaliação dos progressos alcançados no cumprimento das metas globais, com os quais Portugal está totalmente empenhado e alinhado.
“A principal mensagem é, desde logo, dizer que Portugal está totalmente empenhado e alinhado com estas, com os objetivos que são os objetivos de desenvolvimento social, da justiça social, da redução das desigualdades sociais, combate à pobreza, garantir a saúde e o bem estar. Portanto, tem sido essa a grande preocupação das medidas que vamos adotando ao longo da nossa formação, no sentido de contribuirmos precisamente para este desenvolvimento social e para esta justiça social.”
Resposta a fenómenos climáticos extremos e cooperação internacional
A secretária de Estado destacou ainda o papel de Portugal na resposta a situações de clima extremo, tanto a nível interno como externo.
Clara Marques Mendes referiu que o país implementa medidas de apoio social, proteção civil e acolhimento às populações afetadas, através de uma forte articulação entre diferentes áreas governativas.
“Desde logo, há uma grande articulação entre as várias áreas governativas no país para todas elas em colaboração, poderem dar os apoios que são necessários perante estas situações e situações como esta que acabou de acontecer em Portugal.”
Várias regiões do país estão em alerta a partir desta semana. A área da Ação Social e Inclusão coordena a atuação e coloca os recursos ao dispor para apoiar pessoas em situação de fragilidade.
“Designadamente ao nível da protecção civil, dos apoios sociais, no apoio, no acolhimento e esta colaboração entre todos, em que cada área governativa se compromete a dar o seu contributo nós conseguimos fazer face, quer com apoios ao nível dos rendimentos, porque sabemos também que isto implica e impacta em determinadas dificuldades, nomeadamente as empresas, as famílias. Portanto, Portugal tomou de imediato medidas, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista social.”
Essa coordenação, explicou, permite respostas rápidas no terreno, ajustadas às necessidades das pessoas, e é replicada em contextos de cooperação internacional, como o apoio prestado a países como Moçambique.
Empregabilidade jovem e inclusão no mercado de trabalho
No domínio da empregabilidade, Clara Marques Mendes apontou políticas direcionadas aos jovens, com enfoque na criação de oportunidades de trabalho, no incentivo à permanência em Portugal e no regresso de emigrantes.
“É precisamente esse o primeiro aspecto a ter em conta e perceber exactamente quais são as reais necessidades do mercado. Falamos, por exemplo, da empregabilidade e empregabilidade dos jovens. Apoiar os jovens, incentivar os jovens a permanecerem no país, incentivar os jovens que saíram e que queiram voltar. E, portanto, na parte do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social tem havido um grande empenho, um conjunto de medidas precisamente para apoiar.”
A conversa destacou programas de estágios, incentivos à contratação por parte das empresas e medidas estruturais para assegurar a continuidade da integração no mercado de trabalho.
A secretária de Estado sublinhou igualmente a prioridade dada à empregabilidade das pessoas com deficiência, através de uma articulação entre serviços públicos, nomeadamente com o Instituto do Emprego e Formação Profissional.
| Festa popular em Lisboa, Portugal
Políticas de rendimentos, habitação e apoio a jovens regressados
Relativamente aos jovens que regressam a Portugal, foi enfatizada a importância da estabilidade, em particular no acesso a rendimentos e habitação.
A secretária de Estado referiu a existência de programas de apoio ao arrendamento jovem e à aquisição de habitação, integrados numa estratégia governativa mais ampla.
A atuação envolve várias áreas, como os apoios sociais, a política de rendimentos e o combate à pobreza.
Sistemas resilientes e apoio a populações vulneráveis
Na entrevista, Clara Marques Mendes destacou a importância de reforçar sistemas resilientes de apoio a pessoas em situação de maior vulnerabilidade, incluindo pessoas com deficiência e pessoas idosas.
A representante portuguesa sublinhou o princípio de “não deixar ninguém para trás” e a relevância da troca de experiências entre países no âmbito das Nações Unidas.
Como exemplo, referiu o lançamento de um projeto-piloto focado em serviços integrados de apoio social e de saúde para pessoas idosas, com o objetivo de permitir o envelhecimento com dignidade, autonomia e qualidade de vida nas suas próprias habitações, combatendo simultaneamente o isolamento social.
No Dia Internacional da Fraternidade Humana, celebramos a igualdade, a dignidade e a compreensão mútua.
Ao honrar estes valores intemporais, podemos ajudar a curar o nosso mundo fragmentado.
Muitas vezes, as diferenças culturais e religiosas são exploradas para alimentar os fogos da guerra ou para responsabilizar outros por desafios políticos e económicos. Ao mesmo tempo, a tecnologia é cada vez mais usada para incitar o ódio e espalhar o medo.
Devemos esforçar-nos mais para encontrar um terreno comum. Esta é a mensagem central de Fraternidade Humana para a Paz Mundial e Convivência, uma declaração co-escrita por Sua Santidade o Papa Francisco e Sua Eminência o Grande Imã de Al-Azhar, Sheikh Ahmed El-Tayeb.
Que possamos inspirar-nos neste espírito.
Que possamos rejeitar o medo e a divisão em favor da tolerância, da curiosidade e do respeito pela diversidade.
Juntos, podemos construir um mundo baseado em direitos iguais para todos e na compaixão e viver em paz como uma só família humana.
Cortesia da ASN | Os marcadores de bóias vermelhas marcam o caminho de um cabo submarino sendo colocado no oceano durante a Cúpula Internacional de Resiliência de Cabos Submarinos de 2026.
Todos os dias, milhões de pessoas enviam e-mails, participam em chamadas de vídeo, utilizam serviços de streaming e realizam transações bancárias. A troca de dados tornou-se parte do quotidiano, no entanto, raramente se pensa na complexa rede global de cabos submarinos que liga silenciosamente o mundo.
Segundo o secretário-geral adjunto da União Internacional das Telecomunicações (UIT), Tomas Lamanauskas, os cabos submarinos tornaram-se uma base sólida para a conectividade digital, com cerca de 99% do tráfego internacional da internet a passar por eles.
Verdadeiras autoestradas digitais
Os pontos de acesso visíveis, como redes móveis, satélites e internet fixa são conhecidas, mas a infraestrutura subjacente que os suporta é a vasta rede de cabos submarinos, “as autoestradas digitais”. Estas são constituídas por fios de fibra ótica colocados a centenas de metros abaixo da superfície do oceano por navios de lançamento de cabos.
Lamanauskas sublinhou que, à medida que a dependência da conectividade digital continua a crescer, reforçar a resiliência destes cabos e desenvolver estratégias coletivas tornou-se cada vez mais importante.
Uma rede massiva para transmissão rápida de dados
A conexão global através de cabos de comunicação não é uma ideia nova. Em 1850, Inglaterra e França foram ligadas pela primeira vez por um cabo telegráfico submarino. Desde então, a tecnologia evoluiu de forma constante, dos serviços de telégrafo às redes telefónicas e, agora, à internet de alta velocidade transportada por cabos de fibra ótica.
Em todo o mundo, existem mais de 500 cabos submarinos comerciais, ligando continentes, mercados e lares, que se estendem por cerca de 1,7 milhões de km.
Antes da instalação, o fundo do mar é cuidadosamente estudado para reduzir riscos e impactos ambientais. De seguida, navios especializados desenrolam os cabos ao longo do leito oceânico.
Interrupções causadas por acidentes e desastres
Com os cabos submarinos a sustentarem a economia digital global, qualquer interrupção pode ter efeitos imediatos, afetando atividades económicas, serviços de emergência e tecnológicos, sistemas de segurança e o acesso à internet para milhões de pessoas em todo o mundo.
Normalmente, ocorrem entre 150 e 200 incidentes com cabos por ano, uma média de três a quatro por semana. O representante da UIT recordou que “nos últimos anos, houve vários incidentes de grande visibilidade, do Mar Vermelho à África Ocidental e Oriental”
As falhas na conectividade dos cabos podem resultar de terremotos, deslizamentos submarinos e erupções vulcânicas. No entanto, as estatísticas mostram que cerca de 80% dos incidentes são causados por atividade humana, desde âncoras de navios a redes de pesca que danificam os cabos.
Lamanauskas citou o exemplo de Tonga, que sofreu três grandes interrupções desde 2019, causadas por um terramoto, erupções vulcânicas e ancoragem inadequada.
Ele afirmou que “cada momento conta”, dando como exemplo hipotético um impacto para os operadores da bolsa em Nova Iorque se ocorrer um atraso de apenas um milissegundo devido à congestão dos cabos ou a um incidente no fundo do mar.
Prontidão para reparar as autoestradas invisíveis
O especialista acrescentou que para além da abrasão e do desgaste natural, “uma parte da infraestrutura de cabos instalada por volta do ano 2000 está agora a atingir a maturidade, uma vez que foram concebidos para uma vida útil média de 25 anos”.
O secretário-geral adjunto explicou que, em caso de incidente, os engenheiros conseguem identificar rapidamente a área afetada e que “o trabalho de reparação em si nem sempre é a parte mais complicada”. Segundo ele, o que é muitas vezes mais complexo é garantir todas as licenças e autorizações necessárias, especialmente quando estão envolvidas jurisdições múltiplas ou sobrepostas.
Dependendo da localização e da dimensão dos danos, a mobilização de navios e os trabalhos de reparação podem demorar dias, semanas ou meses. Em muitos países, a falta de um ponto focal claro para gerir estes requisitos operacionais acrescenta dificuldades adicionais.
Um investimento dispendioso
Lamanauskas observou que a instalação de novos cabos é frequentemente um projeto que exige um período significativo de tempo. Ele disse que “há um planeamento extenso envolvido e, normalmente, também é dispendioso. Enquanto os cabos mais curtos custam milhões, os mais longos podem atingir centenas de milhões.”
O processo também depende de serviços especializados, como navios de lançamento de cabos. Da mesma forma, há poucos fornecedores dos próprios sistemas de cabos, pelo que, naturalmente, apenas um pequeno número de empresas pode oferecer estes serviços.
Papel da UIT
Enquanto agência da ONU para as tecnologias digitais, a UIT trabalha para reforçar a resiliência dos cabos submarinos globais através da colaboração, da definição de normas e da orientação técnica. As prioridades incluem o desenvolvimento de medidas de resiliência, a simplificação dos processos de manutenção e reparação e a adoção de práticas mais sustentáveis.
O alto responsável da UIT recordou que comparar a experiência de internet de há 10 a 20 anos com a de hoje revela uma transformação completa, impulsionada em grande parte pelo crescimento tecnológico.
Através do seu Órgão Consultivo Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos, a UIT reúne governos, atores da indústria e especialistas para desenvolver boas práticas, com foco na manutenção dos cabos, prevenção de danos, recuperação rápida e sustentabilidade, em parceria com o Comité Internacional de Proteção dos Cabos, Icpc.
Cimeira sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos 2026
Em 2025, na primeira Cimeira sobre Resiliência, em Abuja, Nigéria, os líderes reconheceram a importância de reforçar a cooperação para apoiar esta “infraestrutura digital global crítica”.
A Segunda Cimeira Internacional sobre a Resiliência dos Cabos Submarinos terá lugar nos dias 2 e 3 de fevereiro de 2026, no Porto, Portugal, e irá basear-se nas recomendações preparadas pelos Grupos de Trabalho do Órgão Consultivo.
Essas recomendações estão centradas na instalação e reparação de cabos, na identificação e mitigação de riscos, bem como na promoção da conectividade e da diversidade geográfica para reforçar a resiliência da rede.
Lamanauskas esclareceu que a UIT não é um organismo operacional e não repara cabos. Em vez disso, cria o ambiente facilitador adequado, encurtando os prazos de licenciamento, estabelecendo pontos de contacto claros, sensibilizando para prevenir danos acidentais e facilitando reparações mais rápidas.
À medida que a procura por conectividade e dados aumenta a uma velocidade sem precedentes, estes esforços desempenharão um papel fundamental no reforço das bases para um progresso partilhado e na definição do futuro do panorama digital global.
A UNICEF Portugal lançou um apelo urgente à solidariedade para apoiar crianças e famílias afetadas pelas cheias em Moçambique, uma emergência humanitária que se agrava diariamente na sequência de chuvas excecionalmente intensas entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
Coincidindo com o início da época chuvosa e ciclónica, as cheias já afetaram mais de 690 mil pessoas, das quais mais de metade são crianças. Este número aumenta todos os dias nas zonas afetadas, sendo a Província de Gaza a mais atingida, para além de parte da Província de Maputo e algumas zonas centrais do país.
Segundo dados do início desta semana do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres de Moçambique (INGD), centenas de milhares de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, mais de 104 mil estão abrigadas em 109 centros de acolhimento, muitos deles sobrelotados, e cerca de 310 mil encontram-se em comunidades de acolhimento.
Até à data, registaram-se:
154.797 casas inundadas, 771 destruídas e 3.447 parcialmente destruídas;
229 unidades de saúde danificadas ou destruídas;
366 escolas e 707 salas de aula afetadas, prejudicando 226 mil alunos e 6 mil professores;
1.336 km de estradas danificadas, além de pontes, aquedutos e sistemas de abastecimento de água.
A contaminação das fontes de água aumenta o risco de doenças como a cólera, enquanto a interrupção dos serviços essenciais agrava a subnutrição, o abandono escolar e a falta de proteção das crianças.
Catarina da Ponte, responsável de Comunicação da UNICEF Portugal, alerta que “Moçambique tem uma população muito jovem, com mais de 17 milhões de crianças. Quando uma crise desta dimensão acontece, são elas que sofrem primeiro e de forma mais duradoura. A resposta que chega agora é crucial para garantir a proteção, a recuperação das crianças e a estabilidade do país.”
No terreno, e em coordenação com o Governo moçambicano e parceiros, a UNICEF está a responder com ajuda humanitária imediata para salvar vidas:
Na província de Sofala, estão em curso operações de fornecimento de água, saneamento e higiene (WASH) nos quatro distritos mais afetados, incluindo tratamento de água contaminada ao nível comunitário e doméstico, beneficiando mais de 13 mil agregados familiares;
Em Nampula, a UNICEF apoia a preparação e resposta à cólera, incluindo serviços WASH em centros de tratamento;
Na província de Gaza, a presença da organização foi reforçada com equipas de emergência. Com apoio da ECHO, o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, está prevista a distribuição de 88 toneladas de ajuda humanitária, incluindo artigos de saúde, nutrição, água, saneamento, educação e proteção infantil.
A UNICEF estima que, nas próximas semanas, o número de pessoas afetadas possa chegar a 800 mil, das quais cerca de 400 mil são crianças. Para responder à emergência, são necessários cerca de 5 milhões de dólares (aproximadamente 4,2 milhões de euros).
Catarina da Ponte reforça, por isso, o sentido de urgência: “Neste momento, mais de 306 mil crianças estão em risco imediato. Cada donativo é fundamental para a UNICEF conseguir manter e ampliar a resposta humanitária à escala necessária, assegurando o fornecimento de água potável, e cuidados de saúde, bem como serviços de nutrição, educação e proteção às crianças e famílias vítimas desta catástrofe”.
Hoje honramos a memória das vítimas do Holocausto com uma reflexão solene e determinação inabalável.
Lembramos os seis milhões de judeus assassinados pelos nazis e seus colaboradores – bem como os Roma e Sinti, as pessoas com deficiência e inúmeros outros que pereceram.
Cada vítima tinha um nome.
Cada vítima tinha esperanças e sonhos.
E cada uma dessas vítimas viu os seus direitos sistematicamente negados e destruídos.
Ao recordarmos estas verdades incontestáveis, recordamos a sua humanidade.
Lamentamos tudo o que foi perdido e tudo o que poderia ter sido.
O Holocausto não foi inevitável.
Os seus arquitetos deixaram claras as suas intenções. O seu ódio e violência desenrolaram-se à vista de todos.
Os factos são inegáveis. No entanto, hoje vemos forças de distorção e de negação a avançar.
O antissemitismo, a intolerância, o racismo e a discriminação estão a ser alimentados por uma retórica desumanizante e facilitados pela indiferença.
Devemos tomar posição – para honrar as vítimas do passado e prevenir novas atrocidades.
Devemos repudiar o ódio e a injustiça onde quer que surjam.
Devemos defender o direito de cada pessoa a viver livre do medo, com dignidade e em paz.
Este é o fundamento das Nações Unidas.
Neste dia – e todos os dias – honremos a memória das vítimas do Holocausto reafirmando a nossa humanidade comum, defendendo a dignidade humana e protegendo os valores que nos unem a todos.